The Geographer, de Johannes Vermeer (1669). | |
| Tipo | Profissão |
|---|---|
| Setor de atividade | Geografia; ordenamento territorial; ambiente; geotecnologias; pesquisa |
| Competências | análise espacial; trabalho de campo; cartografia; pesquisa; planejamento territorial |
| Educação requirida | formação superior em Geografia, conforme o país |
| Campos de trabalho | administração pública; consultoria; empresas; universidades; instituições de pesquisa |
| Empregos relacionados | cartógrafo; urbanista; engenheiro geógrafo; professor de Geografia |
Geógrafo é o profissional da geografia, ciência que estuda a dimensão espacial dos fenômenos naturais e humanos e tem o espaço geográfico como um de seus conceitos centrais. Geógrafos analisam a localização, distribuição, relações e dinâmica de fenômenos em diferentes escalas, articulando aspectos naturais, sociais, econômicos e territoriais.
Seu campo de estudo abrange fenômenos relacionados ao relevo, clima, hidrografia, solo e distribuição dos seres vivos, assim como população, cidades, economia, cultura, política, redes e organização territorial. A disciplina compreende tradicionalmente a geografia física e a geografia humana, além de campos que integram diferentes dimensões da análise geográfica.
Na pesquisa e na atuação profissional, geógrafos utilizam trabalho de campo, cartografia, métodos quantitativos e qualitativos, análise espacial, sensoriamento remoto, geoprocessamento e sistemas de informação geográfica (SIG), entre outras técnicas.
A atividade profissional pode envolver estudos do meio físico e socioeconômico, levantamentos territoriais, estudos ambientais, regionalização, mapeamento, planejamento urbano e regional, análise populacional, mobilidade e transportes, gestão territorial e produção de estudos, mapas, pareceres e outros documentos técnicos. A formação exigida, as atribuições e a regulamentação profissional variam entre os países.

A denominação geógrafo é antiga, embora a profissão em seu sentido moderno seja muito posterior. Na Antiguidade, estudiosos como Eratóstenes, Estrabão e Ptolemeu contribuíram para a sistematização de conhecimentos relacionados à localização, às características e à representação da superfície terrestre.
Durante séculos, o termo podia designar estudiosos, viajantes, cartógrafos ou funcionários envolvidos na descrição e representação de territórios. A formação do geógrafo moderno ocorreu sobretudo no século XIX, paralelamente à institucionalização da Geografia como disciplina universitária, à criação de sociedades geográficas e ao desenvolvimento de métodos sistemáticos de pesquisa.
Alexander von Humboldt e Carl Ritter exerceram influência importante sobre a Geografia moderna. Ritter ocupou uma cátedra de Geografia na Universidade de Berlim a partir da década de 1820, e outras universidades europeias passaram a estabelecer cátedras e institutos da disciplina durante o século XIX. A Royal Geographical Society, fundada em Londres em 1830, também participou da institucionalização e difusão do conhecimento geográfico.

A institucionalização da Geografia no Brasil ganhou impulso nas primeiras décadas do século XX. Entre seus precursores esteve Delgado de Carvalho, associado à renovação do ensino e dos estudos geográficos no país.
O ensino universitário de Geografia foi estabelecido em 1934 na recém-criada Universidade de São Paulo. A primeira cátedra foi ocupada pelo geógrafo francês Pierre Deffontaines, que também participou naquele ano da fundação da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB). Deffontaines foi sucedido na USP por Pierre Monbeig, que teve participação importante na formação das primeiras gerações de geógrafos brasileiros.
A Geografia também foi incorporada à estrutura técnica do Estado. Em 1937 foi criado o Conselho Brasileiro de Geografia, integrado ao então Instituto Nacional de Estatística e destinado a articular estudos e serviços geográficos e representar o país na União Geográfica Internacional. Em 1938, a incorporação das atividades geográficas ao instituto levou à adoção do nome Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O Rio de Janeiro sediou, em 1956, o Congresso Internacional de Geografia da União Geográfica Internacional. A profissão de geógrafo foi regulamentada nacionalmente em 1979 pela Lei nº 6.664.
A formação universitária da Geografia em Portugal consolidou-se durante a primeira metade do século XX. Amorim Girão, ligado à Universidade de Coimbra, esteve entre os pioneiros da Geografia universitária portuguesa.
Orlando Ribeiro tornou-se uma das principais referências da Geografia portuguesa do século XX e fundou, em 1943, o Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (CEG). O centro reuniu posteriormente geógrafos como Francisco Tenreiro, Raquel Soeiro de Brito, Ilídio do Amaral e Suzanne Daveau.
Lisboa sediou o Congresso Internacional de Geografia em 1949. A Associação Portuguesa de Geógrafos foi formalmente constituída em 1987.

