Publicou os primeiros contos enquanto estudava medicina na Escola de Medicina da Universidade de Edimburgo e trabalhou como médico de bordo em duas viagens antes de abrir um consultório em Portsmouth, que lhe trouxe poucos pacientes. As experiências no mar inspiraram "J. Habakuk Jephson's Statement", de 1884, conto que difundiu o mistério do navio Mary Celeste. Holmes surgiu em Um Estudo em Vermelho, publicado em 1887. "Um Escândalo na Boêmia", de 1891, iniciou uma sequência de 24 contos mensais na The Strand Magazine, e o sucesso do personagem fez de seu criador um dos escritores mais bem pagos de sua época. Conan Doyle tentou encerrar as aventuras do detetive com sua morte em "O Problema Final", de 1893, mas voltou a escrever sobre ele em O Cão dos Baskervilles, publicado em capítulos a partir de 1901, e o trouxe de volta à vida em "A Casa Vazia", de 1903. Os últimos contos saíram em 1927. Entre suas outras criações estão as histórias de humor do brigadeiro Gerard, soldado das Guerras Napoleônicas.
Criado no catolicismo, tornou-se agnóstico na juventude e passou a investigar o espiritualismo ainda no século XIX. Já defendia publicamente essa crença antes de perder familiares na Primeira Guerra Mundial. Foi maçom em dois períodos de sua vida. Acreditou na telepatia, na fotografia espírita e nas fadas de Cottingley, cujas fotografias foram posteriormente reconhecidas como montagens. Suas convicções sobre fenômenos sobrenaturais o afastaram do amigo e ilusionista Harry Houdini. Seus livros receberam adaptações para o cinema e a televisão, e Holmes tornou-se o personagem literário humano mais representado nessas mídias. A vida do próprio Conan Doyle também foi tema de filmes, séries e obras de ficção.
Primeiros anos
Retrato de Conan Doyle por Herbert Rose Barraud, de 1893Folha de rosto da tese de doutorado em medicina
Arthur nasceu no número 11 da Picardy Place, em Edimburgo, em 22 de maio de 1859. Seu pai, Charles Altamont Doyle, era inglês de ascendência católica irlandesa, e sua mãe, Mary Foley, era irlandesa e católica. Os dois se casaram em 1855. A mãe lhe ensinou as primeiras letras e contava histórias que ele recordaria na vida adulta. Em 1864, o agravamento do alcoolismo de Charles levou à separação temporária da família, e os filhos foram acolhidos em casas de Edimburgo. Arthur ficou com Mary Burton, tia de um amigo, em Liberton Bank House, na Gilmerton Road, enquanto frequentava a Newington Academy.
A família voltou a morar junta em 1867, em um apartamento precário no número 3 de Sciennes Place. Charles morreu em 1893 no hospital psiquiátrico Crichton Royal, em Dumfries, depois de anos de doença. Desde menino, Arthur escrevia à mãe, e muitas das cartas que trocou com ela ao longo da vida foram preservadas.
Com ajuda de tios abastados, foi enviado aos nove anos para a escola preparatória Hodder Place, dirigida por jesuítas em Stonyhurst, no Lancashire. Estudou ali de 1868 a 1870 e depois no Stonyhurst College, até 1875. Ao recordar a escola, disse que não fora infeliz, mas que não guardava boas lembranças de um ensino que julgava medieval, limitado a conhecimentos elementares, retórica, geometria euclidiana, álgebra e estudos clássicos. Para ele, esse método só se justificava pela ideia de que qualquer exercício mental, mesmo sem utilidade aparente, poderia fortalecer a mente. Também criticou os castigos físicos e a humilhação dos alunos.
Entre 1875 e 1876, estudou no colégio jesuíta Stella Matutina, em Feldkirch, na Áustria. A família pretendia que aperfeiçoasse o alemão e ampliasse sua formação. Abandonou a fé católica e tornou-se agnóstico. O biógrafo James O'Brien relacionou esse afastamento à passagem pela escola austríaca, menos rígida que Stonyhurst. A biografia de Indalício H. Mendes também menciona suas dúvidas diante da condenação religiosa de não católicos e suas leituras de Thomas Babington Macaulay, Walter Scott e Edgar Allan Poe. Mais tarde, aderiu ao espiritualismo.
