Peltigera é um gênero que abrange cerca de 100 espécies de líquensfoliosos pertencentes à família Peltigeraceae[en]. As espécies de Peltigera são frequentemente terrícolas (crescem no solo), mas também podem ser encontradas sobre musgos, árvores, rochas e diversos outros substratos em várias partes do mundo.
A maioria das espécies de Peltigera possui a cianobactériaNostoc como fotobionte dominante, embora algumas apresentem a alga Coccomyxa. A presença de uma alga verde e uma cianobactéria torna algumas espécies tripartidas; nesse caso, elas exibem crescimentos de cefalódios contendo o terceiro parceiro, Nostoc. Devido à capacidade de fixar nitrogênio atmosférico, esses líquens desempenham um papel importante na composição e formação do solo.
Descrição
As espécies de Peltigera são líquens foliosos, caracterizados por talos largos e lobados. O tamanho dos talos varia conforme a espécie, podendo atingir até 30 cm de diâmetro em algumas delas. A coloração da superfície superior pode variar entre tons acinzentados, marrons ou esverdeados. A superfície inferior geralmente não possui córtex (diferentemente de outros líquens foliosos), apresentando uma textura algodonosa, frequentemente com hifas fúngicas fundidas formando uma rede de veias. Estruturas reprodutivas como isídios, sorédios ou lóbulos podem estar presentes em algumas espécies. Todas as espécies de Peltigera associam-se à cianobactériafixadora de nitrogênioNostoc.
O gênero Peltigera pode ser distinguido do gênero de líquens igualmente grandes e foliosos, Nephroma, por sua superfície inferior com veias; em contraste, Nephroma possui uma superfície inferior lisa, sem veias.
Habitat
Os líquens do gênero Peltigera são predominantemente terrícolas, mas também podem ser encontrados sobre musgos ou madeira morta. Algumas espécies são utilizadas como indicadores de sucessão florestal.
Taxonomia
Em 1753, Carl Linnaeus descreveu pela primeira vez as espécies Lichen apthosus e L. caninus, quando todos os líquens conhecidos eram agrupados no gênero Lichen. Posteriormente, em 1787, Carl Ludwig Willdenow delimitou o gênero Peltigera e redescreveu P. aphthosa e P. canina[en].
O nome genérico deriva do latimpelta (pequeno escudo), em referência ao formato de escudo dos talos dessas espécies.
Filogenia
Uma análise comparativa de características morfológicas, químicas e sequências de DNA ribossômico nuclear de subunidade grande demonstrou que o gênero Peltigera é monofilético. Algumas espécies, como P. canina, foram reclassificadas em um grupo, pois parecem abranger várias espécies agrupadas sob um único nome.
Trabalhos taxonômicos recentes levaram à consolidação de três espécies aquáticas de Peltigera previamente reconhecidas (P. hydrothyria[en], P. gowardii e P. aquatica) em uma única espécie com três variedades. Segundo Bruce McCune e Daphne Stone (2022), embora a análise molecular tenha identificado três clados genéticos distintos, mantê-los como espécies separadas mostrou-se impraticável para fins de conservação e pesquisa. Isso porque P. gowardii e P. aquatica, que ocorrem juntos na América do Norte ocidental, são indistinguíveis sem sequenciamento de DNA. A dificuldade em identificar espécimes ao nível de espécie dificultou a coleta de dados, com a maioria dos espécimes sendo classificada apenas como P. hydrothyriasensu lato. Para resolver esse problema, preservando informações sobre a diversidade genética, os três táxons foram reclassificados como P. hydrothyria var. hydrothyria (América do Norte oriental), P. hydrothyria var. gowardii (ocidental) e P. hydrothyria var. aquatica (ocidental). Essa solução taxonômica permite a identificação prática em campo, ao mesmo tempo que reconhece as diferenças genéticas entre as populações.
