Gar-bicudo

Gar-bicudo
Exemplar no Gavins Point National Fish Hatchery
Classificação científica edit
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Actinopterygii
Clado: Ginglymodi
Ordem: Lepisosteiformes
Família: Lepisosteidae
Gênero: Lepisosteus
Espécies:
L. osseus
Nome binomial
Lepisosteus osseus
(Lineu, 1758)
Sinónimos
Lista
  • Esox osseus Lineu, 1758
  • Psalidostomus osseus Lineu, 1758
  • Psalisostomus osseus Lineu, 1758
  • Acus maxima Catesby, 1771
  • Acus squamosa Catesby, 1771
  • Acus viridis Catesby, 1771
  • Esox viridis Bonnaterre, 1788 ex Gmelin, 1789
  • Lepisosteus gavial Lacepède, 1803
  • Esox niloticus Perry, 1811
  • Lepisosteus stenorhynchus Rafinesque, 1818
  • Sarchirus vittatus Rafinesque, 1818
  • Sarchirus argenteus Rafinesque, 1820
  • Lepisosteus longirostris Rafinesque, 1820
  • Lepisosteus oxyurus Rafinesque, 1820
  • Lepisosteus gracilis Richardson, 1836
  • Lepisosteus huronensis Richardson, 1836
  • Lepidosteus rostratus Cuvier, 1836
  • Lepidosteus bison DeKay, 1842
  • Lepisosteus lineatus Thompson, 1842
  • Macrognathus loricatus Gronow, 1854
  • Lepidosteus leptorhynchus Girard, 1858
  • Lepidosteus crassus Cope, 1865
  • Lepidosteus otarius Cope, 1865
  • Lepidosteus ayresii Duméril, 1870
  • Lepidosteus clintonii Duméril, 1870
  • Lepidosteus copei Duméril, 1870
  • Lepidosteus elisabeth Duméril, 1870
  • Lepidosteus lesueurii Duméril, 1870
  • Lepidosteus harlani Duméril, 1870
  • Lepidosteus horatii Duméril, 1870
  • Lepidosteus lamarii Duméril, 1870
  • Lepidosteus louisianensis Duméril, 1870
  • Lepidosteus milberti Duméril, 1870
  • Lepidosteus piquotianus Duméril, 1870
  • Lepidosteus smithii Duméril, 1870
  • Lepidosteus thompsonii Duméril, 1870
  • Lepisosteus treculii Duméril, 1870
  • Lepidosteus troostii Duméril, 1870
Representação de The Green Gar Fish (Esox osseus), de Mark Catesby, publicada entre 1731 e 1743.
Exemplar de Lepisosteus osseus.

O gar-bicudo (Lepisosteus osseus) é uma espécie de peixe actinopterígeo da família Lepisosteidae, nativa da América do Norte e da América Central. O género Lepisosteus poderá estar presente na América do Norte há cerca de 100 milhões de anos.

Apresenta um corpo alongado, estreito e aproximadamente cilíndrico, de coloração entre o castanho-azeitona e o verde, revestido por resistentes escamas ganoides. As mandíbulas são muito alongadas e formam um focinho estreito, semelhante a uma agulha, que permite distinguir facilmente a espécie dos restantes gars. O focinho tem mais do dobro do comprimento do restante segmento cefálico e as mandíbulas possuem numerosos dentes afiados e cónicos.

Habita normalmente lagos de água doce, águas salobras próximas de zonas costeiras, pântanos e remansos de rios e ribeiros de corrente lenta. Além da respiração branquial, consegue respirar ar atmosférico, o que lhe permite sobreviver em ambientes aquáticos com reduzidas concentrações de oxigénio.

A espécie encontra-se ao longo da costa oriental da América do Norte e da América Central, estendendo-se para oeste, nos Estados Unidos, até ao Kansas, Texas e sul do Novo México. É a única espécie da família Lepisosteidae presente no Novo México. As suas populações são consideradas estáveis e, em algumas zonas do interior da sua área de distribuição, abundantes.

