| Ismail Xavier | |
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| Nascimento | 9 de novembro de 1947 (78 anos) Curitiba |
| Residência | Brasil |
| Cidadania | Brasil |
| Alma mater | |
| Ocupação | professor universitário, teórico de cinema |
| Distinções |
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| Empregador(a) | Universidade de São Paulo, Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo |
| Orientador(a)(es/s) | Annette Michelson, Antonio Candido, Paulo Emílio |
Ismail Xavier (Curitiba, 9 de junho de 1947) é teórico no campo de estudos cinematográficos e professor de cinema brasileiro, considerado um dos mais importantes pesquisadores da sua área. É professor associado da Universidade de São Paulo. Em novembro de 2017 obteve o título de professor emérito pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Teve como orientador de mestrado Paulo Emílio Salles Gomes e de doutorado Antonio Candido, esse último considerado o maior crítico literário brasileiro do século XX.
Ismail Xavier é um dos mais importantes teóricos no campo dos estudos cinematográficos. Publicou mais de 70 artigos em diferentes idiomas, tendo um verbete a ele dedicado no Dictionnaire de la pensée du cinéma (Paris: PUF, 2012), organizado por Antoine de Baecque e Philippe Chevalier.
Lançou livros que são obras de referência em muitos cursos de Cinema no Brasil, como por exemplo O discurso cinematográfico e A experiência do cinema, esse último possuindo traduções de textos teóricos fundamentais, e alguns publicados pela primeira vez no Brasil.
Graduou-se, em 1970, em Comunicação Social com habilitação em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Ainda em 1970, também concluiu o curso de Engenharia Mecânica na Escola Politécnica da USP. No ano de 1975 concluiu mestrado em Teoria literária e Literatura comparada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), sob orientação de Paulo Emílio Salles Gomes, com a dissertação À procura da essência do cinema: o caminho da avant-garde e as iniciações brasileiras.
Doutor em 1980, orientado por Antonio Candido de Mello e Souza, também pela Faculdade de Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH USP), defendendo a tese Narração contraditória: uma análise do estilo de Glauber Rocha, 1962-1964. Doutorado em Cinema Studies pela Universidade de Nova Iorque (1982). Em 1982, orientado por Annette Michelson, tornou-se PhD em Cinema studies, com a pesquisa de doutorado intitulada Allegories of underdevelopment: from the aesthetics of hunger to the aesthetcis of garbage, pela Universidade de Nova Iorque, Estados Unidos. Nesse trabalho está presente a abordagem sobre a convivência entre duas noções de tempo: o tempo teleológico profético, que seria o tempo do caminho da salvação, e o tempo catastrófico do drama barroco, que é o tempo matriz da construção do conceito de alegoria em Walter Benjamin. Em 1986 concluiu pesquisa de pós-doutorado na mesma instituição.
Em 1993 publicou o livro Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo, cinema marginal, que teve como matriz para sua criação a tese defendida junto à Universidade de Nova Iorque.
Ismail conseguiu uma bolsa Fulbright de doutorado nos Estados Unidos, na Universidade de Nova Iorque (NYU). Lá, Ismail teve anos intensos de estudos, descoberta de outro cinema, à margem da indústria e do senso comum e conviveu com Annette Michelson e Jay Leyda.
É professor, desde 1971, no Departamento de Cinema Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes da USP, contribuindo à formação de várias gerações de pesquisadores e estudiosos dos mais diversos temas na área do Cinema.
Lecionou como professor visitante nas seguintes instituições: Universidade de Buenos Aires (2011), Universidad Nacional de La Plata (2009), Universidade de Chicago (2008), Universidade de Leeds (2007) Universidade de Nova Iorque (1995), na Universidade de Iowa (1998) e na Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III (1999).
Na esfera acadêmica, Ismail recebeu um missão de seu orientador, Paulo Emílio, de introduzir o cinema brasileiro no cenário das legítimas interpretações do Brasil, superando assim o complexo de inferioridade com relação à literatura, ao teatro, à música, para reconhecer o estatuto de arte culta. A partir dessa designação, Ismail marca sua posição e reivindica autonomia. Seu profundo interesse teórico, junto de sua reação à crise de identidade e uma visão internacional, moldaram seu perfil intelectual.
