| Minhoca | |||||||||||||
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| Ocorrência: Triássico Superior–Recente | |||||||||||||
| Classificação científica | |||||||||||||
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As minhocas são animais anelídeos, da subclasse dos oligoquetas, de simetria bilateral, recobertos por uma fina cutícula pigmentada. Seu corpo cilíndrico é segmentado interna e externamente, mas os dois primeiros segmentos não são identificados externamente. Estão distribuídas pelos solos úmidos de todo o mundo, algumas com apenas alguns centímetros, outras com um a dois metros de comprimento, ou mais, casos nos quais são conhecidas como minhocuçus. O seu corpo é formado por anéis (segmentos corporais), o que faz com que sejam cilíndricos e alongados, com a boca e o ânus em extremidades opostas, e um anel mais claro, o clitelo, mais próximo à extremidade anterior. São, ainda, conhecidas por serem animais com vários corações, podendo ter entre dois e quinze pares. Elas vivem enterradas (são animais subterrâneos), escavam galerias e canais no solo, buscando abrigo e restos orgânicos, os quais são seu principal alimento, ingerido com grandes quantidades de terra. Elas são, portanto, animais detritívoros, pois se alimentam de detritos de várias origens. As fezes das minhocas contém terra ingerida misturada com matéria orgânica, compondo o húmus de minhoca, um ótimo fertilizante. As minhocas são frequentemente usadas como isca viva, na pesca com linha.

Na extremidade anterior, as minhocas apresentam um prostômio e um peristômio, formando a cabeça, enquanto na extremidade posterior localiza-se o pigídio ou periprocto, onde se encontra o ânus. Cada segmento entre o peristômio e o pigídio é denominado metâmero. Os metâmeros constituem um tronco homônomo, isto é, formado por segmentos praticamente iguais entre si, sem diferenciação regional significativa, exceto pelo clitelo. Prostômio, peristômio e pigídio não são considerados metâmeros verdadeiros e não possuem cerdas. O prostômio das minhocas é geralmente pequeno, podendo variar em tamanho e até tornar-se indistinguível em algumas espécies. Sua principal importância é abrigar o cérebro. O corpo das minhocas possui forma cilíndrica alongada, semelhante a um cilindro dentro de outro cilindro, dividido em uma série de segmentos delimitados externamente por sulcos visíveis. O tamanho corporal varia amplamente entre as espécies, desde cerca de 10 milímetros de comprimento e um milímetro de largura até exemplares com mais de três metros de comprimento. A típica Lumbricus terrestris pode atingir cerca de 360 milímetros de comprimento. A forma e a relação entre comprimento e diâmetro variam conforme fatores como alimentação, vulnerabilidade à dessecação e predadores, exposição a condições anaeróbicas e modo de locomoção.
O corpo contém uma cavidade preenchida por fluido denominada celoma ou cavidade celômica, que atua como esqueleto hidrostático e fornece sustentação ao animal desprovido de ossos. Essa cavidade é dividida por septos intersegmentares perfurados, permitindo a passagem do fluido celômico entre os segmentos. Exceto nos segmentos da boca e do ânus, cada segmento possui cerdas semelhantes a pelos chamadas setas laterais, utilizadas para ancoragem durante a locomoção. Dependendo da espécie, podem existir quatro pares de setas por segmento ou mais de oito, às vezes formando um círculo completo. Setas ventrais especializadas auxiliam na fixação dos indivíduos durante o acasalamento. O clitelo é um espessamento glandular em forma de cinta que circunda o corpo em posição específica próxima à região anterior e integra o sistema reprodutor, produzindo cápsulas de ovos. Sua posição e número de segmentos são invariáveis dentro de uma mesma espécie, estando sempre posteriores às aberturas das espermatecas e aos gonóporos femininos. O clitelo pode apresentar formato de sela ou de anel, frequentemente com aspecto inchado e coloração distinta do restante do corpo, variando entre tons mais claros, escuros ou completamente diferentes. Quando muito desenvolvido, os sulcos entre os segmentos podem tornar-se indistintos. As minhocas são hermafroditas. Entre os sinais de maturidade sexual encontram-se tubérculos, cumes e papilas na superfície ventral anterior. Os tubérculos correspondem a espessamentos glandulares localizados próximos ou sobre a região do clitelo, geralmente abrangendo menos segmentos do que ele. Espécies sem espermateca normalmente não apresentam tubérculos.
A parede corporal é revestida externamente por uma fina cutícula transparente e acelular composta por fibrilas de colágeno dispostas em camadas entrecruzadas. Sob ela encontra-se a epiderme, geralmente pigmentada de vermelho, marrom, verde ou cinza devido à presença de pigmentos, fluido celômico amarelado ou células cloragógenas próximas à superfície. A superfície ventral costuma ser mais clara que a dorsal. A epiderme secreta abundante muco, responsável por reduzir o atrito com o solo, proteger o tegumento contra substâncias tóxicas e manter a umidade necessária para as trocas gasosas da respiração cutânea. Ela também contém células sensoriais. Abaixo da epiderme encontram-se a lâmina basal, uma fina camada de tecido nervoso e duas camadas musculares: uma camada externa de músculos circulares e outra interna, mais espessa, de músculos longitudinais, seguidas pelo peritônio que reveste a cavidade celômica. Um par de estruturas chamadas nefróstomas localiza-se na parte posterior de cada septo. De cada nefróstoma parte um túbulo nefrídico que atravessa o septo em direção ao segmento seguinte, conduzindo ao nefrídio ou metanefrídio, órgão responsável pela filtração do fluido celômico e eliminação de resíduos metabólicos por meio de poros laterais chamados nefridióporos. Geralmente há dois nefrídios por segmento, embora algumas espécies possuam mais. Muitas minhocas podem expelir fluido celômico através de poros dorsais em resposta ao estresse; a espécie australiana Didymogaster sylvaticus é capaz de lançar esse fluido a até 300 centímetros de distância.
