Naquibe (em árabe: نقيب; romaniz.: naqīb, plural نقباء, nuqabāʾ) era um título administrativo empregado em diferentes períodos da história islâmica para designar chefes, representantes, supervisores ou responsáveis investidos de autoridade sobre comunidades, tribos, corporações, unidades militares ou instituições religiosas. O cargo exerceu funções políticas, administrativas, militares, sociais e religiosas, variando de acordo com a época e o contexto histórico. Também recebeu o título o funcionário nomeado pelo Estado para tratar dos assuntos relativos aos descendentes de Fátima e Ali ibne Abi Talibe, conhecido como naquibe alaxerafe. O termo aparece no Alcorão, onde designa os doze chefes ou representantes nomeados entre os Filhos de Israel, e também nos hádices para indicar auxiliares e representantes de Maomé. Seu primeiro emprego como cargo islâmico ocorreu durante o Segundo Pacto de Ácaba, quando Maomé escolheu doze naquibes entre os habitantes de Iatrebe para representar a comunidade muçulmana local, promover o islão e mantê-lo informado sobre os acontecimentos da cidade. Posteriormente, o título foi utilizado por diversos Estados islâmicos para designar oficiais militares, representantes administrativos, dirigentes de corporações profissionais e dignitários religiosos.
O vocábulo naqīb deriva da raiz árabe نقب, relacionada às ideias de examinar, investigar ou supervisionar. Nos dicionários árabes clássicos, a palavra significa "chefe", "representante", "delegado", "fiador", "depositário" ou "pessoa de confiança" de uma comunidade. Como termo técnico, passou a designar ocupantes de cargos de elevada responsabilidade nas esferas política, militar, administrativa, social e religiosa.
O termo naquibe já aparece no Alcorão, onde designa os doze chefes ou representantes escolhidos entre os Filhos de Israel. No contexto islâmico, porém, seu primeiro emprego documentado como título administrativo ocorreu antes da Hégira, durante o Segundo Pacto de Ácaba. Na ocasião, Maomé escolheu doze homens dentre os habitantes de Iatrebe que lhe haviam prestado juramento de fidelidade para atuarem como representantes da nascente comunidade muçulmana na cidade. Cabia-lhes zelar pelos assuntos dos muçulmanos locais, promover a pregação do islão e manter o profeta informado sobre os acontecimentos de Iatrebe. Os doze naquibes representavam os diferentes clãs dos aucitas e cazerajitas, sendo Açade ibne Zurara, representante dos najaritas, designado chefe do grupo com o título de naquibe dos naquibes (naqīb al-nuqabāʾ). Segundo a tradição preservada por Ibne Sade, Maomé comparou esses representantes aos doze auxiliares de Moisés e aos doze apóstolos de Jesus. Após a morte de Açade ibne Zurara, ocorrida no primeiro ano da Hégira (623), os najaritas solicitaram a Maomé a nomeação de um novo naquibe. O profeta, porém, respondeu: "Vós sois meus parentes maternos; eu próprio sou vosso naquibe", recusando-se a indicar um sucessor para o cargo. A historicidade dessa instituição durante a vida de Maomé foi objeto de discussão entre estudiosos modernos. A Encyclopaedia of Islam observa que os doze representantes mencionados nas biografias do profeta aparentemente não exerceram funções claramente definidas e assinala a hipótese de que esse episódio tenha sido desenvolvido posteriormente pelos autores da sira como um paralelo aos doze auxiliares de Moisés e aos doze apóstolos de Jesus.
