Elizabeth Viana

Elizabeth Viana (Marília, 17 de Dezembro de 1950) é cantora e intérprete brasileira. Com uma carreira de mais de cinco décadas, é conhecida por sua relevante contribuição na música brasileira, sobretudo no gênero musical Samba Rock. Graças ao seu pioneirismo e à longevidade de sua obra, é reconhecida como a "Rainha do Samba Rock".

A cantora e intérprete Elizabeth Viana (por Glória Flugel)

Trajetória

Após vivenciar a adolescência descobrindo-se cantora, ao lado de importantes bandas de baile e orquestras na capital paulista, Elizabeth Viana inicia oficialmente sua carreira como intérprete em 1967 quando vence “A Grande Chance”, famoso programa de calouros criado e apresentado pelo então apresentador Flávio Cavalcanti. Além de um contrato de 5 anos com a TV Tupi, a cantora de Marília, interior de São Paulo, ganha então a oportunidade de lançar um compacto simples pela gravadora RCA/Victor, escolhendo a música Meu Guarda-Chuva, do já conhecido Jorge Ben, como abre-alas, o que a trouxe o título de Rainha do Samba Rock.

A jovem Elizabeth Viana participa do programa de TV Grande Gincana Kibon

Até o ano de 1976 tem uma intensa agenda de lançamentos fonográficos - como é o caso dos sucessos Se quiser mas sem bronquear (Jorge Ben), Se quer chorar (Antonio Carlos e Jocafi), Olê Olá (Chico Buarque) -, e apresentações por todo o Brasil, participando de temporadas em teatros com grandes nomes da MPB (Jair Rodrigues, Os Originais do Samba, etc) além de ser convidada frequente de programas de rádio e televisão, sobretudo em São Paulo e Rio de Janeiro.

Em 1970, acompanhada de Marcos Valle, participa do programa MPB Especial, de Fernando Faro. No VII Festival Internacional da Canção, em 1972, defendeu a composição Diferenças, com Rildo Hora. No ano de 1977, ao lado de um time do alto escalão da música instrumental brasileira como Heraldo do Monte, Cláudio Bertrami, Luiz Mello, e participação do jovem Branca di Neve na percussão, lança o LP “Canto Livre”, com prensagens também em países europeus. Neste álbum de 10 faixas, Elizabeth Viana grava as composições inéditas Dupla Traição, de Djavan, João e Maria, de Chico Buarque e Sivuca, e Dilé, de Jorge Ben. Depois de alguns anos fora da cena musical para dedicar-se a família, em 1987, Elizabeth lança um mix (compacto simples no formato de LP) com duas canções de Benê Alves, Magia no Olhar e Pisou na Bola, essa última obtendo enorme sucesso junto ao público dos bailes black.

Em 1989 é convidada para estrelar uma temporada de 6 meses na cidade de Okayama, no Japão, difundindo a música e a cultura brasileira. Desde então, de volta à noite, segue realizando shows na cena independente, sobretudo a convite de jovens bandas interessadas na trajetória da cantora e na história do Samba Rock, circulando em casas de shows e no circuito musical do Sesc. No ano de 2002, a convite da TV Cultura, se consagra ao gravar o programa Ensaio. As gravações mais recentes se tratam de registros de apresentações ao vivo e material não publicado, como é o caso de Diz DJ (Luís Vagner) e Marinella (Janja Gomes), ambas com a banda mineira 2°DP. Recentemente, pelo projeto #CulturaemCasa, Elizabeth Viana participou do Festival Raízes Black, no Teatro Sérgio Cardoso, mostrando todo balanço e carisma dessa que é uma das mais bonitas vozes do Brasil.

Os amigos Luis Vagner e Elizabeth Viana em evento na Assembleia Legislativa de São Paulo (2016)

Contribuição

Os 50 anos de carreira não diminuem a disposição de Elizabeth Viana para seguir circulando pelos palcos, conquistando novos públicos. Ao mesmo tempo, evidencia-se a importância de se preservar a memória contida em sua obra - sua chegada ao estrelato, seu contato próximo com compositores brasileiros fundamentais da segunda metade do Século XX, sua agitada agenda de trabalhos até o final dos anos 70, e sua dedicação contínua à música mesmo após os tempos áureos.