Nome
O uso de "Sir Arthur Conan Doyle" ou "Conan Doyle" pode dar a impressão de que "Conan" integra um sobrenome composto. No registro de batismo da Catedral de Santa Maria, em Edimburgo, porém, os prenomes são "Arthur Ignatius Conan", e o sobrenome é "Doyle". Michael Conan consta como padrinho. Os catálogos da Biblioteca Britânica e da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos usam "Doyle" como sobrenome.
Steven Doyle, editor do The Baker Street Journal, explicou que o escritor passou a empregar "Conan" como parte do sobrenome depois de terminar a escola, embora tecnicamente seu sobrenome fosse apenas "Doyle". A publicação oficial de sua nomeação como cavaleiro na The London Gazette também o incluiu na ordem alfabética de "Doyle".
Carreira médica
Entre 1876 e 1881, Arthur estudou medicina na Escola de Medicina da Universidade de Edimburgo. Fez estágios em Aston, então uma cidade do Warwickshire e depois incorporada a Birmingham, em Sheffield e em Ruyton-XI-Towns, no Shropshire. Em 1878, trabalhou por três semanas em Sheffield em troca de hospedagem e alimentação. Em carta à mãe, brincou que os moradores preferiam ser envenenados por um médico de barba a ser salvos por um sem barba. Também estudou botânica prática no Real Jardim Botânico de Edimburgo.
Em 1880, Arthur trabalhou como médico do navio baleeiroHope, de Peterhead, em uma viagem à Groenlândia. Passou cerca de sete meses no Ártico. Em 11 de julho de 1880, o Hope, de John Gray, e o Eclipse, de David Gray, encontraram o Eira, de Benjamin Leigh Smith. W. J. A. Grant fotografou a bordo do Eira Arthur, Smith, os irmãos Gray e o cirurgião William Neale. A expedição de Smith explorou a Terra de Francisco José e, em 18 de agosto, deu nomes ao cabo Flora, à ilha Bell, ao estreito Nightingale e às ilhas Gratton, também chamada "Uncle Joe", e Mabel.
Depois de obter os graus de bacharel em medicina e mestre em cirurgia, em 1881, foi médico de bordo do SS Mayumba em uma viagem à costa ocidental da África. A travessia foi difícil, e, ao regressar a Liverpool em 1882, escreveu à mãe que os ganhos eram inferiores aos que poderia obter escrevendo e que o clima era péssimo. Em 1885, concluiu o doutorado em medicina com uma tese sobre tabes dorsalis.
Em 1882, associou-se ao antigo colega George Turnavine Budd em um consultório em Plymouth. A convivência foi difícil, e logo abriu seu próprio consultório. Chegou a Portsmouth em junho, com menos de dez libras, e instalou-se no número 1 de Bush Villas, na Elm Grove, em Southsea. Como tinha poucos pacientes, aproveitava os intervalos para escrever ficção.
Defendeu a vacinação obrigatória em artigos nos quais contestava os argumentos dos antivacinacionistas. No início de 1891, foi estudar oftalmologia em Viena. Já havia passado pelo Portsmouth Eye Hospital para aprender a examinar a visão e prescrever óculos. O amigo Vernon Morris recomendara seis meses de especialização na cidade, mas Arthur teve dificuldade para acompanhar a terminologia médica alemã e abandonou as aulas. Durante os dois meses em que permaneceu ali, patinou no gelo com a esposa Louisa, encontrou-se com Brinsley Richards, correspondente do The Times, e escreveu The Doings of Raffles Haw.
Após visitar Veneza e Milão, passou alguns dias em Paris observando o trabalho do oftalmologista Edmund Landolt. Retornou a Londres menos de três meses depois da partida e abriu consultório no número 2 da Upper Wimpole Street, então denominado 2 Devonshire Place. O edifício recebeu uma placa comemorativa da prefeitura de Westminster. Em sua autobiografia, afirmou que nenhum paciente entrou no consultório, e abandonou a tentativa de exercer a oftalmologia.