O cérebro está localizado dorsalmente no prostômio e recuado até o segmento três. Cada metâmero possui um par de gânglios segmentares conectados por comissuras ventrais, dos quais partem nervos em direção à parede do corpo e aos órgãos. O prostômio é provido com dois pares de nervos que passam pela borda lateral do gânglio cerebral, sendo esses os únicos nervos que saem do gânglio cerebral. Ao deixarem o gânglio, os nervos se dividem e cada ramo se divide novamente antes de entrar no segmento 1. Os quatro ramos principais formados subdividem-se em muitos ramos menores; os três mais dorsais terminam no prostômio, enquanto os ramos do quarto nervo passam ventralmente de cada lado para suprir os tecidos da região dorsal da cavidade bucal no segmento 1.
Os nervos motores e sensoriais que inervam a parede do corpo e os órgãos segmentares têm origem no trato anelar e nos gânglios segmentares, sendo cada segmento responsável pela inervação da musculatura e dos órgãos correspondentes. O gânglio subfaríngeo controla os movimentos corporais e o cérebro medeia a integração das informações recebidas dos órgãos sensoriais, podendo exercer função inibitória sobre o gânglio subfaríngeo. As estruturas sensoriais encontram-se em terminações nervosas livres ou inseridas nos órgãos. Na musculatura há células que atuam como proprioceptores, informando a tensão das musculaturas circular e longitudinal de cada segmento. Os órgãos sensoriais epiteliais distribuem-se pelo tegumento e podem consistir em simples terminações nervosas superficiais ou agrupamentos em protuberâncias com funções mecânicas ou quimiorreceptoras. Também estão distribuídas pelo tegumento células fotorreceptoras, responsáveis por respostas fototáticas negativas, principalmente sob iluminação intensa.
O cordão nervoso ventral, formado por células e fibras nervosas, começa nos gânglios subfaríngeos e estende-se abaixo do canal alimentar até o segmento corporal mais posterior. Ele apresenta um espessamento, ou gânglio segmentar, em cada segmento do quinto ao último segmento do corpo. As minhocas possuem três axônios gigantes na região médio-dorsal do cordão nervoso ventral: um axônio gigante medial (MGA) e dois axônios gigantes laterais (LGAs). Essas fibras estão relacionadas ao mecanismo de fuga desses animais. O MGA possui cerca de 0,07 mm de diâmetro, conecta-se principalmente às células sensoriais da parte frontal e transmite impulsos na direção anteroposterior a uma velocidade de 32,2 m/s. Já os LGAs possuem cerca de 0,05 mm de diâmetro, recebem estímulos sobretudo das células sensoriais da extremidade posterior e transmitem impulsos na direção posteroanterior a 12,6 m/s. Os dois LGAs possuem conexões cruzadas segmentares em intervalos regulares ao longo do corpo e, por isso, são considerados uma única unidade funcional.

A distribuição de nutrientes, resíduos e gases respiratórios no corpo da minhoca é realizada por um sistema circulatório duplo, no qual tanto o fluido celômico quanto um sistema circulatório fechado participam do transporte. O sistema circulatório fechado possui cinco vasos sanguíneos principais: o vaso dorsal, localizado acima do trato digestivo; o vaso ventral, abaixo do trato digestivo; o vaso subneural, abaixo do cordão nervoso ventral; e dois vasos lateroneurais situados lateralmente ao cordão nervoso. O sangue é totalmente canalizado e consiste em células ameboides e hemoglobina dissolvida no plasma. O sistema hemal é formado principalmente pelos vasos dorsal e ventral, que transportam o sangue em direção anterior e posterior, respectivamente. A ação de bombeamento do vaso dorsal move o sangue para a frente, enquanto os demais vasos longitudinais o transportam para trás. A união entre os vasos dorsal e ventral ocorre por meio de redes vasculares anterior e posterior e de redes capilares segmentares, incluindo os plexos intestinal e subepidérmico. Os vasos que partem do vaso dorsal envolvem o trato digestório e conectam-se ao vaso ventral, formando o plexo intestinal, responsável por nutrir as células do trato digestório e absorver nutrientes no intestino médio. Já do vaso ventral parte uma rede de capilares que irrigam o tegumento e desembocam no vaso dorsal, formando o plexo subepidérmico, que nutre as células da parede corporal e realiza as trocas gasosas responsáveis pela oxigenação.
O vaso dorsal é altamente muscular e pode mover o sangue sob elevada pressão para determinadas regiões do corpo. Além disso, existem vasos secundários denominados “corações laterais” ou arcos aórticos, que constituem a principal força propulsora do sangue. Em Lumbricus terrestris, há cinco pares desses vasos musculares de grosso calibre, localizados entre os segmentos sete e onze, circundando o celoma e conectando diretamente o vaso dorsal ao ventral. Esses vasos possuem válvulas em forma de pregas longitudinais, que impedem o refluxo sanguíneo. O vaso ventral atua funcionalmente como uma aorta. As minhocas também possuem um importante vaso longitudinal adicional denominado vaso subneural, que estabelece ligação direta com o vaso dorsal e transporta o sangue em direção posterior. O segundo sistema circulatório deriva das células do sistema digestivo que revestem o celoma. À medida que essas células digestivas se enchem, liberam células adiposas não vivas no fluido celômico. Essas células flutuam livremente, podendo atravessar os septos entre os segmentos, transportando nutrientes para outras partes do corpo e auxiliando na cicatrização de ferimentos.

