Myiopsitta monachus

Como ler uma infocaixa de taxonomiaCaturrita


Estado de conservação
Espécie pouco preocupante
Pouco preocupante (IUCN 3.1)
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Psittaciformes
Família: Psittacidae
Subfamília: Psittacinae
Género: Myiopsitta
Espécie: M. monachus
Nome binomial
Myiopsitta monachus
(Boddaert, 1783)
Distribuição geográfica

A caturrita (português brasileiro) ou periquito-monge (português europeu) (Myiopsitta monachus), também conhecida por caturrita-argentina, riquinha ou cocota, é uma ave da família Psittacidae. A caturrita é nativa das regiões subtropical e temperada da América do Sul. São encontradas nos pampas à leste dos Andes na Bolívia, Paraguai, Uruguai e sul do Brasil até a região da Patagônia na Argentina.

As caturritas têm penas verdes no dorso, que contrastam com a barriga, peito, garganta e testa acinzentados. O bico é pequeno e alaranjado. No peito, a plumagem é escamada e nas asas e cauda possuem penas longas azuladas. As caturritas adultas têm 28 a 30 cm de comprimento total.

As caturritas são aves gregárias, que vivem em bandos de 15 a 20 aves (bandos maiores, até de 100 aves, não são incomuns), e não migratória. A época de reprodução decorre de julho a novembro.

A caturrita é a única espécie de psitacídeos que constrói o seu próprio ninho. Todos os outros membros do grupo (papagaios, araras, etc) fazem ninhos em buracos ocos de árvores, barrancos ou cupinzeiros. Os casais de caturritas nidificam com o resto do seu bando e podem formar ninhos comunitários com, no máximo, um metro de diâmetro e 200 kg de peso. Os ninhos são estruturas cilíndricas fechadas, unidas aos ninhos vizinhos através das paredes externas. As caturritas constroem os ninhos com gravetos, nos galhos mais altos de diferentes tipos de árvores como eucaliptos, coqueiros, e também butiazeiros ou estruturas tais como postes de energia, pontes, ninhos grandes de outras aves, etc.. Os ninhos são usados durante todo o ano. Quando não estão no período reprodutivo, as caturritas usam-nos para dormir ou como protecção em caso de tempestades. As caturritas chega a por 11 ovos por postura, sendo que cerca de 7 dos filhotes conseguem chegar a idade adulta.

A caturrita é uma das apenas duas espécies de papagaio que não nidificam em cavidades, sendo a outra o Periquito-de-Penhasco (Myiopsitta luchsi), espécie próxima. Ela é também uma das apenas três espécies conhecidas de papagaios que constroem ninhos de gravetos, e a única que os utiliza exclusivamente; Cada casal constrói sua própria câmara de reprodução onde põe os ovos, sendo que os ninhos tipicamente incluem de 1 a 4 câmaras; contudo, a estrutura completa de uma colônia costuma abrigar até 20 câmaras em média, podendo em casos extremos chegar a aproximadamente 200 câmaras quando várias gerações e pares sucessivos vão ampliando o mesmo ninho ao longo dos anos.

Na natureza, a alimentação das caturritas é composta por frutos, verduras, legumes, sementes de arbustos e capins, flores e brotos, e mesmo em cativeiro, não é recomendado o uso de alimentos fora desse padrão.

Outros nomes, grafias e etimologia

Também conhecida como periquito torrenho, catorra, miranha ou cocota. A caturrita também é conhecida no Brasil por catorra, cocota, maritaca, periquito barroso, papo branco, riquinha e outros nomes, dependendo da região.

O nome "caturrita" foi selecionado como nome vernáculo técnico para a espécie pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos.

O epíteto específico "monachus" vem do Latim tardio e significa "monge"; e por isso o nome "periquito-monge" em português europeu e "monk parakeet" em inglês.

Subespécies

São conhecidas quatro subespécies de caturritas:

A subespécie M. m. luchsi, é tratada por alguns autores como espécie separada. o Periquito de Penhasco (Myiopsitta luchsi), classificado pela IUCN como Quase Ameaçado e endêmico da Bolívia, tendo sido por muito tempo considerado como subespécie do periquito-monge.

