
As irmãs Fox foram três irmãs norte-americanas — Leah (1813–1890), Margaretta ou Margaret, chamada Maggie (1833–1893), e Catherine, chamada Kate (1837–1892) — que tiveram papel central no surgimento do espiritualismo moderno nos Estados Unidos. Em março de 1848, na casa da família em Hydesville, no estado de Nova Iorque, Maggie e Kate passaram a se comunicar com um suposto espírito por meio de pancadas codificadas (tiptologia), episódio que os espiritualistas consideram o marco inicial do movimento. Com a participação da irmã mais velha, Leah, as três fizeram demonstrações públicas e sessões mediúnicas durante décadas, nos Estados Unidos e na Inglaterra, e foram objeto de sucessivas investigações.
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| Espiritismo |
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Em 1888, Maggie declarou publicamente, com o apoio de Kate, que as pancadas eram produzidas pelas próprias irmãs com as articulações dos pés e demonstrou o método diante de uma plateia em Nova Iorque; no ano seguinte, retratou-se da confissão. O episódio continua controverso: céticos o citam como prova de fraude, enquanto defensores da autenticidade dos fenômenos contestam o valor da confissão. As três morreram entre 1890 e 1893, Kate e Maggie na pobreza. Em 2026, a trajetória das irmãs foi levada ao cinema em As Irmãs Fox (The Fox Sisters), filme do diretor brasileiro Wagner de Assis.
Leah, a primogênita, nasceu em 8 de abril de 1813 no condado de Rockland, em Nova Iorque. Maggie, nascida em 7 de outubro de 1833, e Kate, nascida em 27 de março de 1837, vieram ao mundo em Consecon, no condado de Prince Edward, no atual Ontário, Canadá. As duas eram as caçulas dos seis filhos de Margaret Fox e do ferreiro John David Fox. O casal chegou a se separar por alguns anos, provavelmente por causa do alcoolismo do marido, que depois deixou a bebida e se tornou metodista.
A família dividiu-se por anos entre os Estados Unidos e o Canadá. Em dezembro de 1847, John, Margaret e as duas filhas mais novas instalaram-se numa casa alugada em Hydesville, povoado do município de Arcadia, no condado de Wayne, a cerca de 48 quilômetros de Rochester. Leah, mais de uma década mais velha que as irmãs e já separada do primeiro marido, vivia por conta própria em Rochester, com o sobrenome de casada, Fish.
No fim de março de 1848, a família passou a ouvir todas as noites pancadas sem origem aparente, que faziam vibrar camas e cadeiras. Segundo o depoimento assinado pela mãe em 11 de abril daquele ano, numa dessas noites Kate estalou os dedos e as pancadas responderam com o mesmo número de sons; Maggie repetiu o gesto e obteve o mesmo resultado. A mãe pediu então que o ruído indicasse a idade de cada filho e que respondesse a perguntas com duas pancadas para "sim". Vizinhos chamados à casa passaram a interrogar o suposto espírito pelo mesmo método, que nos dias seguintes evoluiu para um código capaz de indicar também letras do alfabeto.
Pelas respostas, a entidade disse ser um mascate assassinado por um antigo inquilino, John Bell, e enterrado sob a casa. Em relatos posteriores, o mascate recebeu o nome de Charles B. Rosna, também grafado Rosma ou Rosa, e as meninas teriam chamado o espírito de "Mr. Splitfoot", alcunha do Diabo. Segundo o historiador Paul J. Gaunt, esses detalhes não constam do primeiro relato do caso, um panfleto publicado por E. E. Lewis em 1848, e parecem ter sido acrescentados em obras posteriores, como o livro de memórias de Leah, de 1885. Nunca foi identificada nenhuma pessoa desaparecida com esse nome. Bell passou a ser hostilizado pela comunidade como assassino.
