Quixotismo

Ilustração de Gustave Doré, retratando a cena do moinho de vento do romance "Dom Quixote", na qual o herói batalha com moinhos, que, em sua imaginação, são gigantes malvados.

Quixotismo (adj. quixotesco) é a qualidade de ser idealista em detrimento do pragmatismo e buscar objetivos fantasiosos e irrealizáveis, especialmente os românticos e cavalheirescos. É também uma atitude humana, baseada na busca por um ideal universal, mesmo que conflite com a realidade.

O quixotismo é entendido como o ato de construir fantasias sobre as coisas ou, como Sancho Pança tão espirituosamente definiu, "ter moinhos de vento na cabeça".

Origem

O termo quixotismo nasceu da imaginação do escritor espanhol Miguel de Cervantes, cujo romance épico "Dom Quixote" é considerado um dos primeiros e melhores romances modernos. Esta sátira aos romances de cavalaria foi publicada em duas partes, em 1605 e 1615. Sua história acompanha as aventuras do romântico e idealista Dom Quixote que, embora procure mudar o mundo, age normalmente causando mais mal do que bem às pessoas.

Dom Quixote não é apenas um personagem literário, mas um símbolo universal da condição humana e da tensão entre sonhos e realidade, idealismo e pragmatismo. O herói de Cervantes, mais que idealista e impraticável, é visivelmente insano para todos os que o conhecem, acreditando que hospedarias são castelos encantados, e que moinhos de vento são gigantes malvados. Dom Quixote busca realizar façanhas tão ridículas, e se compromete com tanta paixão com os ideais românticos, que o termo quixotismo vem sendo usado desde o final do século XVIII para denotar um tipo semelhante de idealismo impraticável.

Interpretações

A literatura algumas vezes transforma personagens em adjetivos que definem comportamentos humanos universais. Em espanhol a linguagem cotidiana adotou e utiliza termos como quixotesco, quixotil, quixotesca, quixótico, quixotada, quixoteira e quixotismo, no sentido de assumir algum perigo ou mal imaginário, ou ainda tentar alterar algo que não pode ser mudado. Trata-se de um ingrediente essencial da vida humana, um processo dialético, no qual nossas interpretações da realidade e nossos planos — sempre tão simples e colossais quanto gigantes —, gradualmente se adaptam aos moinhos de vento das coisas, sem nunca ter sucesso completo.

Os dicionários brasileiros, americanos e espanhóis descrevem o adjetivo quixotesco como algo relacionado a pessoas sonhadoras, impulsivas, românticas e, muitas vezes, desligadas da realidade prática, ou dedicadas ao alcance de metas inatingíveis.

Diferenças entre definições para o adjetivo quixotesco
Dicionário Significado
Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa Ingênuo, romântico, sonhador; alguém que se envolve em trapalhadas.
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa Generosamente impulsivo, sonhador, nobre, mas desligado da realidade.
Dicionário Caudas Aulete Ousado, irrealista, utópico.
Merriam-Webster Tolamente desprovido de espírito prático, especialmente ao perseguir ideais.
American Heritage Dictionary of the English Language Envolvido em aventuras românticas e dedicado a alcançar metas impossíveis.
Diccionario de la Real Academia Española Quem antepõe seus ideais à conveniência e luta por causas que julga justas, sem conseguir realizá-las.

Notas

  1. ↑ Em espanhol, as grafias corretas são obtidas substituindo-se a letra X pela letra J, ou seja: quijotesco, quijotil, quijotesca, quijótico, quijotada, quijoteria e quijotismo.

Referências

  1. ↑ Andrews, John (17 de setembro de 2010). The Economist Book of Isms (em inglês). [S.l.]: Profile Books. p. 186. Consultado em 25 de novembro de 2025
  2. 1 2 Bezrukov, Andrii; Bohovyk, Oksana (1 de julho de 2024). «Fighting Windmills: Quixotism and Old/New Issues Facing Humankind». Literatura: teoría, historia, crítica (em inglês) (2). ISSN 2256-5450. doi:10.15446/lthc.v26n2.113675. Consultado em 25 de novembro de 2025
  3. 1 2 3 Tella, María José Falcón y (20 de setembro de 2021). The Law in Cervantes and Shakespeare (em inglês). [S.l.]: BRILL. p. 22. ISBN 9789004470644. Consultado em 25 de novembro de 2025
  4. 1 2 Bergman, Gregory (30 de maio de 2006). Isms: From Autoeroticism to Zoroastrianism--an Irreverent Reference (em inglês). [S.l.]: Simon and Schuster. Consultado em 25 de novembro de 2025
  5. 1 2 Ascher, Nelson (18 de junho de 2005). «O nascimento de uma palavra: "quixotesco"». Folha de S.Paulo. Consultado em 25 de novembro de 2025
  6. 1 2 3 4 5 6 Bernardo, Gustavo (2007). Verdades quixotescas: ensaios sobre a filosofia de Dom Quixote da Mancha. [S.l.]: Annablume. 111 páginas. ISBN 9788574196305. Consultado em 25 de novembro de 2025