Sufa

Sufa (em árabe: الصُّفَّة; romaniz.: aṣ-Ṣuffa) foi um alpendre ou espaço coberto anexo à Mesquita do Profeta, em Medina, destinado a acolher os companheiros de Maomé que não possuíam residência nem familiares na cidade. Criada pouco depois da Hégira, durante a construção da mesquita, tornou-se a moradia permanente ou temporária de numerosos muçulmanos pobres, sobretudo muajiritas, embora alguns ançares e outros companheiros também ali permanecessem voluntariamente. Seus residentes eram conhecidos principalmente como Axabe da Sufa (Aṣḥāb al-Ṣuffa) ou Povo da Sufa, recebendo ainda nas fontes as designações de Aḍyāf al-Islām ("hóspedes do islã") e Awfād, em referência à diversidade de suas origens tribais.

A Sufa exerceu funções que iam além do simples acolhimento de necessitados. Além de servir de alojamento para recém-convertidos, viajantes e delegações que chegavam a Medina sem contatos locais, transformou-se em um importante centro de ensino durante a vida de Maomé. Seus moradores conviviam diariamente com o profeta, acompanhavam a revelação do Alcorão, recebiam instrução religiosa diretamente dele e participavam da transmissão de seus ensinamentos. Entre os integrantes da comunidade encontravam-se alguns dos mais importantes transmissores de hádices da primeira geração islâmica, como Abu Huraira, e muitos deles foram enviados por Maomé para missões de ensino e pregação em diferentes regiões da Península Arábica.

O número de residentes variava continuamente em razão da chegada de novos migrantes, do casamento ou da partida de antigos moradores. As fontes islâmicas mencionam cerca de setenta pessoas vivendo simultaneamente na Sufa em determinados períodos e estimam que aproximadamente quatrocentos companheiros tenham passado por ela ao longo da vida de Maomé. Após sua morte, a estrutura foi incorporada às sucessivas ampliações da Mesquita do Profeta, mas a memória da comunidade permaneceu associada ao desenvolvimento inicial do ensino islâmico, da transmissão dos hádices, da jurisprudência e das primeiras manifestações de ascetismo no islã.

Origem e localização

A Sufa foi criada pouco depois da chegada de Maomé a Medina, durante a construção da Mesquita do Profeta. Além dos aposentos destinados à sua família, o profeta mandou construir, junto à entrada situada no lado sul da mesquita, um alpendre coberto destinado a abrigar os companheiros pobres que não possuíam residência nem parentes na cidade. Quando a quibla foi transferida de Jerusalém para a Caaba, em Meca, esse alpendre passou a localizar-se na extremidade norte da mesquita. Nas ampliações realizadas posteriormente, a Sufa acabou sendo incorporada ao edifício da Mesquita do Profeta. Seus moradores ficaram conhecidos principalmente como Axabe da Sufa (Aṣḥāb al-Ṣuffa) e Povo da Sufa (Ahl al-Ṣuffa). As fontes também os denominam Adiafe Alislame (Aḍyāf al-Islām), "hóspedes do islã", pois suas necessidades eram supridas por Maomé e pelos companheiros mais abastados, e Aufade (Awfād), em referência à diversidade das tribos às quais pertenciam. Os moradores da Sufa eram constituídos principalmente por muajiritas pobres que haviam emigrado de Meca e por muçulmanos provenientes de outras regiões da Península Arábica que, após abraçarem o islã, se estabeleceram em Medina sem possuírem família, residência ou meios de subsistência. Embora predominassem os muajiritas, as fontes registram que alguns ançares e até mesmo certos muajiritas que possuíam casa própria permaneceram voluntariamente na Sufa por desejarem compartilhar a convivência de seus habitantes. Entre esses é citado Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe, que, apesar de possuir residência, frequentemente permanecia junto ao grupo e era contado entre seus integrantes. A composição da comunidade variava continuamente. Novos moradores chegavam à medida que emigravam para Medina, enquanto outros deixavam a Sufa ao adquirirem condições de sustento ou ao contraírem matrimônio. Em consequência, seu efetivo nunca permaneceu estável. Embora as fontes não informem as dimensões do alpendre, relatos segundo os quais cerca de setenta pessoas ali residiam simultaneamente permitem estimar sua capacidade. Algumas tradições afirmam ainda que aproximadamente quatrocentos companheiros passaram pela Sufa durante a vida de Maomé. O local também servia para hospedar viajantes e delegações tribais recém-chegadas a Medina que não possuíam conhecidos na cidade, fazendo com que o número de residentes aumentasse temporariamente. Um relato preservado nas fontes menciona que, certa vez, oitenta integrantes da tribo dos tamimitas foram acolhidos na Sufa.