O sistema digestivo das minhocas é, simplificadamente, um tubo reto com especializações localizadas principalmente na região anterior. O trato gastrointestinal estende-se da boca até o ânus e é diferenciado em um canal alimentar e glândulas associadas embutidas na própria parede do canal alimentar. O canal alimentar consiste em boca, cavidade bucal (geralmente atravessando o primeiro ou os dois primeiros segmentos da minhoca), faringe, esôfago, papo, moela e intestino. O tubo digestório encerra-se no ânus, localizado no pigídio da minhoca. O principal órgão para a ingestão de alimento é a faringe muscular ou bulbo faríngeo, que atua como uma bomba de sucção. As minhocas ingerem sedimento enquanto cavam suas galerias. Ao se moverem, evertem e recolhem continuamente o bulbo faríngeo por meio da contração da musculatura da parede do corpo, que age contra o fluido celômico. Na faringe, glândulas faríngeas secretam muco, e numerosas terminações quimiorreceptoras na porção eversível detectam a presença de material orgânico na terra, permitindo a escolha de caminhos mais ricos em nutrientes durante a escavação. Dessa forma, as minhocas ingerem a terra e digerem principalmente o material orgânico de origem vegetal nela contido. A retração da faringe ocorre por meio dos músculos retratores.
Após a boca e a cavidade bucal, o alimento segue para o esôfago, que possui dilatações correspondentes ao papo e à moela. O papo consiste em uma câmara de armazenamento de alimento com paredes finas e pouco musculares, enquanto a moela é bastante muscular e revestida internamente por espessa cutícula, por vezes formando dentículos utilizados para triturar o alimento com auxílio de partículas minerais ingeridas junto com ele. No esôfago também existem evaginações lamelares denominadas glândulas calcíferas. Elas combinam o cálcio obtido na alimentação e no sangue com o gás carbônico proveniente da respiração celular, produzindo carbonato de cálcio liberado no lúmen do esôfago na forma de cristais de calcita, posteriormente eliminados nas fezes. Supõe-se que as glândulas calcíferas contribuam para a eliminação de parte do gás carbônico e também auxiliem na regulação dos níveis de magnésio, fosfato, cálcio e carbonato no sangue e nos fluidos celômicos, tamponando seu pH.
Após passar pela moela, o alimento segue para o intestino, responsável pela digestão e absorção de nutrientes. A região mediana do trato digestório produz enzimas digestivas dos próprios anelídeos e também enzimas produzidas por bactérias simbiontes, como celulase e quitinase, utilizadas na digestão das paredes celulares de vegetais e fungos. O intestino secreta pepsina para digerir proteínas, amilase para digerir polissacarídeos, celulase para digerir celulose e lipase para digerir gorduras. Além das proteínas digestivas, as minhocas utilizam compostos tensoativos chamados drilodefensinas, que auxiliam na digestão de material vegetal. A superfície de absorção intestinal é ampliada por uma invaginação médio-dorsal denominada tiflossole, uma dobra semelhante a uma língua com numerosas pregas ao longo de seu comprimento. O tiflossole é formado apenas pelo epitélio intestinal, com amplo suprimento sanguíneo entre as camadas epiteliais, sem participação das camadas musculares da parede intestinal. Em muitos indivíduos, a área do intestino também é ampliada pela presença de um ou mais pares de cecos anteriores. O intestino possui seu próprio par de camadas musculares, organizadas em ordem inversa à da parede corporal: uma camada circular interna e uma camada longitudinal externa. A alimentação das minhocas contribui para o processamento e a incorporação da matéria orgânica ao solo mineral. Parte do material orgânico ingerido é absorvida ao longo da região mediana do intestino e as fezes apresentam grande quantidade de nutrientes que retornam ao solo, continuando o processo de decomposição e ressíntese da matéria orgânica. Por essa razão, as fezes das minhocas são conhecidas como “húmus” de minhoca.
Embora algumas vermes possuam olhos, as minhocas verdadeiras não os possuem. No entanto, elas têm células fotossensíveis especializadas chamadas “células luminosas de Hess”. Essas células fotorreceptoras possuem uma cavidade intracelular central (faossoma) preenchida com microvilos. Além dos microvilos, há diversos cílios sensoriais no faossoma que são estruturalmente independentes dos microvilos. Os fotorreceptores distribuem-se pela maior parte da epiderme, mas concentram-se mais no dorso e nas laterais da minhoca. Um número relativamente pequeno ocorre na superfície ventral do primeiro segmento. Eles são mais numerosos no prostômio e diminuem em densidade nos três primeiros segmentos; após o terceiro segmento, tornam-se muito escassos. Os receptores epidérmicos, por conseguinte, são abundantes e distribuem-se por toda a derme. Cada receptor apresenta uma cutícula ligeiramente elevada que cobre um grupo de células receptoras altas, delgadas e colunares. Essas células possuem pequenos prolongamentos semelhantes a pelos em suas extremidades externas, enquanto suas extremidades internas estão conectadas a fibras nervosas. Os receptores epidérmicos possuem função tátil. Também estão relacionados às mudanças de temperatura e respondem a estímulos químicos. As minhocas são extremamente sensíveis ao toque e às vibrações mecânicas.

