Batalha de Sacária

Batalha de Sacária
Batalha de Sacária

Data23 de agosto – 13 de setembro de 1921
LocalNas margens do Rio Sacária, Turquia
DesfechoVitória turca
  • Avanço grego detido
Beligerantes

Reino da Grécia Grécia

Império Otomano Governo de Ancara

Comandantes

Constantino I
Anastasios Papoulas
Príncipe André

Mustafa Kemal Paxá
Fevzi Paxá
İsmet Paxá

Forças

120.000 soldados
3.780 oficiais
57.000 espingardas
2.768 metralhadoras
386 canhões
1.350 espadas
600 caminhões de 3 toneladas
240 caminhões de 1 tonelada
18 aviões

96.326 soldados
5.401 oficiais
54.572 espingardas
825 metralhadoras
196 canhões
1.309 espadas
2 aeronaves

Baixas

De 23 de agosto a 16 de setembro:
4.000 mortos
19.000 feridos
354 desaparecidos
Total: 22.900

3.700 mortos
18.480 feridos
108 prisioneiros
5.639 desertores
8.089 desaparecidos
Total: 38.029

A Batalha de Sacária (em turco: Sakarya Meydan Muharebesi), também conhecida como a Batalha do Sangários (em grego: Μάχη του Σαγγαρίου, transl.: Máchi tou Sangaríou), foi um importante confronto na Guerra Greco-Turca (1919–1922).

A batalha durou 21 dias, de 23 de agosto a 13 de setembro de 1921, nas proximidades das margens do Rio Sacária, perto de Polatlı, que hoje é um distrito da Província de Ancara. A linha de batalha estendia-se por cerca de 100 km.

Também é conhecida como a Batalha dos Oficiais (em turco: Subaylar Savaşı) na Turquia, devido à taxa invulgarmente alta de baixas (70–80%) entre os oficiais. Mais tarde, também foi chamada de Melhame-i Kübra (equivalente islâmico ao Armagedom) por Mustafa Kemal Atatürk.

A Batalha de Sacária é considerada o ponto de virada da Guerra de Independência Turca. O observador, escritor e crítico literário turco İsmail Habip Sevük descreveu mais tarde a importância da batalha com estas palavras:

A retirada que começou em Viena em 13 de setembro de 1683 parou 238 anos depois.

Antecedentes

A ofensiva grega, sob o rei Constantino I como Comandante Supremo das Forças Gregas na Ásia, foi iniciada a 16 de julho de 1921 e executada com grande habilidade. Uma finta em direção ao flanco direito turco em Eskişehir distraiu İsmet Paxá no momento exato em que o ataque principal caiu sobre o flanco esquerdo em Kara Hisar. Os gregos mudaram então o seu eixo para o norte, varreram em direção a Eskişehir e desmoronaram a defesa turca numa série de assaltos frontais que foram combinados com movimentos de flanqueamento.

Eskişehir caiu a 17 de julho, apesar de um vigoroso contra-ataque de İsmet Paxá, que estava determinado a lutar até ao fim. No entanto, o conselho mais prudente de Mustafa Kemal prevaleceu e İsmet retirou-se com pesadas perdas para alcançar a segurança comparativa do Rio Sacária, a cerca de 48 km (30 milhas) a norte e a apenas 80 km de Ancara.

A batalha ocorreu ao longo do Rio Sacária, nas proximidades de Polatlı, e teve uma linha de frente de 100 km.

A característica determinante do terreno era o próprio rio, que corre para leste através do planalto, curva subitamente para norte e depois vira para oeste. Este grande laço forma uma barreira natural. As margens do rio são íngremes e irregulares, e as pontes eram poucas, com apenas duas na seção frontal do laço. A leste do laço, a paisagem ergue-se perante um invasor numa série de cordilheiras e colinas áridas e rochosas em direção a Ancara. Foi nestas colinas, a leste do rio, que os turcos se estabeleceram nas suas posições defensivas. A frente seguia as colinas a leste do rio Sacária, a partir de um ponto a sul de Polatlı até ao local onde o rio Gök se junta ao Sacária, virando então em ângulo reto para leste, ao longo da linha do rio Gök. A região oferecia um excelente terreno defensivo.

