Atropelamento de Marina Harkot

Marina Presente! Logo de manifestações em prol de mudanças no trânsito brasileiro.

O atropelamento de Marina Harkot (7 de novembro de 2020, em São Paulo) foi um evento que causou comoção nacional e trouxe à tona as questões de mobilidade urbana de grandes cidades. A socióloga e doutoranda da USP de 28 anos voltava para casa de bicicleta quando foi atingida por José Maria da Costa Junior, que dirigia uma Hyundai Tucson a 93 km/h em uma via pública. Ele e as duas pessoas que o acompanhavam no carro não pararam para prestar socorro.

Em janeiro de 2025, José Maria foi condenado a 13 anos de prisão em regime fechado pelo crime de homicídio doloso qualificado por dolo eventual, embriaguez ao volante e omissão de socorro. Os jurados consideraram que o motorista assumiu o risco de matar ao dirigir em alta velocidade enquanto bêbado.

Vida pessoal e profissional

Marina Kohler Harkot nasceu em 22 de abril de 1992, na cidade de São Paulo, filha do oceanógrafo Paulo Garreta Harkot e da bióloga Maria Claudia Kohler. Ela era esposa do jornalista Felipe Burato, com quem passara a morar havia pouco tempo. Ela adorava gatos, era fluente em cinco idiomas e havia morado na Alemanha por algum tempo. Na adolescência, fora escoteira. Momento em que também se aproximara da bicicleta quando morou no litoral.

Ela era formada em Sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), e recebeu o título de mestre em 2018 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo também da USP (FAU-USP) pela dissertação intitulada “A bicicleta e as mulheres: mobilidade ativa, gênero e desigualdades socioterritoriais em São Paulo”. Fazia Doutorado na FAU-USP, sendo pesquisadora do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (LabCidade), onde pesquisava planejamento urbano e regional, com ênfase em mobilidade urbana, buscando maneiras de tornar o trânsito mais seguro e menos violento para aqueles que se deslocam por bicicleta. Com sua orientadora, Paula Santoro, Marina criou uma disciplina específica de graduação sobre "Cidade, Gênero e Interseccionalidade", e tinham planos de criar uma outra disciplina sobre "Territórios negros, de prostituição e da população LGBT".

Marina também havia elaborado planos diretores municipais, políticas inclusivas para mulheres e projetos pelo Banco Mundial, em trabalhos que realizou como consultora em planejamento urbano. E participava ativamente de instituições civis e públicas relacionadas com as questões de mobilidade por bicicleta, como o Conselho Municipal de Transporte e Trânsito da cidade de São Paulo e a Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade). Além disso, foi estagiária na Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS), e participou do Observatório do Clima pelo grupo de trabalho "Gênero e Clima".

O atropelamento

Na madrugada de 7 para 8 de novembro de 2020, por volta das 23h50, Marina Kohler Harkot voltava sozinha para casa de bicicleta, pedalando pela Avenida Paulo VI, no Bairro de Pinheiros, Zona Oeste da cidade de São Paulo. Já José Maria da Costa Junior dirigia uma Hyundai Tucson prata com a placa da cidade de Inconfidentes (MG) e levava consigo um casal de amigos. Ele atingiu Marina pelas costas e fugiu da cena do crime sem prestar socorro à vítima. Ela estava sem capacete de proteção e morreu no local, aos 28 anos de idade.

Somente dois dias depois, em 10 de novembro de 2020, José Maria da Costa Junior se apresentou à polícia, mas ficou calado quando indagado sobre o ocorrido. Em entrevista na grande mídia, José Maria disse não ter visto Marina e não ter prestado socorro porque achou que era um assalto. As duas pessoas que estavam no carro com José Maria também alegam não terem visto o atropelamento, muito embora o para-brisas do carro tenha ficado trincado. Testemunhas do crime e vídeos de sistemas de segurança mostraram que José Maria da Costa Junior havia ingerido bebidas alcoólicas naquela noite e dirigia em alta velocidade.

A bicicleta de Marina, parcialmente destruída pela Hyundai de José Maria da Costa Junior, foi guardada numa garagem pelo viúvo de Marina, Felipe Burato. Ele acredita que Marina gostaria que ele arrumasse a bicicleta e voltasse a circular com ela.