O movimento é efetuado por uma sucessão de ondas de contração e alongamento, auxiliada por protrusão e retração de cerdas nas superfícies laterais e ventrais do corpo, que se ancoram ao substrato, permitindo a evolução na locomoção. A penetração no substrato pelas minhocas ocorre pela ingestão de terra, por meio de uma faringe bulbosa eversível. Os segmentos ao redor da faringe não apresentam septos e a contração conjunta da musculatura circular destes segmentos gera pressão no fluido celômico, evertendo a faringe, através da abertura bucal. Ao ingerir a terra, a faringe é recolhida por uma musculatura retratora própria e o movimento da cabeça para frente puxa o primeiro segmento, gerando um impulso nervoso que estimula a contração da musculatura circular e a consequente distensão longitudinal deste segmento.
No movimento peristáltico, em condições normais de relaxamento, os músculos longitudinais e circulares de todos os segmentos estão parcialmente relaxados. O movimento começa com a contração dos músculos circulares dos segmentos anteriores e uma onda de contração passa para a parte posterior sobre os músculos circulares. Quando a onda passa da metade da frente, os músculos circulares da extremidade anterior relaxam e os músculos longitudinais começam a contrair. A onda de contração dos músculos longitudinais passa para trás e, ao passar da metade do corpo, é substituída por outra onda de contração dos músculos circulares anteriores. Quando os segmentos adjacentes exibem um estado de contração máxima dos músculos longitudinais e há um aumento do diâmetro do corpo, forma-se um “pé” que fica estacionário em relação ao solo, exercendo tensão pela contração dos músculos dos segmentos adjacentes. Os segmentos anteriores do “pé” sofrem contração da musculatura circular e se estendem para frente pelo aumento de tensão do fluido celômico contra o “pé”, que está fixado no solo pelas cerdas. Já os segmentos posteriores ao “pé” sofrem contração da musculatura longitudinal e exercem um puxão para trás, impedido pelas cerdas alinhadas para a parte posterior. Nessa região a pressão celômica é baixa, uma vez que a extremidade posterior é arrastada passivamente para a frente.
Quando o relaxamento dos músculos longitudinais na região do “pé” começa, os segmentos passam a se movimentar para a frente, aumentando a velocidade até o relaxamento completo. Durante a contração dos músculos longitudinais, a velocidade do segmento diminui até o “pé” ser formado, na contração máxima. Assim, cada segmento avança em uma série de dois a três centímetros com uma onda de movimentos peristálticos passando pelo corpo a cada 7–10 minutos. Para garantir que o movimento ocorra na direção desejada, há sempre segmentos suficientes ancorados à galeria. Quando uma minhoca é estimulada ao toque em uma extremidade, ela responde pela contração simultânea de toda a musculatura longitudinal, resultando em um encurtamento rápido do corpo. Esse movimento de fuga, relacionado com as fibras gigantes e não envolvido no peristaltismo, é seguido por rastejamento peristáltico.
Na superfície, a velocidade de rastejamento varia tanto entre indivíduos quanto dentro de um mesmo indivíduo. As minhocas rastejam mais rapidamente principalmente ao realizarem “passadas” mais longas e em maior frequência. Minhocas maiores de Lumbricus terrestris rastejam em velocidade absoluta maior do que as menores. Elas alcançam isso dando passadas ligeiramente mais longas, mas com frequências de passada um pouco menores. Tocar uma minhoca, o que provoca uma resposta de "pressão", bem como frequentemente uma reação à propriedade desidratante do sal presente na pele humana (tóxico para minhocas), estimula o plexo nervoso subepidérmico, que se conecta ao plexo intermuscular e faz com que os músculos longitudinais se contraiam. Isso produz os movimentos contorcidos observados quando um ser humano pega uma minhoca. Esse comportamento é um reflexo e não requer o SNC; ocorre mesmo que o cordão nervoso seja removido. Cada segmento da minhoca possui seu próprio plexo nervoso. O plexo de um segmento não está diretamente conectado ao dos segmentos adjacentes. O cordão nervoso é necessário para conectar os sistemas nervosos dos segmentos. A presença de um sistema nervoso é essencial para que um animal possa experimentar nocicepção ou dor. No entanto, outras capacidades fisiológicas também são necessárias, como sensibilidade a opioides e modulação central das respostas por analgésicos. Substâncias semelhantes à encefalina e à α-endorfina foram encontradas em minhocas. Injeções de naloxona (um antagonista opioide) inibem as respostas de fuga das minhocas. Isso indica que substâncias opioides desempenham um papel na modulação sensorial, semelhante ao observado em muitos vertebrados.