Em 2010, colaborou com a criação do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais na ECA USP. Antes da criação do programa, o mestrado e doutorado em audiovisual eram vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação.
Com base em sua experiência docente, Ismail lançou livros que possuem caráter didático, como por exemplo O discurso cinematográfico, obra de referência em muitos cursos de Cinema no Brasil. Organizou A experiência do cinema, que possui traduções de textos teóricos fundamentais, alguns publicados pela primeira vez no país. Escreveu a obra D.W. Griffith: O nascimento de um cinema, uma concisa análise da consolidação da forma cinematográfica clássica a partir de técnicas que o cineasta estadunidense aprimorou, e das fontes históricas que forneceram a base para seu cinema, como por exemplo o folhetim literário e o melodrama teatral.
A sua formação como pensador de Cinema seguiu uma trilha traçada por dois intelectuais representativos, são eles Antonio Candido e Paulo Emílio Sales Gomes, as principais referências para o processo de formação de Ismail. E a partir desses dois pensadores, ele elaborou seu próprio pensamento, com destaque evidente para os temas que orientam a produção cinematográfica nacional.
Os primeiros anos de sua atuação foram estimulados pela necessidade de militância cultural, em um momento em que o Cinema, nacional e internacional, era alvo frequente de debates e polêmicas. Ismail recorria a autores e teorias do passado em suas leituras e também seus contemporâneos, e tão logo sua atuação passou de militante para teórica. Alinhado com o rumo do debate teórico nos estudos de Cinema, Ismail se destaca como o pensador mais representativo da teoria de Cinema no Brasil. No plano estritamente teórico, além de ser pioneiro, Ismail foi o responsável pela circulação das formulações teóricas que estavam em voga, e mantinha um intercâmbio constante com pensadores de Cinema dos Estados Unidos e da França.
Publicou livros considerados referências, dentre eles se destacam: O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência; Sétima Arte: um culto moderno; Sertão mar: Glauber Rocha e a estética da fome; Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo, cinema marginal e O Olhar e a cena. Ismail pensa as condições da produção cinematográfica no Brasil e estabelece relações entre o Cinema e outras possibilidades de expressão.
À convite de Carlos Augusto Calil, Ismail montou o média-metragem Acaba de chegar ao Brasil o bello poeta francez Blaise Cendrars, produzido pelo governo do estado de São Paulo, como parte da celebração do cinquentenário da Semana de Arte Moderna.
Elaborou o curso Cinema Brasileiro: o Clássico e o Moderno, lançado em 2022 na plataforma SESC Digital. O curso se enquadra na categoria Cinema, tem 6 aulas e percorre uma significativa etapa do cinema brasileiro e mundial, entendendo como se deu a transição entre o estilo clássico e moderno entre os anos 1950 e 1960. Nesse sentido, é analisado e comparado cenas de três filmes representativos da história do cinema brasileiro que tem como tema o cangaço. São eles: O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto; Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha.
Ismail conta, no teaser do curso, que:
A partir das cenas dos filmes, é verificado como toda a construção de linguagem cinematográfica se deu nessa passagem do clássico para o moderno, marcando a originalidade bastante marcante do cinema novo. É possível notar que, por meio de técnicas e estilos, pode-se contar, de maneiras diferentes, histórias muito semelhantes (no caso, o cangaço). Além disso, a escolha de filmes nacionais valoriza a cinematografia brasileira ao discutir obras e autores que marcaram uma época e que retrataram diferentes visões do Brasil.