Processos e o julgamento

Isabela Serafim e Guilherme Dias da Mota estavam com José Maria da Costa Junior no carro no momento do acidente. Por decisão da justiça, ambos respondem em liberdade aos crimes de omissão de socorro em um processo distinto e serão julgado pela Vara do Juizado Especial Criminal. Se condenados, a pena será de no máximo dois anos de prisão, possivelmente convertidos em prestação de serviços comunitários.

Já José Maria da Costa Junior, que dirigia o Hyundai Tucson que atingiu Marina, é acusado de homicídio por dolo eventual, quando o acusado realiza suas ações sabendo que corre o risco de matar alguém. Além disso, pesam sobre o caso dirigir sob efeito de álcool e fugir da cena do crime sem socorrer a vítima. Ele responde em liberdade.

Nos documentos de acusação, o promotor Fernando Cesar Bolque, do Ministério Público (MP), alegou que José Maria da Costa Junior havia ingerido bebidas alcoólicas antes de dirigir e que trafegava em alta velocidade quando atingiu Marina Kohler Harkot em sua bicicleta. Já José Miguel da Silva Júnior, advogado do réu, alegou não haver provas materiais de que o seu cliente havia ingerido bebidas alcoólicas no dia do crime e tentou a reclassificação do caso para homicídio culposo, quando não há a intenção de matar.

Também faz parte do processo a advogada Priscila Pamela Santos, defendendo os interesses da família de Marina Kohler Harkot. Sobre a audiência, ela afirmou que "Ela se mostra essencial como resposta da sociedade que não aceita mais a utilização de veículos como armas e o privilégio dos carros em detrimento de vidas".

Provas contra o réu

Apesar das alegações do advogado de defesa, a promotoria conseguiu várias provas contra o réu:

Sequência dos fatos

Repercussão e homenagens

Como apontaram os familiares de Marina Kohler Harkot, a punição dos crimes individuais cometidos diariamente no Brasil não é suficiente. É preciso que o Brasil construa e institua políticas públicas de mobilidade urbana em que as vias sejam mais inclusivas para outras formas de deslocamento que não os carros, e que as pessoas que trafegam nesses meios ditos alternativos possam fazê-lo com segurança. Um exemplo importante de política é a que estipula o limite de velocidade nas vias urbanas. Quanto mais velozes, mais perigosos os carros se tornam para as pessoas que trafegam de bicicleta e mesmo de motocicleta.

A morte de Marina teve grande repercussão nas redes sociais com a hashtag #NaoFoiAcidente e também na mídia nacional. Diversas instituições e pessoas se manifestaram com notas de pesar e comentaram sobre a violência no trânsito, dentre eles o Greenpeace Brasil, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) e a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL).

Muitos ciclistas se mobilizaram em protestos nas ruas de várias cidades para exigir melhorias das condições de circulação urbana. O primeiro deles aconteceu no mesmo dia de sua morte, quando movimentos cicloativistas organizaram um ato, na Praça do Ciclista, em sua homenagem e para pedir mais segurança no trânsito. Já o movimento "Pedale como Marina" realizou bicicletadas em homenagem a ela e em protesto pela demora do processo contra seu assassino nos dias 06 de novembro de 2021 e 06 de novembro de 2022. Além disso, nas duas ocasiões foram realizados debates na USP sobre as questões de mobilidade urbana.

No dia 5 de novembro de 2021, a FFLCH-USP inaugurou uma sala interdisciplinar com o nome Marina Kohler Harkot como forma de homenageá-la.

No dia 9 de Novembro de 2021, ocorreu um ato em sua homenagem perto da Orla Moacyr Scliar, em Porto Alegre, com participação de mulheres do grupo “Pedal das Gurias” e outros ativistas.

No dia 13 de novembro de 2021, aconteceu um ato manifesto por ela em Belo Horizonte, saindo da Praça da Estação e percorrendo as ruas até o Bairro Savassi.

No dia da primeira audiência do caso, 24 de novembro de 2021, amigos, ex-professores como Nabil Bonduki, familiares e apoiadores fizeram uma manifestação em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda, onde acontecia a audiência.

No dia 6 de novembro de 2022, a família de Marina anunciou a criação do Observatório da Impunidade do Trânsito no Brasil (OITB), em parceria com o Instituto de Pesquisa Multiplicidade Mobilidade Urbana (IPMMU) e outros. Dentre os objetivos do Observatório está reunir e atuar em processos jurídicos não-concluídos ou parados que envolvam sinistros de trânsito, e traçar propostas jurídicas de readequação de velocidades de tráfego de veículos para as grandes cidades brasileiras.

Referências

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