Vida cotidiana

A manutenção dos habitantes da Sufa era acompanhada diretamente por Maomé. Como a maioria não possuía ocupação que lhes garantisse o sustento, o profeta organizava diariamente sua alimentação. Ao cair da tarde, distribuía os moradores, um ou dois de cada vez, entre os companheiros mais abastados para que fossem alimentados em suas casas, levando os demais para sua própria residência. Segundo as fontes islâmicas, essa prática perdurou até que a situação econômica da comunidade muçulmana melhorasse. Maomé também estabeleceu distinção entre as esmolas e os presentes que lhe eram oferecidos. Todas as esmolas recebidas eram encaminhadas integralmente aos habitantes da Sufa, enquanto os presentes eram partilhados com eles. As tradições ressaltam ainda que o profeta frequentemente colocava as necessidades da comunidade da Sufa acima das de sua própria família. Um dos episódios mais conhecidos refere-se ao pedido de Fátima, que solicitou um servo para auxiliá-la nos trabalhos domésticos, mas teve seu pedido recusado porque Maomé preferiu destinar os recursos disponíveis ao sustento dos moradores da Sufa.

Durante a época da colheita das tâmaras, os muçulmanos levavam à Mesquita do Profeta cachos de tâmaras conforme suas possibilidades e os penduravam em seu interior para que os habitantes da Sufa deles se alimentassem livremente. As fontes registram, contudo, que a dieta baseada quase exclusivamente nesse alimento por vezes provocava queixas entre seus moradores. Aqueles que possuíam melhores condições físicas procuravam complementar o próprio sustento durante o dia transportando água para a mesquita ou vendendo lenha recolhida nas montanhas próximas, enquanto as noites eram dedicadas principalmente à recitação do Alcorão e ao estudo dos ensinamentos islâmicos. Apesar dessas formas de auxílio, os habitantes da Sufa viveram, em geral, em condições de grande privação material. Diversos relatos mencionam que muitos deles não possuíam sequer vestimentas adequadas e que alguns chegavam a enfraquecer a ponto de terem dificuldade para permanecer de pé durante as orações em razão da fome. Segundo a tradição preservada pela literatura exegética islâmica, o versículo 273 da Albacara aludiria aos pobres que se haviam consagrado inteiramente ao serviço de Deus e, por dedicarem seu tempo ao aprendizado junto de Maomé, não conseguiam prover o próprio sustento, interpretação frequentemente aplicada aos habitantes da Sufa.

Centro de ensino

A convivência permanente dos habitantes da Sufa com Maomé fez do recinto um dos primeiros e mais importantes centros de ensino do islã. Seus moradores dedicavam a maior parte do tempo a ouvir diretamente os ensinamentos do profeta e a aprender os fundamentos da nova religião. Como permaneciam constantemente na Mesquita do Profeta, frequentemente presenciavam a revelação de passagens do Alcorão e participavam dos diálogos em que Maomé respondia às perguntas por eles formuladas, circunstância que contribuiu para o esclarecimento de diversas questões religiosas. O próprio Maomé dirigia a instrução dos habitantes da Sufa, ministrando-lhes ensinamentos e designando alguns companheiros para funções específicas de ensino. Entre eles destacou-se Ubada ibne Açamite, encarregado de ensinar a escrita e a leitura do Alcorão aos novos integrantes da comunidade. A formação recebida na Sufa abrangia tanto o conhecimento religioso quanto a alfabetização, preparando seus membros para exercer funções de ensino e pregação em diferentes regiões da Península Arábica.

