Tratados de Tilsit

O Encontro de Napoleão I e do Tsar Alexandre I em Tilsit, por Adolphe Roehn, 1808.

Os Tratados de Tilsit (em Traités de Tilsit), também conhecidos coletivamente como a Paz de Tilsit (em Friede von Tilsit; em Тильзитский мир), foram dois tratados de paz assinados pelo imperador francês Napoleão I na cidade de Tilsit (atual Sovetsk, na Rússia) em julho de 1807, no rescaldo de sua vitória em Friedland, encerrando a Guerra da Quarta Coligação. O primeiro tratado foi firmado em 7 de julho entre Napoleão e o imperador russo Alexandre I, durante um encontro histórico sobre uma balsa ancorada no meio do rio Neman. O segundo foi firmado com o Reino da Prússia em 9 de julho. Os acordos foram estabelecidos às custas do rei Frederico Guilherme III da Prússia, que já havia concordado com uma trégua em 25 de junho, depois que a Grande Armée capturou Berlim e o perseguiu até a fronteira oriental de seus domínios.

Em Tilsit, a Prússia cedeu cerca de metade de seus territórios anteriores à guerra. A partir dessas terras, Napoleão criou Estados clientes franceses, que foram formalizados e reconhecidos em Tilsit: o Reino de Vestfália, o Ducado de Varsóvia e a Cidade Livre de Danzig; os demais territórios cedidos foram concedidos a outros Estados clientes franceses preexistentes e ao Império Russo.

Napoleão não apenas consolidou o seu domínio sobre a Europa Central, mas também forçou a Rússia e a Prússia desmembrada a se aliarem a ele contra seus dois inimigos remanescentes, o Reino Unido e a Suécia, deflagrando a Guerra Anglo-Russa e a Guerra Finlandesa. A Paz de Tilsit também liberou contingentes militares franceses para a Guerra Peninsular.

A Europa Central voltou a ser um teatro de guerra em 1809, quando o Império Austríaco enfrentou a França na Guerra da Quinta Coligação, e em 1812, quando Napoleão deu início à invasão da Rússia.

Tratado franco-russo (7 de julho)

Medalhão francês do período pós-Tilsit, ilustrando o abraço entre os imperadores da França e da Rússia.

O tratado pôs fim ao estado de guerra entre a Rússia Imperial e o Império Francês, inaugurando uma aliança entre os dois impérios que deixou o restante da Europa continental praticamente subjugado. As duas nações concordaram secretamente em prestar assistência mútua em disputas diplomáticas e militares. A França comprometeu-se a apoiar a Rússia contra o Império Otomano, enquanto o Império Russo concordou em aderir ao Bloqueio Continental contra o Império Britânico. Napoleão também persuadiu Alexandre I a ingressar na Guerra Anglo-Russa e a iniciar a Guerra Finlandesa contra a Suécia, a fim de forçá-la a aderir ao Bloqueio Continental. Nos termos específicos do acordo, o Tsar concordou em desocupar a Valáquia e a Moldávia, que haviam sido ocupadas por tropas russas no contexto da Guerra Russo-Turca (1806–1812). As Ilhas Jônicas e Cattaro (Kotor), conquistadas pelos almirantes russos Fiódor Ushakov e Dmitri Seniavin, foram entregues à França. Em contrapartida, Napoleão garantiu a soberania do Ducado de Oldemburgo e de diversos outros pequenos principados governados por parentes alemães do Tsar.

A decisão de realizar o encontro sobre uma balsa ancorada no rio Neman simbolizou a perfeita igualdade protocolar entre os dois soberanos. Monarcas, príncipes e generais — até então inimigos encarniçados — confraternizaram publicamente. Uma ala de Tilsit foi guarnecida por um batalhão da Guarda Imperial Russa e a outra por um batalhão da Guarda Imperial Francesa. Um cavalo árabe ricamente aparelhado foi preparado para Alexandre, que desfilou diante das fileiras da Guarda Francesa em posição de sentido. Como demonstração de apreço e respeito mútuo, Napoleão determinou que o santo e senha da Guarda Francesa no dia seguinte fossem as palavras "Alexandre, Rússia, Grandeza", enquanto a Guarda Russa recebeu como senha "Napoleão, França, Bravura".

