Membros da comunidade sidi no Guzerate, na Índia (2015) | |
| População total | |
|---|---|
| estimativas divergentes (ver «Demografia») | |
| Regiões com população significativa | |
| 50 000 a cerca de 1 000 000 (estimativas) | |
| menos de 150 000 (estimativa) | |
| Carnataca | 10 477 (2011) |
| Guzerate | 8 661 (2011) |
| Damão e Diu | 193 (2011) |
| Goa | 183 (2011) |
| Línguas | |
| Guzerate, concani, canaresa, marata, urdu, sindi e balúchi | |
| Religiões | |
| Islamismo, predominantemente sunita e de tradição sufi; também hinduísmo e cristianismo, sobretudo em Carnataca | |
| Etnia | |
| Bantos | |
Os sidis (em urdu: شیدی ; em hindi: सिद्दी ou शीदि; em gujarati: સિદ્દી) — também grafados siddis e conhecidos no Paquistão como sheedis — são um grupo étnico do subcontinente indiano cujos antepassados eram sobretudo povos bantos da África Oriental, levados para o subcontinente como escravos, soldados e servidores no quadro do tráfico no oceano Índico.
Na Índia, os sidis vivem sobretudo em Carnataca, no Guzerate, em Maarastra, em Andra Pradexe e em Goa, além de um núcleo antigo em Haiderabade; no Paquistão, concentram-se no Sinde e no Baluchistão, com o bairro de Lyari, em Carachi, como principal centro urbano. Ao longo dos séculos, vários homens de origem africana alcançaram posições de relevo militar e político no subcontinente, com destaque para Maleque Ambar, regente do sultanato de Amadanagar, e para os chefes sidis de Janjira, que comandaram a frota do sultanato de Bijapur e governaram um estado próprio até 1948.
Na Índia, os sidis foram classificados como tribo reconhecida (scheduled tribe) em 8 de janeiro de 2003 e integram a lista oficial dos grupos tribais particularmente vulneráveis. Apesar de terem adotado as línguas, o vestuário e grande parte dos costumes das sociedades envolventes, conservam elementos culturais de origem africana, sobretudo no domínio da música ritual e da dança.
Não há consenso quanto à origem do termo sidi. Segundo a antropóloga Gayatri Reddy, as explicações mais correntes remetem para um tratamento honorífico em suaíli, para o termo árabe sayyid, usado para designar os descendentes de Maomé, ou para o título dos capitães dos navios árabes e etíopes que terão transportado os primeiros africanos para o subcontinente.
Uma segunda designação, habshi, deriva do árabe ḥabashī («abissínio»), através da sua forma persa, e aplicava-se na Índia pré-britânica aos cativos de origem africana e abissínia, frequentemente ao serviço dos senhores muçulmanos do Decão. O termo habshi remete, portanto, para uma ligação geográfica a al-Habash, o nome árabe da Abissínia.
O primeiro registo documental de sidis na Índia é atribuído ao ano de 1100, no ocidente do país. A partir do século XIII, os sultões e nababos do subcontinente passaram a importar contingentes significativos de africanos para servirem como soldados e escravos, e o maior afluxo ocorreu entre os séculos XVII e XIX, período em que os portugueses os transportaram como escravos para a Índia. No caso do atual Paquistão, os sheedis descendem de africanos orientais levados para a região por mercadores árabes entre os séculos VIII e XIX.
Nos séculos XV e XVI, cativos africanos — em particular etíopes vendidos nos mercados do Médio Oriente — foram levados para a Índia a fim de engrossar os exércitos em expansão do Decão. Ao contrário do que sucedia nas potências coloniais, os sultanatos permitiam a libertação e a ascensão social dos soldados escravizados: muitos converteram-se ao islão e integraram-se progressivamente na sociedade indiana através do casamento.
Os habshis eram frequentemente contratados pelos chefes muçulmanos da Índia, sobretudo no Decão, a quem se atribuía grande aptidão militar e uma lealdade favorecida pela ausência de laços familiares locais. Vários alcançaram altos cargos e alguns tornaram-se independentes.