Holmes foi elaborado em parte a partir de Joseph Bell, professor de Arthur na faculdade. Em uma carta de 1892, o escritor disse que devia a Bell o personagem e que o construíra em torno das lições de observação, dedução e inferência que recebera dele. Na autobiografia de 1924, explicou que ampliara os métodos do professor para criar um detetive que resolvesse os casos por sua própria capacidade, sem depender da tolice dos criminosos. Robert Louis Stevenson reconheceu a semelhança e perguntou, ao elogiar as histórias, se o modelo era seu velho amigo Joe Bell. Outros autores apontam a presença de C. Auguste Dupin, de Edgar Allan Poe, a quem Holmes se refere com desdém em Um Estudo em Vermelho. O sobrenome de Watson veio de James Watson, colega médico de Conan Doyle em Portsmouth, embora não haja outras semelhanças evidentes entre os dois.
Estátua de Holmes em Edimburgo, diante do local da casa natal de seu criador, demolida por volta de 1970
A editora encomendou uma continuação, O Signo dos Quatro, publicada na Lippincott's Monthly Magazine em fevereiro de 1890. Conan Doyle considerou que a Ward Lock se aproveitara de sua inexperiência e deixou de trabalhar com ela. Os contos de Holmes passaram a sair na The Strand Magazine. Os primeiros cinco foram escritos no consultório de Devonshire Place.
Embora Holmes lhe trouxesse sucesso, o escritor queria tempo para outros projetos. Em novembro de 1891, escreveu à mãe que pensava em matar o detetive porque ele lhe desviava a atenção de coisas melhores. Ela respondeu que ele não podia fazer isso. Para desencorajar encomendas, passou a cobrar valores que julgava altos demais, mas as editoras aceitaram pagá-los. Tornou-se, assim, um dos autores mais bem pagos de sua época.
Estátua de Holmes e a igreja inglesa em MeiringenHolmes e Moriarty à beira das cataratas, em ilustração de Sidney Paget para "O Problema Final"
Em dezembro de 1893, para se dedicar aos romances históricos, fez Holmes e o Professor Moriarty desaparecerem nas cataratas de Reichenbach, em "O Problema Final". A reação dos leitores o levou a retomar o personagem em O Cão dos Baskervilles, publicado em capítulos em 1901 e 1902, mas ambientado antes da suposta morte. A relação do detetive com as cataratas é celebrada na cidade vizinha de Meiringen.
Em 1903, publicou "A Casa Vazia", seu primeiro conto de Holmes em dez anos. Nele, explicou que apenas Moriarty caíra e que Holmes simulara a própria morte para escapar de outros inimigos, sobretudo o coronel Sebastian Moran. Conan Doyle escreveu quatro romances e 56 contos sobre o detetive, os últimos publicados em 1927. Outros autores continuaram a criar aventuras para o personagem.
Outras obras
Casa de Conan Doyle em South Norwood, no sudeste de LondresPlaca na casa de South Norwood, onde o escritor viveu de 1891 a 1894
Entre seus primeiros romances estão The Mystery of Cloomber, publicado em 1888, e o inacabado The Narrative of John Smith, escrito na década de 1880 e lançado apenas em 2011. Os contos "The Captain of the Pole-Star" e "J. Habakuk Jephson's Statement" aproveitaram suas experiências no mar. O segundo difundiu o mistério do Mary Celeste, mas acrescentou detalhes fictícios, como a afirmação de que o navio fora encontrado em perfeito estado, quando havia água em seu interior, e de que seus botes permaneciam a bordo, embora o único bote estivesse desaparecido. Esses detalhes passaram a ser repetidos em relatos sobre o caso. O nome "Marie Celeste", usado no conto, também se difundiu no lugar da grafia original.
Entre 1888 e 1906, Conan Doyle escreveu sete romances históricos, que ele e parte da crítica preferiam às histórias policiais. Escreveu outros nove romances e, entre 1912 e 1929, cinco narrativas com o cientista de temperamento explosivo professor Challenger, três delas de extensão equivalente a romances ou novelas. A primeira foi O Mundo Perdido. Entre os romances históricos estão The White Company e sua prequela Sir Nigel, ambientados na Idade Média. As histórias do soldado francês brigadeiro Gerard, reunidas em duas coletâneas, se passam nas Guerras Napoleônicas.