Distribuição
As espécies de Peltigera têm uma distribuição global, sendo encontradas em todos os continentes. Existem 34 espécies na América do Norte, 30 espécies na Europa, 25 espécies na América do Sul e 16 espécies na Nova Zelândia. Na China, foram registradas 27 espécies de Peltigera.
Ecologia
Os líquens do gênero Peltigera abrigam comunidades microbianas diversas, funcionando como pequenos ecossistemas, em vez de simples parcerias duplas. Um estudo de metabarcodificação transcontinental revelou que a geografia, mais do que a identidade do hospedeiro, explica a variação na comunidade fúngica dentro do talo (o micobioma); Peltigera também apresentou um padrão "aninhado", com muitos talos compartilhando um subconjunto comum de fungos residentes. A composição era predominantemente de Ascomycota (por exemplo, Dothideomycetes como Capnodiales) com um componente consistente de Basidiomycota, e um núcleo recorrente pequeno que incluía a levedura basidiomicetaCutaneotrichosporon debeurmannianum ao lado de linhagens de Dothideomycetes e Chaetothyriomycetes. Em consonância com isso, outros trabalhos mostram que as espécies Peltigera abrigam comunidades ricas de leveduras basidiomicetas; por exemplo, P. rufescens[en] produziu mais de 90 isolados de leveduras representando 18 táxons, e os solos parecem atuar como reservatórios locais dos quais esses simbiontes são adquiridos.
As leveduras associadas a Peltigera pertencem a vários grupos taxonômicos principais, incluindo membros das classes Tremellomycetes, Cystobasidiomycetes e outros basidiomicetos. Muitas dessas leveduras são psicrotolerantes, apresentando adaptações a ambientes frios, o que pode aumentar a capacidade dos líquens de sobreviverem em condições adversas. Essa característica provavelmente contribui para a colonização bem-sucedida de diversos habitats por espécies de Peltigera, especialmente em regiões temperadas e frias, onde são comumente encontradas. Estudos demonstraram que essas leveduras podem manter atividade metabólica mesmo em baixas temperaturas, potencialmente apoiando a sobrevivência e funcionalidade ecológica do líquen.
A relação entre Peltigera e suas comunidades microbianas varia entre diferentes ambientes e espécies. Pesquisas no sul do Chile demonstraram que os líquens Peltigera podem aumentar a diversidade gama[en] em paisagens, funcionando como habitats semelhantes a ilhas que suportam bactérias e leveduras especializadas. Isso sugere que as espécies de Peltigera desempenham um papel ecológico mais amplo além de sua própria sobrevivência, contribuindo para padrões locais de biodiversidade microbiana e processos ecossistêmicos. Embora as funções específicas de muitos microrganismos associados ainda estejam sendo investigadas, essa diversidade microbiana complexa provavelmente contribui para a resiliência ecológica das espécies de Peltigera em diferentes ambientes e pode ajudar a explicar sua colonização bem-sucedida de habitats diversos em todo o mundo.
As espécies de Peltigera foram historicamente utilizadas para tratar ferimentos, distúrbios urinários, candidíase, tuberculose e raiva. P. apthosa foi usada como remédio para tosse e aftas infantis. P. furfuracea demonstrou potente atividade antioxidante e poder redutor. Da mesma forma, espécimes de Peltigera do Havaí e da Islândia também apresentaram atividade antioxidante pronunciada.
Fonte de alimento
Embora alguns relatos descrevam caribus e renas se alimentando dos talos de Peltigera, em geral, as espécies de Peltigera não são comumente usadas como fonte de alimento por mamíferos. Um estudo sobre os hábitos de pastagem dos caracóis terrestres Cornu aspersum e espécies de Limax revelou que esses caracóis preferem se alimentar de espécies de Peltigera (como P. praetextata) desprovidas de metabólitos secundários.
