Alcalcaxandi

Alcalcaxandi (em árabe: القلقشندي; romaniz.: al-Qalqashandī), nome pelo qual ficou conhecido Xiabadim Amade ibne Ali Alcalcaxandi (em árabe: شهاب الدين أحمد بن علي القلقشندي; romaniz.: Shihāb al-Dīn Aḥmad ibn ʿAlī al-Qalqashandī; Calcaxanda, 1355 – Cairo, 15 de julho de 1418 (608 anos)), foi um jurista, tradicionalista, escritor e funcionário da chancelaria do Sultanato Mameluco do Cairo. De ascendência fazaraíta, estudou em Alexandria, onde recebeu formação em jurisprudência xafeíta, hádice, literatura e outras disciplinas, e posteriormente exerceu atividades de ensino e judicatura. Em 1389, Alcalcaxandi estabeleceu-se no Cairo e ingressou no Divã da Chancelaria, onde exerceu a função de cátibe adaste.

A experiência adquirida na administração mameluca tornou-se uma das principais bases de sua produção intelectual, que abrangeu história, geografia, jurisprudência, literatura, genealogia árabe e as técnicas e instituições relacionadas à correspondência e à administração estatal. É conhecido sobretudo pelo Ṣubḥ al-aʿshā fī ṣināʿat al-inshāʾ, vasta enciclopédia sobre a arte da redação oficial, concluída em 1412. A obra reúne materiais históricos, geográficos, administrativos e diplomáticos, incluindo numerosos documentos, e constitui uma importante fonte para o estudo das instituições e da diplomacia do mundo islâmico medieval, particularmente do Sultanato Mameluco. Alcalcaxandi também escreveu obras sobre genealogia árabe e sobre a história e a organização do califado.

Vida

Alcalcaxandi nasceu em 756 A.H. (1355), em Calcaxanda, uma pequena localidade ao sul de Caliube, no delta do Nilo, ao norte do Cairo. Sua nisba, Alcalcaxandi, derivava de seu local de nascimento. Pertencia a uma família de estudiosos e era de ascendência fazaraíta, remontando sua genealogia, através de Caice Ailane, a Badre ibne Fazara, ancestral epônimo da tribo. Ainda jovem, dirigiu-se a Alexandria, onde estudou sobretudo jurisprudência, além de outras ciências religiosas, literatura e filosofia. Entre seus mestres esteve o tradicionalista e jurista xafeíta Ibne Almulaquine, de quem recebeu uma ijaza que o autorizava a emitir pareceres jurídicos segundo a escola xafeíta e a ensinar determinadas obras de jurisprudência e hádice.

Alcalcaxandi exerceu a função de cádi durante um período considerável e também se dedicou ao magistério. Paralelamente, realizou estudos sobre história, geografia, direito, literatura, arte da escrita, ciências naturais e genealogia das tribos árabes, adquirindo reputação por seus conhecimentos de literatura árabe e sua habilidade como escritor. Em 791 A.H. (1389), dirigiu-se ao Cairo e ingressou como secretário no Divã da Chancelaria (em árabe: ديوان الإنشاء; romaniz.: Dīwān al-Inshāʾ) do Sultanato Mameluco do Cairo. Exerceu a função de cátibe adaste (kātib al-dast), um dos secretários que acompanhavam o secretário-chefe quando este comparecia diante do sultão para a administração da justiça. Na época, a chancelaria era dirigida pelo cádi Badradim Alumari, sobrinho do historiador Alumari.

Alcalcaxandi permaneceu por muitos anos no Divã da Chancelaria, e a experiência adquirida nesse ambiente forneceu-lhe grande parte do conhecimento administrativo e diplomático posteriormente sistematizado em suas obras. Apesar disso, as fontes conservam poucas informações sobre os detalhes de sua carreira profissional, e não se sabe se ainda ocupava o cargo quando morreu. Faleceu em 10 de Jumada II de 821 A.H. (15 de julho de 1418), aos 65 anos. Além de sua atividade administrativa, alcançou reputação como jurista, tradicionalista, historiador e homem de letras. Pertencia a uma família que produziu vários estudiosos conhecidos pela nisba Alcalcaxandi, alguns dos quais exerceram atividades de ensino e judicatura no Egito e na Palestina.

Obras

A produção de Alcalcaxandi abrangia jurisprudência, literatura, genealogia, história e, sobretudo, as disciplinas relacionadas à atividade da chancelaria. Sua obra mais importante é o Ṣubḥ al-aʿshā fī ṣināʿat al-inshāʾ, extensa enciclopédia sobre a arte da redação oficial e a administração do Estado mameluco. Alcalcaxandi começou a escrevê-la em 791 A.H. (1389), ano em que ingressou no Divã da Chancelaria, e concluiu-a em 814 A.H. (1412). Concebida originalmente em sete volumes, a obra é composta por uma introdução, dez seções e uma conclusão. Reúne os conhecimentos teóricos e práticos considerados necessários aos secretários encarregados da correspondência oficial e constitui, ao mesmo tempo, uma ampla compilação de informações históricas, geográficas, administrativas, diplomáticas e culturais.

