




Jaime dos Santos Lopes Dias (Vale do Lobo hoje Vale da Senhora da Póvoa, Penamacor 25 de outubro de 1890 — Santa Catarina, Lisboa, 1977) foi um importante etnógrafo, olisipógrafo, escritor e historiador português, com formação em Direito e vários cargos na Justiça, Política e Função Pública.


Origem e Vida familiar:
Era o filho mais velho de uma fratria de 5 irmãos de José Lopes Dias, professor primário, e de Angélica Mendes Barreiros Dias. Com a morte precoce da sua mãe, o seu pai vem a casar novamente e a ter os restantes quatro filhos. Em 1914 tornou-se notário, por concurso público, em Idanha-a-Nova, ano e local onde viria a casar com Maria do Carmo de Andrade Pissara (1889-1980)1. Teve quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas, que por sua vez deram origem a 10 netas e um neto. Conheceu ainda alguns bisnetos. A família foi sempre uma dimensão importante da sua vida e à qual dedicava grande parte da sua atenção.
Vida Escolar e Universidade:
Frequentou o Liceu de Castelo Branco e, mais tarde, estudou no colégio de São Fiel, mas foi no Liceu de Coimbra que completou o curso complementar de Letras. O curso de direito foi realizado na Universidade de Coimbra entre 1908 e 1912.
Vida Profissional:
Foi Oficial do Registo Civil do concelho de Penamacor, entre 1912 e 1914.
Notário, por concurso público, em Idanha-a-Nova,1914.
Administrador do concelho de Idanha-a-Nova, de 16 de Julho de 1915 a 30 de Outubro de 1916.

Aluno da Escola de Oficias Milicianos, de Novembro de 1917 a Junho de 1918.
Membro da Comissão Administrativa Municipal de Idanha-a-Nova (1919);
Foi vereador da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova entre 1915 e 1919. Posteriomente, muda-se para Castelo Branco, onde em 1919 é empossado Juiz presidente do tribunal dos desastres no trabalho tendo sido também secretário-geral do governo civil de Castelo de Branco.Ainda em Castelo Branco, foi professor provisório do 4º grupo do Liceu de Castelo Branco, de Dezembro de 1923 a Julho de 1924 e do 5º grupo do mesmo Liceu desde Dezembro de 1926 a Junho de 1927.
Mais tarde, mudou-se para Lisboa, onde exerceu a função de Director dos Serviços Centrais e Culturais na Câmara Municipal de Lisboa, de 1938 até à sua reforma por idade. Foi à capital que dedicou muito do seu trabalho ao longo do resto da sua vida, embora mantendo sempre uma grande ligação à sua região natal, onde ia frequentemente. Não raramente, ajudava conterrâneos a encontrar trabalho em Lisboa e dedicou-se sempre ao desenvolvimento regional. São exemplos disso o seu esforço para que fosse construída a barragem de Idanha-a-Nova, hoje barragem Carmona, havendo quem tenha escrito6 que poderia chamar-se Jaime Lopes Dias, tal foi a sua implicação no projecto, mas há outros exemplos (ver artigo de 21 de Junho de 1991 no Jornal Reconquista).
Manteve sempre uma relação forte com a imprensa que lia de forma apaixonada e onde escreveu durante vários anos. Fundou e dirigiu o jornal “Povo de Idanha”2. e escreveu no jornal Província, de Castelo Branco, mas também no Diário de Notícias e no jornal O Século.

Uma das suas mais importantes obras é a Etnografia da Beira (1926)[1]. Esta obra de fôlego, com 11 volumes, resultou de um intenso e prolongado esforço de recolha de tradições orais sobre a vida, as tradições, os costumes, o folclore e as diversidades culturais da Beira-Baixa.
Em 1933 é autor, com o então professor de direito Marcelo Caetano, do código administrativo. Este facto veio a ser interpretado como um sinal de aproximação ao regime, então no seu início. Na verdade, Jaime Lopes Dias recusou sempre cargos de conotação política, nunca se identificando com o regime de Salazar e Caetano. Ajudou amigos, conhecidos e opositores a escaparem à polícia política, nomeadamente em fugas para Espanha.

Na nota de pesar pelo falecimento de Jaime Lopes Dias, o Jornal do Fundão reconhece o seu empenho em ajudar aquele jornal a ultrapassar as dificuldades levantadas pelo regime salazarista em receber o escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto (ver foto anexa). Nas palavras de testemunhos, era descrito assim: “O Doutor Jaime era, foi, um anti-salazarista convicto, sou testemunha disso!”3

A partir de 1938 tornou-se director dos serviços centrais e culturais da Câmara Municipal de Lisboa, tendo dirigido a Revista Municipal, dedicada aos estudos Olisiponenses.
Foi também membro dos Jardim Escola João de Deus (escreveu o livro da Capa Verde com João de Deus Ramos), que ajudou a organizar e difundir ao longo de muitos anos, até 1976, já depois do 25 de Abril.

