Peixe-lua

Como ler uma infocaixa de taxonomiaPeixe-lua
M. mola em Nusa Lembongan, Bali
M. mola em Nusa Lembongan, Bali
Estado de conservação
Espécie vulnerável
Vulnerável (IUCN 3.1)
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Actinopterygii
Ordem: Tetraodontiformes
Família: Molidae
Género: Mola
Espécie: M. mola
Nome binomial
Mola mola
(Lineu, 1758)
Distribuição geográfica

O peixe-lua (Mola mola) é uma espécie de peixe ósseo da família Molidae, pertencente à ordem Tetraodontiformes. Encontra-se nas águas tropicais e temperadas dos oceanos e distingue-se pelo corpo alto, fortemente comprimido lateralmente e aparentemente truncado na região posterior. É um dos maiores e mais pesados peixes ósseos existentes, podendo ultrapassar uma tonelada de massa.

Ao contrário da maioria dos peixes, não possui uma verdadeira barbatana caudal, que foi substituída ao longo da evolução por uma estrutura denominada clavus. A propulsão é assegurada sobretudo pelas grandes barbatanas dorsal e anal. Estudos de telemetria demonstraram também que, ao contrário da antiga ideia de que seria transportado passivamente pelas correntes, é um nadador ativo que efetua deslocações horizontais e verticais consideráveis.

Taxonomia

Comparação entre Mola tecta e Mola alexandrini, duas espécies do género Mola

A espécie foi descrita por Carlos Lineu em 1758, sob o nome Tetraodon mola, tendo sido inicialmente incluída no mesmo género de vários peixes atualmente classificados na família Tetraodontidae. Foi posteriormente transferida para o género Mola.

A taxonomia dos peixes-lua foi durante muito tempo dificultada pela grande semelhança morfológica entre as espécies. Atualmente são reconhecidas três espécies no género Mola: Mola mola, Mola alexandrini e Mola tecta. Mola ramsayi, anteriormente considerada uma espécie distinta, é atualmente considerada sinónimo de M. alexandrini.

O género Mola pertence à família Molidae, incluída nos Tetraodontiformes, ordem que também inclui os baiacus, os peixes-ouriço e os Monacanthidae.

Etimologia

O nome do género, Mola, deriva do latim mola, «mó» ou «pedra de moinho», numa referência à forma arredondada e achatada do animal. O nome comum «peixe-lua» alude igualmente à forma aproximadamente circular do corpo.

Descrição

Morfologia

Esqueleto de um peixe-lua
Peixe-lua no Oceanário de Lisboa

O peixe-lua possui um corpo alto, curto e fortemente comprimido lateralmente. Visto de frente, apresenta uma forma aproximadamente oval; de perfil, a ausência de uma cauda convencional confere-lhe uma aparência truncada. As barbatanas peitorais são relativamente pequenas, ao contrário das grandes barbatanas dorsal e anal.

Os adultos podem atingir vários metros de altura e ultrapassar uma tonelada de massa, embora as dimensões variem consideravelmente entre indivíduos.

A coluna vertebral é particularmente curta e possui poucas vértebras. Embora pertença aos peixes ósseos, o esqueleto apresenta uma proporção considerável de tecido cartilaginoso. O animal não possui bexiga natatória; a flutuabilidade é favorecida por uma espessa camada gelatinosa de baixa densidade situada sob a pele.

A boca é pequena e os dentes de ambas as mandíbulas estão fundidos em placas, formando uma estrutura semelhante a um bico. As aberturas branquiais são também muito reduzidas e situam-se junto à base das barbatanas peitorais.

O peixe-lua possui ainda dentes faríngeos finos, recurvados e semelhantes a espinhos, dispostos em três fileiras. Estudos anatómicos e funcionais indicam que estes dentes permitem reter presas gelatinosas durante a alimentação por sucção.