Enquanto morava em Southsea, Conan Doyle foi goleiro do Portsmouth Association Football Club, equipe amadora de futebol, usando o pseudônimo A. C. Smith. Esse clube não era o Portsmouth Football Club, criado em 1898.
Partida de críquete entre escritores e artistas em Londres, em maio de 1903. Conan Doyle é o sexto da esquerda para a direita na fileira de trás
Entre 1899 e 1907, disputou dez partidas de críquete de primeira classe pelo Marylebone Cricket Club, o MCC. Também jogou pelas equipes amadoras Allahakbarries e Authors XI, que reuniam escritores como J. M. Barrie, P. G. Wodehouse e A. A. Milne. Sua maior pontuação foi de 43 corridas contra o London County, em 1902. Atuou ocasionalmente como arremessador e eliminou um único rebatedor em partidas de primeira classe, W. G. Grace, feito ao qual dedicou um poema. Foi capitão do Authors XI de 1899 a 1912. Seus resultados no críquete eram os registros mais frequentes do diário nesses anos.
Em 1900, fundou em sua casa o Undershaw Rifle Club, com uma pista de tiro de cerca de 91 metros para os moradores da região. O desempenho dos soldados britânicos na Guerra dos Bôeres o convencera de que a população precisava aprender a atirar. Defendeu clubes de armas de pequeno calibre em pistas locais, mais baratos e acessíveis aos trabalhadores que instalações maiores como Bisley, que exigiam áreas afastadas das cidades. Integrou o comitê de clubes de tiro da National Rifle Association britânica.
Foi um dos três jurados da competição de fisiculturismo organizada por Eugen Sandow no Royal Albert Hall, em Londres, em 1901. Os outros dois foram o escultor Charles Lawes-Wittewronge e o próprio Sandow. Praticava boxe como amador e recebeu um convite para arbitrar a luta de pesos-pesados entre James J. Jeffries e Jack Johnson, realizada em Reno, em 1910. Pensou em aceitar, apesar das preocupações dos amigos com possíveis conflitos, mas a distância e seus compromissos o impediram.
Jogava golfe e foi eleito capitão do Crowborough Beacon Golf Club, no Sussex, para 1910. Morava desde 1907 em Windlesham, em Crowborough, com a segunda esposa, Jean Leckie, e os filhos. Permaneceu ali até morrer, em julho de 1930. Em 1913, inscreveu-se no campeonato inglês amador de bilhar inglês.
Durante uma temporada na Suíça, interessou-se pelo esqui, ainda pouco praticado no país. Relatou suas experiências e a paisagem alpina em "An Alpine Pass on 'Ski'", publicado na The Strand Magazine em dezembro de 1894. O artigo ajudou a divulgar o esporte entre os leitores britânicos.
Vida pessoal
Conan Doyle e a família entre 1923 e 1925Retrato de Conan Doyle por Sidney Paget, de 1897Retrato fotográfico de Conan Doyle
Em 1885, casou-se com Louisa Hawkins, chamada de "Touie", nascida em 1857. Filha mais nova de J. Hawkins, de Minsterworth, no Gloucestershire, ela era irmã de um de seus pacientes e sofria de tuberculose. Louisa morreu em 4 de julho de 1906. Em 1907, ele se casou com Jean Elizabeth Leckie, nascida em 1874. Conhecera Jean em 1897 e se apaixonara por ela, mas afirmava ter mantido uma relação platônica enquanto Louisa vivia. A exposição do acervo municipal de Portsmouth informa que Louisa aceitava a presença de Jean na família e sabia que ela poderia se tornar a futura esposa do marido. Jean morreu em Londres em 27 de junho de 1940, dez anos depois do marido.
Durante a Segunda Guerra dos Bôeres, de 1899 a 1902, Conan Doyle trabalhou como médico voluntário no Langman Field Hospital, em Bloemfontein, entre março e junho de 1900. Publicou naquele ano The Great Boer War e, em 1902, o opúsculo The War in South Africa: Its Cause and Conduct, em defesa da atuação britânica no conflito. O segundo texto foi traduzido para outras línguas, e o escritor acreditava que sua publicação explicava a nomeação como cavaleiro por Eduardo VII, anunciada nas honras da coroação de 1902. Recebeu a condecoração pessoalmente do rei no Palácio de Buckingham, em 24 de outubro de 1902.
