Aprotinina

A aprotinina é um polipéptido natural constituído por 58 aminoácidos, extraído e purificado a partir de pulmões bovinos, que atua na medicina como um potente inibidor de proteases de serina de amplo espetro. A sua principal função clínica reside nas suas propriedades antifibrinolíticas e hemostáticas, sendo amplamente utilizada para mitigar perdas hemáticas massivas e reduzir a necessidade de transfusões sanguíneas em cirurgias de elevada complexidade, nomeadamente em operações de coração aberto realizadas com o auxílio de circulação extracorpórea (bomba cardiopulmonar) e em transplantes hepáticos. Do ponto de vista molecular, este fármaco exerce a sua ação através da formação de complexos estáveis e reversíveis que inativam enzimas cruciais como a plasmina (bloqueando a degradação da fibrina e estabilizando o coágulo), a calicreína (atenuando a cascata inflamatória e a vasodilatação) e a tripsina. Adicionalmente, apresenta um efeito protetor sobre a função das plaquetas e modula a resposta inflamatória sistémica decorrente do trauma cirúrgico maior. A história clínica da aprotinina ficou profundamente marcada por uma intensa controvérsia científica em meados da década de 2000, quando estudos de grande escala associaram o seu uso a um risco acrescido de disfunção renal severa e mortalidade, motivando a suspensão global da sua comercialização por autoridades como a EMA e a FDA. Contudo, reavaliações metodológicas posteriores demonstraram que o balanço entre benefícios e riscos permanece francamente favorável em subgrupos específicos de doentes cardíacos de altíssimo risco, o que permitiu o seu posterior regresso ao mercado sob rigorosos critérios de monitorização. Atualmente, a investigação expandiu-se além da hemóstase, explorando com sucesso a via inalatória para utilizar a aprotinina como um potencial agente antiviral, capaz de bloquear as proteases de células hospedeiras de que vírus respiratórios necessitam para infetar o tecido pulmonar.

Referências

  1. ↑ Davis, Rick; Whittington, Ruth (junho de 1995). «Aprotinin: A Review of its Pharmacology and Therapeutic Efficacy in Reducing Blood Loss Associated with Cardiac Surgery». Drugs (em inglês). 49 (6): 954–983. ISSN 0012-6667. doi:10.2165/00003495-199549060-00008
  2. ↑ Levy, Jerrold H; Sypniewski, Edward (junho de 2004). «Aprotinin: A Pharmacologic Overview». Orthopedics (em inglês). 27 (6). ISSN 0147-7447. doi:10.3928/0147-7447-20040602-05
  3. ↑ Landis, R.Clive; Asimakopoulos, George; Poullis, Mike; Haskard, Dorian O.; Taylor, Kenneth M. (dezembro de 2001). «The antithrombotic and antiinflammatory mechanisms of action of aprotinin». The Annals of Thoracic Surgery (em inglês). 72 (6): 2169–2175. doi:10.1016/S0003-4975(01)02821-1
  4. ↑ Mangano, Dennis T.; Tudor, Iulia C.; Dietzel, Cynthia (26 de janeiro de 2006). «The Risk Associated with Aprotinin in Cardiac Surgery». New England Journal of Medicine (em inglês). 354 (4): 353–365. ISSN 0028-4793. doi:10.1056/NEJMoa051379
  5. ↑ Rosén, Måns (dezembro de 2009). «The aprotinin saga and the risks of conducting meta-analyses on small randomised controlled trials – a critique of a Cochrane review». BMC Health Services Research (em inglês). 9 (1). ISSN 1472-6963. PMC 2657782Acessível livremente. PMID 19228407. doi:10.1186/1472-6963-9-34
  6. ↑ Ferreira, Cesar Augusto; Vicente, Walter Villela de Andrade; Évora, Paulo Roberto Barbosa; Rodrigues, Alfredo José; Klamt, Jyrson Guilherme; Carlotti, Ana Paula de Carvalho Panzeli; Carmona, Fábio; Manso, Paulo Henrique (setembro de 2009). «Aprotinina preserva plaquetas em crianças com cardiopatia congênita acianogênica operadas com circulação extracorpórea?». Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (em inglês). 24 (3): 373–381. ISSN 0102-7638. doi:10.1590/S0102-76382009000400018
  7. ↑ Locali, Rafael Fagionato; Buffolo, Enio; Palma, José Honório (dezembro de 2006). «Uso da aprotinina na operação da aorta torácica associada à hipotermia profunda e parada circulatória: metanálise». Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (em inglês). 21 (4). ISSN 0102-7638. doi:10.1590/S0102-76382006000400007
  8. ↑ Ivachtchenko, Alexandre V.; Ivashchenko, Andrey A.; Shkil, Dmitrii O.; Ivashchenko, Ilya A. (6 de julho de 2023). «Aprotinin—Drug against Respiratory Diseases». International Journal of Molecular Sciences (em inglês). 24 (13). 11173 páginas. ISSN 1422-0067. PMC 10342444Acessível livremente. PMID 37446350. doi:10.3390/ijms241311173
  9. ↑ Padín, Juan Fernando; Pérez-Ortiz, José Manuel; Redondo-Calvo, Francisco Javier (10 de julho de 2024). «Aprotinin (I): Understanding the Role of Host Proteases in COVID-19 and the Importance of Pharmacologically Regulating Their Function». International Journal of Molecular Sciences (em inglês). 25 (14). 7553 páginas. ISSN 1422-0067. PMC 11277036Acessível livremente. PMID 39062796. doi:10.3390/ijms25147553