| Hitler III.º Mundo | |
|---|---|
| Brasil 1968 • p&b • 70 min | |
| Gênero | cinema marginal experimental |
| Direção | José Agrippino de Paula |
| Produção | José Agrippino de Paula |
| Roteiro | José Agrippino de Paula |
| Elenco | Jô Soares Ruth Escobar Eugênio Kusnet Fernando Benini Jonas Mello |
| Cinematografia | Jorge Bodanzky |
| Idioma | português |
Hitler III.º Mundo é um filme brasileiro de 1968 dirigido por José Agrippino de Paula. Único longa-metragem em 35 mm do cineasta, trata-se de uma obra experimental e fragmentária ambientada em um terceiro mundo tomado pelo fascismo, que dialoga com a pop art e o cinema marginal. Filmado em 1968–1969, em plena ditadura militar, o filme permaneceu sem exibição pública por quase duas décadas e só passou a ser reconhecido pela crítica a partir de 1984.
"O roteiro era feito no dia a dia. Ele [Agrippino] estava na minha casa e eu falei 'vamos fazer um samurai louco, que é dono dos mendigos de São Paulo?'. Fui filmar na rua com aquela roupa, com muito improviso, que era a alma do filme".
— Jô Soares comentando sobre a produção do longa-metragem
Quando iniciou as filmagens de Hitler III.º Mundo, em 1968, José Agrippino de Paula já havia publicado os romances Lugar Público (1965) e PanAmérica (1967), além de ter escrito as peças teatrais Tarzan, III Mundo (1967) e Rito do Amor Selvagem (1969). Agrippino era considerado por parcela da crítica um dos precursores do tropicalismo; Caetano Veloso citou PanAmérica como uma das inspirações do movimento.
O filme foi realizado com recursos limitados e contou com a participação de membros do SONDA, grupo teatral experimental coordenado pelo próprio Agrippino em parceria com sua então esposa e atriz Maria Esther Stockler. As experiências coletivas de montagem e preparação de atores realizadas pelo grupo influenciaram diretamente a forma de trabalho do filme. A direção de fotografia ficou a cargo de Jorge Bodanzky.
As filmagens ocorreram em locações urbanas de São Paulo, incluindo uma favela, as imediações do Minhocão, terrenos baldios e coberturas de edifícios, além de interiores que remetem a quartéis e salas de tortura.
A narrativa gira em torno de um ditador impotente que instaura o fascismo em um país do terceiro mundo, associando o golpe de Estado ao imperialismo e à onipresença dos meios de comunicação de massa. À margem do núcleo de repressão, dois heróis de aparência caricatural tentam resistir ao regime: o Samurai — personagem interpretado por Jô Soares — e um monstro de pedra inspirado no Coisa das histórias em quadrinhos da Marvel.
O Samurai percorre uma favela habitada por crianças famintas e deambula pelos arredores do Minhocão; seus gestos são deliberadamente animalescos. O monstro de pedra transita por terrenos baldios e coberturas de edifícios em ambientações que sugerem paisagens lunares, sem gravidade. Ambos têm um fim funesto que espelha o destino do próprio país: o Samurai pratica harakiri; o monstro de pedra é capturado pela polícia após tentativa de suicídio. O próprio ditador, assassinado pelo herói japonês em determinado ponto, sobrevive como uma figura patética que percorre construções abandonadas — caracterizado inicialmente como um robô que "executa ordens mecânicas e tem medo de baratas".
A ação não tem conclusão. As trajetórias dos personagens apresentam-se por meio de uma narrativa fragmentada em blocos independentes, e tais protagonistas raramente se encontram. O conjunto funciona como um "caleidoscópio" que une espaços, formas de atuação, sonoridades e ambientes distintos.
