Papiros de Herculano

Os Papiros de Herculano são um conjunto de mais de 1.800 papiros encontrados no século XVIII na cidade romana de Herculano, soterrada pela erupção do Monte Vesúvio no ano 79 d.C. Carbonizados pelo calor da erupção, os rolos foram encontrados na Villa dos Papiros, mansão atribuída a Lúcio Calpúrnio Pisão, sogro de Júlio César, e constituem a única grande biblioteca da Antiguidade clássica a ter sobrevivido até os dias de hoje.

A coleção é composta majoritariamente por textos filosóficos gregos, provenientes de uma única biblioteca pessoal associada ao filósofo epicurista Filodemo de Gádaros, identificado como autor de pelo menos 44 rolos.

O estado de carbonização dos rolos tornou sua leitura um desafio por séculos: abrir os papiros fisicamente significava destruí-los. Desde a descoberta, pesquisadores tentaram métodos variados de desenrolamento e leitura, desde técnicas mecânicas e químicas do século XVIII até, mais recentemente, o uso de tomografia computadorizada de raios X e inteligência artificial, que permitiram pela primeira vez ler o conteúdo dos rolos ainda fechados sem tocá-los.

Importância

Até ao meio do século XVIII, os únicos papiros conhecidos eram alguns sobreviventes dos tempos medievais. Os rolos, que faziam parte de uma biblioteca de textos em grego e em latim, nunca teriam sobrevivido ao clima mediterrânico, tendo-se fragmentado ou perdido.

Filodemo é identificado com autor de 44 rolos. Grandes partes dos livros XIV, XV, XXV e XXVIII da principal obra de Epicuro, Sobre a Natureza e outras obras de seguidores de Epicuro estão também representados nos papiros.

Desenrolamento

Desde a descoberta, tentativas anteriores para desenrolar os papiros usaram água de rosas, mercúrio líquido, gás vegetal, compostos sulfúricos, suco de papiro ou uma mistura de etanol, glicerina e água morna, na esperança de tornar os papiros legíveis. Segundo Antonio de Simone e Richard Janko, a princípio, os papiros eram confundidos com galhos de árvores carbonizados, alguns talvez fossem jogados fora ou queimados para produzir calor.

Tentativas

Após a descoberta dos papiros de Herculano em 1752, segundo o conselho de Bernardo Tanucci, o rei Carlos VII de Nápoles estabeleceu uma comissão para estudá-los. Possivelmente, as primeiras tentativas de ler os papiros foram feitas pelo artista Camillo Paderni, encarregado dos itens recuperados. Paderni usou o método de fatiar papiros ao meio, copiando texto legível, removendo camadas de papiros. Esse procedimento de transcrição foi usado por centenas de papiros e, no processo, os destruiu.

Quando os estudiosos desenrolavam com sucesso um papiro, eles frequentemente o colavam no papelão para impedir que ele se desintegrasse em flocos. Para aqueles que tinham escrito nas costas, como o papiro que continha o livro de Filodemos, esse processo de preservação significava que as palavras nas costas eram perdidas no tempo, lembradas apenas em algumas páginas de anotações feitas pelos desenhistas antes da colagem do papiro. A biblioteca nacional italiana de Nápoles iniciou o processo de criação de imagens dos dois lados dos papiros, repleto de anotações e notas apertadas nas margens. Após algum processamento, as imagens revelaram texto anteriormente obscurecido na parte de trás e aumentaram a legibilidade das palavras na frente. A técnica também permitiu que os pesquisadores corrigissem algumas seções do manuscrito de Philodemus que haviam sido interpretadas incorretamente. Por exemplo, uma palavra grega que havia sido lida anteriormente como "encantada" ou "enfeitiçada" (como no debate de oponentes do filósofo Arcesilaus, o fundador da Nova Academia, foi "enfeitiçado" por seus próprios argumentos) acabou dizendo "escravizado" quando visto em contraste mais estrito. Esclarecimentos como esse podem mudar a maneira como os estudiosos interpretam os retratos de pensadores famosos de Filodemo.