Barbatanas e locomoção

A barbatana dorsal, quando emerge à superfície, pode ser confundida com a de um tubarão

A verdadeira barbatana caudal foi substituída ao longo da evolução dos molídeos pelo clavus, uma estrutura pseudocaudal formada por elementos modificados das barbatanas dorsal e anal. O clavus funciona principalmente como leme, enquanto as barbatanas dorsal e anal, que se movem de forma sincronizada, asseguram a propulsão. Este modo de locomoção distingue-se do da maioria dos peixes, nos quais a progressão depende sobretudo das ondulações laterais do corpo e da barbatana caudal.

A camada gelatinosa situada sob a pele desempenha também um papel na locomoção. É constituída sobretudo por água, numa matriz de colagénio e elastina, e forma compartimentos associados à musculatura das barbatanas dorsal e anal. Estas estruturas elásticas parecem contribuir para uma utilização mais eficiente da força muscular durante a natação.

Pele

A pele é espessa e elástica, não apresenta as escamas convencionais da maioria dos peixes e encontra-se revestida por muco. A coloração varia entre tons acastanhados, cinzentos, prateados e esbranquiçados, sendo geralmente mais escura na região dorsal e mais clara na região ventral.

Distribuição e habitat

Distribuição de Mola mola

O peixe-lua encontra-se nas águas tropicais e temperadas dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico. É uma espécie essencialmente pelágica, embora possa aproximar-se das regiões costeiras e efetuar deslocações sazonais relacionadas com a temperatura da água e a disponibilidade de alimento.

A espécie utiliza uma vasta faixa da coluna de água e é capaz de mergulhar a várias centenas de metros de profundidade. A sua observação frequente à superfície fez crer durante muito tempo que permanecia sobretudo nas camadas superficiais; estudos de seguimento revelaram, contudo, que utiliza regularmente águas profundas.

Os indivíduos podem mergulhar repetidamente abaixo da termoclina, em águas mais frias, regressando depois às águas mais quentes junto à superfície. Foi sugerido que estes regressos possam contribuir para a termorregulação, permitindo recuperar calor após a permanência em águas profundas e frias.

Alimentação

Durante muito tempo considerou-se que Mola mola se alimentava predominantemente de medusas e de outros organismos gelatinosos. Estudos mais recentes, incluindo análises moleculares do conteúdo do aparelho digestivo, demonstraram que a sua dieta é muito mais diversificada.

Num estudo realizado no Atlântico Nordeste, foram identificados 41 tipos de presas em 57 indivíduos, entre os quais crustáceos, peixes teleósteos e cnidários. Estes últimos representavam apenas uma parte das presas detetadas, demonstrando que a espécie não depende exclusivamente de organismos gelatinosos para se alimentar.

A composição da dieta varia consoante o tamanho. Os exemplares de menores dimensões alimentam-se sobretudo de pequenos crustáceos e peixes, incluindo espécies bentónicas e pelágicas costeiras, enquanto os indivíduos maiores consomem uma maior proporção de cnidários e de outras presas pelágicas. Verifica-se, assim, uma alteração ontogénica dos hábitos alimentares.

A maior importância das presas gelatinosas na alimentação dos indivíduos de maiores dimensões é coerente com a anatomia dos dentes faríngeos, cuja forma e orientação dificultam a fuga de presas moles quando estas são conduzidas em direção ao aparelho digestivo.

Na procura de alimento, o peixe-lua desloca-se entre diferentes profundidades, podendo mergulhar abaixo da termoclina para explorar recursos alimentares em águas mais frias. Estes movimentos parecem estar relacionados com a distribuição das presas na coluna de água.

Reprodução e desenvolvimento

Larva de peixe-lua; os espinhos desaparecem durante o desenvolvimento

A reprodução de Mola mola permanece relativamente pouco conhecida. A espécie apresenta, contudo, uma fecundidade extraordinariamente elevada: numa fêmea foram estimados cerca de 300 milhões de ovócitos, um dos maiores valores conhecidos entre os vertebrados.

Os ovos são muito pequenos e dão origem a larvas com apenas alguns milímetros de comprimento. Ao longo do desenvolvimento, o aumento das dimensões e da massa corporal é extraordinário.

