Membros da CUT presentes na 4ª Marcha da Classe Trabalhadora, ocorrida em 5 de dezembro de 2007, em Brasília | |
| Tipo | central sindical |
|---|---|
| Fundação | 28 de agosto de 1983 (43 anos) São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil |
| Sede | São Paulo, Brasil |
| Membros | 3 960 entidades sindicais |
| Filiação | Confederação Sindical Internacional |
| Presidente | Sérgio Nobre |
| Website | www |
Central Única dos Trabalhadores (CUT) é uma central sindical brasileira. A CUT é a mais antiga central sindical em operação no Brasil, bem como a maior do tipo, representando mais de 7,9 milhões de trabalhadores associados em todas as áreas produtivas. É também a maior central sindical da América Latina e a quinta maior do mundo. Seus filiados são denominados "cutistas".
A CUT foi fundada em 28 de agosto de 1983. Juntamente com o Partido dos Trabalhadores (PT), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), a CUT foi uma das principais organizações a desafiar a ditadura militar de 1964-1985 em seus estágios finais, organizando greves de trabalhadores metalúrgicos, ferroviários e da construção civil na Região Metropolitana de São Paulo.
A CUT historicamente tem desempenhado um papel importante na ala sindical do Partido dos Trabalhadores (PT), que vai desde o compartilhamento de bandeiras de luta laboral e social até a conservação de visões ideológicas semelhantes, muito embora ocorram clivagens importantes relacionadas às políticas econômicas do partido. Os estatutos da CUT proclamam autonomia em relação a governos, patrões e partidos políticos. Em geral, a entidade possui uma ampla heterogeneidade política, ideológica e cultural.

Antes da fundação da CUT, o chamado "velho sindicalismo", vigente desde a Era Vargas, dominava o modelo sindical brasileiro. A principal prática do varguismo e dos governos subsequentes era tentar integrar os sindicatos ao Ministério do Trabalho. O golpe militar de 1964 expôs o risco aos trabalhadores da manutenção desse modelo, pois garantiu ao regime ditatorial a total tutela dos sindicatos.
Com a abertura política gradual, determinada pelo Presidente militar Ernesto Geisel, vários sindicatos começaram a se reorganizar, ganhando força algumas correntes que pregavam a total ruptura com a tutela governamental. Em paralelo, a abertura política veio acompanhada de imensas greves de trabalhadores das fábricas de automóveis da Volkswagen, Ford e Mercedes-Benz que abalaram a Região Metropolitana de São Paulo entre 1978 e 1980. Nesse contexto, emergiu uma nova geração de líderes sindicais, sendo Lula da Silva o mais proeminente. Outro fator determinante para a fundação da CUT foi o surgimento, em 1980, do Partido dos Trabalhadores (PT), uma agremiação política que preceituava a organização das lutas dos trabalhadores. Essa somatória de cenários deu ímpeto à proposta de convocação de uma "Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras", que buscava reunir correntes de sindicalismo muito mais reivindicativo, formando o "Bloco dos Combativos". Uma das propostas fundamentais era a ruptura com o modelo de sindicalismo tradicional do Bloco da Unidade Sindical — que em 1983 daria origem à Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e em 1985 à União Sindical Independente (USI). Para a realização de tal evento, foi formada a seguinte comissão organizadora: Organização-Geral: Raimundo Rosa de Lima e Joaquim "Joaquinzão" dos Santos Andrade; Finanças: Arnaldo Gonçalves e Lula da Silva; Secretaria e Divulgação: Hugo Perez, Crispim da Cruz e Édson Barbeiro dos Campos.
A 1ª Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras (I Conclat) — um histórico e amplo encontro intersindical realizado no Brasil em agosto de 1981, na cidade de Praia Grande (SP) — marcou a primeira grande articulação nacional dos trabalhadores do campo e da cidade desde o início da ditadura militar em 1964. A tônica do evento estava na luta pela redemocratização do país, havendo, ainda, fortes debates sobre melhorias salariais e a perseguição promovida pela ditadura contra os trabalhadores. No entanto, a proposta pela criação da CUT, defendida pelo PT e pelo Bloco dos Combativos, encontrava resistência na tendência Bloco da Unidade Sindical, que defendia a manutenção da estrutura oficial. As negociações da I Conclat foram particuarmente renhidas. Mesmo sem o consenso, ao final da Conferência o Bloco dos Combativos foi desfeito e foi eleito em seu lugar uma "Comissão Nacional Pró-CUT", composta por 56 membros, sendo 24 representantes de entidades rurais, demonstrando o peso dessa categoria na concepção da CUT. Na Conferência fica definido que, no prazo de um ano, a nova entidade deveria ser organizada, mas isso não se concretizou como planejado pois percebeu-se que o cronograma era curto.