Para os gregos, a questão era saber se deviam estabelecer-se no terreno e repousar com as suas conquistas anteriores, ou avançar em direção a Ancara com grande esforço e destruir o Exército da Grande Assembleia Nacional. Qualquer das opções era difícil de resolver e levantava os problemas eternos com que o estado-maior grego lidava desde o início da guerra. Os perigos de estender ainda mais as suas linhas de comunicação num terreno inóspito que matava cavalos, provocava a quebra de veículos e impedia o movimento de artilharia pesada, eram evidentes. A frente atual dava aos Gregos o controlo da ferrovia estratégica essencial e era tacticamente muito favorável, mas o Exército da Grande Assembleia Nacional tinha escapado ao cerco em Kütahya, portanto, nada tinha ficado resolvido. Para os gregos, isto tornou irresistível a tentação de desferir um golpe fatal.

A Batalha

A 9.ª divisão de infantaria grega marchando pela estepe
Prisioneiros de guerra turcos capturados durante a batalha

A 10 de agosto, o rei grego Constantino I lançou finalmente as suas forças num assalto contra a Linha de Sacária. Os gregos marcharam arduamente durante nove dias antes de fazerem contacto com o inimigo. A marcha incluiu uma manobra de flanqueamento através da parte norte da Anatólia, atravessando o Deserto de Sal, onde havia grande escassez de água e alimentos. Assim, a infantaria grega atacou as aldeias turcas mais pobres em busca de milho e água, ou retirou carne dos rebanhos que pastavam na margem do deserto.

A 23 de agosto, a batalha iniciou-se com o contacto dos gregos contra as posições turcas avançadas a sul do rio Gök. O Estado-Maior Turco tinha fixado o seu quartel-general em Polatlı, na via-férrea a poucos quilómetros a leste das margens do rio Sacária, e as suas tropas prepararam-se para resistir.

A 26 de agosto, os gregos atacaram ao longo de toda a linha. Atravessando o raso Gök, a infantaria lutou para alcançar as elevações, onde cada cumeira e topo de colina tiveram de ser tomados de assalto contra fortes entrincheiramentos e fogo devastador.

Em 2 de setembro, as elevações dominantes do Monte Çal (Çal Dağı) estavam em mãos gregas, mas, depois de a manobra de envolvimento do flanco esquerdo turco ter falhado, a batalha transformou-se num típico confronto frontal de infantaria, metralhadoras e artilharia. Os gregos lançaram o seu principal esforço no centro e avançaram cerca de 16 km num espaço de 10 dias através da segunda linha de defesa turca. Algumas unidades gregas chegaram a estar a 50 km da cidade de Ancara. Para os gregos, este foi o pico das suas conquistas na Campanha da Ásia Menor.

Durante dias, no decurso da batalha, nem munições nem alimentos chegaram à frente de combate devido à perseguição eficaz das linhas de comunicação gregas e incursões da cavalaria turca à retaguarda das linhas gregas. Todas as tropas gregas foram empenhadas na batalha, mas novos recrutas turcos continuaram a chegar ao longo da campanha, em resposta à mobilização do Movimento Nacional Turco. Tudo isto travou o ímpeto do ataque grego. Durante alguns dias houve uma acalmia nos combates, período no qual nenhum dos exércitos, exaustos, conseguiu prosseguir o ataque. Constantino, que comandou a batalha pessoalmente, quase foi feito prisioneiro por uma patrulha turca.

Atatürk assumiu o comando pessoal das forças turcas e liderou um pequeno contra-ataque contra a esquerda grega, nas imediações do Monte Çal, a 8 de setembro. A linha grega aguentou e o ataque em si obteve um sucesso militar limitado, contudo, o receio de um esforço turco mais amplo para flanquear as suas forças, num momento em que se aproximava um inverno rigoroso, fez Constantino interromper o assalto grego a 14 de setembro de 1921.

