
Interflúvio é a porção de terreno situada entre dois cursos d'água ou dois vales adjacentes. Em geomorfologia, o termo designa tanto a área relativamente elevada que se estende de um vale ao outro, acima das vertentes mais íngremes, quanto, por extensão, qualquer região delimitada por dois rios, ainda que plana e baixa. Todo vale é ladeado por interflúvios, e a sucessão de vales e interflúvios compõe a organização básica de uma paisagem esculpida pela água corrente.
O conceito de interflúvio é mais amplo que os de espigão ou divisor de águas, os quais são frequentemente confundidos no Brasil. O interflúvio é definido pela posição entre vales, enquanto o espigão é uma forma específica, alongada e de topo estreito, que um interflúvio pode ou não assumir. As características do interflúvio condicionam a circulação da água na superfície e no subsolo, a distribuição dos solos e da vegetação e, em muitas regiões, a forma como o território foi ocupado.
A palavra é formada pelo prefixo latino inter ("entre") e por flúvio, do latim fluvius, "rio". O sentido literal, "entre rios", tem paralelo em topônimos antigos. Mesopotâmia, termo grego registrado pela primeira vez pelo historiador Arriano ao narrar as campanhas de Alexandre, significa "país entre rios", em referência ao Tigre e ao Eufrates, e corresponde a uma expressão babilônica de mesmo significado.
O termo tem formas equivalentes em outras línguas, que dão origem a cognatos, tais como interfluve em inglês e francês e interfluvio em espanhol e italiano.
As definições técnicas do termo variam conforme a escala de análise. O Dictionary of Earth Sciences, da Universidade de Oxford, descreve o interflúvio como "a parte elevada da paisagem que se estende entre dois vales adjacentes", normalmente situada acima das vertentes mais inclinadas de cada vale. O glossário de formas de relevo do Serviço de Conservação de Recursos Naturais dos Estados Unidos registra dois sentidos para a terminologia: o de terreno elevado e pouco dissecado entre vales cujos rios correm na mesma direção geral, e o de componente da própria colina, correspondente à sua porção mais alta e de declive suave.
No vocabulário geomorfológico brasileiro, o Novo Dicionário Geológico-Geomorfológico, de Antônio Teixeira Guerra e Antônio José Teixeira Guerra, trata o interflúvio como as "pequenas ondulações que separam vales, cujas vertentes são, na maioria dos casos, de forma convexa, constituindo pequenas colinas". Já na gestão de recursos hídricos, o glossário do Instituto Mineiro de Gestão das Águas define o interflúvio pela função, como a área elevada que delimita a bacia hidrográfica e da qual a água da chuva escoa em diversas direções, tomando-o como sinônimo de divisor de água.
A dimensão varia de poucas dezenas de metros, no topo de uma colina entre dois córregos, a centenas de quilômetros. Na Hungria, a planície arenosa situada entre o Danúbio e o Tisza é conhecida como Interflúvio Danúbio-Tisza, uma região inteira identificada pela posição entre os dois rios.
Na literatura brasileira, interflúvio, divisor de águas e espigão são muitas vezes usados como sinônimos, mas os termos descrevem aspectos diferentes da mesma paisagem.
| Critério | Interflúvio | Espigão |
|---|---|---|
| Natureza do conceito | Posição no relevo: o terreno entre dois vales | Forma de relevo: faixa elevada, alongada e de topo estreito |
| Geometria | Qualquer forma: colina convexa, topo tabular, chapada, planície | Sempre alongada, acompanhando a direção dos vales |
| Altitude relativa | Pode ser elevado ou baixo (planícies interfluviais) | Sempre mais alto que os vales vizinhos |
| Relação com o divisor de águas | É uma área; o divisor é a linha que a percorre no ponto mais alto | A linha de topo do espigão coincide, em geral, com o divisor |
| Uso do termo | Técnico e internacional | Menos disseminado, particularmente mais usado no Brasil |
Todo espigão é, portanto, um interflúvio, mas a recíproca não é verdadeira. Um interflúvio largo e tabular, como o topo de uma chapada, dificilmente seria chamado de espigão, e uma planície entre dois rios, como a Mesopotâmia ou o Interflúvio Danúbio-Tisza, é um interflúvio sem qualquer elevação marcante. Também é preciso distinguir o interflúvio da divisória de águas: o primeiro é uma superfície, com topo e vertentes; a segunda é a linha que separa o escoamento em direção a uma ou outra bacia, e que pode nem mesmo coincidir com o ponto mais alto do terreno, como se discute na seção sobre hidrografia.
A forma de um interflúvio reflete o tipo de rocha, a estrutura geológica e o estágio de dissecação do relevo. Sobre rochas sedimentares pouco deformadas, a erosão tende a produzir interflúvios amplos, de topo aplanado ou tabular, separados por vales rasos e com baixa densidade de drenagem. É o caso do Planalto Ocidental Paulista, sustentado por arenitos da Bacia do Paraná, onde predominam colinas com topos aplanados, convexos ou tabulares.
A estrutura também orienta os interflúvios. No Planalto de Santa Catarina, falhas e fraturas controlam a direção dos canais de primeira ordem e a migração dos rios, e, com isso, a posição dos interflúvios que os separam. Em escala de tempo geológica, os interflúvios não são estáveis: quando os rios de um lado erodem mais rápido, o interflúvio se desloca e pode ser rebaixado ou cortado por capturas fluviais.