Praga

No sul do Brasil, na Argentina e no Uruguai, a caturrita é considerada praga em zonas de cultivo de milho e sorgo e em pomares. Com o desaparecimento das matas onde viviam, as caturritas começaram a procurar alimento nas culturas que hoje ocupam seu habitat natural. Com alimento fácil e a extinção progressiva de seus predadores, como o gavião, a população da espécie aumentou facilmente.

O cultivo de eucalipto, originário da Austrália e introduzido no Brasil entre os anos de 1855 e 1870, também tem um papel importante na explosão populacional das caturritas. A caturrita encontrou no eucalipto um local perfeito para nidificar, construindo ninhos nos galhos mais altos do eucalípto (a 10 metros de altura), os ovos, filhotes e adultos ficam muito bem protegidos do ataque dos seus inimigos naturais e dificultando o controle populacional por parte do homem.

Em outras regiões, onde não há uma agricultura de gramíneas muito extensa, como é o caso do Pantanal Matogrossense, as caturritas causam danos localizados, mas de pouca expressão. A presença de predadores naturais e espécies competidoras as mantém em níveis populacionais compatíveis.

Atualmente a Caturrita é considerada uma das espécies de aves mais invasoras do mundo devido à sua capacidade única entre os papagaios de construir seus próprios ninhos comunais, sendo tida como espécie invasora em 19 países e como praga mesmo em sua distribuição nativa, por causa das perdas econômicas decorrentes de seus impactos. Apesar disso, a espécie continua popular no Comércio de animais de Estimação, respondendo por 97% de todo o comércio reportado de papagaios exportados da América do Sul entre 2006 e 2012. Evidências genéticas mostram, inclusive, que as populações invasoras de caturritas nos Estados Unidos estão ligadas ao comércio internacional de animais de estimação.

Nos Estados Unidos, exemplares fugidos do cativeiro se reproduziram e agora também estão presentes em New York, New Jersey, Flórida e Virgínia, preocupando as autoridades ambientais americanas.

Na América do Norte, indivíduos em vida livre foram notados pela primeira vez no fim da década de 1960; No início, temia-se que a espécie prosperasse em seu novo lar, devastando plantações à medida que sua distribuição se expandisse; porém, ao longo dos anos, a ameaça de danos às lavouras não se concretizou. Ainda assim, houve tentativas de controle: em 1973, o Departamento de Conservação Ambiental de Nova York iniciou uma campanha fracassada para eliminar as caturritas, e o estado de Nova Hampshire proíbe totalmente sua posse até hoje. Apesar disso, avalia-se que a espécie provavelmente se tornará estabilizada como não nativa aos Estados Unidos, junto a outras como o Pardal-doméstico e o Estorninho-malhado/Estorninho-europeu.

Além disso, populações naturalizadas e reprodutoras da espécie foram estabelecidas em regiões tão distintas quanto no Reino Unido, Porto Rico, Quénia, Japão, Itália e República Tcheca, além de populações crescentes nos Estados Unidos em estados como o Texas e Connecticut.

Também na Europa existem comunidades nidificantes, nomeadamente na Espanha e na Bélgica.

Bélgica

Foram libertadas no início do século XX num dos parques da cidade de Bruxelas e é hoje em dia possível encontrá-los numa parte significativa dos espaços verdes urbanos. Entretanto começam a surgir possíveis avistamentos da espécie noutras áreas urbanas próximas.

Espanha

Desde 1985, altura em que os periquitos-monge se fixaram em Madrid, o número de exemplares não tem parado de aumentar, o que constitui uma ameaça para outras aves autóctones.

A presença destas aves em Madrid e noutras cidades espanholas, como Barcelona e Málaga está também a provocar danos no ambiente e a trazer problemas para a saúde pública.