Apoiou a campanha do jornalista Edmund Dene Morel e do diplomata Roger Casement pela reforma do Estado Livre do Congo. Em 1909, publicou The Crime of the Congo, denunciando as atrocidades da administração colonial. Morel, Casement e Bertram Fletcher Robinson foram apontados como possíveis modelos para personagens de O Mundo Perdido, de 1912. Conan Doyle se afastou de Morel por discordar de sua oposição à Primeira Guerra Mundial. Quando Casement foi condenado à morte por traição após a Revolta da Páscoa, o escritor tentou obter clemência, alegando que ele não estava em pleno uso de suas faculdades mentais.
Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, em meio ao avanço da germanofobia, doou dez xelins à British Brothers' League, organização contrária à imigração. Em 1914, foi um dos 53 escritores britânicos que assinaram a "Authors' Declaration", ao lado de H. G. Wells, Rudyard Kipling e Thomas Hardy. O manifesto defendia a entrada do Reino Unido na guerra, condenava a invasão alemã da Bélgica e afirmava que o país não poderia ter permanecido de fora sem desonra.
Campanhas contra erros judiciais
Estátua de Conan Doyle em Crowborough, no East Sussex
Em 1906, Conan Doyle começou a examinar o caso do advogado George Edalji, de ascendência britânica e indiana, acusado de escrever cartas ameaçadoras e mutilar animais em Great Wyrley. A polícia insistira em sua culpa, embora os ataques a animais tivessem continuado depois da prisão. A campanha ajudou Edalji a obter perdão pelas mutilações e integrou a pressão pela criação da Court of Criminal Appeal, em 1907.
O caso foi dramatizado em um episódio da série da BBC The Edwardians, de 1972. No pastiche The West End Horror, de Nicholas Meyer, publicado em 1976, Holmes ajuda um indiano parse injustiçado pelos tribunais ingleses, origem que Edalji tinha pelo lado paterno. A história também foi recriada no romance Arthur & George, de Julian Barnes, de 2005, adaptado pela ITV como minissérie em três partes em 2015.
O segundo caso foi o de Oscar Slater, judeu de origem alemã condenado em 1909 pelo assassinato de uma mulher de 82 anos, morta a golpes em Glasgow em 1908. Ele administrava uma casa de jogos. As inconsistências da acusação despertaram o interesse do escritor, que pagou a maior parte das despesas do recurso que anulou a condenação em 1928. Os documentos de sua campanha e do processo estão nos arquivos municipais de Glasgow, na Mitchell Library.
Maçonaria e espiritualismo
Em 1887, em Southsea, o major-general Alfred Wilks Drayson, da Portsmouth Literary and Philosophical Society, o incentivou a participar de cerca de vinte sessões e de experiências de telepatia e mediunidade. Em uma carta ao periódico espiritualista Light, naquele ano, declarou-se espiritualista e relatou um episódio que o convencera da realidade dos fenômenos. Em 26 de janeiro de 1887, foi iniciado na maçonaria, na loja Phoenix n.º 257, em Southsea. Deixou a loja em 1889, retornou em 1902 e voltou a se desligar em 1911.
Em 1889, participou da fundação da Hampshire Society for Psychical Research, prosseguindo em investigações que se estenderiam por décadas, com períodos de maior convicção e de dúvida. Em 1893, ingressou na Society for Psychical Research, em Londres, e, no ano seguinte, investigou relatos de poltergeists em Devon com Sidney Scott e Frank Podmore. Sua participação na Ordem Hermética da Aurora Dourada é controversa. A filiação é mencionada em parte da literatura, mas o biógrafo Christopher Sandford considera mais provável que ele tenha recusado o convite, embora conhecesse integrantes da ordem.
Conan Doyle e William Thomas Stead, que morreria no naufrágio do RMS Titanic, acreditaram que Julius e Agnes Zancig usavam telepatia em suas apresentações. Em 1924, Julius divulgou em um jornal londrino, sob o título "Our Secrets!!", o código e os procedimentos que permitiam realizar o número como ilusionismo. O escritor também defendeu fenômenos e materializações que atribuía às médiuns Eusapia Palladino e Mina Crandon, cujas práticas foram denunciadas como fraudulentas.
Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, sua confiança no paranormal foi reforçada pelas supostas capacidades mediúnicas de Lily Loder Symonds, babá de seus filhos. As experiências e as mortes causadas pela guerra o levaram a apresentar o espiritualismo como uma "nova revelação" divina capaz de consolar quem perdera familiares. Escreveu sobre a fé na Light e começou a dar palestras com frequência. Em 1918, publicou The New Revelation.
A adesão de Conan Doyle não começou com a morte de Kingsley, como por vezes se afirma. Ele já se apresentava publicamente como espiritualista em 1916, e o filho morreu em 28 de outubro de 1918, de pneumonia, durante a pandemia de gripe espanhola. Kingsley fora ferido na Batalha do Somme, em 1916, mas voltara ao serviço militar antes de retomar os estudos de medicina. As perdas na família reforçaram sua crença na vida após a morte e na comunicação com os mortos. O irmão, o brigadeiro-general Innes Doyle, morreu de pneumonia em fevereiro de 1919. Dois cunhados, entre eles E. W. Hornung, criador do personagem Raffles, e dois sobrinhos também morreram pouco depois da guerra. Em 1919, publicou The Vital Message.
Encontrou consolo nas ideias espiritualistas e nas tentativas de comprovar a vida após a morte. Defendeu uma orientação cristã para o movimento e propôs que a Spiritualists' National Union acrescentasse a seus princípios o compromisso de seguir os ensinamentos e o exemplo de Jesus. Também pertenceu ao Ghost Club, dedicado a investigar relatos de assombrações.
Conan Doyle e a família em Nova Iorque, em 1922
Em 1919, participou de uma sessão organizada pelo ilusionista P. T. Selbit em seu apartamento em Bloomsbury. Livros posteriores afirmaram que ele aceitara como reais os aparentes fenômenos de clarividência, mas uma reportagem da época no Sunday Express registrou suas dúvidas e a declaração de que precisaria assistir novamente antes de formar uma opinião definitiva. Em 1920, debateu com o cético Joseph McCabe no Queen's Hall, em Londres. McCabe publicou depois Is Spiritualism Based on Fraud?, contestando os argumentos de Conan Doyle e afirmando que ele fora enganado por truques de médiuns.
O psiquiatra Harold Dearden também o confrontou, rejeitando a ideia de que casos diagnosticados como doença mental fossem provocados por possessão espiritual. Em 1920, o escritor viajou à Austrália e à Nova Zelândia para divulgar suas crenças. Até o fim da vida, deu palestras sobre o assunto no Reino Unido, em outros países europeus e nos Estados Unidos.
Em The Land of Mist, retomou o professor Challenger em uma narrativa de tema espiritualista. Entre os livros de não ficção, publicou The Coming of the Fairies, em 1922, defendendo a autenticidade das cinco fotografias das fadas de Cottingley. Décadas depois, as primas Frances Griffiths e Elsie Wright admitiram ter produzido as montagens, embora continuassem a afirmar que haviam visto fadas.
Manteve amizade com Harry Houdini, mas não aceitou as explicações do ilusionista sobre seus próprios números. Em The Edge of the Unknown, atribuiu-lhe poderes sobrenaturais. Bernard M. L. Ernst contou que Houdini realizou uma demonstração na presença de Conan Doyle e esclareceu que se tratava apenas de um truque, na esperança de fazê-lo reconsiderar sua confiança em fenômenos que não conseguia explicar. O escritor continuou convencido de que havia algo sobrenatural. Houdini, que se dedicou a expor fraudes de médiuns na década de 1920, tornou-se um adversário público das crenças do amigo, e os dois romperam.
Fotografia de Conan Doyle feita por Ada Deane em 1922, com uma suposta presença espiritual
Em 1922, o pesquisador Harry Price acusou o fotógrafo William Hope de produzir imagens espíritas fraudulentas. Conan Doyle o defendeu, embora outros investigadores também encontrassem indícios de manipulação. Ameaçou obter a expulsão de Price do National Laboratory of Psychical Research e advertiu que ele poderia ter o mesmo destino de Houdini se continuasse a publicar o que chamava de ataques aos espiritualistas. Price afirmou ter sido hostilizado durante anos por Conan Doyle e seus amigos por expor Hope. O escritor liderou a saída de 84 membros da Society for Psychical Research, em protesto contra o que consideravam uma postura contrária ao espiritualismo.