Na introdução, Alcalcaxandi trata da excelência da escrita e dos escribas, da história da arte da escrita, das qualidades exigidas de um secretário e dos conhecimentos necessários ao exercício da profissão. As dez seções seguintes abrangem, entre outros assuntos, os materiais e instrumentos da escrita, os diferentes tipos de documentos e correspondência, a geografia política dos territórios com os quais a chancelaria mantinha relações, os títulos e formas de tratamento empregados para governantes e dignitários, os juramentos, tratados, nomeações e outros documentos oficiais. A conclusão é dedicada a assuntos relacionados à correspondência e ao funcionamento da chancelaria. A amplitude de seu conteúdo fez do Ṣubḥ al-aʿshā uma das principais fontes para o estudo da organização política e administrativa do mundo islâmico medieval, particularmente do Sultanato Mameluco.

O Ṣubḥ al-aʿshā incorporou numerosos documentos e materiais administrativos e constitui uma fonte particularmente importante para o conhecimento das instituições mamelucas e de suas relações diplomáticas. Entre as fontes utilizadas por Alcalcaxandi estavam obras de Alumari, Atacrifi e Ibne Nazir Aljaixe. De particular importância foi o al-Taʿrīf bi'l-muṣṭalaḥ al-sharīf, de Alumari, que Alcalcaxandi tomou como uma das bases de sua obra, ampliando consideravelmente seu âmbito. Recorreu também a numerosas fontes históricas, geográficas, literárias e administrativas. Parte desse material não sobreviveu independentemente, circunstância que aumenta o valor do Ṣubḥ al-aʿshā para a preservação de documentos e textos mais antigos. Antes do Ṣubḥ al-aʿshā, Alcalcaxandi havia composto o Ḍawʾ al-ṣubḥ al-musfir wa-janā al-dawḥ al-muthmir, dedicado a Camaladim Maomé ibne Albarizi, que posteriormente se tornou secretário-chefe. A obra, que não sobreviveu, parece ter constituído uma primeira elaboração de temas posteriormente desenvolvidos no Ṣubḥ al-aʿshā. Alcalcaxandi escreveu ainda uma macama relacionada à sua entrada na chancelaria e ao trabalho dos secretários.

A genealogia árabe constituiu outro campo importante de sua produção. Seu Nihāyat al-arab fī maʿrifat ansāb al-ʿArab apresenta as genealogias das tribos árabes desde a Antiguidade, acompanhadas por informações históricas, incluindo relatos sobre os Dias Árabes. A obra foi organizada alfabeticamente segundo os nomes das tribos e constitui uma das principais compilações genealógicas de Alcalcaxandi. Posteriormente preparou uma versão abreviada, o Nihāyat al-arab ilā maʿrifat qabāʾil al-ʿArab, na qual reuniu informações sobre as origens, ramificações e locais de estabelecimento das tribos. Compôs também o Qalāʾid al-jumān fī 'l-taʿrīf bi-qabāʾil ʿArab al-zamān, dedicado particularmente às tribos árabes existentes em sua própria época.

Outra obra importante, o Maʾāthir al-ināfa fī maʿālim al-khilāfa, trata da instituição do califado. Alcalcaxandi discute nela as condições e qualidades necessárias ao califa, seus deveres, prerrogativas e insígnias, bem como os documentos expedidos em seu nome, combinando essa exposição com uma história dos califas e de soberanos posteriores. A parte não histórica da obra depende em grande medida do Ṣubḥ al-aʿshā. Entre seus escritos literários encontra-se o Ḥilyat al-faḍl wa-zīnat al-karam fī 'l-mufākhara bayn al-sayf wa'l-qalam, construído como uma disputa literária entre a espada e a pena. Alcalcaxandi compôs a obra em 794 A.H. (1391/2) para o emir Abu Iázide ibne Murade Azairi, dauadar do sultão Barcuque. Alcalcaxandi produziu ainda obras e comentários de jurisprudência xafeíta e sufismo, entre eles um comentário ao Minhāj de Anauaui, além de outros escritos que não chegaram integralmente à atualidade.

Referências

  1. 1 2 Bosworth 1997, p. 509.
  2. 1 2 3 İpşirli 2001, p. 263.
  3. ↑ Bosworth 1997, pp. 509–511.
  4. 1 2 3 Bosworth 1997, p. 510.
  5. 1 2 İpşirli 2001, pp. 263–264.
  6. 1 2 3 İpşirli 2001, p. 264.
  7. 1 2 Bosworth 1997, pp. 509–510.
  8. ↑ Bosworth 1997, pp. 510–511.
  9. ↑ İpşirli 2001, pp. 264–265.

Bibliografia