As minhocas possuem um par de metanefrídios por metâmero, um em cada lado da câmara celômica, associado ao septo intersegmentar. Algumas minhocas megascolecídeas e glossoscolecídeas podem apresentar nefrídios adicionais múltiplos ou ramificados. Existem algumas espécies que possuem metanefrídeos modificados chamados de micronefrídios ou enteronefrídios. Os micronefrídios formam uma fina capa esbranquiçada que reveste a parede do corpo e suas extremidades internas podem ser ramificadas, arborescentes, enquanto os ductos nefridiais unem-se entre si por canalículos microscópicos que se abrem no intestino. Essas estruturas auxiliaram na adaptação aos solos menos úmidos, uma vez que a água é reabsorvida ao longo do intestino e as excretas são eliminadas com as fezes. A ultrafiltração é feita pela capilarização sanguínea, em íntimo contato com cada nefrostômio, formando um glomérulo, em cujas paredes são encontrados podócitos. Assim, o ultrafiltrado proveniente dos vasos sanguíneos segue diretamente para o interior dos metanefrídios. As minhocas possuem dificuldades em relação à osmorregulação, uma vez que o tegumento deve ser constantemente úmido e não pode haver barreiras à difusão de gases, implicando em uma fina cutícula. Isso determina uma perda de água e íons pelas paredes do corpo. Portanto, esses indivíduos possuem outras adaptações fisiológicas, como a excreção de ureia, que reduz a perda de líquido. Além disto, os processos de reabsorção seletiva e secreção ativa nos ductos nefridiais são desenvolvidos, o que explica a evolução das alças nefridiais. Assim, como adaptação, esses indivíduos conseguem produzir uma urina hiperosmótica, caso haja escassez de água e também podem suportar perda de água, de até 75% do volume corporal, e recuperá-la quando as condições ambientais forem mais favoráveis.
O sistema excretor contém um par de nefrídios em cada segmento, exceto nos três primeiros e nos últimos. Existem três tipos de nefrídios: integumentares, septais e faríngeos. Os nefrídios integumentares ficam aderidos ao lado interno da parede corporal em todos os segmentos, exceto nos dois primeiros. Os nefrídios septais estão ligados a ambos os lados dos septos após o 15.º segmento. Os nefrídios faríngeos estão ligados ao quarto, quinto e sexto segmentos. Os resíduos presentes no fluido celômico de um segmento anterior são puxados pelo batimento dos cílios do nefróstoma. A partir daí, são transportados através do septo (parede) por meio de um tubo que forma uma série de alças entrelaçadas por capilares sanguíneos, os quais também transferem resíduos para o túbulo do nefróstoma. Os resíduos excretórios são então finalmente eliminados através de um poro na lateral do corpo da minhoca.


As minhocas são seres hermafroditas simultâneos, pois cada indivíduo possui testículos e ovários ao mesmo tempo. No entanto, o animal não se reproduz sozinho, dependendo sempre da união com outro indivíduo para a troca de espermatozoides, processo chamado de fecundação cruzada. Elas apresentam clitelo, uma cintura glandular intumescida presente na região anterior do corpo, responsável pela formação do casulo, pela nutrição dos embriões e com importante papel na cópula. O sistema reprodutor masculino é composto por testículos, vesículas seminais, ductos espermáticos e gonóporos, localizados em um ou dois segmentos férteis. Ademais, é comum que o sistema inclua um par de glândulas prostáticas e outro de glândulas acessórias, que auxiliam na reprodução. Já o sistema reprodutor feminino encontra-se em apenas um segmento, possuindo um par de ovários, ovissacos, ovidutos e gonóporos. Além disso, há de um a três pares de espermatecas, responsáveis pelo armazenamento dos espermatozoides do parceiro. A localização de cada estrutura varia conforme a espécie de minhoca, mas existe a obrigatoriedade fisiológica de que os poros femininos e as aberturas das espermatecas estejam localizados anteriormente ao clitelo.
Na cópula, duas minhocas unem seus corpos em direções opostas, de modo que os gonóporos masculinos entrem em contato com as aberturas das espermatecas da outra. A manutenção dessa posição é possível graças ao muco secretado pelas células clitelares e aos encaixes de cerdas copulatórias especializadas presentes no segmento masculino. A cópula termina quando as espermatecas de ambos os indivíduos estão cheias de espermatozoides do parceiro. Nos lumbricídeos não há justaposição dos gonóporos masculinos com as aberturas das espermatecas; assim, os espermatozoides migram até as espermatecas por meio de uma fenda longitudinal externa, utilizando movimentos peristálticos. Após a cópula, o clitelo passa a secretar um casulo em forma de anel duro e coriáceo de muco ao redor de si mesmo e dos segmentos anteriores. Depois da formação da parede do casulo, as células clitelares secretam albumina entre a superfície corporal e a parede do casulo, destinada à alimentação dos futuros embriões. Posteriormente, a musculatura da minhoca produz ondas peristálticas que geram um movimento para trás, fazendo com que o casulo se desloque para a região anterior e passe pelos gonóporos femininos, onde recolhe os óvulos, e depois pelas espermatecas. No interior do casulo, após a deposição dos óvulos e espermatozoides, ocorre a fecundação, que portanto é externa. Por fim, o casulo é liberado do corpo. Algumas espécies possuem a partenogênese como principal forma de reprodução. Ou seja, a formação e o desenvolvimento dos embriões ocorrem sem a necessidade de um parceiro, como em Aporrectodea caliginosa.
Diversas espécies comuns de minhocas são predominantemente partenogenéticas, ou seja, o crescimento e desenvolvimento dos embriões ocorre sem fecundação. Entre as minhocas da família dos lumbricídeos, a partenogênese surgiu diversas vezes a partir de ancestrais sexuados. Em algumas linhagens de Aporrectodea trapezoides, a partenogênese surgiu entre 6,4 e 1,1 milhões de anos atrás a partir de ancestrais sexuados. Algumas espécies apresentam partenogênese pseudogâmica, na qual o acasalamento é necessário para estimular a reprodução, embora nenhum material genético masculino seja transmitido à prole. Em Hormogaster samnitica e Hormogaster elisae, bibliotecas de DNA do transcriptoma foram sequenciadas e dois feromônios sexuais, attractina (Attractin) e temptina (Temptin), foram detectados em todas as amostras de tecido de ambas as espécies. Os feromônios sexuais provavelmente são importantes nas minhocas porque esses animais vivem em ambientes nos quais a sinalização química pode desempenhar papel crucial na atração de parceiros e na facilitação do cruzamento entre indivíduos geneticamente distintos. O cruzamento cruzado pode proporcionar a vantagem de mascarar a expressão de mutações recessivas deletérias na prole.