A atuação do geógrafo envolve levantar, representar, analisar e interpretar fenômenos espaciais e territoriais e produzir informações para pesquisa, planejamento e gestão. Muitas dessas atividades são realizadas em equipes multidisciplinares e podem assumir características distintas conforme a formação do profissional, o objeto estudado e a legislação de cada país.
Entre os principais campos e aplicações profissionais encontram-se:


O caráter interdisciplinar da Geografia faz com que parte dessas atividades seja compartilhada com outros campos científicos e profissionais. O que caracteriza a abordagem geográfica é principalmente a análise da distribuição espacial dos fenômenos, das relações entre áreas e processos, das diferenças territoriais e das interações entre sociedade e ambiente.
A análise geográfica considera aspectos como localização, distribuição, concentração, dispersão, extensão, conectividade e diferenciação espacial, bem como as relações entre processos observados em diferentes escalas. Conceitos como espaço geográfico, território, região, lugar e paisagem fornecem diferentes perspectivas para interpretar a organização do espaço.
A Geografia não possui um único método de investigação. Conforme o problema estudado, geógrafos podem combinar métodos quantitativos e qualitativos, estatística, análise espacial, pesquisa documental, entrevistas, questionários, observação, registros fotográficos e trabalho de campo. Este pode compreender reconhecimento da área, medições, amostragem, inventários e coleta de dados primários.

A regionalização constitui um procedimento recorrente da análise geográfica e consiste na identificação e delimitação de áreas segundo critérios estabelecidos para determinado estudo. A definição da escala de análise permite examinar processos locais, regionais, nacionais e globais e as relações existentes entre eles.
A cartografia constitui simultaneamente uma forma de representação e um instrumento de análise. O sensoriamento remoto, o geoprocessamento e os SIG permitem integrar informações provenientes de diferentes fontes e realizar operações de consulta, cruzamento, modelagem e representação de dados georreferenciados.
Os SIG computadorizados começaram a se desenvolver na segunda metade do século XX. O geógrafo Roger Tomlinson participou da criação do Canada Geographic Information System, desenvolvido a partir da década de 1960, e é associado à consolidação inicial dos sistemas de informação geográfica.
A formação do geógrafo ocorre geralmente em cursos superiores de geografia. A organização curricular varia entre países e instituições, mas costuma abranger conteúdos de Geografia Física e Humana, métodos de pesquisa, trabalho de campo, cartografia, análise de dados e tecnologias de informação geográfica.
A formação pode incluir geomorfologia, climatologia, hidrologia, biogeografia, geografia urbana, econômica, política, rural e populacional, planejamento territorial, estatística, sensoriamento remoto e sistemas de informação geográfica. A especialização posterior pode concentrar-se em campos científicos ou aplicações profissionais específicas, e pode ocorrer também por meio de mestrado e/ou doutorado em Geografia.
No Brasil, a profissão é regulamentada pela Lei nº 6.664, de 26 de junho de 1979, posteriormente alterada pela Lei nº 7.399, de 4 de novembro de 1985, e regulamentada pelos Decretos nº 85.138/1980 e nº 92.290/1986.
A legislação inclui entre os habilitados os geógrafos e bacharéis em Geografia ou em Geografia e História formados em instituições reconhecidas, além de diplomas estrangeiros revalidados e outras hipóteses específicas estabelecidas em lei. A alteração de 1985 também passou a contemplar portadores de títulos de mestre e doutor em Geografia e determinadas situações históricas envolvendo licenciados e profissionais que já exerciam a atividade.
Na estrutura contemporânea do ensino superior brasileiro, o bacharelado em Geografia é orientado à formação técnico-profissional e científica do geógrafo, enquanto a licenciatura em Geografia é destinada principalmente à formação de professores para a educação básica. As hipóteses legais específicas de habilitação profissional são definidas pela legislação e pelo registro profissional.
No Brasil, a profissão de geógrafo é regulamentada por legislação federal e fiscalizada pelo Sistema Confea/Crea. Para exercer legalmente a profissão, o profissional deve, após sua formação, obter registro no respectivo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea). Os Creas, no âmbito de suas jurisdições, também fiscalizam o exercício profissional de engenheiros, engenheiros agrônomos, geólogos, meteorologistas e tecnólogos.
A Lei nº 6.664 atribui ao geógrafo, entre outras atividades, a realização de “reconhecimentos, levantamentos, estudos e pesquisas de caráter físico-geográfico, biogeográfico, antropogeográfico e geoeconômico”, além das aplicações especificadas em seu artigo 3º. As atribuições técnicas efetivamente registradas podem considerar a formação e o currículo do profissional e são analisadas pelos órgãos competentes do Sistema Confea/Crea.
Os contratos para prestação de serviços técnicos relativos às atividades profissionais abrangidas pelo Sistema Confea/Crea, bem como o desempenho de cargo ou função técnica quando aplicável, ficam sujeitos ao registro de Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), documento que identifica o profissional responsável e a atividade técnica desenvolvida e integra seu acervo técnico. Na Classificação Brasileira de Ocupações, o geógrafo é identificado pelo código 2513-05.
Em Portugal, a formação universitária inicial em Geografia é normalmente realizada por meio da Licenciatura em Geografia, correspondente ao primeiro ciclo do ensino superior. A denominação portuguesa de licenciatura não equivale à licenciatura brasileira destinada especificamente à formação de professores.
Entre as instituições portuguesas dedicadas à formação e investigação geográfica encontra-se o Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (IGOT), que oferece formação em Geografia e em áreas relacionadas ao ordenamento e planejamento territorial.
A Associação Portuguesa de Geógrafos atua como organização de representação profissional e científica da área. O geógrafo não deve ser confundido com o engenheiro geógrafo, cuja formação é ligada à Engenharia Geográfica.