Em 1923, visitou o médico e pesquisador T. G. Hamilton, em Winnipeg, no Canadá, e participou de uma reunião em sua casa, na qual uma médium apresentou supostos fenômenos paranormais.
A obra The History of Spiritualism, em dois volumes, saiu em 1926. W. Leslie Curnow reuniu material e colaborou na redação. O livro abrange o movimento espiritualista anglo-saxão e o espiritismo de Allan Kardec, além de experiências na Alemanha e na Itália. No mesmo ano, Robert John Tillyard publicou uma resenha em grande parte favorável na Nature. A avaliação provocou respostas de A. A. Campbell Swinton e de outros críticos, que apontaram fraudes e contestaram os métodos empregados na investigação dos fenômenos. Em 1927, Conan Doyle concedeu uma entrevista filmada sobre Sherlock Holmes e suas crenças espiritualistas.
Seus escritos espiritualistas circularam no Brasil em traduções como A Nova Revelação, de Guillon Ribeiro, acompanhada de uma biografia por Indalício H. Mendes. A edição de As Aventuras de Sherlock Holmes foi proibida na União Soviética em 1929 sob acusação de ocultismo. A recepção soviética das histórias também incluiu as adaptações estreladas por Vasily Livanov, condecorado com a Ordem do Império Britânico por sua interpretação do detetive.
Suspeitas sobre a fraude de Piltdown
O historiador da ciência Richard Milner propôs que Conan Doyle poderia ter participado da fraude do homem de Piltdown, apresentada em 1912 e aceita por mais de quarenta anos. Milner sugeriu que o escritor teria querido se vingar de cientistas que desacreditaram um médium de sua confiança e interpretou passagens de O Mundo Perdido como possíveis alusões à falsificação. Em Naked Is the Best Disguise, de 1974, Samuel Rosenberg também procurou nos livros do escritor pistas para aspectos ocultos de seu pensamento que poderiam ser compatíveis com uma participação na fraude.
Em 2016, uma equipe com pesquisadores do Museu de História Natural de Londres e da Liverpool John Moores University reuniu dados de DNA, anatomia e técnicas de preparação dos fósseis que relacionavam as montagens ao arqueólogo amador Charles Dawson. Os dentes de orangotango atribuídos às duas descobertas, de 1912 e 1915, eram compatíveis com um único animal, e os materiais apresentavam técnicas semelhantes de preparação. A repetição dos métodos apontava para um único responsável pela preparação do material, mas não permitia determinar se Dawson tivera cúmplices.
O antropólogo Chris Stringer observou que Conan Doyle jogava golfe perto do local e dera carona a Dawson, mas considerou improvável que um escritor com tantos compromissos tivesse preparado a fraude. Para Stringer, os vestígios permitiam relacionar Dawson a todas as descobertas, e sua ambição de reconhecimento profissional, inclusive de ingresso na Royal Society, oferecia uma explicação para o embuste.
Arquitetura
Fachada de Undershaw, com Mary e Kingsley diante da casa
Em 1895, Conan Doyle encomendou uma casa ao amigo e arquiteto Joseph Henry Ball e participou da elaboração do projeto. Morou em Undershaw, perto de Hindhead, no Surrey, de outubro de 1897 a setembro de 1907. A casa funcionou como hotel e restaurante de 1924 a 2004, quando foi adquirida por uma incorporadora. Permaneceu desocupada durante a campanha de preservação organizada por admiradores do escritor. Em 2012, a Alta Corte de Justiça anulou a autorização de reforma por falhas no procedimento de aprovação. O edifício foi restaurado e passou a abrigar a Stepping Stones, escola para alunos com necessidades educacionais especiais.
Conan Doyle com o filho Adrian, em 1930
Em março de 1912, hospedado no Lyndhurst Grand Hotel, desenhou uma ampliação de um andar e alterações na fachada. As obras começaram naquele ano e seguiram de perto seus esboços. Mudanças posteriores modificaram detalhes, mas conservaram a estrutura da ampliação.
