Niveladores

Niveladores (em inglês: Levellers) eram um importante partido político na Inglaterra durante o período da Guerra Civil (1642–1651) e a Comunidade (1649–1660). Surgiram entre os agitadores, homens de forte visão republicana, e seu nome aparece pela primeira vez numa carta de 1 de novembro de 1647, embora antes dessa data seu nome era um apelido. Segundo a carta, "deram-se um novo nome (…) porque pretendiam colocar as coisas no lugar certo, e trazer paridade e comunidade no reino." Segundo o historiador Christopher Hill, "em Londres, surgiu um partido político representante das ideias dos pequenos produtores, que entrou em contato com a agitação do exército. Eram os Niveladores."

História

A crise econômica e a formação dos "homens sem senhor"

Manifesto publicado pelos Levellers durante o período da Revolução Inglesa em 1649

O surgimento dos Niveladores esteve diretamente associado à grave crise econômica que atingiu a Inglaterra entre as décadas de 1620 e 1650. O custo de vida no período sofreu forte elevação em decorrência da inflação e dos monopólios fiscais estabelecidos pela Coroa, o que ampliou o descontentamento das camadas populares frente à nobreza fundiária. Havia um histórico de desconfiança mútua entre as classes sociais: por uma política deliberada do Estado Stuart, os trabalhadores urbanos e criados eram excluídos das milícias e impedidos de portar armas, devido ao receio das elites de que a população comum se tornasse ingovernável. Paralelamente, o crescimento demográfico de Londres transformou a capital em um refúgio para uma vasta massa de indivíduos desprovidos de propriedades territoriais. Essa população era composta majoritariamente por camponeses desalojados de suas terras comunais devido ao avanço dos cercamentos (enclosures), além de artesãos, aprendizes e soldados desmobilizados, frequentemente classificados na época sob a ótica das autoridades como "homens sem senhor" (masterless men). Enquanto a administração pública encarava essa multidão como um elemento sedicioso que deveria ser exportado para as colônias na Irlanda ou na Virgínia, os Niveladores organizaram e deram expressão política a esse grupo, canalizando a insatisfação popular contra os privilégios econômicos e defendendo o princípio da soberania popular.

Panfletagem e o fim da censura

A declaração e o estandarte dos niveladores da Inglaterra; proferido em discurso a Sua Excelência o Lord Gen em 1649

A articulação dos Niveladores como um movimento político estruturado dependeu diretamente do colapso das instituições de controle do Estado absolutista em 1641, quando o Parlamento inglês aboliu a Star Chamber (Câmara Estrelada), o tribunal encarregado de regular a censura no país. Este período foi marcado por uma forte efervescência ideológica, no qual a perda do controle estatal sobre a imprensa permitiu o questionamento aberto das leis e dos privilégios tradicionais da época. Sem a necessidade de uma licença prévia da Coroa ou da Igreja Anglicana para a publicação de textos, a cidade de Londres registrou uma circulação sem precedentes de panfletos, pasquins e jornais populares. Os líderes dos Niveladores utilizaram essa abertura para transformar a produção gráfica em um instrumento de mobilização das massas. Por meio de tipografias clandestinas, o grupo imprimiu milhares de manifestos que eram distribuídos em locais públicos, tavernas e acampamentos militares. Esse fenômeno permitiu que a população comum passasse a interpretar textos jurídicos e religiosos de forma autônoma, gerando demandas para que as leis e os debates políticos fossem conduzidos em inglês claro, e não em latim ou francês jurídico, garantindo o acesso à informação de toda a população.

