Seutes III

Cabeça de bronze de Seutes III proveniente de seu túmulo, esculpida por Silanion ou por um dos escultores de seu círculo

Seutes III (em grego clássico: Σεύθης, Seuthēs) foi um rei trácio da Odrísia, uma parte da Trácia, durante o final do século IV a.C. (atestado com segurança entre 324 e 312 a.C.).

Contexto histórico

Após as campanhas de Filipe II em 347–342 a.C., uma parte significativa da Trácia ficou submetida à Macedônia. Embora os três principais governantes da Trácia atestados durante esse período do reinado de Filipe desapareçam das fontes até o final da década de 340 a.C., permanece incerto até que ponto a realeza nativa trácia foi eliminada. Os reis da Macedônia governavam a Trácia por meio de governadores militares (stratēgoi): Alexandre, filho de Aeropo (335–334 a.C.), Mêmnon (334–327 a.C.), Zopírion (327–325 a.C.). Após a morte de Filipe em 336 a.C., várias tribos trácias revoltaram-se contra o filho de Filipe, Alexandre, o Grande, que derrotou os Getas e o rei Sirmos dos Tribálios. Outros trácios enviaram tropas para se juntar ao exército de Alexandre, como o príncipe trácio Sitalces, atestado como um dos comandantes de Alexandre durante sua campanha no Oriente.

Vida

Decreto honorífico ateniense para Rheboulas.

As origens de Seutes III permanecem incertas. Sua importância histórica deu origem à especulação de que ele era intimamente relacionado aos seus predecessores mais importantes, por exemplo, como suposto filho de Cersobleptes e irmão do comandante de Alexandre, Sitalces, embora nem Seutes nem Sitalces figurem entre os filhos conhecidos de Cersobleptes, ou como irmão de Cersobleptes e filho de Cotys I. Outra hipótese identifica o futuro Seutes III com o lugar-tenente (hyparkhos) de Cersobleptes, chamado Seutes, e sustenta que ele era um parente próximo e descendente do rei anterior Seutes I.

A menção de Rheboulas, irmão de Cotys e filho de Seutes, em um decreto ateniense de 330 a.C. também é às vezes relacionada a Seutes III, com Reboulas e Cotys identificados como filhos de um casamento anterior (eles não estão entre os quatro filhos de Seutes III e Berenice (esposa de Seutes III) atestados no final de seu reinado). A inscrição, contudo, antecede em cerca de sete anos a primeira atestação segura de Seutes III, e vários estudiosos propuseram Seutes I, Seutes II, e até mesmo um Seutes que não reinava como pai de Cotys e Rheboulas. Considerações históricas, cultuais, geográficas e numismáticas levaram à proposta de que Seutes III era filho (ou parente próximo) do rival de Cersobleptes, Teres III, sendo assim representante de uma linhagem "júnior" da dinastia real odrísia.

Se Seutes III já governava na década de 330 a.C., ele não parece ter participado da revolta do governador macedônio Mêmnon contra o regente Antípatro em 331 a.C. Seutes revoltou-se contra a Macedônia por volta de 325 a.C., depois que o governador de Alexandre, Zopírion, foi morto em batalha contra os getas. Após a morte de Alexandre em 323 a.C., ele continuou em oposição ao novo governador Lisímaco, reunindo uma força de cerca de 8.000 cavaleiros e 20.000 soldados de infantaria em 322 a.C. Eles combateram-se até um empate e ambos se retiraram da batalha.

Por fim, Seutes parece ter reconhecido a autoridade superior de Lisímaco, que acabaria por se tornar um dos reis sucessores de Alexandre. Talvez por volta de 320 a.C., Seutes III tenha estabelecido sua residência em Seutópolis (perto de Kazanlăk, na Bulgária), que construiu e batizou com seu próprio nome, imitando os reis macedônios Filipe e Alexandre. Em 313 a.C., Seutes III apoiou a revolta de Calátis (Mangalia, na Romênia) contra Lisímaco, aliando-se a outras cidades e tribos e ocupando as passagens do Monte Haemus. Os aliados foram derrotados por Lisímaco, mas ele foi obrigado a abandonar o cerco de Calátis para repelir o ataque de Antígono I, cujo comandante Pausânias havia sido enviado para ajudar Calátis e seus aliados. Apesar de sua derrota pelas mãos de Lisímaco, Seutes III parece ter preservado sua autonomia e desaparece das fontes narrativas. Ao que parece, ele estabeleceu a paz com Lisímaco, que finalmente subjugou Calátis em 310 a.C.

