Rebanho

 Nota: Para o fenómeno social e económico, veja Efeito rebanho.
Rebanho de ovelhas pertencente a uma estação experimental de investigação pecuária no estado norte-americano de Idaho.

Um rebanho é um grupo de animais mantidos ou conduzidos em conjunto, sobretudo animais domésticos herbívoros submetidos à guarda de um pastor ou a uma gestão pecuária comum. Na tradição lexicográfica portuguesa, o termo aplica-se especialmente ao gado lanígero, como as ovelhas, mas é também utilizado para cabras, bovinos, bubalinos e outros animais.

Na pecuária e na medicina veterinária, o rebanho constitui frequentemente uma unidade de gestão e de observação sanitária. Pode compreender os animais de uma mesma espécie mantidos sob propriedade ou supervisão comum e num mesmo estabelecimento, ou um grupo separado dos restantes animais por cercas, barreiras naturais ou práticas de maneio. A Organização Mundial de Saúde Animal considera habitualmente o rebanho uma unidade epidemiológica.

Um rebanho não possui uma dimensão mínima universal. A sua delimitação depende da espécie, da finalidade pecuária ou científica e dos critérios espaciais, temporais e sociais utilizados. Uma revisão de estudos sobre ungulados encontrou diferenças substanciais na forma como os investigadores determinavam se os animais pertenciam ao mesmo grupo, incluindo variações nas distâncias consideradas e no intervalo de tempo durante o qual a associação era observada.

Terminologia e delimitação

O significado tradicional de rebanho está associado a animais domésticos herbívoros, particularmente ovinos, que pastam ou se deslocam sob a vigilância de um pastor. O uso alargou-se, porém, a outros animais domésticos e, em linguagem corrente, a grandes agrupamentos de animais selvagens.

A palavra manada apresenta uma área de significado parcialmente coincidente, mas tende a ser aplicada ao gado graúdo, como bovinos, cavalos e muares, ou a animais selvagens de grande porte. Os dois termos podem, por isso, funcionar como sinónimos em determinados contextos, sem que a distribuição do seu uso seja inteiramente uniforme.

No uso pecuário, o termo é normalmente acompanhado pela indicação da espécie, como em rebanho ovino, rebanho caprino, rebanho bovino ou rebanho bubalino. Um mesmo estabelecimento pode possuir mais de um rebanho quando os animais são separados por espécie, localização, finalidade produtiva ou estatuto sanitário.

Composição e gestão

A composição de um rebanho não é necessariamente permanente. O número e as categorias de animais podem ser modificados por nascimentos, aquisições, ofertas, transferências entre grupos e deslocações entre áreas de pastagem. A gestão pode ainda recorrer à diversidade de espécies ou raças, à mobilidade dos animais e ao ajustamento do número de cabeças às condições ambientais e aos objectivos de produção.

O rebanho constitui, assim, um dos elementos de um sistema pecuário mais amplo, que inclui os criadores, as terras, os recursos alimentares, as instalações, o trabalho e os mercados. As decisões sobre a sua dimensão e composição dependem dos meios disponíveis, da finalidade da exploração e da frequência e intensidade de perturbações como secas, variações dos preços ou alterações dos recursos.

A contagem pode ser expressa pelo número total de animais ou pelo número de cabeças de gado. Para efeitos de gestão, os animais podem ainda ser distribuídos por grupos separados, sem que todos os indivíduos pertencentes ao mesmo proprietário permaneçam fisicamente reunidos.

Comportamento social

Os animais que formam rebanhos são geralmente gregários e mantêm proximidade com outros indivíduos da mesma espécie. A coesão do grupo resulta da atracção social, da resposta aos movimentos dos vizinhos e da regulação das distâncias entre os seus membros, não exigindo necessariamente uma direcção centralizada.

Nos bovinos, os indivíduos formam relações sociais e estabelecem relações de dominância através de interacções agonísticas. Essas relações influenciam o acesso a recursos e a organização espacial do grupo, embora dominância, liderança e posição central no rebanho não sejam necessariamente equivalentes.

A composição dos grupos domésticos é também condicionada pelas decisões humanas. A transferência de animais entre rebanhos pode romper associações anteriores e obrigar os indivíduos a adaptar-se a novos parceiros sociais. Um estudo com bovinos da raça Highland verificou que essas alterações podiam gerar instabilidade social e tensão, com possíveis consequências para o bem-estar animal.

Vantagens e custos da vida em grupo

Rebanho de gnus no norte do Serengeti, na Tanzânia. O termo pode também ser aplicado a agrupamentos de animais selvagens.

A vida em grupo pode reduzir o risco individual de predação através da diluição do risco e da detecção colectiva dos predadores. A vigilância exercida por vários indivíduos pode permitir que cada animal dedique mais tempo à alimentação, enquanto a observação dos restantes membros fornece informações sobre a localização de alimento e a presença de ameaças.

A formação de rebanhos implica também custos. O aumento do número de animais pode intensificar a competição pelos recursos, as interacções agressivas, o risco de parasitismo e a transmissão de doenças. A necessidade de conservar a coesão pode ainda restringir os movimentos individuais ou obrigar os membros a sincronizar deslocações e períodos de alimentação e repouso.

Os benefícios e custos não são iguais para todos os animais. A posição ocupada no grupo, a idade, o sexo, a condição física, a disponibilidade de alimento, a estrutura do habitat e o tipo de predador podem alterar as vantagens obtidas por cada indivíduo e influenciar a dimensão do rebanho.

Maneio e bem-estar

A densidade de animais, a estabilidade das relações sociais e a frequência de mudanças de grupo são componentes do ambiente social de um rebanho. Em sistemas de estabulação colectiva, a falta de espaço pode aumentar a competição e dificultar o acesso a alimento, água ou locais de repouso; por outro lado, a separação e recomposição frequente dos grupos pode perturbar relações sociais estabelecidas.

O maneio pode considerar a familiaridade entre indivíduos, a compatibilidade das categorias animais e a possibilidade de os membros evitarem interacções agressivas. O conhecimento da estrutura social do rebanho permite reduzir a instabilidade provocada pela introdução ou remoção de animais e adaptar as práticas da exploração às necessidades dos diferentes indivíduos.

Saúde animal e epidemiologia

Na vigilância de doenças transmissíveis, o rebanho pode ser utilizado como unidade epidemiológica, uma vez que os animais mantidos em contacto partilham exposições, instalações, alimentos e práticas de maneio. O estatuto sanitário pode, por isso, ser avaliado tanto ao nível dos indivíduos como ao nível do conjunto.

A prevalência individual e a prevalência de rebanhos medem realidades distintas. Uma redução da proporção de animais infectados não implica necessariamente uma diminuição do número de rebanhos afectados, razão pela qual os programas de controlo podem recolher e analisar dados nos dois níveis.

A separação efectiva entre grupos é relevante para a definição epidemiológica. Animais pertencentes ao mesmo proprietário podem ser considerados rebanhos distintos quando são mantidos em locais separados e sem contacto epidemiologicamente significativo, enquanto grupos de espécies diferentes podem ser analisados conjuntamente quando partilham susceptibilidade e condições de exposição.

Usos figurados

Por extensão, rebanho pode designar um grupo de pessoas que segue um guia ou adopta comportamentos colectivos. Na linguagem religiosa cristã, o termo é tradicionalmente aplicado aos fiéis relativamente à Igreja ou ao seu guia espiritual; num sentido depreciativo, pode referir-se a pessoas que se deixam conduzir sem manifestar vontade ou opinião próprias.

Referências

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Bibliografia