Taxonomia e evolução

O gar-bicudo foi descrito cientificamente por Carl Linnaeus em 1758, sob o nome Esox osseus. A espécie foi posteriormente transferida para o género Lepisosteus, sendo atualmente aceite como Lepisosteus osseus (Linnaeus, 1758).

O nome Lepisosteus deriva da combinação de palavras de origem grega referentes a «escama» e «osso», numa alusão às resistentes escamas ganoides de forma aproximadamente romboide que revestem o corpo destes peixes e lhes proporcionam proteção contra predadores.

Os gars são frequentemente descritos como «fósseis vivos», por terem conservado numerosas características ancestrais ao longo de um período evolutivo muito extenso. Entre estas encontram-se um intestino dotado de válvula espiral e uma bexiga natatória altamente vascularizada, que funciona como órgão respiratório acessório e complementa a respiração branquial. A designação «primitivo», tradicionalmente aplicada aos gars, refere-se à retenção deste tipo de características ancestrais, não devendo ser entendida como indicação de que constituem organismos menos evoluídos ou menos desenvolvidos.

A conservação de características ancestrais é acompanhada por uma evolução molecular excecionalmente lenta. Uma análise comparativa de centenas de espécies de vertebrados concluiu que os gars apresentam uma das mais baixas taxas de evolução molecular conhecidas entre os vertebrados, fenómeno que poderá estar relacionado com mecanismos particularmente eficientes de reparação do ADN.

Esta particularidade poderá também ajudar a explicar a capacidade de hibridação entre linhagens de gars separadas há um período evolutivo invulgarmente longo. O gar-bicudo pode hibridar com o peixe-jacaré (Atractosteus spatula); apesar de as linhagens das duas espécies se terem separado há dezenas de milhões de anos, continuam a poder produzir descendência híbrida fértil. A reduzida acumulação de diferenças genéticas ao longo desse período poderá ter contribuído para a manutenção da compatibilidade entre os seus genomas.

Distribuição e habitat

Distribuição do gar-bicudo nos Estados Unidos.

Fósseis do género Lepisosteus com cerca de 100 milhões de anos foram encontrados em África, Ásia, Europa, América do Norte e América do Sul.

Nos Estados Unidos, fósseis atribuídos à espécie atual remontam ao Pleistoceno e foram encontrados na Formação Kingsdown, no condado de Meade, no Kansas, em depósitos atribuídos ao Irvingtoniano, idade de mamíferos terrestres norte-americana que a Paleobiology Database situa entre cerca de 1,4 e 0,21 milhões de anos.

Atualmente, o gar-bicudo ocorre na América do Norte e na América Central, incluindo Cuba e a Ilha da Juventude.

É encontrado sobretudo em água doce na metade oriental dos Estados Unidos, embora tenham sido registados exemplares em águas salobras próximas de zonas costeiras com salinidades até 31 ‰. Entre os seus micro-habitats encontram-se zonas próximas de árvores caídas, afloramentos rochosos e vegetação aquática.

Ecologia

O gar-bicudo é predominantemente carnívoro e alimenta-se sobretudo de pequenos peixes, embora também possa consumir insetos e pequenos crustáceos. A alimentação ocorre principalmente durante a noite.

A composição da dieta varia consideravelmente entre regiões. Estudos realizados em diferentes populações mostram que os peixes constituem geralmente a maior parte das presas, embora as espécies dominantes dependam da disponibilidade local. Num estudo realizado no Texas, que examinou 297 gars-bicudos, foram identificados entre as presas peixes de vários grupos e lagostins.

Nas populações estuarinas, a dieta pode incluir uma proporção elevada de peixes marinhos e anádromos. Num estudo realizado nos tributários da baía de Chesapeake, estes representaram 59,4% das presas em massa e 56,5% em número. Entre as principais presas encontrava-se Brevoortia tyrannus, e a composição da dieta variava em função da estação do ano, do tamanho do gar-bicudo, da temperatura da água e da salinidade.

