Cultura de Merinde

A Cultura Merimde (Merimdana ou Merimda) foi uma cultura da parte ocidental do Delta do Nilo que desenvolveu-se entre 5000-4 100 a.C. no sítio de Merimde Beni-Salama (em torno de 4300-4 100 a.C. sua população situava-se entre 900-2000 habitantes); segundo datas obtidas no sítio, tal cultura possuiu relação com Faium: "as datas de 5200-4 500 a.C. são congruentes com a visão de que Merimda, em seus estágios iniciais, estava intivamente associada com o Faium Neolítico".

Trabalhos arqueológicos

Merimde foi descoberto por um ex-padre alemão chamado Hermann Junker, que escavou 6.400 m² do local durante a sua expedição ao Delta Ocidental entre 1928-1939. A expedição foi financiada por Albert Rothbart de Nova Iorque por conta da Academia de Viena. Mais tarde, as escavações efetuadas na década de 1970, realizadas pelo Conselho Supremo de Antiguidades e do Instituto Alemão de Arqueologia, levou ao estabelecimento da sequência estratigráfica.

Características

O sítio de Merimde Beni-Salama era "idealmente situado para aproveitar tanto a generosidade das pastagens semi-áridas fora do Delta e a promessa de aluvião do rico Nilo". Possuía cerca de 200.000 m2 e está dividido em cinco camadas ocupacionais:

A industria lítica é formada por machados cilíndricos alongados, machados trapezoidais, foices, pontas de flecha, raspadores, furadores, cabeças de clavas esféricas ou em forma de pêra (possível evidência de conflitos com comunidades vizinhas), facas e serras unifaciais. Figuras antropomórficas de barro, moinhos de mão, mós, paletas (calcita, granito, pedra basáltica preta), vasos de pedra (basalto, diorito), implementos feitos com osso (furadores, arpões), marfim e chifres, pequenos objetos em forma de ovo (calcário) interpretados como pesos, um fuso e joias. A cerâmica foi dividida em três tipos: cerâmica (camada I; composta por tigelas, copos e bacias) vermelha ou amarela-acinzentada polida, com temperamento de palha picada e decoração com padrões produzidos com espinhas de peixe; cerâmica (camada II; composta por cálices e copos com pés altos) preta polida com temperamento a base de palha, protuberâncias e semelhança com achados de El-Omari e Faium; cerâmica (camadas III-IV) semelhante a de Faium.

A economia merindana era baseada na caça (auroques, antílopes, gazelas-dorcas, hipopótamos, gatos e porcos selvagens, hienas, chacais, raposas, leões, doninhas, lebres, ouriços, musaranhos, ratos, gerbilos, tartarugas, crocodilos, aves), pesca (peixes, mexilhões bivalves e mariscos), pecuária (ovinos, caprinos, bovinos e suínos) e agricultura (trigo, sorgo, cevada, ervilhaca, Rumex).

A partir da segunda camada ocupacional de Merimde foram evidenciadas diversas características semelhantes entre Merimde e o Faium, especialmente a industria lítica e a economia; alguns acreditam que a cultura Faiumiana originou-se em Merimde, enquanto outros imaginam que ambas descendam de ancestrais comuns provenientes da própria África (Núbia) ou do Oriente Médio (Vale do Jordão): "Merimde não é significativamente diferente das aldeias contemporâneas na Palestina, Chipre, e Mesopotâmia e apresenta nenhuma das características distintamente egípcias de povos badarianos". No seio merimdano foram evidenciados elementos provenientes tanto do Oriente Próximo (machados lascados, enxós, clavas, vasos com pés, estatuetas e panelas de cabo longo de argila, poços de lama engessada para celeiros, decoração de vasos, criação de suínos, caprinos e ovinos, cultivo de trigo, sepultamento de mortos dentro do assentamento) como do Deserto Ocidental (pontas de flechas de base côncava, culto ao gado, machados cilíndricos, alinhamentos megalíticos, costumes habitacionais e fúnebres) o que indica contatos culturais entre estas regiões e Merimde.

Em conformidade com as cabanas e túmulos produzidos por esta cultura, supõe-se que não houve estratificação social; nos túmulos raramente houve bens, e quando presentes consistiam em grãos ou pingentes. A presença de hematita, material inútil para as atividades cotidianas, é uma possível evidência de práticas rituais; ossos de hipopótamos também foram possivelmente utilizados em rituais.

Referências

  1. ↑ Shaw 2000, p. 37
  2. 1 2 Hassan 1988, p. 152
  3. ↑ Hawass 1988, p. 38
  4. 1 2 «Merimde Beni-salame (the Merimde culture)» (em inglês). Consultado em 15 de fevereiro de 2012
  5. ↑ Hoffman 1979, p. 168
  6. 1 2 Bard 1999, p. 501-505
  7. ↑ Hoffman 1979, p. 170
  8. ↑ Butzer 1976, p. 16
  9. ↑ Friedman 1992, p. 173
  10. ↑ Hassan 1988, p. 151
  11. ↑ Shaw 1995, p. 212
  12. ↑ Hayes 1964, p. 104
  13. 1 2 3 4 5 6 «Merimda Beni-Salama» (em inglês). Consultado em 15 de fevereiro de 2012
  14. ↑ Hayes 1964, p. 105-106
  15. ↑ «Predynastic» (em inglês). Consultado em 15 de fevereiro de 2012
  16. ↑ Boessneck 1988, pp. 13-21
  17. ↑ Krzyzaniak 1977, p. 89
  18. ↑ Seidlmayer 1998, p. 10-11
  19. ↑ Ginter 1989, p. 173
  20. ↑ Hoffman 1979, p. 176
  21. ↑ «Predynastic and Protodynastic Egypt» (em inglês). Consultado em 9 de fevereiro de 2012
  22. ↑ Hoffman 1979, p. 177
  23. ↑ Hayes 1964, p. 112

Bibliografia