Big science é um termo utilizado por cientistas e historiadores da ciência para descrever uma série de mudanças na ciência que ocorreram nos países industrializados durante e após a Segunda Guerra Mundial, como o progresso científico cada vez mais passou a contar com projetos de grande porte geralmente financiados por governos ou grupos governamentais. Esforços individuais ou de pequenos grupos, ou small science, ainda são relevantes hoje já que resultados teóricos de autores individuais podem ter um impacto significativo, mas muitas vezes a verificação empírica requer experimentos usando construções, como o Grande Colisor de Hádrons, custando entre 5 e 10 bilhões de dólares.
Exemplos clássicos de Big science incluem o Projeto Manhattan, que desenvolveu as primeiras armas nucleares durante a Segunda Guerra Mundial, o Programa Apollo da NASA, que levou seres humanos à Lua, e o Projeto Genoma Humano, concluído em 2003, que mapeou a totalidade do DNA humano. Esses projetos envolveram milhares de pesquisadores, orçamentos bilionários e coordenação entre múltiplas instituições e países.
O aumento do financiamento de governos tem muitas vezes significado o aumento do financiamento militar, que alguns afirmam subverter os ideais da era iluminista da ciência como uma busca por conhecimento puro. Por exemplo, o historiador Paul Forman argumentou que durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, a escala de financiamento relacionados com a defesa levou a uma mudança na física de básica para pesquisa aplicada. Porém, a partilha generalizada do conhecimento científico é necessário para o progresso rápido para ambas as ciências básicas e aplicadas.
Esse debate permanece atual. Criticos da big science argumentaram que a concentração de recursos em megaprojetos pode marginalizar áreas de pesquisa menores, mas igualmente relevantes, criando desigualdades na distribuição de financiamento entre disciplinas e entre países do Norte e do Sul global. Por outro lado, defensores apontam que grandes infraestruturas compartilhadas, como o CERN, geram avanços tecnológicos que beneficiam a sociedade como um todo desde a criação da World Wide Web até técnicas de diagnóstico médico por imagem.
A popularização do termo "big science" é geralmente atribuída a um artigo escrito por Alvin Weinberg, então diretor do Laboratório Nacional de Oak Ridge, publicado na revista Science em 1961. Esta foi uma resposta ao discurso de despedida de Dwight D. Eisenhower, em que o presidente dos Estados Unidos em retirada advertiu contra os perigos do que ele chamou de "complexo militar-industrial" e a dominação potencial "de estudiosos da nação por emprego Federal, as alocações de projeto, e o poder do dinheiro".
Weinberg, em seu artigo original, levantou preocupações que permanecem relevantes: questionou se a sociedade deveria priorizar grandes aceleradores de partículas em detrimento de investimentos em educação e saúde pública. Ele também alertou para o risco de que a espetacularidade dos grandes projetos ofuscasse a importância da ciência de bancada, feita em laboratórios menores e com orçamentos modestos.
No século XXI, o conceito de big science se expandiu para além da física de partículas e da defesa militar, alcançando áreas como a biologia, a astronomia, a saúde pública e a ciência climática.
O Projeto Genoma Humano, concluído em 2003, é considerado um marco dessa expansão. Coordenado por instituições de seis países ao longo de treze anos, mapeou a totalidade do DNA humano com um custo estimado de 2,7 bilhões de dólares. Seus resultados transformaram a medicina, a genética e a biotecnologia, além de impulsionar o debate sobre ciência aberta, já que os dados foram disponibilizados publicamente antes mesmo da conclusão do projeto.
Na física, o consórcio internacional LIGO-Virgo detectou ondas gravitacionais pela primeira vez em 2015, confirmando uma previsão feita por Albert Einstein cem anos antes. O experimento envolveu mais de mil pesquisadores de dezenas de países e exigiu décadas de desenvolvimento tecnológico, demonstrando como a big science contemporânea depende de colaboração multinacional de longo prazo.
A pandemia de COVID-19, a partir de 2020, proporcionou novos exemplos de ciência em grande escala. O sequenciamento genômico do SARS-CoV-2 mobilizou redes internacionais de laboratórios e permitiu acompanhar a evolução do vírus e a emergência de novas variantes. Paralelamente, o desenvolvimento de vacinas ocorreu por meio da colaboração entre instituições de pesquisa, governos, organizações internacionais e empresas farmacêuticas, envolvendo diferentes plataformas tecnológicas e grandes investimentos em pesquisa e produção.
A cooperação internacional também se manifestou por meio do COVAX, iniciativa criada como o pilar de vacinas do Access to COVID-19 Tools (ACT) Accelerator. O COVAX foi liderado conjuntamente pela Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI), Gavi e Organização Mundial da Saúde (OMS), com a UNICEF como importante parceira de implementação. Seu objetivo era acelerar o desenvolvimento e a produção de vacinas contra a COVID-19 e promover seu acesso equitativo entre os países. Em 2020, a iniciativa reuniu 190 economias participantes e estabeleceu mecanismos de aquisição conjunta e distribuição de vacinas.
Apesar desses esforços, a distribuição das vacinas permaneceu desigual. A OMS relatou que, em 2021, 92 países de baixa e média renda enfrentaram limitações de acesso devido a restrições de oferta. Entre os fatores apontados estavam acordos bilaterais entre governos e fabricantes, restrições à exportação e dificuldades para ampliar a produção. A experiência do COVAX demonstrou, assim, tanto o potencial da colaboração científica internacional em larga escala quanto os obstáculos políticos e econômicos envolvidos na distribuição global de tecnologias de saúde.
Na ciência climática, os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) exemplificam outro modelo de big science: a síntese sistemática de milhares de estudos por centenas de cientistas de diferentes países e disciplinas. Esses relatórios orientam políticas públicas globais e representam um esforço de tradução do conhecimento científico para tomadores de decisão, aproximando-se do papel que o jornalismo científico desempenha junto ao público geral.
Os debates sobre big science também se atualizaram. Críticos apontam que a concentração de financiamento em megaprojetos pode marginalizar áreas de pesquisa menores, agravando desigualdades entre disciplinas e entre países do Norte e do Sul global. Além disso, a dependência crescente de financiamento privado levanta questões sobre conflitos de interesse e sobre quem define as prioridades da ciência. Por outro lado, defensores argumentam que grandes infraestruturas compartilhadas geram benefícios tecnológicos amplos para a sociedade — a World Wide Web, por exemplo, foi criada no CERN em 1989 como ferramenta interna de comunicação entre físicos e se tornou uma das inovações mais transformadoras do século XX.
O movimento de ciência aberta (open science), que defende o acesso livre a dados, publicações e métodos, representa uma tentativa de conciliar a escala da big science com os princípios de transparência e democratização do conhecimento. Iniciativas como o Plan S na Europa e os mandatos de acesso aberto de agências como os National Institutes of Health (NIH) nos Estados Unidos refletem essa tendência.