As minhocas realizam as trocas gasosas pelas paredes do corpo em contato com o ar por difusão, por isso possuem uma rede capilar epidérmica bastante desenvolvida. As trocas gasosas das minhocas dependem da umidade do tegumento, que é mantida por poros intersegmentares dorsais, responsáveis por exsudação do fluido celômico, e pelas células glandulares epidérmicas.

A exposição de Eisenia fetida à radiação ionizante induz a ocorrência de quebras nas fitas de DNA e oxidação de bases nitrogenadas. Esses danos podem ser posteriormente reparados tanto em células somáticas quanto espermatogênicas. As células testiculares das minhocas também são capazes de reparar adutos oxidativos de DNA induzidos por peróxido de hidrogênio. As minhocas possuem capacidade de regenerar segmentos perdidos, embora essa habilidade varie entre as espécies e dependa da extensão do dano. Algumas pesquisas demonstraram que a taxa de regeneração reduz-se após a remoção de nove segmentos, tornando-se ainda menor depois do sétimo segmento, no qual cada metâmero removido reduz o grau de regeneração. A regeneração também pode ser influenciada por fatores ambientais, como temperatura e nutrição. Estudos identificaram que minhocas cultivadas a 25 °C regeneram mais rapidamente do que aquelas mantidas a 20 °C ou 30 °C. A atividade sexual também interfere na regeneração: quanto mais distante o corte estiver da região posterior dos órgãos sexuais, menor será a capacidade regenerativa. Estudos indicam que as minhocas regeneram anteriormente apenas a região pré-gonadal. Em espécies da família dos lumbricídeos, a regeneração após amputação da região gonadal não é suficiente para permitir reprodução natural, enquanto em outras espécies a regeneração das gônadas é comum, evidenciando diferenças interespecíficas na capacidade regenerativa.
Segundo pesquisas realizadas, o tempo de regeneração não depende do número de segmentos remanescentes nem da posição da amputação nos segmentos anteriores, mas depende da posição de amputação dos segmentos posteriores. Os comprimentos regenerados posteriormente foram significativamente maiores do que os regenerados anteriormente, indicando maior capacidade regenerativa dos segmentos posteriores. As taxas de sobrevivência e regeneração após amputação também diferem entre minhocas adultas e imaturas nos estágios iniciais da regeneração. A sobrevivência de indivíduos imaturos submetidos à regeneração posterior é maior quando a cabeça permanece intacta. Dessa forma, concluiu-se que a cabeça é essencial para a regeneração de indivíduos imaturos e exerce papel inibitório na regeneração de indivíduos em estágio avançado. Stephenson (1930) dedicou um capítulo de sua monografia ao tema, enquanto Gordon Enoch Gates passou vinte anos estudando a regeneração em diferentes espécies. No entanto, devido ao pouco interesse despertado pelo assunto, Gates (1972) publicou apenas parte de suas observações. Entre os resultados descritos por Gates estão:
Também foi relatado um exemplar não identificado de minhoca da Tasmânia desenvolvendo uma nova cabeça de substituição.

Minhocas são um grupo dentro dos oligoquetas, da classe Euclitellata e do filo dos anelídeos. Há pouco consenso na taxonomia das famílias de minhocas, provavelmente devido à simplicidade de seu plano corporal. Apesar de existirem trabalhos taxonômicos há algum tempo, como os de Gates (1959), Jamieson (1971) e Sims (1980), eles são conflitantes e pouco consistentes, levando Fender & McKey-Fender (1990) a afirmarem que a classificação desses anelídeos em nível de família era caótica. Mais recentemente, técnicas moleculares passaram a ser utilizadas para auxiliar essa questão.
No campo da taxonomia, o estável “Sistema Clássico” de Michaelsen (1900) e Stephenson (1930) foi gradualmente erodido por controvérsias sobre a classificação das minhocas, a ponto de Fender e McKey-Fender (1990) afirmarem que “a classificação em nível de família das minhocas megascolicídeas está em caos”. Ao longo do tempo, diferentes cientistas desenvolveram sistemas próprios de classificação, o que gerou confusão e sucessivas revisões. O sistema de classificação utilizado aqui, proposto por Blakemore (2000), é uma reinterpretação moderna do Sistema Clássico, amplamente utilizada como referência.
Em 2006, Blakemore publicou um trabalho com chaves para a taxonomia de 23 famílias de minhocas, com o objetivo de simplificar a classificação sem comprometer as relações filogenéticas. Essas chaves se baseiam em características morfológicas como o clitelo, a posição dos poros femininos e masculinos, a presença ou ausência de glândulas calcárias e a morfologia externa do corpo. Esse sistema permite posicionar os gêneros de minhocas nas famílias das subordens Lumbricina e Moniligastrida, dentro da ordem Haplotaxida. A categorização de uma minhoca megadrile em suas famílias taxonômicas baseia-se ainda em características como composição do clitelo, disposição das estruturas sexuais, número de moelas e formato corporal.