A largura dos interflúvios é uma das duas variáveis do índice de dissecação do relevo proposto por Jurandyr Ross e amplamente empregado no mapeamento geomorfológico brasileiro. O índice combina o grau de entalhamento dos vales com a dimensão interfluvial média, isto é, a distância média entre os canais de drenagem de uma área. As classes usuais vão de interflúvios muito pequenos, com menos de 250 metros, a muito grandes, alcançando quase 4.000 metros. Interflúvios estreitos e vales profundos indicam relevo fortemente dissecado; interflúvios largos e vales rasos, relevo pouco dissecado.
Do ponto de vista hidrológico, o interflúvio é a área de onde parte a água que alimenta os vales. A chuva que cai sobre ele escoa pela superfície em direção aos canais de cada lado ou se infiltra, abastecendo o lençol freático que mais adiante aflora em nascentes.
A hidrologia distingue dois divisores associados ao interflúvio. O divisor topográfico, condicionado pelo relevo, delimita a área que contribui com o escoamento superficial para cada bacia. O divisor freático, determinado pela estrutura geológica, delimita os reservatórios de água subterrânea. Os dois nem sempre coincidem, e quando divergem ocorre transferência de água subterrânea de uma bacia para outra, sob o interflúvio.
Interflúvios planos e extensos podem reter água em sua própria superfície. No Cerrado, os topos aplanados de chapadas apresentam depressões fechadas, com microrrelevo de murundus, que funcionam como estágios iniciais de veredas em períodos de clima mais úmido. Na bacia do rio Negro, na Amazônia Central, extensas áreas alagadas ocupam o topo de interflúvios; sua origem foi atribuída ora a perdas geoquímicas e formação de depressões sobre rochas antigas, ora a ambientes flúvio-lacustres herdados de sedimentos pliopleistocênicos.
A posição no relevo organiza os solos e a vegetação em sequências que acompanham a passagem do interflúvio ao fundo do vale. Nos interflúvios, bem drenados e fora do alcance das cheias, desenvolvem-se solos profundos e intemperizados; nos fundos de vale, onde o lençol freático está próximo da superfície, formam-se solos encharcados e ricos em matéria orgânica. Nos relevos de chapada do Brasil Central predominam, nas superfícies de topo, Latossolos vermelhos e vermelho-amarelos argilosos ou muito argilosos, enquanto as veredas abrigam gleissolos com buritis.
No Cerrado, essa organização se reflete nas fisionomias vegetais. Cerrados em sentido restrito, cerradões e formações campestres ocupam os interflúvios e as vertentes suaves dos planaltos, e as matas de galeria ficam restritas ao fundo aluvial dos vales.
Na Amazônia, a floresta de terra firme ocupa as partes do relevo não sujeitas a inundação. Nos platôs e vertentes dos interflúvios a floresta é alta, com copas acima de 35 metros, enquanto os baixios próximos aos igarapés, encharcados na estação chuvosa, abrigam espécies que só ocorrem ali. Sobre solos de areia branca, em interflúvios mal drenados, surgem as campinaranas, de porte mais baixo e menor diversidade.
Na Amazônia, os interflúvios dos grandes rios têm papel central na biogeografia. A hipótese formulada por Alfred Russel Wallace no século XIX propõe que os rios largos funcionam como barreiras à dispersão de espécies, de modo que cada interflúvio abrigaria populações e espécies próprias, base do conceito de áreas de endemismo. Um estudo publicado em 2021 na revista Frontiers in Plant Science mostrou que o rio Negro, antigo e muito largo em alguns trechos, funcionou como barreira genética para algumas espécies de plantas, mas os demais rios, mais jovens e estreitos, não impediram o fluxo gênico. Os autores concluíram que a barreira dos rios influenciou, mas não foi decisiva para a diversidade vegetal amazônica.
A história da ocupação humana acompanha, em muitas regiões, a distinção entre interflúvios e vales. Os interflúvios elevados, com terras secas e livres de inundações foram tradicionalmente escolhidos para caminhos, estradas e povoados. No oeste paulista, as ferrovias do início do século XX seguiram a linha dos interflúvios, de modo que cada zona ferroviária passou a corresponder a um divisor de águas.
Os interflúvios tabulares do Brasil Central tiveram outra trajetória. Os chapadões do Cerrado, com solos naturalmente pobres, passaram a ser ocupados em larga escala pela agricultura mecanizada a partir da década de 1960, quando a pobreza do solo deixou de ser obstáculo para a agricultura moderna.
Na Amazônia, depósitos de bauxita ocorrem nos platôs dos interflúvios. Na região do rio Trombetas, no Pará, a lavra desses platôs envolve a supressão da floresta e o posterior reaproveitamento da camada superficial do solo, com seu banco de sementes, na recomposição do terreno e no reflorestamento.
Interflúvios de planície também registram efeitos do uso da água. No Interflúvio Danúbio-Tisza, a escassez hídrica tornou-se o principal fator a limitar a agricultura nas últimas décadas, e o rebaixamento do lençol freático é usado como indicador das mudanças no balanço hídrico da região.