Compostos bioativos
Peltigera leucophlebia contém os compostos tenuiorina e metil orselinato, que são inibidores da enzima 15-lipoxigenase. Tenuiorina também está presente em P. apthosa, P. malacea e P. neckeri. Uma mistura de orselinatos de metila e etila foi identificada em P. apthosa com atividade antibacteriana contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas. Os aminoácidos não proteogênicos[en] solorinina e peltigerina foram detectados em várias espécies de Peltigera.
12Vitikainen O. (1994). (1998). Taxonomic notes on neotropical species of Pelitgera. In: Lichenology in Latin America: history, current knowledge and applications. Edited by M. P. Marcelli, and M.R.D. Seaward. CETESB, Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, Estado de Sao Paulo. pp. 135-139.
↑Baron, George (1999). Understanding Lichens (em inglês). [S.l.]: Richmond Publishing Company. 27páginas. Consultado em 17 de outubro de 2025
↑Geiser, Linda; McCune, Bruce (1997). Macrolichens of the Pacific Northwest. Corvallis: Oregon State University Press. p.198. ISBN0-87071-394-9
↑O'Brien, Heath E.; Miadlikowska, Jolanta; Lutzoni, François (2005). «Assessing host specialization in symbiotic cyanobacteria associated with four closely related species of the lichen fungus Peltigera». European Journal of Phycology. 40 (4): 363–378. Bibcode:2005EJPhy..40..363O. doi:10.1080/09670260500342647
12Sharnoff, Stephen; Brodo, Irwin M.; Sharnoff, Sylvia Duran (2001). Lichens of North America. New Haven, Conn: Yale University Press. ISBN0-300-08249-5
↑McCune, Bruce; Stone, Daphne F. (2022). «Eight new combinations of North American macrolichens». Evansia. 39 (3): 123–128. doi:10.1639/0747-9859-39.3.123
↑Goward T, Goffinet B, Vitikainen O (1995). «Synopsis of the genus Peltigera (lichenized Ascomycetes) in British Columbia, with a key to the North American species». Canadian Journal of Botany. 73 (1): 91–111. Bibcode:1995CaJB...73...91G. doi:10.1139/b95-012
↑Galloway DJ (2000). «The lichen genus Peltigera (Peltigerales:Ascomycota) in New Zealand». Tuhinga. 11: 1–45
12Han, Liu-Fu; Zheng, Tian-Xin; Guo, Shou-Yu (2015). «A new species in the lichen genus Peltigera from northern China based on morphology and DNA sequence data». The Bryologist. 118 (1): 46–53. doi:10.1639/0007-2745-118.1.046
↑Goffinet, Bernard; Miadlikowska, Jolanta; Goward, Trevor (2003). «Phylogenetic inferences based on nrDNA sequences support five morphospecies within the Peltigera didactyla complex (lichenized Ascomycota)». The Bryologist. 106 (3): 349–364. doi:10.1639/01
↑Miadlikowska, Jolanta; Magain, Nicolas; Medeiros, Ian D.; Pardo-De la Hoz, Carlos J.; Carbone, Ignazio; LaGreca, Scott; Barlow, Thomas; Myllys, Leena; Schmull, Michaela; Lutzoni, François (2023). «Towards a nomenclatural clarification of the Peltigera ponojensis/monticola clade including metagenomic sequencing of type material and the introduction of P. globulata Miadl. & Magain sp. nov.». The Lichenologist. 55 (5): 315–324. Bibcode:2023ThLic..55..315M. doi:10.1017/S0024282923000373
