Maria Amida Kammers (São Pedro de Alcântara, 14 de janeiro de 1941 – Santo Amaro da Imperatriz, 25 de novembro de 1961) foi uma jovem leiga brasileira do interior do estado de Santa Catarina. Membra da Pia União das Filhas de Maria, ela foi brutalmente assassinada à machadadas por resistir a uma tentativa de estupro. Pela defesa a sua dignidade, tornou-se popularmente conhecida como "mártir da pureza", atraindo a devoção popular.
Maria Amida Kamers nasceu em 14 de janeiro de 1941, na localidade de Santa Filomena, no município catarinense de São Pedro de Alcântara. De ascendência luxemburguesa, era filha do casal Bruno Kammers e Maria Rengel, recebeu o sacramento do batismo no mesmo dia do nascimento, na Igreja Matriz de São Pedro de Alcântara. No início do ano de 1944, mudou-se com sua família para a localidade de Rio Acima, distrito de Taquaras, em Rancho Queimado. Ali, vivia com os pais e seus treze irmãos numa pequena propriedade rural. Seus pais eram agricultores e após o término escolar básico, todos os filhos os acompanharam nos trabalhos do campo.
Maria Amida foi criada conforme os valores da época, tendo forte influência da fé católica e recebendo todos os demais sacramentos da iniciação cristã: a Primeira Eucaristia e a Crisma. Em Rio Acima/Taquaras, ela se inscreve e participa do processo formativo da Pia União das Filhas de Maria, onde após passar um período como aspirante, é admitida em 11 de dezembro de 1960. Este grupo de leigas buscam imitar as virtudes de Nossa Senhora, cujos princípios de castidade e virgindade são vistos como o seu principal exemplo. Ali, ensinavam que manter o corpo puro era o caminho para ter a alma pura e, assim, chegar até Deus. Maria Amida possuía um notável carisma pessoal, demonstrando educação, simpatia e uma forte vida de devoção. De bela aparência, vivia rodeada de amigas e se entretinha com os mesmos passatempos de seu tempo.
Como as demais crianças de sua época, ela recebeu o ensino básico de educação, no entanto tinha o sonho de tornar-se professora. Para isso, foi continuar seus estudos no Colégio Nereu Ramos, na cidade de Santo Amaro da Imperatriz, onde passou a morar com a família de Elídio Thiesen um comerciante que tinha um importante bar na cidade, visto que Taquaras não possuía níveis avançados de ensino. Ali, ela conciliava os estudos com as tarefas domésticas, bem como com as atividades da igreja.
No ano de 1961, Santo Amaro da Imperatriz foi vitimada por uma grande enchente. As autoridades locais, preocupando-se com a possibilidade de propagação de doenças, buscaram profissionais de saúde da região para vacinar a população por meio de uma, sendo um dos lugares escolhidos para a imunização o bar da família que Maria Amida morava, que reservou um pequeno espaço no estabelecimento para a campanha de vacinação. Com isso, a jovem Maria Amida passou a também a ajudar no atendimento do bar. Sua beleza e simpatia atraíam os olhares e comentários dos frequentadores. Passou a ser considerada uma das meninas mais bonitas de sua cidade, despertando em muitos rapazes o desejo de namorá-la.
Durante a campanha de vacinação, um farmacêutico, filho de um importante médico legista da região, foi prestar atendimento à população neste bar, sendo Maria Amida uma das pessoas imunizadas. Na ocasião, o farmacêutico, que já era casado e com filhos, atentou desrespeitosamente e com segundas intenções contra a jovem durante a aplicação da vacina, dando-lhe um beijo no local da vacina. Num ato de defesa, Maria Amida reagiu dando-lhe um tapa no rosto. O homem, irritado, jurou que tal ação "não ficaria por isso mesmo". No pensamento da época, a "rejeição" ou "reação negativa" vindo de uma mulher era um "ataque à honra" de um homem. Movido por este sentimento, o farmacêutico começou a planejar com amigos um ato de vingança.