Ismail foi convidado a participar, em 1999, de uma conferência sobre cinema na Universidade de Leeds, no Reino Unido, intitulada Cinema latino-americano: teoria e práxis, organizada por Stephanie Dennison, Lisa Shaw e Keith Richards, funcionários da Universidade. Na conferência, Ismail apresentou um texto sobre uma adaptação cinematográfica de Nelson Pereira dos Santos de 1962, da peça Boca de Ouro de Nelson Rodrigues. Posteriormente, Stephanie Dennison e Lisa Shaw incluíram uma versão da apresentação de Ismail em um livro que elas publicaram em 2005, pela editora norte-americana McFarland, cujo nome é Latin American Cinema: Essays on Modernity, Gender and National Identity. Stephanie passou a usar a adaptação de Nelson Pereira dos Santos na Universidade de Leeds, tendo como referência o ensaio de Ismail.
Em 2000, Ismail participou de uma conferência inovadora organizada por Lúcia Nagib na Universidade de Oxford, sobre o novo cinema brasileiro. Posteriormente, Lúcia organizou um livro como resultado da conferência, intitulado The New Brazilian Cinema, publicado em 2013 pela editora inglesa I.B. Tauris, no qual contém uma versão da palestra de Ismail sobre o cinema da retomada, denominada Brazilian Cinema in the 1990s: The Unexpected Encounter and the Resentful Character. Logo, Ismail foi um dos primeiros pesquisadores que destacou temas recorrentes, com o olhar atento sobre o significado dos filmes de retomada e dessa forma possibilitando que outros estudiosos fizessem pesquisas sobre o cinema brasileiro contemporâneo em inglês.
Em 2005, Ismail participou de uma segunda conferência sobre cinema latino-americano em Leeds, voltada para o período contemporâneo. O cinema brasileiro foi representado por Ismail e Robert Stam, como palestrantes, e pelos cineastas Hector Babenco e Lúcia Murat, que apresentaram, respectivamente, Coração Iluminado (1998) e Quase dois irmãos (2004). Ismail voltou-se novamente para uma adaptação para o cinema: Estorvo (2000), de Ruy Guerra, baseado no best-seller de Chico Buarque de 1991. Ismail vê o filme como uma alegoria: descreve a falta de engajamento do protagonista com o mundo em reação a um momento histórico de transição, em que o declínio das antigas regras patriarcais e a consolidação de uma nova ordem de intercâmbio social estabelecem um novo paradigma para a experiência do espaço e do tempo.
De modo direto e indireto, a literatura sempre esteve presente nas produções de Ismail. O professor reflete sobre a literatura nas suas interações com o cinema, que percorre toda a sua produção teórica, crítica e ensaística. O ensaio Do texto ao filme: a trama, a cena e a construção do olhar no cinema, publicado no livro coletivo Literatura, cinema e televisão, de 2003, e no ensaio Ismail aborda sobre os casos de passagem do discurso escrito ao audiovisual.
Em seu livro O olhar e a cena: Hollywood, melodrama, cinema novo, Nelson Rodrigues, Ismail analisa as diferentes abordagens no universo de Nelson Rodrigues, abrangendo desde Meu destino é pecar (1952), dirigido por Manuel Peluffo, até as produções mais recentes da Conspiração Filmes e as minisséries de TV.
A percepção literária de Ismail de destaca, pois, um dos méritos da sua abordagem, é, inicialmente, observar a diversa produção de Nelson Rodrigues, como peças de teatro, romances e crônicas, como uma ambígua e contraditória leitura do mundo, entre a comprovação do desmoronamento de uma velha ordem moral, fundamentada na autoridade do pai de família, e a descrença diante dos novos costumes e valores. Ao abordar as várias versões cinematográficas das obras de Nelson Rodrigues, Ismail considera diversos fatores, como o texto original, o contexto sociopoliticocultural nos quais ocorreram as filmagens e a recepção da fita, sua inserção na filmografia do diretor e das tendências da época e etc. No entanto, nada disso substitui ou se sobrepõe a análise detalhada próprio filme, em suas relações internas. Existe um constante intercâmbio entre essas instâncias, de modo que elas se iluminam mutuamente, sem que haja qualquer relação mecânica causal ou unidirecional entre elas.
Participou da coordenação da Coleção Cinema, Teatro e Modernidade, livros editados pela Cosac Naify, e foi responsável pela reformulação da Revista Filme Cultura, do Ministério da Cultura. Além disso, já foi membro do conselho consultivo da Cinemateca Brasileira.