O panfleto de 1848 reuniu depoimentos da mãe e de vizinhos. Um deles, William Duesler, declarou que não conseguia explicar a origem das pancadas por nenhuma causa natural e que se dispunha a jurar que não as produzira. Uma primeira escavação da adega não encontrou nada; buscas posteriores teriam revelado fios de cabelo e fragmentos de ossos.
Em 1904, ossos foram encontrados na adega depois que uma parede desabou, e o Boston Journal publicou em 22 de novembro daquele ano que se tratava do corpo do mascate. A polícia não abriu inquérito, porque um médico que examinou o material concluiu tratar-se de fragmentos sem relação entre si, incluindo ossos de galinha, provavelmente colocados ali como brincadeira. Anos depois, passou-se a afirmar que uma caixa de lata de mascate fora achada junto aos ossos, embora as primeiras notícias não a mencionassem. Os ossos e a caixa estão hoje no museu de Lily Dale. O investigador cético Joe Nickell concluiu que ao menos parte dos ossos era de animais e que a suposta parede falsa era uma ampliação da fundação, e não o esconderijo de uma cova.
Com a casa tomada por curiosos, Kate e Maggie foram levadas para Rochester, onde ficaram com Leah, com o irmão David e com o casal quaker Amy e Isaac Post, militantes do abolicionismo que se convenceram da autenticidade dos fenômenos. As pancadas acompanharam as meninas, e Leah logo passou a apresentar-se também como médium. Em julho de 1848, participantes da Convenção de Seneca Falls pelos direitos das mulheres, entre elas Amy Post e Elizabeth Cady Stanton, assistiram a demonstrações privadas das irmãs. Em A História do Espiritiualismo (1926), Arthur Conan Doyle relata o surgimento de fenômenos semelhantes em outras famílias de Rochester e arredores logo depois de Hydesville.
Em 14 de novembro de 1849, numa sessão organizada pelo jornalista Eliab Capron, as irmãs fizeram sua primeira demonstração pública no Corinthian Hall de Rochester, para centenas de pessoas e com cobrança de ingresso. Até 17 de novembro, três comissões examinaram Leah e Maggie: fizeram-nas ficar de pé sobre almofadas e sobre vidro, com a barra dos vestidos amarrada aos tornozelos, e submeteram-nas a revista corporal. Nenhuma das comissões identificou o mecanismo das pancadas; opositores invadiram então a sala, e as irmãs saíram sob proteção policial. Nas grandes demonstrações, as irmãs não discursavam: Capron apresentava o programa e atestava a autenticidade dos fenômenos.
A partir de 1850, as três tornaram-se médiuns profissionais e fizeram apresentações em Albany, Troy, Buffalo e Nova Iorque. Horace Greeley, editor do New York Tribune, impressionado com mensagens que atribuiu aos filhos mortos, convidou Kate a morar com sua família e prosseguir os estudos. Por volta de 1853, as irmãs fixaram-se na cidade de Nova Iorque e passaram a atender clientes particulares separadamente. Muitos outros médiuns seguiram seu exemplo, e círculos de sessões, livros e periódicos espiritualistas multiplicaram-se pelo país.
Desde o início, investigadores e críticos atribuíram as pancadas às próprias irmãs. Em 1851, três professores de medicina de Buffalo, Austin Flint, Charles Lee e C. B. Coventry, relataram que os sons cessavam quando os joelhos das irmãs eram seguros ou quando elas apoiavam os pés em almofadas, e concluíram que eram produzidos pelo estalar de articulações. No mesmo ano, a Sra. Norman Culver, parente da família por casamento, afirmou numa declaração assinada que Kate lhe revelara o método: estalar os dedos dos pés e usar joelhos e tornozelos. Eliab Capron contestou a declaração ponto por ponto: alegou que ela fora solicitada por um advogado empenhado em desacreditar as irmãs e lembrou que Kate não estava em Rochester durante os testes do Corinthian Hall, que Culver dizia terem sido fraudados.