O caso mais conhecido é o de Maleque Ambar, nascido na Etiópia em 1548 com o nome de Chapu e vendido como escravo. Adquirido por um alto dignitário da corte nizam-xai de Amadanagar, tornou-se soldado e, mais tarde, comandante do exército do sultanato, que dirigiu contra as forças mogóis de Aquebar. Por volta de 1600 assumiu a regência do reino, que governou de facto até à sua morte, em 1626, e o seu exército obteve vitórias significativas sobre os mogóis durante o reinado de Jahangir. Outro comandante de origem africana com projeção foi Sidi Masud, general dos sultanatos adil-xais.
No ocidente da Índia, os sidis de Janjira comandaram a frota do sultão de Bijapur e constituíram-se como chefes independentes. Opuseram-se aos maratas e, em 1670, transferiram a sua fidelidade para o imperador mogol Auranguezebe. Mais tarde aceitaram a supremacia britânica e mantiveram o seu estado até 1948, ano em que este foi integrado no estado de Bombaim, já na União Indiana.
Em Haiderabade, a comunidade sidi descende de escravos e soldados da África Oriental recrutados pelo nizã na década de 1860 para formar a Guarda de Cavalaria Africana do seu exército.
Vários investigadores consideram que não existe uma ligação direta entre os soldados africanos ao serviço dos sultanatos, que se fundiram nas elites muçulmanas da Índia, e as comunidades sidis da costa ocidental: estas descenderiam de uma fase posterior do tráfico, sustentada por mercadores europeus, árabes e guzerates. Na década de 1840, os britânicos aboliram a escravatura na Índia, embora a importação de cativos africanos tenha prosseguido, ao que tudo indica, até à década de 1930. Muitos libertos e fugitivos encontraram refúgio junto dos santuários dos santos-antepassados de origem africana, que se tornaram espaços de reagrupamento e de formação de novas comunidades.
Estima-se que vivam na Índia menos de 150 000 sidis, dispersos por Carnataca, Guzerate, Maarastra, Andra Pradexe e Goa. O recenseamento indiano de 2011 registou 10 477 pessoas em Carnataca, 8661 no Guzerate, 193 em Damão e Diu e 183 em Goa, números que abrangem apenas os territórios onde o grupo tem o estatuto de tribo reconhecida.
Em Carnataca, o estado com maior concentração da comunidade, os sidis vivem sobretudo nos taluks de Yellapur, Haliyal, Ankola, Joida, Mundgod e Sirsi, no distrito de Uttara Kannada, e ainda em Khanapur, no distrito de Belagavi, e em Kalaghatagi, no distrito de Dharwad. Segundo estimativas citadas em 2019, existiam no estado cerca de 3700 famílias sidis, correspondentes a uma população de 17 000 a 18 000 pessoas.
Não existem números fiáveis sobre a dimensão da comunidade no Paquistão: as estimativas variam entre 50 000 e pouco menos de um milhão de pessoas, segundo a Young Sheedi Welfare Organization, apontando outras fontes para um valor intermédio de cerca de 250 000. Ainda assim, o país é reconhecido como tendo uma das maiores populações de afrodescendentes da Ásia. Calcula-se que cerca de 50% dos sheedis residam no baixo Sinde, 20% na cidade de Carachi e 30% no Baluchistão.
Uma terceira comunidade aparentada, a dos chamados cafres do Ceilão, vive no Sri Lanka.
Um estudo publicado em 2011 na revista American Journal of Human Genetics, baseado na análise de marcadores autossómicos, do cromossoma Y e do ADN mitocondrial, concluiu que os sidis descendem de populações de língua banta da África subsariana, com contributos posteriores de populações indianas e, possivelmente, portuguesas.
Na análise autossómica, os sidis apresentaram, em média, cerca de 67% de ascendência africana. Tomando populações da África Ocidental como referência, a proporção situou-se em 66,9% no grupo do Guzerate e entre 62,3% e 70,9% nos grupos de Carnataca; com populações da África Oriental como referência, os valores subiram para 70,5% e para 64,8% a 74,4%, respetivamente.