A permanência contínua junto de Maomé fez com que muitos habitantes da Sufa se tornassem importantes transmissores da tradição islâmica. O exemplo mais conhecido é Abu Huraira, que atribuiu o grande número de hádices transmitidos por ele ao fato de permanecer constantemente ao lado do profeta, enquanto outros emigrantes dedicavam-se ao comércio e os ançares aos seus bens e propriedades. Segundo seu próprio testemunho, essa convivência permitiu-lhe participar de reuniões das quais muitos outros companheiros estavam ausentes e memorizar ensinamentos que posteriormente transmitiria às gerações seguintes. Os habitantes da Sufa também difundiam esses ensinamentos entre os demais companheiros, desempenhando papel relevante na preservação e propagação da tradição profética, fato refletido pela frequência com que seus nomes figuram como primeiros transmissores nas cadeias de transmissão (isnade) de numerosos hádices.

Além da formação religiosa, a Sufa também serviu como centro de preparação de missionários. Seus habitantes eram frequentemente enviados por Maomé para ensinar o islã nas regiões onde sua pregação se fazia necessária. Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 4 A.H. (625), quando Abu Bara Amir ibne Maleque solicitou que alguns muçulmanos fossem enviados para apresentar os ensinamentos islâmicos aos amiritas. Em resposta, Maomé destacou cerca de setenta companheiros formados na Sufa, conhecidos como qurrāʾ em razão de seu profundo conhecimento do Alcorão. Durante a missão, contudo, o grupo foi atacado em Bir Mauna por Amir ibne Atufail e seus seguidores, sendo quase totalmente massacrado. Segundo a tradição islâmica, esse episódio constituiu uma das maiores aflições sofridas por Maomé durante sua vida em Medina.

Legado

Os habitantes da Sufa exerceram influência duradoura sobre o desenvolvimento das ciências islâmicas. Entre eles encontravam-se alguns dos mais importantes transmissores de hádices da primeira geração muçulmana, especialmente Abu Huraira, cuja permanência contínua junto de Maomé lhe permitiu memorizar grande número de tradições proféticas. Também figuras como Abedalá ibne Omar e Abedalá ibne Maçude, posteriormente considerados os primeiros representantes das tendências jurídicas conhecidas como ahl al-hadith e ahl al-ra'y, são tradicionalmente associadas à Sufa. A atuação desses companheiros contribuiu decisivamente para a preservação e a difusão dos ensinamentos islâmicos, desempenhando papel importante na formação inicial das tradições jurídica e religiosa do islã. A tradição islâmica também relaciona a Sufa às origens do ascetismo muçulmano. A vida simples e marcada pela pobreza de muitos de seus habitantes levou diversos autores a considerar que as primeiras manifestações do zuhd surgiram nesse ambiente e que a experiência da Sufa constituiu o núcleo inicial do desenvolvimento posterior do sufismo. Essa interpretação tornou-se recorrente na literatura islâmica medieval, embora represente sobretudo uma leitura retrospectiva da importância espiritual atribuída aos companheiros que ali viveram.

O interesse pelos habitantes da Sufa refletiu-se na produção de numerosas obras biográficas. Diversos autores de coleções de ṭabaqāt dedicaram capítulos específicos à identificação de seus integrantes. Entre eles, Abu Nuaime Alisfaani reuniu informações sobre aproximadamente cem companheiros que permaneceram na Sufa em sua obra Ḥilyat al-awliyāʾ, enquanto Xameçadim Açacaui identificou 104 membros em Rücḥânü'l-kiffe. Esses levantamentos demonstram a importância atribuída pela tradição islâmica aos companheiros ligados à Sufa como modelos de piedade, dedicação ao conhecimento religioso e proximidade com Maomé. Após a morte de Maomé, a Sufa deixou gradualmente de existir como espaço independente. As sucessivas ampliações da Mesquita do Profeta incorporaram completamente o antigo abrigo à estrutura do templo, fazendo desaparecer seus limites originais. As fontes mencionam ainda a existência de outra plataforma denominada Suffat an-Nisāʾ, aparentemente reservada às mulheres da comunidade muçulmana. Contudo, não há informações seguras sobre sua localização nem sobre as pessoas que a utilizavam.

Referências

  1. 1 2 3 Baktır 2009, p. 469.
  2. 1 2 3 4 5 Baktır 2009, p. 470.