É inegável a sua contribuição para o desenvolvimento do Samba Rock no final dos anos 60 e década de 70. Em arquivos da hemeroteca da Biblioteca Nacional é possível encontrar grandes feitos da artista.

Segundo o pesquisador Pedro Tadeu Faria D'Allevedo, Elizabeth Viana figura, junto de outros artistas relevantes para a construção do imaginário do gênero, no que chamou de "playlist dos bailes nostalgia (Samba Rock tradicional [ou das antigas] nacional)", com a música Meu Guarda-Chuva (p.264). Já Luciana Xavier de Oliveira, em sua monografia, também reforça a tese de que as gravações da intérprete fizeram sucesso nos bailes e festas da periferia na transição dos anos 60 para 70 (p.20).

Em publicação no portal Geledés - Instituto da Mulher Negra, na seção Patrimônio Cultural, a gravação Meu Guarda-Chuva também é mencionada como uma das 100 músicas consideradas "black hits".

Entrevistas

Embora haja um quantidade razoável de citações a Elizabeth Viana nos arquivos da Hemeroteca da Biblioteca Nacional, sobretudo nos anos 1970, há poucos registros de reportagens que tragam a sua perspectiva enquanto protagonista.

No ano de 2024, a intérprete concedeu uma entrevista ao jornalista Pedro Alexandre Sanches com detalhes sobre os desafios da carreira, vida pessoal e algumas curiosidades de sua vivência na música. Em um encontro na cidade de São Roque (SP), após um de seus shows, Elizabeth Viana conta de suas participações em festivais, programas da TV Globo e TV Tupi, seu contato com diversos artistas fundamentais para a MPB e com produtores de renome, como Fernando Faro.

Outro tema abordado na conversa foi o mistério que envolve o título da música Bebete Vãobora, um clássico da obra de Jorge Ben:

"(A Casa Musical) Era onde a gente ficava antes de ir ao ar, perto da Tupi. Era o escritório do Faro, onde ele ficava e ficava todo mundo, Gal Costa, Caetano, Jorge, todo mundo. A gente ia tomar café, ficava todo mundo lá. Tenho que encontrar Jorge Ben e relembrar ele que 'Bebete Vambora' saiu do meu nome. Estávamos na Casa Musical, fiquei conversando com Faro, Jorge estava do meu lado quando alguém gritou: 'Bete, vambora!'. Jorge estava com o violão na mão, olhou bem para mim e falou: 'Nossa, ainda não cantaram Elizabeth…'. Passou algum tempo, escutei a música. Olha só, foi naquele momento. Quero um dia encontrar com ele e ver se ele lembra esse detalhe", conta Elizabeth ao entrevistador.

Gravações

As gravações originais da obra de Elizabeth Viana são relativamente raras de serem encontradas em lojas especializadas. Igualmente, há diversos fonogramas que foram lançados exclusivamente em compactos e LPs, não havendo reedições em suporte físico ou digital. Recomenda-se a busca de tais registros no Youtube e nas redes sociais oficais da cantora.

Como citado no artigo de Pedro Alexandre Sanches, Elizabeth Viana "(...) desenvolveu uma carreira discográfica curta e dispersa e foi invisibilizada pela mídia caça-cliques (ou o que quer que governasse o “sucesso” à época). Essa escassez, no entanto, não a impediu de passar grande parte das últimas sete décadas em cima do palco, dos mais variados palcos, fosse nos programas da TV Tupi e da Globo, nos festivais da canção, em boates, em teatros (caso da temporada carioca de 1970 no Teatro Casa Grande, ao lado de Jair Rodrigues, Márcia e Os Originais do Samba), em bares (como o Trem Azul, em Pinheiros, na capital paulista, do qual foi sócia minoritária) (...)".