Cerca de 70% das linhagens paternas dos sidis pertencem a haplogrupos característicos de populações africanas, designadamente B2-M182 e E1b1a-M2, ausentes das populações indianas vizinhas; os restantes 30% correspondem a linhagens indianas ou do Próximo Oriente. No ADN mitocondrial, o haplogrupo africano L foi detetado em 53% dos sidis do Guzerate e em 24% dos de Carnataca. Uma vez que as linhagens africanas não foram encontradas nas populações vizinhas, os autores concluíram que o fluxo genético foi sobretudo unidirecional, das populações indianas para os sidis. A mistura genética foi datada em cerca de oito gerações, ou aproximadamente 200 anos, e a dimensão efetiva da população africana ancestral levada para a Índia foi estimada em cerca de 1400 indivíduos.
Na Índia, a filiação religiosa dos sidis varia consoante a região. No Guzerate, em Diu e em Maarastra predomina a tradição sufi, ao passo que em Carnataca convivem o hinduísmo, o cristianismo e o islão, sem que as diferenças confessionais quebrem a identidade comum do grupo: os casamentos entre sidis de religiões distintas são frequentes e a veneração de Sidi Nash, divindade ancestral representada por uma pedra sagrada, é partilhada por todos.
O principal santo-antepassado é Bava Gor, cujo mausoléu (dargah) se situa na aldeia de Ratanpur, no distrito de Bharuch, no Guzerate, e constitui o mais importante lugar sagrado para os sidis do Guzerate, de Diu e de Maarastra. A tradição atribui-lhe dois irmãos igualmente venerados, Bava Habash e Mai Mishra, cujos nomes remetem para a Núbia, para al-Habash (a atual Etiópia) e para Misr (o nome árabe do Egito). O urs anual do santuário assinala o aniversário da morte de Bava Gor e atrai devotos de várias religiões, incluindo hindus, que recorrem às sessões de cura espiritual realizadas no local.
A maioria dos sheedis do Paquistão é muçulmana e muitos consideram-se descendentes espirituais de Bilal, o escravo etíope libertado que se tornou o primeiro almuadem do islão. O santuário sufi de Mangho Pir, nos arredores de Carachi, é o centro da vida religiosa da comunidade: o festival anual conhecido como Sheedi Mela, que decorre junto à lagoa de crocodilos do santuário, é o acontecimento mais importante do seu calendário cultural.
A prática ritual mais característica é a goma, também designada dhamal, que associa música de percussão, canto e dança e desempenha um papel central nas cerimónias de cura. O termo aproxima-se de ngoma, designação da dança ritual acompanhada por tambores ainda praticada em várias sociedades de língua banta de África. O instrumento central é o mugharman, um tambor de grandes dimensões.
Em Carnataca, os sidis executam danças como o phoogidi, o dolki, o dhammam e o sigmo em festas, casamentos, nascimentos e cerimónias comemorativas, independentemente da religião de cada família, com cânticos que invocam Bava Gor e Sidi Nash. No Paquistão, os sheedis dançam a leva ao som do mugarman, ambos considerados de origem africana oriental, e os mais velhos conservam ainda algumas palavras das línguas africanas faladas pelos antepassados. No santuário de Mangho Pir, os participantes cantam em suaíli, língua que a comunidade deixou de falar há várias gerações.
Na Índia, o governo da União classificou os sidis como tribo reconhecida em 8 de janeiro de 2003. O estatuto abrange os distritos guzerates de Amreli, Bhavnagar, Jamnagar, Junagadh, Rajkot e Surendranagar, o estado de Goa, o distrito de Uttara Kannada, em Carnataca, e o então território da união de Damão e Diu; a comunidade consta igualmente da lista dos grupos tribais particularmente vulneráveis. Em 2019, o governo de Carnataca apresentou ao governo central uma proposta formal para estender o reconhecimento aos distritos de Belagavi e Dharwad.
No Paquistão, os sheedis têm sido objeto de discriminação continuada: primeiro pela condição servil, depois, sob administração britânica, pela cor da pele. Numa sociedade em que a pele clara continua a ser socialmente valorizada, a estigmatização manteve-se após a independência de 1947. A maior parte trabalha como assalariado agrícola ao serviço de grandes proprietários e as mulheres enfrentam dificuldades acrescidas no acesso ao emprego e à remuneração justa. Registou-se, porém, uma crescente mobilização comunitária, com a criação de organizações como a Young Sheedi Welfare Organization, vocacionadas para o acesso à educação, à saúde e ao rendimento.