O título voltou a ganhar destaque durante os preparativos da Revolução Abássida, que resultou na derrubada do Califado Omíada em 750. Segundo os historiadores muçulmanos, os abássidas, então estabelecidos em Humeima, teriam nomeado doze naquibes por volta de 718 ou 719 para representar seus interesses e organizar a propaganda do movimento no Coração. A Encyclopaedia of Islam, contudo, considera essa tradição duvidosa, entendendo que ela provavelmente projetou para um período anterior uma organização que só se consolidaria décadas mais tarde. As fontes indicam que a instituição adquiriu contornos mais definidos quando Abu Muslim passou a dirigir a propaganda revolucionária no oásis de Merve durante a década de 740. Segundo o Akhbār al-Dawla al-ʿAbbāsiyya, existiam então doze naquibes encarregados da coordenação do movimento, dos quais sete eram árabes e cinco eram maulas. Entre eles figuravam personagens que posteriormente desempenhariam papel importante na revolução e nos primeiros anos do Califado Abássida, como Cataba ibne Xabibe, Tala ibne Zuraique e Solimão ibne Catir. Além desse núcleo principal, as fontes mencionam outros dezoito naquibes regionais, considerados de igual categoria aos estabelecidos em Merve, bem como uma rede mais ampla composta por aproximadamente setenta propagandistas que atuavam em diferentes cidades do Coração. Essa organização desempenhou papel fundamental na coordenação da propaganda abássida e na articulação do movimento que culminaria na tomada do poder em 750. A tradição islâmica registra ainda outros empregos do título durante os primeiros séculos do islão. Em 891, por exemplo, o líder dos cármatas nomeou doze naquibes e declarou que eles ocupavam posição equivalente à dos apóstolos de Jesus.
Ao longo da Idade Média islâmica, o título de naquibe passou a designar diferentes cargos militares e administrativos, variando conforme a organização de cada Estado. Em diversos exércitos islâmicos, um naquibe era colocado à frente de determinado contingente militar, exercendo funções de comando, disciplina e representação. As fontes relativas ao Império Seljúcida mencionam comandantes que ostentavam o título de naquibe. Segundo os Selçuknâme, o palácio seljúcida mantinha um corpo de duzentos cavaleiros encarregados do serviço pessoal e da guarda do sultão, conhecido como mufredane. Cada destacamento de cinquenta cavaleiros era colocado sob o comando de um naquibe. O título também existia na organização do baride seljúcida, onde os naquibes supervisionavam os mensageiros encarregados de transportar notícias provenientes das diversas províncias do império. O emprego do título também é atestado no Império Gasnévida, no Império Corásmio, no Beilhique Begueteguínida de Moçul e outras dinastias islâmicas medievais. Entre os gasnévidas e os corásmios havia militares conhecidos como naquibes, enquanto, em Moçul, durante o governo dos begueteguínidas, é mencionada a existência de um naquibe responsável por uma fortaleza. No Sultanato Mameluco do Cairo, o naquibe aljaixe ("naquibe do exército") ocupava um posto de elevada responsabilidade. Entre suas atribuições estavam proteger o sultão, organizar as formações militares durante desfiles e inspeções, manter a disciplina das tropas, acompanhar expedições militares, redigir ordens e documentos destinados ao exército e conduzir à presença do soberano os emires e demais oficiais convocados para audiência.
A existência de oficiais com esse mesmo título no Sultanato Jalaírida indica que essa organização militar também foi adotada por outros Estados islâmicos da região. No Sultanato de Deli, os naquibes integravam a administração do Dīvān-i ʿArż, órgão responsável pelos assuntos militares. Além de auxiliarem na administração do exército, exerciam funções cerimoniais na corte, acompanhando o sultão durante procissões oficiais e festividades ao lado do hájibe. Segundo o relato de Ibne Batuta, ocupavam posição inferior à do hájibe entre os oficiais da corte. Nas audiências públicas, podiam reunir-se às centenas sob a direção do naqīb al-nuqabāʾ, proclamando a invocação bismilá à entrada do sultão. Nos banquetes oficiais, o naquibe de naquibes (naqīb al-nuqabāʾ) pronunciava um elogio formal ao soberano antes do início da refeição, enquanto os demais naquibes conduziam os alimentos das cozinhas ao salão. Durante as procissões solenes, cerca de trezentos naquibes precediam o sultão, usando altos chapéus cônicos dourados, cinturões de ouro e chicotes de cabo dourado, além de proclamarem as ordens dirigidas às assembleias. O Ādāb al-ḥarb, de Facri Mudabir, também atribui aos naquibes funções militares, descrevendo sua atuação ao lado do aride almamalique durante as inspeções do exército, na organização da ordem de batalha e na transmissão de ordens às tropas, atribuições que igualmente desempenhavam nas caçadas reais. Já no século XVII, o Canato de Bucara mantinha naquibes entre os principais dignitários da corte, cabendo-lhes exercer determinadas atribuições civis e militares na ausência do emir.