↑Miadlikowska, Jolanta; Magain, Nicolas; Buck, William R.; Vargas Castillo, Reinaldo; Barlow, G. Thomas; Pardo-De la Hoz, Carlos J.; LaGreca, Scott; Lutzoni, François (2020). «Peltigera hydrophila (Lecanoromycetes, Ascomycota), a new semi-aquatic cyanolichen species from Chile». Plant and Fungal Systematics. 65 (1): 210–218. doi:10.35535/pfsyst-2020-0016
↑Manoharan-Basil, Sheeba S.; Miadlikowska, Jolanta; Goward, Trevor; Andrésson, Ólafur S.; Miao, Vivian P.W. (2016). «Peltigera islandica, a new cyanolichen species in section Peltigera ('P. canina group')». The Lichenologist. 48 (5): 451–467. Bibcode:2016ThLic..48..451M. doi:10.1017/S0024282916000414
123Vitikainen, O. (1985). «Three new species of Peltigera (lichenized Ascomycetes)». Annales Botanici Fennici. 22 (4): 291–298
↑Goffinet, B.; Miadlikowska, J. (1999). «Peltigera phyllidiosa (Peltigeraceae, Ascomycotina), a new species from the Southern Appalachians corroborated by ITS sequences». The Lichenologist. 31 (3): 247–256
↑Fries, T.M. (1860). Lichenes Arctoi Europae Groenlandiaeque hactenus cogniti (em latim). [S.l.: s.n.] pp.1–298 [45]
↑Magain, Nicolas; Sérusiaux, Emmanuël; Zhurbenko, Mikhail P.; Lutzoni, François; Miądlikowska, Jolanta (2016). «Disentangling the Peltigera polydactylon species complex by recognizing two new taxa, P. polydactylon subsp. udeghe and P. seneca». Herzogia. 29 (2): 514–528. Bibcode:2016Herz...29..514M. doi:10.13158/heia.29.2.2016.514
↑Magain, Nicolas; Goffinet, Bernard; Simon, Antoine; Seelan, Jaya Seelan Sathiya; Medeiros, Ian Daniel; Lutzoni, François; Miadlikowska, Jolanta (2020). «Peltigera serusiauxii (Lecanoromycetes, Ascomycota), a new species from Papua New Guinea and Malaysia». Plant and Fungal Systematics. 65 (1): 139–146. doi:10.35535/pfsyst-2020-0009
↑Han, Liu-Fu; Yang, Jing-Yuan; Beu, Shu-Qing; Guo, Shou-Yu (2019). «Peltigera shennongjiana, a new cyanolichen from Central China». The Lichenologist. 51 (6): 561–574. Bibcode:2019ThLic..51..561H. doi:10.1017/s0024282919000355
↑Vartia KO. (1950). On the medicinal use of lichens. Academic dissertation. Helsinki: 11–21.
↑Odabasoglu F, Aslan A, Cakir A, et al. (março de 2005). «Antioxidant activity, reducing power and total phenolic content of some lichen species». Fitoterapia. 76 (2): 216–9. PMID15752633. doi:10.1016/j.fitote.2004.05.012
↑Hagiwara K, Wright PR, et al. (março de 2015). «Comparative analysis of the antioxidant properties of Icelandic and Hawaiian lichens». Environmental Microbiology. 18 (8): 2319–25. PMID25808912. doi:10.1111/1462-2920.12850
↑Maser Z, Maser C, Trapper JM (1985). «Food habits of the northern flying squirrel (Glaucomys sabrinus) in Oregon». Canadian Journal of Zoology. 63 (5): 1084–1088. Bibcode:1985CaJZ...63.1084M. doi:10.1139/z85-162
↑Kallman S (1992). «Wild plants as food during survival situations». Sven Bot Tidsk. 86 (2): 49–52
↑Ingólfsdóttir K, Gudmundsdóttir GF, Ogmundsdóttir HM, Paulus K, Haraldsdóttir S, Kristinsson H, Bauer R (2002). «Effects of tenuiorin and methyl orsellinate from the lichen Peltigera leucophlebia on 5-/15-lipoxygenases and proliferation of malignant cell lines in vitro». Phytomedicine. 9 (7): 654–658. PMID12487331. doi:10.1078/094471102321616481
↑Holtan-Hartwig, J. (1993). «The lichen genus Peltigera exclusive of the P. canina group, in Norway». Sommerfeltia. 15: 3–77. doi:10.2478/som-1993-0001