Denethor

Denethor II, filho de Ecthelion II, é um personagem fictício do romance de J. R. R. Tolkien O Senhor dos Anéis. Ele foi o 26º Regente de Gondor, morrendo por suicídio na cidade sitiada de Minas Tirith durante a Batalha dos Campos do Pelennor.

Denethor é retratado como amargurado e desesperado enquanto as forças de Mordor se aproximam de Gondor. Críticos notaram o contraste entre Denethor e Théoden, o bom rei de Rohan, e Aragorn, o verdadeiro rei de Gondor. Outros compararam Denethor ao Rei Lear de Shakespeare, ambos os governantes caindo em um desespero perigoso.

Na trilogia cinematográfica de O Senhor dos Anéis, Peter Jackson optou por retratar Denethor, interpretado por John Noble, como ganancioso e autoindulgente, muito diferente do líder poderoso de Tolkien.

Biografia ficcional

Bandeira dos Regentes de Gondor.

No universo da Terra Média de Tolkien, Denethor é o primeiro filho e terceira criança de Ecthelion II, um Regente de Gondor. Ele se casa com Finduilas, filha do Príncipe Adrahil de Dol Amroth. Ela dá à luz dois filhos, Boromir e Faramir, mas morre quando eles têm dez e cinco anos, respectivamente. Denethor nunca se casa novamente, tornando-se mais sombrio e silencioso. Ele é um homem de grande força de vontade, visão e poder, mas também excessivamente confiante. Gandalf o descreve como "orgulhoso e sutil, um homem de linhagem e poder muito maiores [que Théoden de Rohan], embora não seja chamado de rei." Gandalf prossegue:

Diferentemente de Saruman, Denethor é forte demais para ser diretamente corrompido por Sauron. Ele começa a usar secretamente um palantír para sondar a força de Sauron, insistindo, erroneamente, que pode controlá-lo. O esforço o envelhece rapidamente, e a impressão da força avassaladora de Sauron que ele obtém do palantír o deprime profundamente, já que Sauron manipula o que Denethor vê. A morte de Boromir intensifica seu desespero. Mesmo assim, ele continua a combater Sauron até que as forças de Mordor chegam aos portões de Minas Tirith, momento em que perde toda esperança. No ensaio publicado sobre os palantíri, Tolkien escreveu:

Quando a invasão se torna certa, Denethor ordena que os faróis de alerta de Gondor sejam acesos e convoca forças das províncias de Gondor e de Rohan, enquanto o povo de Minas Tirith é enviado para um lugar seguro. Denethor ordena que seu filho Faramir leve seus homens para defender a travessia do rio em Osgiliath e a grande muralha do Rammas Echor. Faramir é ferido, aparentemente de forma mortal; seu corpo é levado de volta à cidade.

'Então continue esperando!' riu Denethor. 'Não te conheço, Mithrandir? Tua esperança é governar em meu lugar, estar por trás de cada trono, norte, sul ou oeste... Então! Com a mão esquerda, tu me usarias por um tempo como um escudo contra Mordor, e com a direita trarias esse Guardião do Norte para me suplantar. Mas eu te digo, Gandalf Mithrandir, não serei teu instrumento! Sou Regente da Casa de Anárion. Não me rebaixarei a ser o camareiro senil de um arrivista. Mesmo que sua reivindicação fosse provada para mim, ele ainda vem apenas da linhagem de Isildur. Não me curvarei a tal, o último de uma casa esfarrapada, há muito desprovida de senhorio e dignidade.'

Denethor, devastado pela aparente perda de seu filho, ordena que seus servos o queimem vivo em uma pira funerária preparada para ele e Faramir em Rath Dínen. Ele quebra a vara branca de seu cargo sobre o joelho, jogando os pedaços nas chamas. Deita-se na pira e morre, segurando o palantír em suas mãos. Faramir é salvo das chamas por Gandalf.

