Milkman é um romance históricode ficção psicológica de 2018 escrito pela autora norte-irlandesa Anna Burns. Ambientado durante o período dos Troubles na Irlanda do Norte, a história acompanha uma jovem de 18 anos, a "irmã do meio", que é assediada por um homem casado mais velho conhecido como "o leiteiro" e depois como "Milkman". É o primeiro romance de Burns a ser publicado desde Little Constructions em 2007 e o seu terceiro.
Milkman recebeu críticas muito positivas, com os críticos a elogiar principalmente a narrativa do livro, a atmosfera, o humor, e seu retrato complexo da sociopolítica da Irlanda do Norte. Milkman ganhou vários prémios, incluindo o Prémio Man Booker de 2018, marcando a primeira vez que um escritor da Irlanda do Norte recebeu o prémio. O romance também ganhou o Prémio do Círculo Nacional de Críticos de Livros de 2018 para Ficção bem como o Prémio Literário Internacional de Dublin de 2020. Em 2019, o romance havia vendido mais de 540.000 cópias.
Trama
Milkman passa-se na Irlanda do Norte durante a década de 1970, no auge do conflito de 1960-90. A narradora é uma jovem de 18 anos, cujo nome não é revelado, conhecida como a irmã do meio, que vive numa cidade também simpatizante da causa republicana. Milkman, um oficial paramilitar de alta patente, demonstra interesse pela jovem, começando a persegui-la e a oferecer-lhe boleias indesejadas. Espalham-se rumores de que a jovem está a ter um caso com Milkman, que é casado, o que afecta o seu relacionamento com a mãe e com a comunidade em geral. Esses rumores intensificam-se à medida que a jovem continua o seu relacionamento com seu "talvez-namorado", com quem namora há um ano, mas com quem tem dificuldade em se comprometer.
Contexto
Embora Burns esperasse inicialmente escrever o romance em três semanas, acabou a terminar Milkman ao longo de dez meses, período durante o qual ficou sem dinheiro e teve que solicitar apoios. Milkman foi baseado nas próprias experiências de Burns crescendo em Belfast durante o período dos Troubles, que se identificou com o cenário sem nome do romance como "uma versão distorcida de Belfast", embora também pudesse representar "qualquer tipo de sociedade totalitária e fechada que exista em condições opressivas semelhantes".
Recepção
Escrevendo para o The Washington Post, Ron Charles descreveu o romance como "desafiador", mas "gratificante", e Dwight Garner criticou o livro por "raramente alcançar qualquer tipo de clareza ou ressonância emocional" numa resenha para o The New York Times. Na Literary Review, John Self reconheceu que a evasividade do romance e a falta de uma trama unificada são desafiadoras para o leitor, mas elogiou Burns pela versão "de outro mundo" da Irlanda do Norte que a sua narradora consegue transmitir: "um cenário de conto de fadas ameaçador onde as pessoas se definem em oposição àqueles 'do outro lado da fronteira', 'do outro lado da água' ou simplesmente 'do outro lado da rua'".
Prémios
O romance ganhou o Prémio Booker de 2018. Kwame Anthony Appiah, presidente do júri, comentou:
A linguagem de "Milkman", de Anna Burns, é simplesmente maravilhosa; a começar pela voz singular e consistentemente construída da protagonista, uma personagem engraçada, resiliente, astuta, franca e que narra na primeira pessoa. Desde a primeira página, as suas palavras transportam-nos para a violência quotidiana do seu mundo — ameaças de assassinato, pessoas mortas por esquadrões da morte do Estado — enquanto responde às realidades quotidianas da sua vida enquanto jovem mulher, procurando um equilíbrio entre as exigências da família, dos amigos e dos amantes em tempos conturbados. O romance retrata brilhantemente o poder da tagarelice e da pressão social numa comunidade unida, e mostra como tanto os rumores como as lealdades políticas podem ser utilizados ao serviço de uma campanha implacável de assédio sexual individual. Burns baseia-se na experiência da Irlanda do Norte durante o período dos Conflitos para retratar um mundo que permite aos indivíduos abusar do poder concedido pela comunidade àqueles que resistem ao Estado em seu nome. No entanto, este nunca é um romance sobre apenas um lugar ou época. O local está ao serviço de uma exploração da experiência universal das sociedades em crise.