Em 1983, com atraso de cerca de um ano, a Comissão Pró-CUT convocou o Congresso Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), evento a ser realizado na cidade de São Bernardo do Campo (SP). Assim, realizadas as discussões do Conclat, em 28 de agosto de 1983 deu-se o voto geral que fundou a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Naquele Congresso foi eleita a direção nacional colegiada, tendo como coordenador-geral o metalúrgico paulista Jair Meneguelli, com os outros dirigentes sendo Paulo Paim (metalúrgico/RS), João Paulo Vasconcelos (metalúrgico/MG), Jacó Bittar (petroleiro/SP), Abdias José dos Santos (metalúrgico/RJ), José Gomes Novaes (rurais/BA) e Avelino Ganzer (rurais/PA). A concepção e a fundação da entidade se deu a partir da construção definitiva de uma corrente ideológica chamada de "Novo Sindicalismo", que recusava o controle do Estado, rompia frontalmente com o peleguismo e mantinha uma prática sindical reivindicativa.
Seu primeiro teste como entidade criada se deu entre 21 de julho e 21 de setembro de 1983, onde se somou 2 meses de greve contra o Decreto-Lei 2.024, de janeiro do mesmo ano, editado por exigência do Fundo Monetário Internacional (FMI), que promovia uma avassaladora política de arrocho salarial. Era o princípio do neoliberalismo no Brasil. Foi, também, a primeira vez que a oposição à ditadura conseguiu derrubar algum ato do regime militar.
Logo de início, a fundação da CUT coincidiu com a campanha de massas pelas eleições presidenciais diretas — Diretas Já — na qual a entidade desempenhou um papel ativo de mobilização. A CUT desempenhou um papel central na Assembleia Nacional Constituinte de 1987, buscando a consagração constitucional de disposições pró-trabalhistas, incluindo o direito à greve, a proibição de demissões arbitrárias, uma semana de trabalho mais curta, licença remunerada e maior proteção para trabalhadores agrícolas e domésticos. A CUT organizou inúmeras greves gerais — principalmente em 1986, 1987 e 1989 — estabelecendo-se como a principal voz do movimento sindical organizado na oposição à austeridade.
Ao longo da década de 1980 e início da década de 1990, a CUT expandiu-se rapidamente, abrangendo trabalhadores dos setores industrial, agrícola e público e desafiando a estrutura fragmentada e peleguista do movimento sindical brasileiro. Desde sua origem, a CUT, assim como o PT, ao qual é fortemente associada, foi modelada na "esquerda ampla" e distinguiu-se por sua heterogeneidade ideológica, englobando correntes que iam da social-democrata e teólogos da libertação, ao trotskismo e outras tendências marxistas. Esse pluralismo interno era regulado por um sistema de representação proporcional nos órgãos diretivos da entidade, que dava voz às minorias sem privar a maioria da liderança geral.
A eleição de Fernando Collor como Presidente do Brasil trouxe mais de uma década de agendas neoliberais que representaram desafios agudos para a CUT. Os governos Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) implementaram políticas radicais de neoliberalização da economia, incluíndo a privatização, larga abertura comercial, precarização do setor público e desmantelamento da legislação trabalhista, às quais a CUT se opôs ativamente. Particularmente, a liberalização comercial expôs a indústria nacional a uma implacável concorrência internacional, particularmente nos setores automotivo, químico e metalúrgico — os redutos originais da Central —, o que causou desindustrialização, perdas significativas de empregos, diminuição do padrão de renda e o empobrecimento geral da classe trabalhadora, o que minou a capacidade de luta dos sindicatos filiados. Para frear o arrocho salarial e o avanço neoliberal, a CUT promoveu imensas mobilizações trabalhadoras em 1990 e 1991, particularmente contra as perdas inflacionárias, e em 1992, 1993, 1994, 1996 e 1997, contra as políticas de austeridade e privatizações. Outras mobilizações setoriais de relevo encabeçadas pela CUT foram as greves dos petroleiros de 1991 e de 1995.