Evidências numismáticas foram utilizadas para inferir que Seutes III ainda governava no momento da morte do rei macedônio Cassandro em 297 a.C. Além das moedas, a única atestação de Seutes III posterior a 313–312 a.C. provém da chamada grande inscrição de Seutópolis (IGBulg 3.2, 1731), datada provisoriamente dos anos 290 ou 280 a.C. Ela menciona Seutes III em um contexto pouco claro (ainda vivo, mas possivelmente incapacitado, ou talvez retrospectivamente, já falecido), sua esposa (ou viúva) Berenice (aparentemente uma macedônia, possivelmente parente de Lisímaco) e seus filhos Hebrizelmis, Teres, Satocus e Sadalas (possivelmente ainda menores de idade), em negociações com Spartocus, o governante de Cabyle.

Embora Seutes III seja geralmente considerado um grande governante e certamente tenha se mantido diante dos sucessores de Alexandre, construído uma cidade real bem planejada (Seutópolis) e um impressionante túmulo (ver abaixo), além de ter emitido ampla cunhagem em vários tipos, deve-se lembrar que ele governava apenas parte da Trácia e compartilhava o espaço tanto com o macedônio Lisímaco quanto com outros governantes trácios (como o Spartocus mencionado acima).

Muito sobre seu reinado permanece desconhecido, assim como a sucessão à sua autoridade, fosse ela unitária ou dividida. Se os Cotys e Reboulas do decreto ateniense forem de fato filhos de Seutes III, é possível que Cotys II tenha sido um de seus sucessores, embora sua única atestação segura seja de 330 a.C. Roigos, sepultado na Tumba de Kazanlăk, era filho de um Seutes e foi identificado de maneira provisória, mas entusiástica, como filho de Seutes III. Ele, contudo, não é mencionado entre os filhos de Seutes III e Berenice e, se datar de meados do século III a.C. (como indicado nos relatos originais), isso pode impedir sua identificação como filho de Seutes III de um casamento anterior. Uma certa Gonimase (Gonimasē), esposa de um Seutes, sepultada em um túmulo perto de Smjadovo, foi proposta como esposa anterior de Seutes III e mãe de Cotys e Reboulas, ou de Roigos, embora não haja prova de nenhuma dessas associações. O obscuro Seutes IV é nomeado como filho de um Teres em um anel de ouro proveniente do túmulo conhecido como Dalakova Mogila, e considerações geográficas e cronológicas permitem a possível identificação desse Teres com o Teres atestado entre os filhos de Seutes III e Berenice. Se assim for, um sucessor de Seutes III pode ter sido Teres IV, pai de Seutes IV, o possível pai de Roigos.

Túmulo de Seutes III

O túmulo do rei trácio Seutes III foi identificado como o monte Golyamata Kosmatka, a uma distância de 1 km ao sul da cidade de Shipka, na Bulgária. Foi descoberto em 2004 pelo arqueólogo búlgaro Georgi Kitov. Entre os objetos encontrados no interior estavam a coroa de ouro do governante, uma cílice de ouro (taça rasa para vinho), grevas e um capacete, além de aplicações para arreios de cavalo, todos expostos no museu histórico da cidade de Kazanlăk. É notável a cabeça de bronze da estátua de Seutes III, enterrada ritualmente diante da fachada, que é bastante detalhada e realista. Ela é considerada uma evidência importante dos rituais órficos trácios.

A espada do rei trácio Seutes III, encontrada em seu túmulo. O punho da espada tem a forma de uma águia, com incrustações de ouro. Século III a.C., conservada no Museu de História Iskra, Kazanlak, Bulgária.

O túmulo consiste em um corredor, uma antecâmara, uma câmara circular com teto alto em tholos e uma câmara retangular, construída como um sarcófago a partir de dois blocos monolíticos, um deles pesando mais de 60 toneladas. As três salas são construídas com blocos de pedra retangulares e cobertas com lajes. Uma porta de mármore de duas folhas fecha a entrada da câmara circular. As partes superiores das folhas são decoradas com imagens do deus Dioniso, que na parte oriental personifica o sol e na ocidental a terra e a noite. O leito ritual foi colocado na câmara retangular. Ele era coberto com tecido feito de fio de ouro. O nome de Seutes (no caso genitivo, Seuthou) é encontrado em dois vasos de prata e no capacete, o que indica que pertenciam a Seutes, presumivelmente o famoso Seutes III, fundador da Seutópolis próxima, cerca de 10 km a sudoeste.