A localidade foi declarada neutra durante as negociações. A Guarda Francesa ofereceu um grande banquete aos soldados dos regimentos da Guarda Russa, incluindo os regimentos Preobrazhensky, Semyonovsky e Izmailovsky. Em uma planície nos arredores da cidade, montou-se uma grande praça de mesas com bandas militares executando marchas marciais. Durante o ápice das celebrações, os próprios imperadores visitaram as tropas, e soldados de ambos os exércitos confraternizaram abertamente pelas ruas, trocando partes de seus uniformes e aclamando ambos os soberanos.

Tratado franco-prussiano (9 de julho)

Napoleão, Alexandre I da Rússia, a rainha Luísa da Prússia e Frederico Guilherme III em Tilsit.
Despedida de Napoleão e Alexandre após a Paz de Tilsit, por Gioacchino Giuseppe Serangeli.

O tratado com a Prússia despojou o reino de cerca de metade de seu território: Cottbus foi transferida para o Reino da Saxônia, a margem esquerda do Elba foi concedida ao recém-criado Reino de Vestfália, Białystok foi entregue à Rússia (dando origem ao Oblast de Belostok) e a maior parte das províncias polonesas anexadas pela Prússia nas Segunda e Terceira Partilhas foi transformada no semi-independente Ducado de Varsóvia. O exército prussiano foi obrigado a limitar seus efetivos a 43.000 soldados, e, em 9 de março de 1808, a França fixou a indenização de guerra a ser cobrada da Prússia em 154.500.000 francos (cerca de 41,73 milhões de táleres prussianos), deduzindo 53.500.000 francos já arrecadados durante a ocupação. O montante foi posteriormente reduzido para 120 milhões de francos até 1 de novembro de 1808.

Talleyrand havia recomendado a Napoleão que impusesse termos menos severos à Prússia; os tratados marcaram uma etapa decisiva em seu progressivo distanciamento político do imperador francês. Até 1812, as forças de ocupação francesas requisitaram contribuições em espécie e em dinheiro de cidades e corporações locais, somando valores estimados entre 146 e 309 milhões de francos adicionais. A dívida pública prussiana disparou entre 1806 e 1815, passando a totalizar 180,09 milhões de táleres em títulos com juros, 11,24 milhões de notas do tesouro sem juros e outros 25,9 milhões de dívidas das antigas províncias assumidas pelo governo central.

Muitos contemporâneos na Prússia e na Rússia encararam os termos de Tilsit como uma humilhação diplomática. A cooperação entre russos e franceses começou a se desgastar sensivelmente a partir de 1810, quando o governo russo passou a autorizar a atracação de navios de nações neutras em seus portos, quebrando as diretrizes do Bloqueio Continental. Em junho de 1812, Napoleão cruzou as margens do rio Neman e deu início à invasão do Império Russo, desfazendo em definitivo os acordos de aliança firmados em Tilsit.

Perdas territoriais e demográficas sofridas pela Prússia

A Prússia em 1807 (em laranja) e seus territórios perdidos em Tilsit (demais cores).

O Estado prussiano foi reduzido a menos da metade de sua extensão geográfica sob os termos dos Tratados de Tilsit, caindo de aproximadamente 5.700 milhas quadradas prussianas para 2.800 milhas quadradas. De uma população prévia de 9,75 milhões de habitantes, restaram não mais que 4,5 milhões de súditos dentro das novas fronteiras delimitadas para o reino.

A receita tributária do Estado prussiano sofreu um decréscimo drástico, perdendo províncias férteis e ricas nas quais vultosos investimentos haviam sido realizados. Quase todos os ganhos obtidos pela Prússia nas Partilhas da Polônia (1772–1795) foram revogados. A tabela a seguir detalha as perdas territoriais e populacionais sofridas pela Prússia nos acordos de Tilsit (sem computar as províncias polonesas anexadas a partir de 1772):

