Uma hidrolase de glicósido (ou glicosidase, categorizada sob o número EC 3.2.1.x) é uma macromolécula proteica catalítica de importância vital, cuja função primordial assenta na clivagem de ligações glicosídicas em hidratos de carbono complexos e glicoconjugados através da adição de uma molécula de água. Distribuídas ubiquamente por todos os domínios biológicos, desde bactérias elementares até aos eucariotas superiores, estas enzimas são estruturalmente catalogadas em mais de 180 famílias no sistema CAZy, refletindo uma diversidade evolutiva e mecanística notável. O seu processo catalítico ocorre predominantemente através de dois mecanismos estereoquímicos distintos propostos por Koshland: a retenção ou a inversão da configuração do carbono anomérico, operando por intermédio de resíduos de aminoácidos que atuam como dadores de protões, nucleófilos ou bases gerais no sítio ativo. Funcionalmente, dividem-se em endoglicosidases, que fragmentam ligações internas em cadeias poliméricas, e exoglicosidases, que libertam monossacáridos sequenciais a partir das extremidades terminais da molécula. No organismo humano, estas hidrolases governam processos metabólicos cruciais, como a digestão do amido pela amilase e a degradação da lactose pela lactase, sendo que disfunções genéticas severas na sua síntese originam doenças de armazenamento lisossómico debilitantes, como as patologias de Gaucher e de Pompe. Para lá do seu fulcral papel fisiológico e ecológico na reciclagem global do carbono através da decomposição da biomassa lignocelulósica, estas enzimas assumem um protagonismo industrial titânico no ecossistema biotecnológico contemporâneo. São aplicadas massivamente na produção sustentável de bioetanol de segunda geração, no processamento alimentar e panificação, na formulação de detergentes ecológicos e no branqueamento biológico da pasta de papel, mitigando substancialmente o impacto ambiental de catalisadores químicos tradicionais.