Os pertences pessoais e os presentes necessários para a vida após a morte do governante foram cuidadosamente colocados na câmara. Após o sepultamento, a entrada da câmara circular e a antecâmara foram bloqueadas, o cavalo do governante foi sacrificado e o corredor foi ritualmente incendiado.

O túmulo faz parte do Vale dos Reis Trácios, que também inclui a Tumba de Kazanlăk (reconhecida como parte do patrimônio mundial da UNESCO), bem como os túmulos e templos encontrados nos montes Golyama Arsenalka, Shushmanets, Helvetsia, Grifoni, Svetitsa e Ostrusha.

Referências

  1. ↑ Bunbury, Edward Herbert (1859). «Seuthes III». In: Smith, William. Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology. 3. Boston: Little, Brown and Company. p. 809. Consultado em 24 de Agosto de 2018 – via Internet Archive
  2. ↑ Werner 1961: 114
  3. ↑ Werner 1961: 114.
  4. ↑ Manov 2019: 104
  5. ↑ Tačeva 2006: 187.
  6. ↑ Tačeva 2006: 186–187.
  7. ↑ For example, Delev 1997: n. 21.
  8. ↑ For example, Delev 2015: 52.
  9. ↑ Por examplo, Beloch 1923: 90–91.
  10. ↑ Topalov 2001: 273–278. Mladjov, Rulers of Thrace, University of Michigan.
  11. ↑ Tačeva 2006: 186, 189.
  12. ↑ Curtius, Quintus (1946). History of Alexander, with an English Translation by John C. Rolfe, Books VI-X. Col: Loeb classical library. 2. Cambridge, Massachusetts and London: Harvard University Press and William Heinemann Ltd. p. X.I.45. hdl:2027/mdp.39015024880851?urlappend=%3Bseq=493. Consultado em 24 de agosto de 2018 – via HathiTrust; Tačeva 2006: 186, 189.
  13. ↑ Diodorus 18.14.204; Tačeva 2006: 190.
  14. ↑ Diodorus of Sicily (1947). The Library of History, with an English Translation by Russell M. Geer, Ph.D. in Twelve Volumes, Books XVIII-XIX 1-65. IX. Cambridge, Massachusetts and London: Harvard University Press and William Heinemann Ltd. pp. 51–52 (XVIII.14). Consultado em 24 agosto 2018 – via Internet Archive; Tačeva 2006: 190.
  15. ↑ Diodorus of Sicily (1954). The Library of History, with an English Translation by Russell M. Geer, Ph.D. in Twelve Volumes, Books XIX 66-110 and XX. X. Cambridge, Massachusetts and London: Harvard University Press and William Heinemann Ltd. pp. 32–35 (XIX.73). Consultado em 24 de Agosto de 2018 – via Internet Archive; Tačeva 2006: 190–191.
  16. ↑ Tačeva 2006: 191.
  17. ↑ Tačeva 2006: 194–201.
  18. ↑ Tačeva 2006: 202–210; Devlev 2015: 62; Dana 2015: 248.
  19. ↑ For example, Todorova, "Sin na Sevt III pogreban v Kazanlăškata grobnica," 5/16/2008 https://news.bg/culture; Kojčev 2008: 128–130
  20. ↑ Dana 2015: 246-247.
  21. ↑ Manov 2019: 105.
  22. ↑ Kojčev 2008: 129.
  23. ↑ 00300 Пръстен, Далакова могила, Thracian Art Studies; Dana 2015: 247
  24. ↑ Mladjov, Rulers of Thrace, University of Michigan
  25. ↑ The Tomb of Seuthes III - Atlas Obscura
  26. ↑ Kitov, G., 2005. The newly discovered tomb of the Thracian ruler Seuthes III, Archaeologia Bulgarica 9(2): 52.

Bibliografia

Seutes III
Nascimento: Desconhecido Morte: Desconhecido
Precedido por:
Teres III ?
Rei da Trácia
por 324 – após 312 a.C.
Sucedido por:
incerto