Abaixo, catálogo organizado pelo músico e produtor cultural Pedro Cezar, a partir do contato com material físico (compactos simples, duplos, LPs e outros materiais promocionais do arquivo pessoal de Elizabeth), além de consultas em sites na internet:

Discografia de Elizabeth Viana
Nº Música Compositores Ano Gravadora / selo Álbum Intérpretes Formato
— Meu Guarda-Chuva Jorge Ben 1969 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto simples
— Segredo Herivelto Martins; Marino Pinto 1969 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto simples
1 Meu Guarda-Chuva Jorge Ben 1969 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto duplo
2 Bossa na Fossa (pot-pourri): De Cigarro em Cigarro; Ninguém Me Ama; Ouça Luiz Bonfá; Fernando Lobo; Antonio Maria; Maysa 1969 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto duplo
1 Se Você Quiser Mas Sem Bronquear Jorge Ben 1969 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto duplo
2 Fechei a Porta Sebastião Mota; Ferreira dos Santos 1969 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto duplo
2 Gostei de Ver Eduardo Gudin; Marco Antonio da Silva Ramos 1969 RCA Victor V Festival de Música Popular Brasileira Elizabeth Viana Compacto duplo
5 O Sonho Egberto Gismonti 1969 RCA Victor Disparo 70 Elizabeth Viana Long play
— Tem Que Me Aceitar Como Eu Sou Mario Marcos 1970 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto simples
— Gosto de Sorrir Renato Junior 1970 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto simples
4 Olé, Olá Chico Buarque de Hollanda 1970 RCA Victor / Abril Cultural Música Popular Brasileira – Chico Buarque de Hollanda Elizabeth Vianna com Regional Long play
— Se Quer Chorar Antonio Carlos; Jocafi 1971 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto simples
— Primeiro Vento Eduardo Gudin; Marcão 1971 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto simples
6 Eu Não Queria Antonio Carlos; Jocafi 1971 — Cada Um na Sua Vários Long play
— Diferenças Rildo Hora; Manuel Nunes 1972 RCA Victor Rildo & Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto simples
1 Cheguei Bahia Hilton; Didi 1973 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto duplo
2 A Tristeza Bateu em Minha Porta Renato Junior 1973 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto duplo
1 Novo Amor Novo Frevo J. Costa; Edilon; Didi 1973 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto duplo
2 Êle Eduardo Gudin; Paulo Frederico 1973 RCA Victor Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto duplo
— Tataê Gilson de Souza 1973–1976 (aprox.) TAMBÍ Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto simples
— Lamento de Ouro Gilson de Souza 1973–1976 (aprox.) TAMBÍ Elizabeth Viana Elizabeth Viana Compacto simples
1 João e Maria Chico Buarque; Sivuca 1977 Takeplay Canto Livre Elizabeth Viana Long play
2 Beija-Flor Nelson Cavaquinho; Noel Silva; Augusto Tomaz Jr. 1977 Takeplay Canto Livre Elizabeth Viana Long play
3 Dupla Traição Djavan 1977 Takeplay Canto Livre Elizabeth Viana Long play
4 Lágrimas Gilson de Souza 1977 Takeplay Canto Livre Elizabeth Viana Long play
5 O Que Será (À Flor da Terra) Chico Buarque 1977 Takeplay Canto Livre Elizabeth Viana Long play
1 Dilê Jorge Ben 1977 Takeplay Canto Livre Elizabeth Viana Long play
2 Olhos nos Olhos Chico Buarque 1977 Takeplay Canto Livre Elizabeth Viana Long play
3 Lama Mauro Duarte 1977 Takeplay Canto Livre Elizabeth Viana Long play
4 Canção para Quem Vem Gilson de Souza 1977 Takeplay Canto Livre Elizabeth Viana Long play
5 Brasil, Berço dos Imigrantes Roberto Ribeiro; Jorge Lucas 1977 Takeplay Canto Livre Elizabeth Viana Long play
— Magia no Olhar Bene Alves 1987 Acervo Comercial Fonográfica Ltda. Elizabeth Viana Elizabeth Viana Long play
— Pisou na Bola Bene Alves 1987 Acervo Comercial Fonográfica Ltda. Mix – Elizabeth Viana Elizabeth Viana Long play
— Meu Guarda-Chuva Jorge Ben 1987 Box Music / Ariola Discos Som de Valente – Rolando Rock Elizabeth Viana Long play / coletânea
— Pisou na Bola Benê Alves 1987 Continental Samba Rock em 2 Tempos Elizabeth Viana Long play / coletânea
— Meu Guarda-Chuva (Originais do Samba feat. Elizabeth Viana) Jorge Ben 2003 Rhythm and Blues Swing dos Originais Originais do Samba feat. Elizabeth Viana CD
— A Paz É a Música (Don Richard feat. Elizabeth Viana) Don Richard; Rubem Carvalho 2010 Independente Single Don Richard feat. Elizabeth Viana Single
— O Negócio É Samba Rock Antonio Luiz; Nil Bernardes 2026 OBI Music Coletânea Elizabeth Viana Single
— Tô de Saco Cheio Antonio Luiz; Cesar Augusto 2026 OBI Music Coletânea Elizabeth Viana Single

Observação: consultar o verbete Elizabeth Viana no site internacional Discogs, ainda que, lá, não apareçam todos os lançamentos efetivamente realizados.