A partir do século XII, o título de naquibe passou a integrar oficialmente a organização da futua, associação de caráter ético e corporativo difundida pelo mundo islâmico medieval. Na hierarquia da instituição, o xeique de xeiques (shaykh al-shuyūkh) ocupava a posição mais elevada, seguido pelo xeque, pelo califa e por três naquibes, um dos quais exercia autoridade sobre os demais. Os manuais da futua descrevem detalhadamente as atribuições desses oficiais, responsáveis pela disciplina interna, pela supervisão dos membros e pela execução das ordens dos superiores. Segundo a tradição da própria ordem, o patrono espiritual dos naquibes era Jabir ibne Abedalá, a quem Ali ibne Abi Talibe teria investido simbolicamente com o cinturão iniciático (shadd). A influência dessa estrutura estendeu-se às principais confrarias sufis, sendo geralmente aceito que as instituições do naquibe e do naquibe de naquibes exerceram impacto sobre ordens como os bektashis, a ordem rifaíta, a ordem sadita e a ordem cadirita. Nessas organizações, os naquibes desempenhavam diferentes funções de supervisão e administração, variando conforme a tradição de cada confraria.
Nos ahis da Anatólia, considerada a manifestação anatólica da futua a partir do século XIII, o cargo conservou atribuições semelhantes. Escolhido pelos próprios membros das corporações, o naquibe atuava como representante do xeque entre artesãos e comerciantes, fiscalizando a conduta dos associados, presidindo determinadas cerimônias, proferindo orações durante os ritos de promoção, investindo os novos mestres com o cinturão profissional, transmitindo aos membros as determinações do xeque e levando a este as reivindicações da corporação. Também administrava diversos serviços das zauias e, quando necessário, servia como fiador dos integrantes da organização, exercendo sobretudo autoridade moral e religiosa sobre a comunidade. No Império Otomano, o título continuou associado às corporações profissionais. Entre os auxiliares do quetuda, chefe executivo das guildas de artesãos, figurava o naquibe, escolhido entre os membros reconhecidos por sua honestidade, religiosidade e experiência profissional. Segundo Evliya Çelebi, os naquibes ocupavam posição de destaque nos desfiles cerimoniais das corporações, marchando imediatamente após o xeque durante as procissões públicas.
Durante o período otomano, a estrutura hierárquica da futua também influenciou outras atividades organizadas. Nos campos de tiro com arco, por exemplo, o meydan nakibi ("naquibe do campo") atuava como auxiliar do xeque responsável pelo recinto e dirigia as cerimônias realizadas na Tekke dos Arqueiros. De modo semelhante, nos complexos religiosos e assistenciais otomanos, administradores subordinados aos xeques recebiam igualmente o título de naquibe, cabendo-lhes auxiliar na direção de hospitais, tekkes, zauias, refeitórios públicos e outras instituições beneficentes. Nas confrarias sufis, o título passou a identificar diferentes funções especializadas. Entre os auxiliares dos tekkes encontravam-se oficiais conhecidos como sernaquibe (sernakib), meydan nakibi, kahve nakibi e paşmak nakibi, cada qual encarregado de responsabilidades específicas na administração e na condução das cerimônias. Em alguns casos, o próprio termo naquibe também era empregado para designar servidores ou auxiliares da instituição. No bequitaxismo, o posto de naquibe correspondia a um dos doze assentos (post) cerimoniais da ordem e era tradicionalmente associado a Caiguçuz Abedal. Entre os nussairitas, por sua vez, o título designava o oficial imediatamente subordinado ao xeque, responsável por auxiliar na condução das cerimônias religiosas e dos atos de culto. O título também passou a designar o naquibe alaxerafe, funcionário incumbido de representar e supervisionar os descendentes de Fátima e Ali ibne Abi Talibe, cargo que foi adotado por diversos Estados islâmicos. O emprego oficial do título foi abolido na Turquia após a proclamação da República. A lei de 30 de novembro de 1925, que extinguiu as ordens sufis e determinou o fechamento de tekkes e zauias, também proibiu o uso do título de naquibe, encerrando oficialmente uma tradição institucional cuja origem remontava aos primórdios da história islâmica.