Dentro da organização, o debate sobre estratégia intensificou-se na década de 1990. A corrente da Articulação Sindical, alinhada à direção do PT, defendia uma abordagem mais pragmática e conciliatória em relação à burguesia e ao estado capitalista. Correntes mais radicais resistiam a esse afastamento dos princípios de classe estabelecidos na fundação da CUT. Essas contradições nunca foram totalmente resolvidas e se intensificaram nas décadas seguintes. Nesse período, a CUT, orientada pelos conceitos do internacionalismo proletário, também expandiu sua presença internacional: em 1992, filiou-se à Confederação Internacional de Sindicatos Livres (CISL; atual Confederação Sindical Internacional (ITUC-CSI)) e participou ativamente das estruturas sindicais regionais da América Latina, desempenhando um papel fundamental na criação da Coordenação Sindical do Cone Sul (CCSCS), que interagiu com o processo de integração no Mercosul.

A eleição de Lula da Silva como presidente em 2002 mudou fundamentalmente o contexto político em que a CUT atuava. Pela primeira vez na história, um parceiro político fundador da Central chegou ao poder no executivo nacional. Isso criou uma relação extremamente complexa. A CUT apoiou os programas sociais dos governos do PT e obteve espaço privilegiado na sugestão de elaboração de políticas públicas, além de ter fornecido nomes de vasta experiência sindical para cargos-chave no governo. No entanto, essa interação também gerou tensões. O ortodoxismo econômico do governo Lula, seus compromissos com a burguesia nacional e com seus parceiros de coalizão política-governamental, a manutenção de altas taxas de juros, as privatizações e concessões privadas e a implementação de uma reforma da previdência para servidores públicos em 2003 — à qual a CUT se opôs — expuseram os limites da influência sindical sobre o governo.
Em março de 2004, alguns setores e categorias sindicais, insatisfeitos com as políticas de conciliação de classes do governo Lula e a parca autocrítica à tal situação na CUT, separaram-se da entidade para formar a Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas). A Conlutas representava de 30 a 40 % da direção da CUT e estava mais próxima do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) — eles próprios facções dissidentes (predominantemente socialistas e trotskistas) que surgiram do PT. Em 2007, líderes associados ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) criaram a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), e em 2014 líderes associados ao PSOL e ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) formaram a Intersindical-Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora (estava em processo de ruptura desde 2005).
As políticas de austeridade, o arrocho salarial e a pressão sobre os rendimentos dos trabalhadores nos governos Temer e Bolsonaro levaram a CUT a chamar novas mobilizações nacionais, com destaque para a greve geral em abril de 2017, que paralizou 35 milhões de trabalhadores (a maior greve em números da história do Brasil). Outras mobilizações encabeçadas ou fortemente apoiadas pela CUT no período foram a greve geral em 2019 e a greve dos petroleiros em 2020. Porém, um fato que chamou atenção foi que a greve dos caminhoneiros em 2018 esteve fora da alçada da CUT (a primeira grande greve no país sem presença forte da entidade), com a categoria dos caminhoneiros, naquele momento, demonstrando maior afinidade aos discursos dos políticos ultraliberais e conservadores. Em paralelo, a CUT conseguiu mobilizar os petroleiros em greve unificada nacional em apoio aos caminhoneiros.
A Central Única dos Trabalhadores está presente em todos os 26 estados e no Distrito Federal, por meio das CUT's estaduais. No estado de São Paulo, maior subsede estadual, chega a manter subsedes regionais.
Milhares de sindicatos, dezenas de federações e confederações são filiados à CUT. As organizações sindicais de base buscam aglutinar as atividades afins ou por ramo de atividade econômica em suas formas organizativas como os sindicatos, federações e confederações.
A CUT conta com um centro de documentação responsável pela memória e história da luta da classe trabalhadora no país, o CEDOC-CUT, e com organismos para o desenvolvimento de políticas específicas e assessoria: Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS), Instituto Observatório Social (IOS), Instituto Nacional de Saúde no Trabalho (INST) e o Departamento de Estudos Sócio-Econômicos e Políticos (DESEP). Conta também com sete escolas de formação sindical, sendo: Escola Sindical Sul e Escola de Turismo e Hotelaria Canto da ilha (ambas em Florianópolis-SC), Escola Sindical São Paulo (São Paulo-SP), Escola Sindical 7 de Outubro (Belo Horizonte-MG), Escola Sindical Chico Mendes na Amazônia (Porto Velho-RO), Escola Sindical Apolônio de Carvalho (Goiânia-GO) e Escola Sindical Marise Paiva de Moraes (Recife-PE).