Durante uma viagem ao Parque Nacional Jasper, no Canadá, em 1914, ajudou a planejar um campo de golfe para um hotel. O projeto não chegou a ser executado no local previsto, pois os planos do hotel foram alterados.
Em 1926, lançou a pedra fundamental de um templo espiritualista em Camden, em Londres. Doou quinhentas das seiscentas libras necessárias à construção.
Crimes Club
Conan Doyle fundou em 1903 o Crimes Club, um clube privado para discutir crimes, investigação e criminologia. Sob o nome "Our Society", a organização mantém o limite de cem integrantes e realiza quatro reuniões anuais no Imperial Hotel, na Russell Square, em Londres. Seus encontros seguem a Regra da Chatham House, e o logotipo usa a silhueta do escritor.
Sepultura de Conan Doyle em MinsteadA sepultura e a igreja de Minstead, em 2025
Em 7 de julho de 1930, Conan Doyle foi encontrado com a mão no peito no vestíbulo de sua casa, Windlesham, em Crowborough. Morreu de um ataque cardíaco, aos 71 anos. Suas últimas palavras, dirigidas à esposa, foram "Você é maravilhosa". Como se declarava espiritualista e não cristão, houve controvérsia sobre onde sepultá-lo. Foi enterrado no jardim de rosas de Windlesham em 11 de julho. No testamento, deixou uma renda anual de 250 libras para Alfred Wood, seu secretário particular desde 1897.
Seus restos mortais e os de Jean foram depois transferidos para o cemitério da igreja de Minstead, em New Forest, no Hampshire. O epitáfio diz "Steel true / Blade straight / Arthur Conan Doyle / Knight / Patriot, physician and man of letters", traduzido como "Aço verdadeiro / Lâmina reta / Arthur Conan Doyle / Cavaleiro / Patriota, médico e homem de letras".
Placas de madeira em memória do casal, originalmente na igreja de Minstead, passaram a integrar a exposição sobre Sherlock Holmes do Museu de Portsmouth. Uma estátua homenageia o escritor em Crowborough Cross, na cidade onde viveu por 23 anos. Em Edimburgo, outra estátua representa Sherlock Holmes em Picardy Place, perto da casa natal de seu criador.
Além das estátuas e placas, Conan Doyle foi homenageado em um selo da Royal Mail em 2009, na emissão "Eminent Britons", dedicada a dez personalidades britânicas.
Representações
Conan Doyle foi interpretado no cinema, na televisão, no rádio, no teatro e em jogos eletrônicos.
Ryohei Kimura no jogo para dispositivos móveis Ikémen Vampire: Temptation in the Dark, de 2019.
Na ficção
Conan Doyle é apresentado como narrador de "Cracks in an Edifice of Sheer Reason", conto de Ian Madden. Também é um personagem recorrente da série infantil Christie and Agatha's Detective Agency, de Pip Murphy, que compreende A Discovery Disappears e Of Mountains and Motors.
Os títulos e as datas abaixo correspondem à publicação original em livro, salvo indicação de texto publicado na imprensa. Os títulos em português podem variar entre edições.
A seleção brasileira Os Seis Napoleões e outras aventuras de Sherlock Holmes, traduzida por Lígia Junqueira e publicada pela Ediouro em 1979, reúne parte das histórias de A Volta de Sherlock Holmes.
William Crookes, cientista envolvido em investigações de fenômenos mediúnicos.
Notas
↑Na formação médica britânica, o doutorado era um grau posterior à qualificação que já permitia exercer a medicina. Conan Doyle trabalhava como médico antes de apresentar essa tese.
↑O deputy lieutenant é um representante auxiliar da Coroa em um condado britânico. O cargo não equivale ao de deputado no Parlamento.
↑O livro recebeu em português o título História do Espiritismo. No original, spiritualism abrange movimentos de comunicação com os mortos que não seguem necessariamente os princípios organizados por Allan Kardec. O título traduzido não torna esses movimentos idênticos.
Referências
12«The Coronation Honours». The Times (36804). 26 de junho de 1902. p.5
123Daniel Stashower (1999). Teller of Tales: The Life of Arthur Conan Doyle (em inglês). [S.l.]: Henry Holt & Company. pp.55, 58–59. ISBN9780805050745
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