No Reino Unido, a Geografia é oferecida em graduações como Bachelor of Arts (BA) e Bachelor of Science (BSc). A Royal Geographical Society concede voluntariamente a qualificação profissional Chartered Geographer (CGeog) a profissionais que atendam aos seus requisitos.
Entre pessoas públicas formadas em Geografia no país está Guilherme, Príncipe de Gales, que concluiu em 2005 um Master of Arts (Honours) em Geography pela Universidade de St Andrews.
Nos Estados Unidos, o bachelor's degree, normalmente em Geografia ou área relacionada, é indicado pelo Bureau of Labor Statistics como formação típica de entrada para a ocupação de geógrafo; não existe licença profissional federal específica obrigatória para a ocupação. No Canadá, o geógrafo integra a classificação nacional de ocupações, e universidades oferecem formação em Geografia nos níveis de graduação e pós-graduação.
A formação universitária em Geografia também está presente em países da Europa, Ásia, África, América Latina e Oceania, com diferentes combinações entre Geografia Física, Geografia Humana, ambiente, planejamento territorial, cartografia e ciência da informação geográfica. As exigências para a profissão dependem da legislação e das estruturas acadêmicas e profissionais de cada país.
A Geografia possui organizações científicas e profissionais e instituições públicas dedicadas à produção de informações territoriais.
A União Geográfica Internacional (UGI), fundada em 1922, reúne organizações e comitês nacionais, mantém comissões dedicadas a diferentes campos da disciplina e promove cooperação científica internacional. Entre suas principais atividades está a realização do Congresso Internacional de Geografia.
No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) produz e sistematiza informações geográficas, cartográficas, geodésicas, ambientais e estatísticas. Sua Diretoria de Geociências mantém atividades relacionadas à cartografia, geodésia, recursos naturais, meio ambiente, regionalização, redes e fluxos e outras formas de análise territorial. Geógrafos integram historicamente suas equipes técnicas.
A Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), fundada em 1934, reúne profissionais, pesquisadores, professores, estudantes e outros participantes ligados à Geografia e promove encontros, publicações e debates científicos.
Em Portugal, a Associação Portuguesa de Geógrafos representa profissionais da área. No Reino Unido, a Royal Geographical Society atua como sociedade científica e organização profissional, apoiando pesquisa, trabalho de campo e desenvolvimento profissional.
Nos Estados Unidos, a American Association of Geographers (AAG), fundada em 1904, reúne geógrafos acadêmicos e profissionais e mantém publicações, encontros científicos e atividades de desenvolvimento profissional.

Entre as principais distinções internacionais da disciplina está o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, concedido desde 1991 a geógrafos por sua obra e contribuição à Geografia. Frequentemente descrito como o “Nobel da Geografia”, teve entre seus laureados Milton Santos (1994), David Harvey (1995), Doreen Massey (1998) e Yi-Fu Tuan (2012). Milton Santos foi o primeiro e, até 2026, o único latino-americano laureado.
Entre geógrafos associados ao desenvolvimento de diferentes campos da disciplina encontram-se:
A figura do geógrafo aparece em obras artísticas, literárias e cinematográficas. A pintura The Geographer, de Johannes Vermeer, concluída em 1669 e utilizada na abertura deste artigo, representa um estudioso diante de mapas, globo e instrumentos de medição.
No livro O Pequeno Príncipe, publicado em 1943 por Antoine de Saint-Exupéry, um dos personagens encontrados pelo protagonista é um geógrafo que registra em grandes livros as informações fornecidas por exploradores.
No filme Paddington, de 2014, aparece a fictícia Geographers' Guild of Great Britain, instituição que conserva registros de expedições relacionados à história do personagem. A representação da Geografia e de instituições geográficas na franquia foi posteriormente objeto de análise acadêmica publicada na revista Transactions of the Institute of British Geographers.