Os periquitos-monge são agressivos, roubam comida a outras aves e podem ser portadores de psitacose, uma doença infeciosa transmitida via respiratória. Para além disso, o peso dos ninhos — que podem chegar aos 150 quilos — pode provocar a queda de ramos de árvores.

Estudos documentam danos concretos a plantações: Pesquisadores catalães registraram prejuízos a tomates, tanto aos frutos quanto para árvores ornamentais. E ao milho na região do Baix Llobregat, na Espanha.

Em 2019, a câmara municipal de Madrid avançou com um plano para eliminar 12 mil periquitos-monge. O plano passou por permitir a caça de periquitos-monge e pela esterilização dos ovos. A morte de cada ave custará entre seis a oito euros. A medida pode custar, no total, 100 mil euros. A câmara municipal local diz que uma comunidade de cerca de 600 exemplares seria o “mínimo aceitável”.

Na prática, o plano acabou sendo mais amplo: Em 2020, aprovou um contrato de 2,9 milhões de euros (2020-2023) para controlar a população, então estimada em 13 mil exemplares. Executado entre 2021-2023, o plano reduziu a população em cerca de 30%, para 10 mil exemplares, segundo balanço divulgado em 2024. Um pedido de acesso à informação pública revelou, porém, que haviam sido feitas 17.143 capturas no período, mais do que o próprio censo inicial, o que levou organizações ambientalistas a questionarem a fiabilidade dos números e a eficácia real da medida.

Portugal

Os primeiros registros em Portugal remontam à década de 1990, e a origem dos exemplares em liberdade é provavelmente a fuga de aves em cativeiro, dado que a caturrita é popular no comércio de animais de estimação. Segundo a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), a única população estabelecida atualmente conhecida no país encontra-se na cidade do Porto, sendo o Passeio Alegre um dos locais mais propícios para sua observação, embora também seja vista com regularidade no Parque da Cidade e na Quinta do Covelo. Há ainda registros de tentativas de nidificação em Lisboa, Loures e junto ao Rio Arade, no Algarve, mas nenhuma resultou até agora no estabelecimento de núcleos populacionais viáveis fora do Porto.

Israel

A Caturrita também está presente em Israel, onde foi associada a perdas agrícolas em plantações locais.

Chile

Um estudo conduzido em Santiago (Chile), durante as temporadas reprodutivas entre 2017 e 2018, registrou interações entre caturritas invasoras e espécies de aves residentes, incluindo comportamentos agonísticos e afiliativos, além da ocupação dos ninhos das caturritas por nove espécies de aves, duas invasoras e sete nativas. Por isso os pesquisadores consideram a caturrita como uma forma de "Engenheira de Ecossistema" alóctone, com potencial de moldar a distribuição e a riqueza de espécies que convivem com ela em ambientes urbanos.

