Guerras do Nano

Mapa português de Angola, vendo-se marcado a leste de Benguela a região do Nano.

As Guerras do Nano foram uma sére de conflitos que envolveram Portugal e os reinos Ovimbundos da região ocidental do Planalto Central de Angola, de 1836 até à década de 1870. Elas giraram sobretudo em torno do comércio caravaneiro.

História

Visão geral

No séc. XIX, o interior de Moçâmedes atraiu as atenções das autoridades portuguesas devido ao seu comércio de marfim, cera e gado, entre outros artigos. A fundação da cidade de Moçâmedes visou a extensão do controlo alfandegário português para sul de Benguela e a intensificação do comércio legal e eventual colonização do planalto de Huíla. Em resposta às incursões inglesas a sul, os portugueses penetraram até ao Humbe, subjugando os povos nhaneca. Porém as tentativas de ocupar militarmente os reinos da região dos Gambos e taxar as suas populações enfrentaram a resistência de alguns régulos africanos, como o soba Binga, que combateu a presença portuguesa no sul de Angola durante mais de duas décadas, escapando sempre à captura.

As Guerras do Nano constituíram uma ameaça constante à segurança dos estabelecimentos portugueses fundados ao longo da costa de Benguela e Moçâmedes. As razões que motivavam a deslocação de grandes números de guerreiros das terras altas até às costas durante a estação seca sejam hoje ainda pouco conhecidas mas teriam certamente sido provocadas pelos efeitos de crises demográficas e ecológicas, para além de eventuais disputas e rivalidades entre reinos africanos. A capacidade dos reinos ambundos de mobilizar grandes números de guerreiros foi aproveitada por régulos aliados, bem como pelas autoridades portuguesas para proteger os seus povoados.

Sucessão dos acontecimentos

O soba do Huambo devastou a região de Quilengues em 1836 e 1844. A rivalidade entre os portugueses de Benguela e os de Moçâmedes parece ter despoletado conflitos envolvendo os reinos africanos do Nano. A fundação de Moçâmedes desviou para esta cidade o comércio que antes subiam por Quilengues e Dombe Grande para Benguela, levando logo a conflitos entre os moradores portugueses destas regiões e o primeiro governador de Moçâmedes, João Francisco Garcia Moreira. Desta forma, em 1848 uma hoste do Huambo dirigida contra o régulo de Huíla teria sido desviada pelos residentes de Quilengues e Dombe Grande para Moçâmedes, onde os portugueses detinham a fortaleza de São Fernando do Namibe desde 1840, saqueando as plantações agrícolas.

Perspectiva da cidade de Benguela em 1846, vista do mar.

Esta situação de instabilidade levou os reinos de Huíla e Humpata a assinarem com o governador de Moçâmedes tratados de vassalagem a Portugal, para assegurar o livre trânsito caravaneiro e a fixação pacífica nas suas terras de comerciantes portugueses. Através de alianças com os sobas mais poderosos, alguns dos quais se declaravam vassalos da Coroa Portuguesa em troca de presentes e títulos, as autoridades portuguesas mobilizavam contra reinos hostis ou rebeldes as hostes de guerreiros africanos, denominadas guerras pretas. Os governadores de Benguela mobilizaram estas hostes em seu proveito pelo menos uma vez por década entre 1840 e 1860, para punir os povos dos sertões de Seles e Hanha que se revoltavam ou atacavam as caravanas e as feitorias de Benguela-a-Velha, Novo Redondo, Quicombo e Egito. Muitas vezes os aprisionamentos feitos pelos comerciantes destas feitorias a pretexto de dívida, roubos e outros crimes contribuíam para o deflagrar de conflito na região. Se as "guerras do Nano" por um lado interrompiam a ligação com o interior, por outro dispersavam os salteadores e alimentavam o tráfico de escravos. Em Novembro 1850, o soba Caxituca dos Gambos assinou um tratado com Portugal, passando a ser um reino vassalo e albergar um residente português. Caxituca, porém, faleceu em Agosto de 1851 e foi sucedido pelo irmão, Muene-Guerengue, mas este pouco tempo se manteve no trono, pois foi rapidamente assassinado enquanto dormia por um irmão mais novo que lhe usurpou o trono, Binga. O soba Binga também assassinou um sobrinho obrigando-o a beber uma bebida envenenada. Em Abril de 1853, uma "guerra do Nano" assolou os Gambos e obrigou os portugueses ali residentes a retirarem-se para Bumbo, na estrada que ligava a Moçâmedes.