Tornaram-se proeminentes pela primeira vez em 1647 durante as negociações prolongadas e insatisfatórias entre o rei Carlos I (r. 1625–1649) e o parlamento enquanto as relações entre o último e o exército estavam tensas. Como os agitadores, estiveram sobretudo entre os soldados e opunham-se à realeza. Temiam que Oliver Cromwell e demais líderes do parlamento eram complacentes aos pedidos de Carlos e duvidaram da sinceridade deles. Sob comando de João Lilburne, apresentaram o manifesto O Caso do Exército que leram ao comandante-em-chefe Thomas Fairfax em outubro. Exigiram a dissolução do parlamento dentro de um ano e mudanças substanciais na constituição de futuros parlamentos, que seria regulada por uma "lei suprema" inalterada. Num segundo documento, O Acordo do Povo, expandiram suas ideias, que foram discutidas por Cromwell, Henrique Ireton e outros oficiais de um lado e João Wildman, Tomás Rainsborough e Eduardo Sexby do outro. Nenhum acordo foi feito. Alguns niveladores conclamaram a morte do rei e em novembro, logo após sua fuga da Corte de Hampton ao Castelo de Carisbrooke, foram responsáveis pelo motim que eclodiu em 2 regimentos, no Campo de Corkbush, perto de Ware, suprimido por Cromwell. Durante os 12 meses anteriores à execução do rei, os niveladores participaram na agitação em favor das ideias expressas no Acordo do Povo, e em janeiro Lilburne foi preso por usar linguajar sedicioso em reunião em Londres. Esses e outros esforços falharam e só resultaram no aumento da suspeita dos niveladores em relação a Cromwell.

No começo de 1649, logo após a morte do rei, os niveladores renovaram sua atividade. Eram numerosos e perigosos e se ergueram, diz Gardiner, "por um exagero da doutrina da supremacia parlamentar." Num panfleto, As Novas Correntes da Inglaterra, Lilburne pediu a dissolução do conselho de Estado e um novo e reformado parlamento. Depois fez a segunda parte das Novas Correntes; seus escritos foram declarados traição pelo parlamento e em março ele e três outros niveladores importantes (Ricardo Overton, Guilherme Walwyn e Tomás Prince) foram presos. O descontentamento que se espalhou no exército aumentou quando certos regimentos receberam ordens para ir à Irlanda, e em abril houve uma reunião em Londres; foi rapidamente debelada por Fairfax e Cromwell, e seu líder, Roberto Lockyer, foi alvejado. Revoltas em Burford e Banbury também foram suprimidas sem sérias dificuldades, e o problema nivelador foi praticamente encerrado. Gradualmente tornaram-se menos proeminentes, mas sob a Comunidade fizeram avanços frequentes ao exilado rei Carlos II, e houve algum perigo nivelador no começo de 1655, quando Wildman foi preso e Sexby escapou da Inglaterra. A marca distintiva dos niveladores era uma fita verde marinha.

O nome foi reutilizado entre 1649-1650 pelos chamados escavadores. Em setembro de 1654, Cromwell atacou os niveladores em seu discurso ao parlamento. Ele disse:

“ Nobre, cavalheiro, yeoman; a distinção desses; que é um bom interesse da nação, e um grande. A magistratura 'natural' da nação foi que nem sempre foi pisoteada, sob pena e desprezo, por homens de princípios niveladores? Eu imploro, pelas ordens e posições dos homens, o princípio nivelador não pretendia reduzir todos a uma igualdade? Pensou "conscientemente" em fazê-lo; ou "apenas inconscientemente" praticou isso por propriedade e interesse? 'Em todo caso', qual foi o significado disso que não tornar o inquilino como liberal uma fortuna como senhorio? O que, penso eu, se obtido, não duraria muito. ”

Em 1724, houve uma revolta contra as prisões em Galoway, e alguns homens que tomaram parte disso foram chamados niveladores ou quebradores de diques (dykebreakers). A palavra foi também usada na Irlanda durante o século XVIII para descrever uma sociedade revolucionária secreta similar aos homens brancos.

Bibliografia

  1. 1 2 3 4 5 EB 1911.
  2. ↑ Hill 1977, p. 93.
  3. 1 2 HILL, Christopher (1987). O Mundo de Ponta-Cabeça: ideias radicais na Revolução Inglesa de 1640. São Paulo: Companhia das Letras. pp. 29–71. ISBN 85-85095-26-1