Em 1853, o examinador de patentes Charles Grafton Page também concluiu, em seu livro Psychomancy, que as irmãs produziam os sons. Em 1857, o jornal Boston Courier ofereceu 500 dólares a quem demonstrasse a comunicação com espíritos diante de uma banca de professores de Harvard, entre eles Louis Agassiz. Segundo o jornal, Leah e Kate foram as únicas, entre dez médiuns, a produzir algum fenômeno, mas as pancadas foram atribuídas às próprias médiuns e o prêmio não foi concedido. Em 1884, Maggie participou de sessões com a Comissão Seybert, da Universidade da Pensilvânia; os examinadores registraram pancadas e respostas irregulares e uma "pulsação incomum" no pé da médium, e o relatório final, de 1887, foi negativo.
A mediunidade atribuída a Kate foi além das pancadas e incluiu escrita automática, escrita direta, luzes e formas materializadas. Entre 1861 e 1866, ela realizou cerca de quatrocentas sessões com o financista nova-iorquino Charles Livermore, que relatou ter visto e tocado a aparição de sua falecida esposa. Na Inglaterra, entre 1870 e 1873, o físico William Crookes fez experimentos com Kate e publicou em 1874 que ouvira as pancadas em superfícies diversas, com as mãos e os pés da médium controlados, concluindo que eram genuínas. Críticos consideram Crookes crédulo, pois outros médiuns que ele atestou foram depois flagrados em truques.
Em 1852, Maggie conheceu o explorador do Ártico Elisha Kent Kane. A família dele se opunha ao relacionamento, e Kane exigia que ela abandonasse a mediunidade pública. Depois da morte do explorador, em fevereiro de 1857, Maggie afirmou que os dois tinham se casado em segredo no ano anterior e passou a usar o nome Margaret Fox Kane, o que a família de Kane não aceitou. Ela se converteu ao catolicismo e se afastou do espiritualismo, mas voltou a trabalhar como médium por necessidade financeira.
Leah casou-se três vezes; em 1858, uniu-se a Daniel Underhill, espiritualista rico, e passou a realizar sessões privadas em sua casa no Brooklyn, frequentadas por figuras como Horace Greeley e James Fenimore Cooper. Os pais das irmãs morreram em 1865.
Kate viajou para a Inglaterra em 1871 e, no ano seguinte, casou-se com o advogado Henry Dietrich Jencken, com quem teve dois filhos. Viúva em 1881, voltou com os meninos para Nova Iorque. Em 1885, Leah publicou o livro de memórias The Missing Link in Modern Spiritualism, que a biógrafa Barbara Weisberg descreve como uma mistura de distorções e verdades centrada no papel da própria autora; o livro acirrou o ressentimento das irmãs mais novas.
Na década de 1880, Kate e Maggie sofriam de alcoolismo. Pouco antes da confissão, Kate chegou a ser detida sob acusação de negligenciar os filhos, e as irmãs mais novas atribuíram o episódio a Leah. Ao mesmo tempo, enfrentavam críticas de espiritualistas incomodados com seu comportamento e com as denúncias de fraude no movimento. Maggie, que pensava em voltar ao catolicismo, passou a considerar seus poderes diabólicos. Em entrevista ao New York Herald, culpou Leah por tê-las usado como instrumento quando eram crianças. Segundo Doyle, um repórter ofereceu 1 500 dólares às duas irmãs pela exclusividade da revelação de seus métodos.
Em 21 de outubro de 1888, Maggie apareceu na Academia de Música de Nova Iorque, diante de cerca de 2 000 pessoas e com Kate na plateia, e leu a confissão publicada naquela manhã no New York World. Nela, contou que as irmãs começaram assustando a mãe com uma maçã amarrada a um barbante, batida contra o chão, e que, já em Rochester, aprenderam a produzir as pancadas com os dedos dos pés. Médicos subiram ao palco e confirmaram que os sons vinham das articulações de seu pé.