Foi sócio da Sociedade Nacional de Belas Artes e presidente da assembleia geral de 1952 a 1957.
Durante a sua vida conviveu e foi amigo pessoal de diversas figuras relevantes do seu tempo, desde logo João de Deus Ramos, Aquilino Ribeiro (quem apoiou inúmeras vezes, incluindo quando se manifestou na conferência de imprensa na avenida da Liberdade contra a proibição de uma das obras daquele escritor), Aquilino Ribeiro Machado, João de Deus Ramos, José Leite de Vasconcelos, António Valdemar e tantos, tantos outros.
Foi um leitor fervoroso e dono de uma biblioteca pessoal com mais de quatro mil volumes.
Morreu depois do 25 de Abril de 1974, revolução que encarou com alegria e optimismo, lamentando apenas já não ter idade para poder festejar na rua com os cidadãos de Lisboa (fonte familiar).
Publicações6:
Participação na Imprensa:
Fundou e dirigiu:
“Povo de Idanha-a-Nova” (1914);
“A Província”, de Castelo Branco (1921);
Dirigiu:
Boletim da Casa das Beiras;
Revista das Beiras;
Revista Municipal, da C. M. Lisboa.
Foi cronista do Diário de Notícias, na Beira Baixa (1932);
Organizou diversos números especiais de revistas referentes a Castelo Branco e ao seu distrito: Revista das Beiras; Revista Insular e de turismo (1931); Terras de Portugal (1931 e 1934); Álbum de Portugal
Colaborou das Revistas: Ocidente; Anuário Comercial (Turismo); Panorama; Revista Portuguesa de Comunicações; Revista da Mocidade Portuguesa Feminina; Boletim da Junta Nacional da Cortiça; Almanaque das Beiras (Covilhã); Natal da Covilhã; Duas Pátrias; Guia dos Hóteis e Turismo; Portugal Corticeiro; Gil Vicente (Guimarães); O Século Ilustrado; Enciclopédia Prática do Lar; Terras Portuguesas
E nos jornais: Diário de Notícias; O Século; Pátria; Novidades; Diário de Coimbra; Gazeta de Coimbra; Semana das Beiras (Lisboa); Vanguarda (Castelo Branco); Cidade (Lisboa); Sul da Beira (Covilhã); Via Latina (Coimbra); Acção Regional (Castelo Branco)
Associações Científicas e outras:

Sócio Efectivo da Academia das Ciências de Lisboa (1947);
Membro Titular do Instituto Internacional de Ciências Administrativas (Bruxelas, 1936);

Sócio de Associação de arqueólogos portugueses; Sociedade de Geografia de Lisboa; Instituto português de Arqueologia, História e Etnografia; Sindicato Nacional dos jornalistas; Sociedade Brasileira de Folclore, Instituto do Ceará; Associação tucumana de folclore (Argentina); De la Société de Etnologie Française (1954); Sociedade Peruana de folclore; Sociedade Luso-Brasileira de Etnologia; Associación Espanhola de Etnologia y Folclore; Presidente da Assmbleia Geral e sócio fundador do Clube União Idanhense; Parque Desportivo de Castelo Branco; Sócio fundador do grupo Acção Regional, de Castelo Branco; Liga de Profilaxia Social, Porto; Vogal da Direcção e tesoureiro da Santa Casa da Miseircórdia de Idanha-a-Nova; Presidente da Assembleia Geral da Associação de Regantes beneficiários de Idanha-a-Nova; Sócio do grupo de amigos do Museu Nacional de Arte Antiga; Vice-presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Escritores; sócio do Círculo Cultural, Castelo Branco; Presidente do Conselho Regional da Casa das Beiras; Presidente da Assembleia Geral da Sociedade Nacional de Belas Artes; Vice-presidente da Assembleia Geral da Sociedade de Língua Portuguesa; Sócio da Asociación de lso Amigos del Arte (Argentina); Presidente da Assembleia Geral da Associação dos Jardins-Escolas João de Deus; sócio de “A Voz do Operário”; Associação dos Antigos Alunos de Universidade de Coimbra.
Realizações nas quais esteve envolvido:
Homenagens e Legado:
Comendador da Ordem de Cristo
O seu nome ficou indelevelmente ligado à etnografia da beira e à cidade de Lisboa, tendo-lhe sido dedicado o nome de uma rua em Lisboa.
Atribuição, pela junta de freguesia de Monsanto, do nome Jaime Lopes Dias à rua da Fonte Nova, por serviços prestados à povoação, deliberação de 20 de Junho de 1929;
Sócio Honorário dos Municípios da Baia (Brasil);
Sócio Honorário da Casa das Beiras, no Rio de Janeiro, Brasil;
Sócio Honorário do Centro Beirão de São Paulo, Brasil;
Sócio Honorário da Casa do Porto, no Rio de Janeiro;
Sócio Honorário da Sociedade Folclórica do México;
Sócio Honorário da Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1939;
Sócio Honorário da Casa das Beiras, de Lisboa;
Sócio Honorário da Casa da Comarca da Sertã;
Medalha Sílvio Romero, homenagem da Prefeitura Federal, Brasil, 1960.
Em Castelo Branco foi dado o seu nome a uma rua e uma travessa.
Na sua terra natal, Vale da Senhora da Póvoa, em 1990 foi dado o seu nome a um largo e erguido um busto.
Em 1991, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu dar o seu nome a uma rua da cidade, perpendicular à Calçada do Carriche, passando a estrada militar a chamar-se "Rua Jaime Lopes Dias, jurista e olisipógrafo", era então presidente da autarquia, o Dr. Jorge Sampaio.
O Dr. Jaime Lopes dias doou, ainda em vida, o seu espólio à biblioteca municipal de Castelo Branco, que em 1984 adoptou o seu nome. Mais tarde, esse nome veio a ser retirado por razões desconhecidas, gerando uma polémica que fez correr tinta no Jornal “A Reconquista”5. Em 2023, a biblioteca passou a chamar-se António Salvado, poeta4,5.
Em 2020 e 2022 a Câmara Municipal de Penamacor organizou o “Festival Jaime Lopes Dias”7 dirigido pelo arqueólogo André Ribeirinho, em homenagem à sua obra e legado. No âmbito da segunda edição do Festival foi editado o livro “O concelho de Penamacor na Etnografia da Beira de Jaime Lopes Dias”, Município de Penamacor, 2022.