As larvas apresentam uma morfologia muito diferente da dos adultos, com grandes barbatanas peitorais, uma estrutura caudal e espinhos no corpo, assemelhando-se aos juvenis de outros tetraodontiformes. Estas estruturas modificam-se ou desaparecem progressivamente até ser adquirida a forma característica dos adultos.

O crescimento pode ser muito rápido. Um indivíduo mantido no Aquário da Baía de Monterey passou de aproximadamente 26 para 399 kg em cerca de quinze meses. A longevidade de M. mola em estado selvagem permanece pouco conhecida.

Ecologia

Predadores

As grandes dimensões dos adultos e a espessura da pele reduzem o número de predadores capazes de os capturar. Entre os predadores documentados encontram-se grandes tubarões, orcas e leões-marinhos, enquanto os juvenis estão sujeitos à predação por um maior número de espécies.

Parasitas e limpeza

Mola mola é hospedeiro de uma grande diversidade de parasitas externos e internos, tendo sido documentadas numerosas espécies associadas ao peixe-lua.

Para remover ectoparasitas, os indivíduos podem aproximar-se de peixes-limpadores ou permanecer junto à superfície, onde aves marinhas também os retiram. Os saltos para fora de água têm igualmente sido interpretados como uma possível forma de desalojar organismos aderentes, embora não seja possível atribuir uma única função a este comportamento.

Relação com o ser humano

Consumo

O peixe-lua é consumido em algumas regiões, sobretudo na Ásia Oriental, e determinadas partes do animal têm sido utilizadas na medicina tradicional. Na União Europeia, contudo, é proibida a colocação no mercado, para consumo humano, de produtos derivados de peixes da família Molidae.

Apesar das grandes dimensões, Mola mola não é considerada perigosa para nadadores ou mergulhadores. Pode, no entanto, representar um risco de colisão para pequenas embarcações, sobretudo quando permanece próximo da superfície.

Cativeiro

Comparação entre um peixe-lua e uma pessoa no Aquário da Baía de Monterey

A manutenção de peixes-lua em aquários é difícil devido às suas grandes dimensões, ao modo de natação e às necessidades alimentares. São necessários tanques espaçosos e cuidados especiais para evitar que os animais colidam com as paredes.

Apesar destas dificuldades, a manutenção da espécie em grandes aquários tem permitido recolher dados difíceis de obter em estado selvagem. Exemplares mantidos no Aquário da Baía de Monterey, por exemplo, forneceram informações sobre a velocidade de crescimento e contribuíram para o desenvolvimento de técnicas adequadas à sua alimentação e manutenção em cativeiro.

O Oceanário de Lisboa também mantém peixes-lua como uma das espécies emblemáticas do seu aquário central.

Conservação

Mola mola encontra-se classificada como vulnerável (VU) pela União Internacional para a Conservação da Natureza. A captura acidental nas atividades de pesca é apontada como uma das principais ameaças à espécie.

O peixe-lua é capturado acidentalmente em diferentes tipos de pesca, incluindo alguns dirigidos a grandes peixes pelágicos. A mortalidade resultante destas capturas pode ser elevada e constitui uma importante pressão de origem humana sobre as suas populações.

A ingestão de resíduos marinhos, nomeadamente objetos de plástico flutuantes, constitui outra ameaça, podendo provocar lesões ou obstruções do aparelho digestivo.


Grandes exemplares e identificação

A semelhança morfológica entre as espécies do género Mola dificultou historicamente a identificação dos exemplares de grandes dimensões. Alguns registos antigos atribuídos a M. mola devem, por isso, ser interpretados com cautela, sobretudo quando não existem exemplares preservados ou dados morfológicos e genéticos que permitam confirmar a identificação.

Em dezembro de 2021, um peixe-lua encontrado morto junto à ilha do Faial, nos Açores, tinha uma massa de 2 744 kg. A análise morfológica e genética identificou-o como Mola alexandrini, e não como M. mola. O exemplar foi reconhecido como o peixe ósseo mais pesado alguma vez medido.

Referências

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Bibliografia

Ligações externas