Atualmente, mais de seis espécies de minhocas terrestres foram nomeadas, conforme registros em bancos de dados de espécies. Segundo Blakemore, 2006, existem 23 famílias de minhocas, sendo elas:
Algumas famílias são detalhadas a seguir:

As minhocas podem ser encontradas em todos os lugares da Terra, mas raramente em desertos, áreas cobertas por neve ou locais com pouco solo e vegetação. As minhocas peregrinas são amplamente distribuídas por apresentarem características fisiológicas como hermafroditismo, tolerância a variações ambientais, oportunismo na escolha do alimento, resistência a estresses químicos, associação com solos cultivados e plasticidade ecológica. Assim, podem ser dominantes em ambientes hostis. Esses oligoquetas possuem hábito detritívoro e criam galerias no solo que podem ser ramificadas ou irregulares, com uma ou mais aberturas na superfície, podendo conter câmaras especiais para casulos ou períodos de diapausa. O muco secretado pelas minhocas diminui o atrito com o substrato e contribui para a estabilidade das paredes das galerias. Essas galerias podem ser longas e profundas, especialmente em espécies maiores, podendo chegar até três metros de profundidade, enquanto espécies menores permanecem em camadas mais superficiais. O diâmetro das galerias pode variar entre 1 mm e 40 mm. Elas facilitam a drenagem da água, o desenvolvimento de raízes de plantas e a penetração de ar no solo. A alimentação consiste principalmente em material orgânico em decomposição no solo, e muitas espécies se alimentam em um local e defecam em outro, promovendo o revolvimento e a mistura do sedimento. Isso contribui para a incorporação da matéria orgânica, melhor distribuição de nutrientes e formação de húmus, aumentando a fertilidade do solo. Durante estações secas ou no inverno, algumas minhocas podem se deslocar para até três metros e entrar em diapausa, perdendo até 70% da água corporal até que condições favoráveis retornem.
As minhocas são classificadas em três principais categorias ecofisiológicas: (1) minhocas de serapilheira ou compostagem, não escavadoras, que vivem na interface solo-serapilheira e se alimentam de matéria orgânica em decomposição (epigeico), como Eisenia fetida; (2) minhocas do solo superficial ou subsolo, que escavam e se alimentam do solo, produzindo excrementos dentro dele e formando galerias horizontais nos primeiros 10–30 centímetros (endogeico); e (3) minhocas anécicas, que constroem túneis verticais profundos permanentes e sobem à superfície para obter material vegetal, como folhas, por exemplo Lumbricus terrestris.
As minhocas são predadas por diversas espécies de aves, serpentes, tartarugas terrestres, mamíferos (como ursos, javalis, raposas, ouriços, porcos e toupeiras), além de invertebrados como formigas, planárias, carabídeos, outros besouros, caracóis, aranhas e lesmas. Também apresentam numerosos parasitas internos, incluindo protozoários, platelmintos, ácaros e nematoides, que podem ser encontrados no sangue, vesículas seminais, celoma, intestino ou casulos (como o ácaro Histiostoma murchiei, parasita de casulos de minhocas). A atividade das minhocas aerifica e mistura o solo, contribuindo para a mineralização de nutrientes e sua absorção pelas plantas. Algumas espécies sobem à superfície para se alimentar de matéria orgânica acumulada, incorporando-a ao solo mineral. Como a mistura de matéria orgânica está associada à fertilidade do solo, a presença de minhocas é geralmente considerada benéfica por agricultores e jardineiros. Em 1881, Charles Darwin já destacava sua importância ecológica ao afirmar que poucas outras criaturas teriam desempenhado papel tão relevante na história do mundo.
Embora o principal habitat das minhocas seja o solo, elas não estão restritas a ele. Eisenia fetida vive em matéria vegetal em decomposição e esterco; Arctiostrotus vancouverensis é encontrada em troncos de coníferas em decomposição; e Aporrectodea limicola, Sparganophilus spp. e outras ocorrem em lama de riachos. Há espécies arbóreas, aquáticas, eurialinas e litorâneas, como Pontodrilus litoralis. As minhocas também são importantes indicadores ambientais da saúde do solo, pois se alimentam de matéria em decomposição e acumulam substâncias químicas, incluindo metais pesados como cádmio, mercúrio, zinco e cobre. A abundância de minhocas é frequentemente usada como indicador de qualidade do solo, já que solos saudáveis tendem a sustentar populações maiores desses organismos.
Os principais benefícios das atividades das minhocas para a fertilidade do solo na agricultura podem ser resumidos em:


Em solos de podzol, as minhocas podem eliminar a estrutura em camadas do perfil do solo ao misturar os horizontes orgânico (LFH), eluvial (E) e iluvial superior (B), criando um único horizonte escuro Ap. Além disso, aceleram o ciclo de nutrientes por meio da fragmentação e mistura de resíduos vegetais. As populações de minhocas variam amplamente conforme condições ambientais e manejo do solo. Darwin estimou até 53 mil indivíduos por acre (130 mil por hectare), enquanto estudos mais recentes indicam que solos pobres podem suportar 250 mil por acre (620 mil por hectare), e solos férteis até 1 750 000 por acre (4 300 000 por hectare), podendo o peso total das minhocas superar o do gado na superfície. Em solos ricos em matéria orgânica, podem atingir média de 500 indivíduos por metro quadrado (46/pé²) e até 400 g/m², o que implica que cada ser humano poderia corresponder a cerca de sete milhões de minhocas.