Referências

  1. ↑ «IUCN red list Myiopsitta monachus». Lista Vermelha da IUCN. Consultado em 24 de setembro de 2026. Cópia arquivada em 2 de junho de 2018
  2. ↑ Paixão, Paulo (Verão de 2021). «Os Nomes Portugueses das Aves de Todo o Mundo» (PDF) 2.ª ed. A Folha — Boletim da língua portuguesa nas instituições europeias. ISSN 1830-7809. Consultado em 5 de abril de 2024. Cópia arquivada (PDF) em 23 de abril de 2022
  3. ↑ «Equipe de fauna orienta população sobre caturritas». Prefeitura Municipao de Porto Alegre. Consultado em 7 de dezembro de 2025
  4. ↑ «Monk Parakeet (myiopsitta monachus)». NYC Bird Alliance (em inglês). Consultado em 12 de setembro de 2026. Cópia arquivada em 24 de março de 2026
  5. ↑ Martínez, Juan J.; de Aranzamendi, María C.; Bucher, Enrique H. (2018). «Quantitative genetics in the monk parakeet (Myiopsitta monachus) from central Argentina: Estimation of heritability and maternal effects on external morphological traits». PloS One. 13 (8): e0201823. ISSN 1932-6203. PMC 6075774Acessível livremente. PMID 30075029. doi:10.1371/journal.pone.0201823. Cópia arquivada em 13 de fevereiro de 2025
  6. ↑ José Fernando Pacheco; Luís Fábio Silveira; Alexandre Aleixo; et al. (26 de julho de 2021), «Lista comentada das aves do Brasil pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos – segunda edição», Zenodo, doi:10.5281/ZENODO.5138368, Wikidata Q108322590
  7. ↑ «Caturrita (Myiopsitta monachus)». iNaturalist. Consultado em 12 de setembro de 2026. Cópia arquivada em 10 de março de 2026
  8. ↑ Briceño, Cristóbal; Sandoval-Rodríguez, Alejandra; Yévenes, Karina; Larraechea, Matilde; Morgado, Angello; Chappuzeau, Catalina; Muñoz, Víctor; Dufflocq, Pablo; Olivares, Florencia (5 de novembro de 2019). «Interactions between Invasive Monk Parakeets (Myiopsitta monachus) and Other Bird Species during Nesting Seasons in Santiago, Chile». Animals: an open access journal from MDPI. 9 (11). 923 páginas. ISSN 2076-2615. PMC 6912311Acessível livremente. PMID 31694253. doi:10.3390/ani9110923. Cópia arquivada em 11 de fevereiro de 2026
  9. ↑ Burgio, Kevin R.; van Rees, Charles B.; Block, Kali E.; Pyle, Peter; Spreyer, Mark F.; Bucher, Enrique H.; Boesman, Peter F. D. (2025). «Monk Parakeet (Myiopsitta monachus), version 1.1». Cornell Lab of Ornithology, Ithaca, NY, USA. Birds of the World. ISSN 2771-3105. doi:10.2173/bow.monpar.01.1. Cópia arquivada em 11 de dezembro de 2025
  10. 1 2 Russello, Michael A.; Avery, Michael L.; Wright, Timothy F. (24 de julho de 2008). «Genetic evidence links invasive monk parakeet populations in the United States to the international pet trade». BMC evolutionary biology. 8. 217 páginas. ISSN 1471-2148. PMC 2517076Acessível livremente. PMID 18652686. doi:10.1186/1471-2148-8-217. Cópia arquivada em 22 de fevereiro de 2025
  11. ↑ Burgio, Kevin R.; van Rees, Charles B.; Block, Kali E.; Pyle, Peter; Spreyer, Mark F.; Bucher, Enrique H.; Boesman, Peter F. D. (2025). «Monk Parakeet (Myiopsitta monachus), version 1.1». Cornell Lab of Ornithology, Ithaca, NY, USA. Birds of the World. ISSN 2771-3105. doi:10.2173/bow.monpar.01.1. Cópia arquivada em 11 de dezembro de 2025
  12. ↑ «Monk Parakeet (myiopsitta monachus)». NYC Bird Alliance (em inglês). Consultado em 12 de setembro de 2026. Cópia arquivada em 24 de março de 2026
  13. ↑ De Schaetzen, R., and J. P. Jacob. 1985. Installation d'une colonie de Perriches Jeune-veuve (Myiopsitta monachus) a Bruxelles. Aves 22: 127-130
  14. ↑ Burgio, Kevin R.; van Rees, Charles B.; Block, Kali E.; Pyle, Peter; Spreyer, Mark F.; Bucher, Enrique H.; Boesman, Peter F. D. (2025). «Monk Parakeet (Myiopsitta monachus), version 1.1». Cornell Lab of Ornithology, Ithaca, NY, USA. Birds of the World. ISSN 2771-3105. doi:10.2173/bow.monpar.01.1. Cópia arquivada em 11 de dezembro de 2025
  15. ↑ Sequeira, Inês (16 de outubro de 2020). «Fique de olho nestas 11 aves exóticas. Elas andam por aí e são preocupantes». Wilder. Consultado em 12 de setembro de 2026
  16. ↑ «Caturrita». SPEA. Consultado em 12 de setembro de 2026