Desenrolamento virtual

A partir dos anos 2000, grupos de pesquisa passaram a propor o desenrolamento virtual dos papiros por meio de tomografia computadorizada de contraste de fase por raios X (XPCT), possivelmente com uso de fonte de luz síncroton. O método proposto compreendia quatro etapas: escaneamento volumétrico, segmentação, geração de textura em camadas e restauração.

Em 2009, o Institut de France, em conjunto com o Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica, obteve imagens de dois papiros intactos de Herculano por meio de microtomografia computadorizada de raios X, revelando as estruturas internas dos rolos. A equipe estimou que, se completamente desenrolados, os rolos teriam entre 11 e 15 metros de comprimento. O problema encontrado foi que a tinta à base de carvão utilizada nos papiros é quase indistinguível do próprio produto carbonizado, dificultando sua detecção por técnicas padrão de imageamento.

Em setembro de 2016, Brent Seales, professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Kentucky, utilizou com êxito o desenrolamento virtual para ler o texto de um papiro carbonizado de Israel, o Rolo de En-Gedi - primeira demonstração bem-sucedida da técnica em um manuscrito antigo carbonizado.

PHerc. Paris 4: a leitura premiada com o Grande Prêmio do Vesuvius Challenge de 2023 (acima) e a nova segmentação de tinta em 3D (abaixo) — o mesmo texto, recuperado ponto a ponto a partir de dados de maior qualidade.

Vesuvius Challenge

Em 2023, Nat Friedman, Daniel Gross e o cientista da computação Brent Seales anunciaram o Vesuvius Challenge, uma competição aberta para decifrar os papiros de Herculano por meio de software de raios X em 3D. O prêmio principal era de 700.000 dólares, a ser concedido à primeira equipe capaz de extrair quatro passagens de texto de dois rolos intactos.

Em outubro de 2023, o projeto concedeu um prêmio de 40.000 dólares a Luke Farritor, estudante de ciência da computação de 21 anos da Universidade de Nebraska, por ter identificado com sucesso a primeira palavra em um rolo não aberto: porphyras (grego antigo: ΠΟΡΦΥΡΑϹ, "púrpura").

Em fevereiro de 2024, o projeto concedeu o Grande Prêmio de 2023, no valor de 700.000 dólares, à equipe vencedora, que conseguiu revelar 5% de um dos rolos. O conteúdo recuperado é um texto inédito de Filodemo, "centrado nos prazeres da música e da comida e seus efeitos sobre os sentidos".

Paralelamente, em 2024, pesquisadores da Universidade de Pisa utilizaram scanners de infravermelho e raios X para decifrar mais de mil novas palavras do papiro conhecido como História da Academia, escrito por Filodemo. Entre as descobertas figurou a localização do túmulo de Platão: o filósofo grego teria sido sepultado no jardim de sua academia em Atenas, próximo a um santuário dedicado às musas.

Em junho de 2026, o Vesuvius Challenge anunciou o primeiro desenrolamento virtual completo de um papiro de Herculano: o PHerc.1667, conservado na Biblioteca Nacional de Nápoles, foi integralmente lido sem ser fisicamente aberto, pela primeira vez desde a erupção do Vesúvio em 79 d.C. O texto recuperado é um tratado filosófico sobre ética de provável filiação estoica, cujo último parágrafo preservado menciona Aristocreonte, sobrinho e discípulo do filósofo estoico Crísipo. O processo utilizou microtomografia de raios X de contraste de fase de alta resolução na linha BM18 do European Synchroton Radiation Facility (ESRF), em Grenoble, combinada com modelos de aprendizado de máquina para detectar traços da tinta antiga. Todos os dados, superfícies reconstruídas e transcrições foram disponibilizados publicamente sob licença Creative Commons.

No mesmo anúncio, a equipe reportou dois resultados adicionais: no PHerc.Paris 4 (Rolo 1), uma técnica de imageamento de maior resolução tornou a tinta diretamente visível dentro do rolo no próprio dado de raios X em 3D, confirmando de forma independente as leituras obtidas no Grande Prêmio de 2023; e no PHerc.139, foi possível recuperar o título e a atribuição de autoria do rolo, identificado como Sobre os Deuses, Livro 8, de Filodemo - a primeira vez que o título de um rolo fechado de Herculano foi lido sem que o rolo fosse aberto.

Referências

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