Isto levou Anastasios Papoulas a ordenar uma retirada geral em direção a Eskişehir e Afyonkarahisar. As tropas gregas evacuaram o Monte Çal, conquistado a um custo elevadíssimo, e retiraram-se sem serem molestadas através do rio Sacária para as posições que haviam deixado um mês antes, levando consigo o seu equipamento e as suas armas. Na linha do exército em retirada não foi deixado nada de que os turcos pudessem beneficiar. Ferrovias e pontes foram destruídas e aldeias foram incendiadas no que se transformou numa política de terra arrasada.

Após a retirada grega, as forças turcas conseguiram recuperar Sivrihisar a 20 de setembro, Aziziye a 22 de setembro e Bolvadin e Çay a 24 de setembro.

Desfecho

Mapa das ofensivas gregas e turcas

A retirada de Sacária marcou o fim das esperanças gregas de impor um acordo à Turquia pela força das armas. Em maio de 1922, Papoulas e todo o seu estado-maior demitiram-se e ele foi substituído pelo General Georgios Hatzianestis, que se revelou muito mais inapto do que o seu antecessor.

Por outro lado, Mustafa Kemal retornou a Ancara, onde a Grande Assembleia Nacional o galardoou com a patente de Marechal de campo do Exército e com o título de Gazi para lhe prestar as devidas honras como salvador da nação turca.

De acordo com o discurso que proferiu anos mais tarde perante a mesma Assembleia Nacional na Segunda Conferência Geral do Partido Republicano do Povo, realizada de 15 a 20 de outubro de 1927, Atatürk teria ordenado que "nem um centímetro do país devia ser abandonado até que estivesse encharcado com o sangue dos cidadãos" uma vez que se apercebeu de que o Exército Turco estava a perder terreno rapidamente e que não existiam quase defesas naturais entre a linha de batalha e Ancara.

Lord Curzon argumentou que a situação militar se tornara num impasse e que o tempo corria a favor dos turcos. A sua reputação aos olhos dos britânicos estava a melhorar. Na sua opinião, os nacionalistas turcos estariam mais do que prontos a negociar.

O governo de Ancara assinou então o Tratado de Kars com os russos e o extremamente importante Tratado de Ancara com os franceses, o qual reduziu notavelmente a frente do exército turco no teatro da Cilícia e lhe permitiu concentrar forças contra os gregos a oeste.

Para as tropas turcas, a batalha foi o ponto de virada da guerra, que se desenrolaria numa série de confrontos militares de grande importância contra os gregos, expulsando os invasores da Ásia Menor durante a Guerra de Independência Turca. Os gregos não podiam fazer mais do que lutar para assegurar a sua retirada. No ano seguinte, a 26 de agosto, a ofensiva turca começou com a Batalha de Dumlupınar. Atatürk despachou o seu exército rumo à costa do Mar Egeu para perseguir o Exército Grego, culminando no assalto direto a Esmirna de 9 a 11 de setembro de 1922.

A guerra encerrou-se com a retirada grega da Ásia Menor, formalizada posteriormente através do Tratado de Lausanne, a 24 de julho de 1923.

Galeria

Ver também

Notas

  1. ↑ Embora as baixas turcas indiquem 5.639 desertores e 8.089 desaparecidos, esses dois números pertencem ao período entre a Batalha de Kütahya–Eskişehir e a Batalha de Sacária.

Ver também

Referências

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  31. ↑ Inglês: "I said that there was no line of defence but a plain of defence, and that this plain was the whole of the country. Not an inch of the country should be abandoned until it was drenched with the blood of the citizens...". A speech Delivered by Mustafa Kemal Atatürk, 1927, Ministry of Education Print. Plant, 1963, p. 521.
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Bibliografia