Citação: As batidas são simplesmente o resultado de um controle perfeito dos músculos da perna abaixo do joelho, que governam os tendões do pé e permitem uma ação dos ossos dos dedos e do tornozelo que não é comumente conhecida. escreveu: «Margaret Fox, New York World, 21 de outubro de 1888»
Kate deu declarações no mesmo sentido, e o jornalista Reuben Briggs Davenport publicou ainda em 1888 o livro The Death-Blow to Spiritualism ("O golpe mortal no espiritualismo"), com a versão das duas irmãs. Na confissão, Maggie disse ter oito anos em 1848; o depoimento da mãe, de abril daquele ano, e o censo de 1850 indicam idades bem maiores para as duas meninas. Defensores da autenticidade dos fenômenos apontam que o relato de 1888 depende justamente da pouca idade alegada.
Em novembro de 1889, numa entrevista, Maggie retratou-se: afirmou ter falado sob pressão de adversários do espiritualismo, entre eles católicos influentes, e por necessidade de dinheiro. Kate também voltou atrás. Para os céticos, as sucessivas mudanças de versão reforçam a suspeita de motivação financeira. As irmãs retomaram as sessões, mas nunca recuperaram a projeção nem a clientela de antes.
Leah morreu em Nova Iorque em 1.º de novembro de 1890. Kate morreu na mesma cidade em 2 de julho de 1892, e Maggie, na pobreza, em 8 de março de 1893.
As irmãs Fox são amplamente apontadas como iniciadoras do espiritualismo moderno, embora não tenham liderado o movimento nem formulado sua doutrina. Em 1916, a casa de Hydesville foi transferida para Lily Dale, comunidade espiritualista no oeste do estado de Nova Iorque, onde se tornou local de visitação até ser destruída por um incêndio em 1955. No local original, um memorial foi erguido sobre a antiga fundação da casa.
O caso continua dividindo autores. Céticos veem as irmãs como as primeiras médiuns fraudulentas e dão destaque à declaração de Culver, ao exame dos médicos de Buffalo e à confissão de 1888. Defensores argumentam que nenhuma das irmãs foi flagrada em truque, contestam a declaração de Culver e comparam os fenômenos de Hydesville a casos de poltergeist com pancadas que pareciam responder a perguntas. O episódio também é tratado na literatura espírita brasileira, por exemplo em ABC do Espiritismo, de Victor Ribas Carneiro, e em Kardec, Irmãs Fox e Outros, de Jorge Rizzini.
As Irmãs Fox (The Fox Sisters) é um drama histórico escrito e dirigido por Wagner de Assis, diretor de Nosso Lar e Kardec, e produzido pela Cinética Filmes. Primeiro longa-metragem do diretor falado inteiramente em inglês, foi rodado no Brasil e nos Estados Unidos. As filmagens começaram em 6 de novembro de 2023, com interiores gravados em casarões do Rio de Janeiro que remetem ao século XIX e externas em locações norte-americanas. Ao anunciar o projeto, Assis disse que o filme mostraria o início do que Conan Doyle chamou de "invasão organizada" dos espíritos.
Ambientado no século XIX, o filme acompanha as irmãs desde os ruídos na casa da família até a repercussão pública dos fenômenos, incluindo as chamadas mesas girantes. Elas enfrentam religiosos radicais que as acusam de bruxaria e o ceticismo de cientistas, e o enredo explora também os conflitos familiares provocados pela fama.
O elenco principal é formado por:
O elenco inclui ainda Lua Blanco, Renata Batista, Jasmin Cortez, Júlia Svacinna e André Torquato.
O filme teve estreia mundial no 13.º NoHo CineFest, festival de cinema independente realizado de 27 a 30 de agosto de 2026 em Glendale, na Califórnia, com a presença do diretor e do elenco principal. O trailer e a data de lançamento no Brasil foram anunciados em 9 de julho de 2026 pela Cinética Filmes, pela Buena Vista Internacional e pela Film Connection Distribuidora. O filme estreou nos cinemas brasileiros em 24 de setembro de 2026.