Análise

Falhas de caráter

A loucura e desespero de Denethor [en] foram comparados aos de Rei Lear de Shakespeare. Ambos os governantes se enfurecem quando seus filhos (Faramir e Cordélia, respectivamente) se recusam a ajudá-los, mas depois sofrem com a morte de seus filhos – que, no caso de Faramir, é apenas percebida. Segundo Michael D. C. Drout [en], tanto Denethor quanto Lear "desesperam da misericórdia de Deus", algo extremamente perigoso em um líder que precisa defender seu reino. Sauron leva Denethor ao suicídio ao mostrar no Palantír a Frota Negra se aproximando de Gondor, enquanto oculta o fato de que os navios carregam as tropas de Aragorn, que vêm para resgatar Gondor. O estudioso de Tolkien Tom Shippey [en] comenta que isso faz parte de um padrão em torno do uso do palantír, de que não se deve tentar prever o futuro, mas confiar na sorte e tomar decisões corajosamente, enfrentando o dever em cada situação. A medievalista Elizabeth Solopova [en] observa que, ao contrário de Aragorn, Denethor é incapaz de exibir o que Tolkien, em Beowulf: os Monstros e os Críticos, chamou de " coragem nórdica", ou seja, o espírito de continuar enfrentando uma derrota e morte certas. Alex Davis, na Enciclopédia de J. R. R. Tolkien, escreve que muitos críticos examinaram a queda e a liderança corrompida de Denethor, enquanto Richard Purtill identifica seu orgulho e egoísmo, um homem que considera Gondor sua propriedade.

Denethor vs Théoden

A estudiosa de Tolkien Jane Chance [en] contrasta Denethor com outro "rei germânico", Théoden, e com o "verdadeiro rei" de Gondor, Aragorn. Na visão de Chance, Théoden representa o bem, Denethor o mal; ela observa que seus nomes são quase anagramas, e que, enquanto Théoden acolhe o Hobbit Merry Brandebuque em seu serviço com amizade calorosa, Denethor aceita o amigo de Merry, Pippin Took [en], com um contrato severo de fidelidade. Chance escreve que Tolkien ainda contrapõe Théoden e Denethor ao "senhor cristão" Aragorn. Em sua opinião, Denethor "falha como pai, mestre, regente e homem racional", sucumbindo ao desespero, enquanto Aragorn é corajoso na batalha, gentil com seu povo e possui o atributo cristão de cura.

Shippey faz a mesma comparação, estendendo-a a vários elementos das histórias dos dois homens, escrevendo que Théoden vive por uma teoria de coragem nórdica e morre pelo desespero de Denethor.

Análise de Tom Shippey sobre a simetria nas histórias de Théoden e Denethor
Elemento da históriaThéoden, Rei de RohanDenethor, Regente de Gondor
Subgrupo encontra um estranho útilAragorn, Gimli e Legolas encontram ÉomerFrodo e Sam encontram Faramir
Líder do subgrupo confronta o estranhoAragorn desafia ÉomerFrodo esconde sua missão de Faramir
Estranho decide ajudar o grupo, contra os desejos de seu superiorÉomer empresta cavalosFaramir deixa Frodo e Sam irem
Líder é um homem velho que perdeu um filhoThéodred morreu em batalhaBoromir morreu salvando os Hobbits
Líder vê outro herdeiro como "substituto duvidoso"Éomer é um sobrinhoFaramir é estudioso, não guerreiro
Líder morre durante a Batalha dos Campos do PelennorThéoden morre em batalhaDenethor comete suicídio durante a batalha
Salão do líder é descrito em detalhes Meduseld, o "salão dourado"O salão de pedra em Minas Tirith
Hobbit jura lealdade ao líderMerry junta-se aos Cavaleiros de RohanPippin torna-se um guarda do palácio de Gondor

Adaptações

Versões iniciais

Denethor foi dublado por William Conrad na adaptação animada de 1980 de O Retorno do Rei da Rankin/Bass, e por Peter Vaughan na BBC Radio na serialização de 1981.

Filmes de Peter Jackson

Denethor é interpretado por John Noble no filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei de Peter Jackson. O filme retrata Denethor de maneira muito mais negativa que o romance. Tolkien descreve Denethor como:

Shippey comenta que, enquanto o Denethor de Tolkien é um governante frio fazendo o melhor por seu país, o de Jackson é apresentado como ganancioso e autoindulgente; Shippey chama a cena em que ele devora uma refeição, enquanto seu filho Faramir é enviado a uma luta sem esperança, de um "uso flagrante de sugestão cinematográfica".

A Christianity Today escreveu que os filmes "perderam as profundezas morais e religiosas" do livro, como quando transformaram "a terrível sutileza e complexidade do mal" em algo trivialmente óbvio. Citou como exemplo a caricatura do poderoso Regente de Gondor, Denethor, como "um idiota rosnante e babante, em vez de um pessimista nobre".