A capacidade de decompor materiais orgânicos e excretar nutrientes concentrados torna as minhocas importantes em projetos de restauração ecológica. Em áreas degradadas, são utilizadas para acelerar a recuperação do solo e o retorno da flora nativa. Estudos da Station d'écologie Tropicale de Lamto indicam que elas aumentam a formação de macroagregados e melhoram sua estabilidade em contato com a água. Minhocas são consideradas engenheiras ecossistêmicas, pois modulam a disponibilidade de recursos para outras espécies por meio de alterações físicas no solo. Embora ainda não totalmente quantificadas, as emissões de gases de efeito estufa das minhocas provavelmente contribuem para o aquecimento global, especialmente porque minhocas de superfície aumentam a velocidade dos ciclos de carbono e foram espalhadas por humanos para muitas novas regiões geográficas. Ao construir galerias e câmaras, alteram a porosidade, a agregação e o transporte de gases e água, criando ambientes com propriedades físicas, químicas e microbiológicas distintas — verdadeiras “ilhas de diversidade”. Além disso, a atividade digestiva associada a microrganismos simbiontes produz húmus rico em micronutrientes (como ferro e cobre) e macronutrientes (como potássio, nitrogênio e fósforo), tornando-o um excelente fertilizante natural. Em contextos de degradação ambiental, como mineração e queimadas, as minhocas auxiliam na recuperação do solo ao promover mineralização, fragmentação da matéria orgânica, redução da erosão e melhoria da retenção de água, acelerando a recolonização por microrganismos e plantas.


Fertilizantes nitrogenados tendem a criar condições ácidas, que são fatais para as minhocas, e espécimes mortos são frequentemente encontrados na superfície após a aplicação de substâncias como DDT, calda sulfocálcica, e arseniato de chumbo. Na Austrália, mudanças nas práticas agrícolas, como a aplicação de superfosfatos em pastagens e uma mudança da pecuária extensiva]] para a agricultura arável, tiveram um efeito devastador sobre as populações de Megascolides australis, levando à sua classificação como uma espécie protegida. Globalmente, certas populações de minhocas foram devastadas pelo afastamento da produção orgânica e pela pulverização de fertilizantes sintéticos e biocidas, com pelo menos três espécies agora listadas como extintas, mas muitas outras ameaçadas.
Os usos econômicos das minhocas são diversos e incluem sua utilização como isca para pesca, na cultura de sementes, na produção de rações animais como fonte de biomassa rica em proteína, na fabricação de fertilizantes orgânicos, na bioestabilização de matrizes ou fluidos contaminados, na reciclagem de dejetos orgânicos, no sequestro de carbono em solos ricos em matéria orgânica, na prospecção biológica de fármacos, cosméticos e seda, além de aplicações em pesquisas de ecotoxicologia e etiologia. Além disso, a atividade das minhocas contribui significativamente para a fertilidade do solo. Isso ocorre pela mistura entre solo e matéria orgânica presente em seus dejetos, bem como pela formação de túneis, o que altera características físicas e químicas do ambiente edáfico. Esses processos favorecem o crescimento das plantas, pois resultam em substratos mais densos, porém com maior quantidade de macroporos, melhorando as condições de desenvolvimento radicular.
O uso de húmus de minhoca também aumenta o teor de matéria orgânica do solo e o fornecimento de nutrientes essenciais, como nitrogênio, fósforo, potássio, enxofre e micronutrientes. Ele ainda melhora a retenção de água, reduz a compactação do solo — favorecendo a aeração e o enraizamento — e, consequentemente, aumenta a absorção de nutrientes pelas plantas. Além disso, pode contribuir para a redução ou eliminação de doenças do solo por meio da ativação de microrganismos benéficos e auxiliar na correção de desequilíbrios, inclusive em casos de acidez excessiva, muitas vezes associada ao uso intensivo de fertilizantes químicos. Por essas características, há interesse no uso desses animais em sistemas agrícolas visando aumentar a produtividade de culturas economicamente importantes. Em práticas conservacionistas, as populações da fauna do solo tendem a ser favorecidas, especialmente quando há cobertura vegetal, matéria orgânica em decomposição e sistemas radiculares bem desenvolvidos. Por outro lado, a ausência de interação adequada das minhocas com outros organismos pode levar a efeitos negativos na estrutura do solo, como compactação superficial e redução da circulação de ar e água.
Também existem estudos sobre o uso da vermicompostagem no tratamento de lixiviados provenientes de aterros sanitários. Nesse contexto, o húmus produzido pelas minhocas apresenta capacidade quelante e complexante, auxiliando na redução da carga poluidora do lixiviado, com remoção de matéria orgânica, metais pesados e nitrogênio. Espécies como Eudrilus eugeniae e Eisenia fetida são utilizadas na América do Norte desde a década de 1940 como iscas de pesca, além de serem empregadas na compostagem de lodo, estrume e esgoto. Também são amplamente utilizadas na alimentação de peixes cultivados, podendo ser fornecidas como suplemento na dieta de peixes ornamentais e outras espécies de difícil cultivo, isoladamente ou em combinação com rações comerciais.
No contexto da vermicultura — prática de decomposição de resíduos orgânicos por meio de minhocas — as espécies mais comuns são Eisenia fetida (ou seu parente próximo Eisenia andrei) e o verme brandling, conhecido como verme-tigre ou red wiggler. Esses organismos diferem das minhocas típicas do solo. Em regiões tropicais, também são utilizados Eudrilus eugeniae e Perionyx excavatus. O comércio de minhocas é global e economicamente relevante, com registros de grande escala de exportação e valor de mercado significativo.