Os principais competidores do gar-bicudo são outros gars. Também pode ocorrer canibalismo, com exemplares de maiores dimensões a alimentarem-se de indivíduos menores.

Historicamente, o gar-bicudo constituiu uma fonte de alimento para os povos indígenas da América do Norte. Atualmente, a espécie é também capturada na pesca desportiva, incluindo na modalidade de pesca com arco.

Os adultos encontram-se entre os predadores de topo dos ecossistemas aquáticos que habitam e possuem poucos predadores naturais. Entre estes encontram-se o ser humano e, na parte meridional da sua distribuição, o aligátor-americano (Alligator mississippiensis). Os juvenis são consideravelmente mais vulneráveis, podendo ser predados por gars de maiores dimensões, outros peixes grandes, aves de rapina, tartarugas-mordedoras e serpentes aquáticas.

Reprodução e ciclo de vida

O gar-bicudo apresenta uma longevidade habitual de 15 a 20 anos, tendo sido registada uma idade máxima de 39 anos. Existe dimorfismo sexual, sendo as fêmeas maiores do que os machos em comprimento corporal, peso e comprimento das barbatanas. As fêmeas atingem a maturidade sexual aproximadamente aos seis anos, enquanto os machos a atingem entre os três e os quatro anos.

A fecundidade varia consideravelmente em função do tamanho da fêmea. Num estudo realizado no Missouri, foi registada uma média de 27 830 ovos por fêmea, com valores entre 4 273 e 59 422. A desova ocorre entre o final de abril e o início de julho, quando a temperatura da água se aproxima dos 20 °C (68 °F).

Os ovos possuem um revestimento adesivo que lhes permite aderir ao substrato e são depositados sobre pedras em águas pouco profundas, superfícies rochosas, vegetação ou mesmo em ninhos de achigã-boca-pequena. Os ovos maduros são tóxicos para ratos e outros vertebrados superiores, embora aparentemente não o sejam para os peixes. A eclosão ocorre aproximadamente uma semana depois, permanecendo os juvenis entre a vegetação durante o primeiro verão de vida.

Os juvenis apresentam um crescimento rápido. Num estudo experimental, indivíduos do primeiro ano de vida cresceram, em média, 2,95 mm por dia durante um período de 52 dias. Este rápido crescimento contribui para que o gar-bicudo se encontre entre os peixes de água doce de crescimento mais rápido.

Os adultos atingem habitualmente entre 71 e 122 cm de comprimento. Os maiores exemplares podem aproximar-se de 1,8 m e atingir cerca de 25 kg.

Conservação e gestão

O gar-bicudo está classificado como Pouco Preocupante pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Embora não esteja classificado a nível federal como ameaçado nos Estados Unidos, alguns estados, entre os quais Dakota do Sul, Delaware e Pensilvânia, atribuíram-lhe estatutos de conservação mais restritivos.

No início do século XX, os gars-bicudos eram frequentemente considerados predadores prejudiciais às populações de outros peixes, o que levou à aplicação de métodos destinados a reduzir as suas populações. Estudos posteriores sobre a alimentação destes peixes contribuíram para uma compreensão mais detalhada do seu papel ecológico. Um estudo realizado no Texas, por exemplo, não encontrou achigãs nos conteúdos estomacais das três espécies de gars analisadas.

Entre os fatores que podem contribuir para o declínio das populações encontram-se a sobrepesca, a perda de habitat, a construção de barragens e estradas, a poluição e outras alterações antropogénicas dos ecossistemas aquáticos.

A elevada longevidade da espécie e, sobretudo, a maturação sexual relativamente tardia das fêmeas tornam as populações vulneráveis a perturbações que reduzam o sucesso reprodutivo. A sobrepesca pode, por isso, ter um impacto particularmente significativo quando os indivíduos são capturados antes de atingirem a maturidade sexual.

Referências

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