Possessões na VestfáliaMilhas quadradas prussianasHabitantes
Condado de Mark, com Essen, Werden e Lippstadt51 (2 893,65 km2 (1 117,24 sq mi))148.000
Principado de Minden18,5 (1 049,66 km2 (405,28 sq mi))70.363
Condado de Ravensberg16,5 (936,18 km2 (361,46 sq mi))89.938
Lingen e Tecklenburg13 (737,6 km2 (284,8 sq mi))46.000
Cleves, na margem oriental do Reno20,5 (1 163,14 km2 (449,09 sq mi))54.000
Principado da Frísia Oriental56,5 (3 205,71 km2 (1 237,73 sq mi))119.500
Principado de Münster49 (2 718,18 km2 (1 049,50 sq mi))127.000
Principado de Paderborn30 (1 702,15 km2 (657,20 sq mi))98.500
Possessões na Baixa SaxôniaMilhas quadradas prussianasHabitantes
Magdeburgo (com a porção do ducado na margem esquerda do Elba), Halle, etc.54 (3 063,87 km2 (1 182,97 sq mi))160.000
Condado de Mansfeld1,0 (56,74 km2 (21,91 sq mi))27.000
Principado de Halberstadt26,5 (1 503,57 km2 (580,53 sq mi))101.000
Condado de Hohnstein8,5 (482,28 km2 (186,21 sq mi))27.000
Território de Quedlimburgo1,5 (85,11 km2 (32,86 sq mi))13.400
Principado de Hildesheim e Goslar40 (2 269,53 km2 (876,27 sq mi))114.000

O Tratado secreto de Tilsit e Portugal

O Tratado Secreto de Tilsit entre a França e a Rússia estabeleceu a abolição da Dinastia de Bragança (Casa Real Portuguesa) (7 de Julho de 1807):

Consequências

Caricatura de Isaac Cruikshank retratando John Bull avivando a memória do Urso russo.

Com a assinatura dos tratados, a Guerra da Quarta Coligação chegou ao fim. As atenções estratégicas francesas voltaram-se para o sudoeste europeu, dando início à Guerra Peninsular em novembro de 1807, sucedida pela Guerra da Quinta Coligação em 1809.

O rio Neman voltaria a ser o epicentro dos acontecimentos militares europeus em junho de 1812, quando as forças de Napoleão cruzaram suas águas para iniciar a trágica campanha na Rússia.

Com a derrocada final do regime napoleônico e o encerramento das Guerras Napoleônicas em 1815, as resoluções do Congresso de Viena restauraram a soberania e grande parte das perdas territoriais da monarquia prussiana na Europa Central.

Referências

  1. ↑ Lefebvre, Georges (1969). Napoleon: From 18 Brumaire to Tilsit, 1799–1807. [S.l.: s.n.]
  2. ↑ Lieven, Dominic (2009). Russia against Napoleon: the battle for Europe, 1807 to 1814. [S.l.]: Penguin Books
  3. ↑ Zawadzki, Hubert (2009). «Between Napoleon and Tsar Alexander: The Polish Question at Tilsit, 1807». Central Europe. 7 (2): 110–124. doi:10.1179/147909609X12490448067244
  4. ↑ Lesaffer, Randall. «Splitting the Distance». Oxford Public International Law. Oxford University Press. Consultado em 27 de maio de 2025
  5. 1 2 Sokolov, Oleg (2020). 1805-1812: Битва двух Империй [1805-1812: A Batalha de Dois Impérios] (em russo). Moscou: Яуза. pp. 182–184. ISBN 978-5-00155-152-2
  6. ↑ Encyclopædia Britannica, 11.ª ed., vol. 2, p. 620.
  7. 1 2 3 4 Georg Sydow, Theorie und Praxis in der Entwicklung der französischen Staatsschuld seit dem Jahre 1870, Jena: Fischer, 1903, p. 49.
  8. ↑ Herbert Krafft, Immer ging es um Geld: Einhundertfünfzig Jahre Sparkasse Berlin, Berlim: Sparkasse der Stadt Berlin West, 1968, p. 10.
  9. ↑ The New annual register, or General repository of history, politics, and literature, Band 28 (1808) p. 276.
  10. ↑ Biblioteca Nacional de Lisboa - Cod. 597, fl. 218 v. e 219, in Cristovão Aires de Magalhães Sepulveda, História orgânica e política do Exército Português, Provas, Volume XVII, Invasão de Junot em Portugal, I, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932, pp. 92-93

Ligações externas