| Ator | Personagem |
|---|---|
| Jô Soares | Samurai |
| Ruth Escobar | — |
| Eugênio Kusnet | — |
| Fernando Benini | — |
| Túlio de Lemos | — |
| Maria Esther Stockler | — |
| José Ramalho | Adolf Hitler |
| Manoel Domingos | — |
| Jonas Mello | — |
| Danielle Palumbo | — |
| Luiz Fernando de Rezende | — |
| Silvia Werneck | — |
| Carlos Silveira | — |
| Jairo Salvini | — |
Hitler III.º Mundo insere-se no universo do cinema marginal brasileiro — também chamado de udigrudi —, movimento que floresceu entre 1968 e 1973 às margens do Cinema Novo e em confronto com a estética deste. O filme dialoga com obras contemporâneas como A Margem (1967), de Ozualdo Candeias, e Gamal, o Delírio do Sexo (1969), de João Batista de Andrade, com quem compartilha o uso de paisagens urbanas em decomposição.
O principal procedimento formal do filme é a colagem, aproximando-o da pop art. A técnica, que remete ao cut-up desenvolvido por Brion Gysin em 1960, manifesta-se em três dimensões: nos corpos dos personagens, sempre em descompasso com os espaços; na trilha sonora, composta de elementos díspares sem relação entre si (sons tribais, línguas estrangeiras, marchas, silêncio, helicópteros); e na estrutura narrativa, organizada em blocos de ações interrompidas "como as tiras de uma história em quadrinhos". O resultado é um universo "fragmentado e repetitivo", com referências simultâneas ao rádio, à televisão e ao cinema hollywoodiano. O filme ironiza a possibilidade de resistência por meio de heróis suicidas e ridiculariza o golpe de Estado por meio da figura de um ditador impotente — uma "crítica alegórica à ditadura", na definição da curadora Lucila Meirelles, que organizou a obra cinematográfica de Agrippino.
A pesquisadora francesa Maria-Fatima Rodriguez, da Universidade da Bretanha Ocidental, aponta que o filme mobiliza a técnica do cut-up para denunciar o nonsense dos decretos e atos institucionais impostos pela ditadura de Costa e Silva a partir de dezembro de 1968 — em particular o AI-5.
Hitler III.º Mundo nunca foi lançado comercialmente. Após a conclusão das filmagens, o filme ficou sem exibição pública por quase duas décadas; sua recepção pela crítica só se iniciou na década de 1980. Bodanzky escondeu uma cópia de 16 mm na casa de sua mãe. Nos anos 1970, conseguiu que ela fosse exibida em um cineclube de Ulm, na Alemanha. Depois, houve nova projeção para três espectadores na Mostra Panorama, do Festival de Berlim.
A primeira exibição pública ocorreu em dezembro de 1984, em uma mostra de cinema alternativo no Centro de Cultura de São Paulo. O principal crítico a escrever sobre o filme foi Jairo Ferreira, que o descreveu no livro Cinema de Invenção e, depois, no jornal O Estado de S. Paulo de 13 de agosto de 1988, durante a Mostra Agrippino no Museu da Imagem e do Som. Nessa segunda crítica, Ferreira definiu o filme como "uma montagem de segmentos independentes com forte incidência no inconsciente coletivo de uma época atroz" e descreveu sua estrutura narrativa como aquela que "oscila entre o absurdo, o dadá e o fantástico", evoluindo "da paródia para a fábula".
O filme integra o acervo da Cinemateca Brasileira, que o inclui em sua programação regular de cinema marginal e cinema novo. A cópia em 16 mm preservada por Bodanzky foi restaurada pelo Serviço Social do Comércio.
A obra recebeu renovado interesse crítico no contexto político da década de 2020, particularmente durante o governo Jair Bolsonaro. A documentarista Cristina Fonseca comentou em 2021: "O filme é mais atual do que na época em que ele fez. A ditadura de 1964 era organizada. Hoje, vemos um nazi-fascismo anárquico. Bolsonaro parece uma figura de Agrippino". José Roberto Aguilar, ao comentar sobre a mensagem política do filme, afirmou: "Hoje está muito mais cruel. O presidente ditador foi eleito pelo povo". A cineasta e psicanalista Miriam Chnaiderman se referiu ao longa como "premonitório", defendendo sua atualidade ao abordar "o papel do cinema quando as condições são de terror e medo".