A aprotinina é um polipéptido natural constituído por 58 aminoácidos, extraído e purificado a partir de pulmões bovinos, que atua na medicina como um potente inibidor de proteases de serina de amplo espetro. A sua principal função clínica reside nas suas propriedades antifibrinolíticas e hemostáticas, sendo amplamente utilizada para mitigar perdas hemáticas massivas e reduzir a necessidade de transfusões sanguíneas em cirurgias de elevada complexidade, nomeadamente em operações de coração aberto realizadas com o auxílio de circulação extracorpórea (bomba cardiopulmonar) e em transplantes hepáticos. Do ponto de vista molecular, este fármaco exerce a sua ação através da formação de complexos estáveis e reversíveis que inativam enzimas cruciais como a plasmina (bloqueando a degradação da fibrina e estabilizando o coágulo), a calicreína (atenuando a cascata inflamatória e a vasodilatação) e a tripsina. Adicionalmente, apresenta um efeito protetor sobre a função das plaquetas e modula a resposta inflamatória sistémica decorrente do trauma cirúrgico maior. A história clínica da aprotinina ficou profundamente marcada por uma intensa controvérsia científica em meados da década de 2000, quando estudos de grande escala associaram o seu uso a um risco acrescido de disfunção renal severa e mortalidade, motivando a suspensão global da sua comercialização por autoridades como a EMA e a FDA. Contudo, reavaliações metodológicas posteriores demonstraram que o balanço entre benefícios e riscos permanece francamente favorável em subgrupos específicos de doentes cardíacos de altíssimo risco, o que permitiu o seu posterior regresso ao mercado sob rigorosos critérios de monitorização. Atualmente, a investigação expandiu-se além da hemóstase, explorando com sucesso a via inalatória para utilizar a aprotinina como um potencial agente antiviral, capaz de bloquear as proteases de células hospedeiras de que vírus respiratórios necessitam para infetar o tecido pulmonar.