Referências

  1. ↑ «Folha de S.Paulo - Música: Jair lança novo disco em moto - contínuo». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 3 de novembro de 2026
  2. ↑ «Jair Rodrigues lança 'Intérprete' - Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: cultura & lazer». Jornal Diário do Grande ABC. 10 de setembro de 2002. Consultado em 3 de novembro de 2026
  3. ↑ Redação (18 de agosto de 2017). «Para dançar: dez pérolas do samba-rock, um gênero verdadeiramente brasileiro». Rolling Stone Brasil. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 5 de novembro de 2025
  4. ↑ «MBRTV – Museu Brasileiro de Rádio e Televisão». Cópia arquivada em 19 de janeiro de 2026
  5. ↑ «Trombonista Marlon Sette toca composição pouco lembrada de Jorge Ben Jor no primeiro álbum solo». G1. 31 de março de 2019. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 25 de setembro de 2022
  6. ↑ «HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA - CHICO BUARQUE». IMMuB. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 9 de dezembro de 2025
  7. ↑ «VII FIC - Mais vale uma 'Cabeça' pensante que...». IMMuB. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 22 de março de 2026
  8. ↑ Elizabeth (23 de julho de 2011). «Diário da Música ♪♫: Elizabeth Viana». Diário da Música ♪♫. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 5 de agosto de 2025
  9. ↑ Paiva, Rayane (23 de setembro de 2026). «Elizabeth Viana, a "Rainha do Samba Rock", se apresenta gratuitamente no Sesc Poços de Caldas nesta sexta-feira (25)». TV Poços. Consultado em 3 de novembro de 2026
  10. ↑ Sul, Cruzeiro do (24 de agosto de 2023). «Fim de semana oferece arte circense e cultura indígena». Cruzeiro do Sul. Consultado em 3 de novembro de 2026
  11. ↑ Barros, Renata (3 de novembro de 2023). «Guia de programação de novembro no Sesc Osasco». Sesc São Paulo. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 11 de outubro de 2025
  12. ↑ D'Allevedo, Pedro Tadeu Faria (16 de outubro de 2017). «1958, o ano que não terminou: memória e performance na cena do baile black nostalgia paulistano». repositorio.ufpb.br. Universidade Federal da Paraíba. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 24 de outubro de 2026
  13. ↑ Oliveira, Luciana Xavier de. «O swing do samba: o samba-rock, e outros ritmos, na construção da identidade negra contemporânea na mídia brasileira»
  14. ↑ Negra, Geledés Instituto da Mulher (6 de maio de 2016). «Black hits: 5 décadas em 100 músicas». Geledés. Consultado em 4 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 18 de abril de 2026
  15. ↑ «Noite Estrelada encanta público da melhor idade em São Roque». Jornal O Democrata. 26 de fevereiro de 2024. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 16 de maio de 2026
  16. ↑ Sanches, Pedro Alexandre (18 de abril de 2024). «Elizabeth Viana, Bebete Vãobora e o samba-rock em São Roque». Farofafá. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 12 de março de 2026
  17. ↑ Regina Lemmi (5 de julho de 2024). «Mosaicos Culturais #57: Bebete, "fica"!». Cópia arquivada em 20 de julho de 2024
  18. ↑ Sanches, Pedro Alexandre (18 de abril de 2024). «Elizabeth Viana, Bebete Vãobora e o samba-rock em São Roque». Farofafá. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 12 de março de 2026
  19. ↑ Sanches, Pedro Alexandre (18 de abril de 2024). «Elizabeth Viana, Bebete Vãobora e o samba-rock em São Roque». Farofafá. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 12 de março de 2026
  20. ↑ «Pedro Cezar | Músico». Pedro Cezar. Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 12 de abril de 2026
  21. ↑ «Elizabeth Viana». Discogs (em inglês). Consultado em 3 de novembro de 2026. Cópia arquivada em 18 de fevereiro de 2021