Daniel Timmons escreve na Enciclopédia de J. R. R. Tolkien que Jackson caracteriza Denethor e outros de maneira "muito distante do texto de Tolkien", mas que a versão cinematográfica consegue "dramatizar a tentação insidiosa ao mal" e que, por meio das quedas de Saruman, Denethor e Sauron, vemos "os amargos frutos da cobiça por poder e sua influência corruptora."

Referências

  1. 1 2 Davis, Alex (2006). «Jackson, Peter: Artistic Impression» [Jackson, Peter: Impressão Artística]. In: Drout, Michael D. C. J.R.R. Tolkien Encyclopedia: Scholarship and Critical Assessment. Routledge. p. 120. ISBN 1-135-88034-4
  2. 1 2 Kocher, Paul (1974) [1972]. Master of Middle-earth: The Achievement of J.R.R. Tolkien [Mestre da Terra Média: A Conquista de J.R.R. Tolkien]. [S.l.]: Penguin Books. p. 63. ISBN 0140038779
  3. ↑ Smith, Leigh (2007). Croft, Janet Brennan, ed. The Influence of King Lear on Lord of the Rings [A Influência do Rei Lear em O Senhor dos Anéis]. [S.l.]: McFarland & Company. p. 140. ISBN 978-0-78642-827-4
  4. ↑ (Shippey 2005, pp. 188, 423-429)
  5. ↑ (Solopova 2009, pp. 28–29)
  6. ↑ Purtill, Richard L. (2003). J.R.R. Tolkien: Myth, Morality, and Religion [J.R.R. Tolkien: Mito, Moralidade e Religião]. [S.l.]: Ignatius. p. 85. ISBN 978-0898709483
  7. ↑ (Chance 1980, pp. 119-122)
  8. ↑ (Shippey 2005, pp. 136–137, 177–178, 187)
  9. 1 2 (Shippey 2001, pp. 50–52, 96)
  10. ↑ «The Return of the King» [O Retorno do Rei]. Behind the Voice Actors. Consultado em 17 de fevereiro de 2021. Cópia arquivada em 4 de março de 2025
  11. ↑ Pearse, Edward (15 de janeiro de 2009). «The Lord of the Rings, Episode 2» [O Senhor dos Anéis, Episódio 2]. Radio Riel. Arquivado do original em 15 de janeiro de 2020
  12. ↑ Jones, Alan. «The Lord of the Rings: The Return of the King» [O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei]. Radio Times. Consultado em 13 de fevereiro de 2020. Cópia arquivada em 12 de abril de 2021
  13. ↑ (Shippey 2005, pp. 409–429)
  14. 1 2 3 «The Lure of the Obvious in Peter Jackson's The Return of the King» [A Atração do Óbvio em O Retorno do Rei de Peter Jackson]. Christianity Today. 1 de dezembro de 2003. Consultado em 18 de abril de 2021. Cópia arquivada em 26 de maio de 2024
  15. ↑ Timmons, Daniel (2006). «Jackson, Peter | Artistic Impression» [Jackson, Peter | Impressão Artística]. In: Drout, Michael D. C. J.R.R. Tolkien Encyclopedia: Scholarship and Critical Assessment]]. Routledge. p. 308. ISBN 1-135-88034-4

J. R. R. Tolkien

  1. ↑ Tolkien 1996, pp. 206–207
  2. 1 2 3 4 5 Tolkien 1955, livro 5, cap. 1 "Minas Tirith"
  3. 1 2 3 Tolkien 1980, pp. 526–527
  4. ↑ Tolkien 1955, livro 5, cap. 3 "A Mobilização de Rohan"
  5. 1 2 Tolkien 1955, livro 5, cap. 4 "O Cerco de Gondor"
  6. 1 2 Tolkien 1955, livro 5, cap. 7 "A Pira de Denethor"

Bibliografia

J. R. R. Tolkien

  • Tolkien, J. R. R. (1955). The Lord of the Rings: The Return of the King [O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei]. Boston: Houghton Mifflin. OCLC 519647821 
  • Tolkien, J. R. R. (1980). Tolkien, Christopher, ed. Unfinished Tales [Contos Inacabados]. Boston: Houghton Mifflin. ISBN 978-0-395-29917-3 
  • Tolkien, J. R. R. (1996). Tolkien, Christopher, ed. The Peoples of Middle-earth [Os povos da Terra-média]. Boston: Houghton Mifflin. ISBN 978-0-395-82760-4