No período de julho de 2007 a junho de 2010, foi membro do Comitê Assessor do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), assessorando no processo de julgamento de pedidos de bolsa e auxílios ao CNPq. Foi pesquisador A1 do CNPq.
Faz parte do conselho editorial das revistas: Novos Estudos CEBRAP (CEBRAP), Literatura e Sociedade (USP), Olhar (UFSCar), Revista Alceu (PUC-Rio), Revista Devires - Cinema e Humanidades (UFMG), MATRIZes (USP), Screen (Londres) e Galáxia, Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica (PUC/SP).
Ismail Xavier é um dos mais respeitados pensadores do cinema brasileiro. Sua produção acadêmica prioriza a análise fílmica, empregada como recurso para compreender a sociedade e a história, se voltando a produção cinematográfica nacional.
Com relação ao estudo do cinema brasileiro, os ensaios de Ismail desempenham papel fundamental, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, quando organizadores ligados ao Cinema Novo ou ao Cinema Marginal dialogavam intensamente com o momento social e político em que o país se encontrava. Ao refletir sobre os filmes do Cinema Novo e do Cinema Marginal e seus contextos, Ismail utilizou uma importante ferramenta, desenvolvida por ele e amplamente utilizada por seus orientandos e alunos da Escola de Comunicações e Artes da USP: o método da análise fílmica. Esse método consiste em dedicar atenção minuciosa a diversos elementos da tessitura fílmica (como mise-en-scène, banda sonora, cor, contraste, cenários, atrizes e atores etc.) na busca por um detalhe revelador. Esse ponto especifico pode, para o analista, servir como chave de partida para se compreender o conjunto da obra e elaborar interpretações mais amplas. A escolha dos detalhes determina o início a partir do qual todo o filme será desenvolvido. A decisão entre um ou outro detalhe pode gerar análises muito diferentes umas das outras, considerando que é possível que uma obra grande gere diversas análises, alcançando outros campos de conhecimento. Dessa forma, a regra fundamental da análise fílmica, caso se admita a existência de uma, é voltar-se para os elementos audíveis e visíveis do filme, para sua materialidade, exercendo uma percepção atenta de seus aspectos imanentes.
O discurso cinematográfico, de sua autoria, é considerada a primeira obra de autor brasileiro sobre teoria cinematográfica, no sentido rigoroso do termo. Sertão mar: Glauber Rocha e a estética da fome e Alegorias do subdesenvolvimento: cinema Novo, tropicalismo, cinema marginal são obras exemplares de seu método de trabalho, além de serem produções essenciais ao entendimento da cultura brasileira da década de 1960. Em Sertão mar, Ismail analisou os primeiros longas metragens de Glauber Rocha, bem como os seus contrapontos, que são as obras O pagador de promessas (1962) de Anselmo Duarte, e O cangaceiro (1953), de Lima Barreto. Em sua extensa obra, vale destacar Sétima arte: um culto moderno, uma de suas primeiras publicações que aborda teorias de cinema de vanguardas artísticas dos anos 1910 e 1920 junto à discussão sobre o contexto brasileiro desse período, contribuindo aos estudos a respeito da modernidade, modernismo e cinema silencioso no Brasil.
Discípulo de Paulo Emílio Salles Gomes, seu orientador no mestrado, Ismail afirma considerá-lo:
a maior referência, podemos dizer, da crítica no Brasil, poço de erudição, inteligência e sagacidade política. Um privilégio tê-lo como orientador e amigo.
Para ele, a política era matriz essencial das preocupações de Paulo Emílio, portanto, o contato direto com seu orientador tinha uma dimensão política bastante evidente, a qual participou dos contornos de sua formação. Antonio Candido também foi mestre de Ismail Xavier, orientando-o no doutorado, exercendo grande influência em sua formação e produção. Logo, o pesquisador considera que os cursos que fez com Antonio Candido configuram a maior referência ao seu trabalho de análise, marcando profundamente sua formação.