No dia 24 de novembro de 1961, poucos dias após o desentendimento de Maria Amida com o farmacêutico, a jovem se preparava para a festa de Santa Catarina de Alexandria, que seria no dia seguinte. Em uma cadeira deixada ao lado da cama onde dormia, ela deixou seu vestido, um livrinho de orações, o terço e a fita azul usada pelas Filhas de Maria, se recolhendo normalmente para dormir. Na madrugada do dia 25, um grupo de quatro homens entrou no bar, buscando o quarto da Maria Amida. Para evitar os gritos da moça, um dos homens sufocou-a e colocou quatro lenços dentro de sua garganta. Logo depois, mataram-na covardemente com cinco golpes de machadadas, esfacelando sua cabeça. Logo pela manhã, os donos da casa sentiram falta de Maria Amida, que tinha o costume de madrugar para ir às rezar e ajudar à familia, enviando assim um dos filhos até o quarto da jovem para acordá-la, lá encontrando-a em estado aterrorizante. Como indicado pela investigação, Maria Amida possuía sinais de violação sexual pois foi encontrada com a roupa íntima abaixada até os joelhos, mas morreu virgem.
A polícia logo foi chamada e investigou o caso. A machadinha usada no crime foi encontrada em um mato próximo do bar. Uma correntinha de ouro de Maria Amida com um pequeno crucifixo estava enrolada no cabo da ferramenta. O brutal assassinato da jovem deixou um clima de mistério a região, bem como a população foi tomada de grande choque e a tristeza pela morte. Maria Amida foi velada na casa de sua família, onde a presença curiosa de um homem que não saía de perto do caixão da falecida Amida e que, de início, não deixava ninguém se aproximar, chamou a atenção. O caixão, inicialmente fechado, quando aberto revelou o corpo de Maria Amida, que muito sangrava pela boca e pelas narinas da Maria Amida. Rapidamente ele fechou a tampa e mandou buscar um balde com água e panos para limpar a jovem. Os presentes se assustaram com a cena e mandaram chamar o delegado da região, que interrogou o homem para saber o que estava acontecendo. Os presentes, intrigados, se perguntavam qual a ligação do homem com Maria Amida e comentavam: "O assassino está por perto".
A jovem foi sepultada num modesto túmulo do cemitério católico adjacente à Igreja de São Bonifácio, no distrito de Taquaras. A repercussão da morte de Maria Amida levou a presença de muitas pessoas para a missa de sétimo dia, inclusive de outras localidades. Tendo em vista a grande multidão, foi realizado uma missa campal.
Investigações foram realizadas, mas muito do que foi descoberto foi silenciado, inclusive pelo próprio pai do assassino, este que teria também atuado no processo de necrópsia da jovem. Todos os conhecidos de Maria Amida passaram por interrogatórios. Provas materiais recaíam contra o farmacêutico ofendido por Maria Amida, visto que num dos quatro lenços que foram retirados da garganta da Maria Amida estavam gravadas as iniciais de seu nome. Posteriormente, para evitar uma possível prisão, o farmacêutico teria forjado sua própria morte e, com a ajuda do pai, fugido da região. Outro dos suspeitos, um policial que prestava serviços na cidade, ao ser indiciado como participante no crime, se enforcou. Um dos comparsas do crime, ao saber do suposto suicídio do farmacêutico, teria ficado "louco", sendo internado no Hospital Colônia Santana, destinado a pacientes com distúrbios psiquiátricos. Com a demora das investigações, a própria população ligou os fatos e concluiu a autoria do assassinato da jovem Maria Amida.
O cruel assassinato de Maria Amida comoveu muitas pessoas que buscaram, a partir de então, o túmulo da jovem para fazer orações, tornando-se assim um destino de peregrinações de fiéis que recorrem a sua intercessão. Com a popularidade do caso e em memória ao primeiro ano de falecimento de Maria Amida, a família distribuiu pequenas fotografias que se tornaram objeto de devoção de muitas pessoas. Logo depois, seu túmulo passou por revestimento de mármore, ganhando uma lápide com sua fotografia. Com o tempo, placas de agradecimento por graças alcançadas e flores passaram a adornar seu túmulo.
No dia 25 de novembro de 2026, o Arcebispo de Florianópolis, Dom Wilson Tadeu Jönck, aprovou oficialmente uma oração para pedir graças pela intercessão de Maria Amida Kammers, que foi instalada no túmulo da jovem após a missa que marcou os 56 anos de seu assassinato, em 25 de novembro de 2017. Embora não haja ainda um processo de beatificação instalado, a morte de Maria Amida é equiparada com a de Santa Maria Goretti e a beata catarinense Albertina Berkenbrock, sendo ela vista como modelo de pureza para seus devotos.