Baía de Benguela em 1846.

Os planaltos de Humpata e Huíla foram particularmente flagelados pelas periódicas invasões partidas do sertão de Benguela. As guerras do Nano perturbavam as populações africanas de Huíla, Bumbo, Jau e Gambos e em Janeiro de 1857 uma hoste do Nano atacou uma fazenda em Bumbo, que foi defendida pelo seu proprietário, José Leite de Vasconcelos juntamente com o seu pessoal, entre libertos e escravos, salvando-se o engenho mas não evitando que ficasse destruída parte da cultura da cana sacarina. Em Novembro daquele ano foi atacada a feitoria de Huíla, dando-se o destroço da hoste africana pelas forças comandadas pelo capitão Francisco Godinhe de Cabral e Melo.

Em 1858, uma grande hoste de guerreiros do Huambo, contabilizada em 12,000 huambos e 12,000 aliados comandados pelo soba de Galangue devastou os concelhos a sul de Benguela, assaltando as caravanas comerciais que para lá se dirigiam.

Este estado de instabilidade levou o governo a não só organizar uma companhia de 1ª linha nos Gambos, que passaram à categoria de presídio, como a pensar na colonização militar da região.

A 12 de Julho de 1858 deu-se um ataque à "Cacimba" perto de Moçâmedes, tendo o negociante Manuel de Almeida Soares fugido da área com mais 3 europeus e 60 carregadores, alguns dos quais foram mortos e outros fugido mas perdendo grande quantidade de fazendas. Em Agosto, o governo decidiu ocupar militarmente os Gambos e evacuar de lá os europeus mas só em Março de 1859 é que o major Francisco Godinho Cabral e Melo consegue pacificar a região.

Uma das piores destas invasões ocorreu em Março de 1860 quando cerca de 20,000 guerreiros comandados pelo soba de Huambo avançaram através da Huíla, Jau e Humpata, matando o capitão português da fortaleza de Huíla. A 3 de Março às 4 da tarde o major Rocha atacou com 50 soldados, alguns moradores e 100 africanos um dos acampamentos de guerra do soba de Huambo onde estavam cerca de 5000 guerreiros, morrendo o major Rocha e 7 soldados. Os guerreiros desceram depois a Serra de Chela até aos arredores de Moçâmedes. As plantações e as quintas dos pequenos agricultores ali radicados foram então destruídos.

Cinco anos mais tarde, uma "guerra preta" ameaçou de novo Njau e passou depois para as regiões de Gambos e Corunjamba. Neste ano, o morador negro José Manuel Ribeiro, de alcunha o Caluama, convocara uma "poderosa hoste gentílica" composta por uma coligação de diferentes grupos do planalto, liderada pelo soba de Quiaca.

Mais a norte, o sertão de Seles foi devastado por uma hoste de guerreiros ainda na década de 1870, obrigando o exército a destacar para a região militares de Luanda, para proteger as povoações de Novo Redondo e Quicombo.

Ver também

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 Joel Serrão, A. H. de Oliveira Marques: Nova História da Expansão Portuguesa (Volume X) O Império Africano (1825-1890), Editorial Estampa, 1998, pp. 421-426
  2. ↑ Maria do Rosário Martins, Fernando Florêncio: O Povo Ovimbundu. Angola. Imprensa da Universidade de Coimbra, 2025, pp. 12-13.
  3. 1 2 3 Revista portugueza, colonial e maritima. Lisboa: [s.n.] 1898. p. 448. Consultado em 28 de fevereiro de 2026
  4. ↑ Revista portugueza, colonial e maritima. Lisboa: [s.n.] 1898. p. 449. Consultado em 28 de fevereiro de 2026
  5. 1 2 3 4 5 Alfredo de Albuquerque Felner, Gastão Sousa Dias (1940). Angola. Apontamentos sôbre a Colonização dos Planaltos e Litoral do Sul de Angola, volume 1, Agência Geral das Colónias, 1940, pp. 39-40.
  6. ↑ Revista portugueza, colonial e maritima. Lisboa: [s.n.] 1898. 453 páginas. Consultado em 27 de fevereiro de 2026