Tabletes de Nuzi

Os tabletes de Nuzi constituem um dos mais vastos e significativos arquivos documentais do Antigo Oriente Médio, compostos por milhares de tábuas de argila escritas em caracteres cuneiformes acádios que datam aproximadamente dos séculos XV e XIV a.C. Descobertos entre 1925 e 1933 nas escavações de Yorghan Tepe, localidade situada no norte do atual Iraque, estes textos pertenciam à antiga cidade de Nuzi, um centro administrativo do reino de Arrapa sob a esfera de influência do império Mitani. O acervo, que abrange cerca de cinco a seis gerações de famílias locais, oferece uma visão sem precedentes sobre as instituições sociais, económicas, religiosas e jurídicas da cultura hurrita. A maioria dos documentos foi encontrada em residências privadas de cidadãos proeminentes, bem como em complexos administrativos e palacianos, consistindo em contratos de trabalho, testamentos, registos de venda de escravos, atas de tribunais e memorandos oficiais que revelam a complexidade da vida quotidiana na Idade do Bronze Final.

Um dos aspetos mais debatidos e fascinantes dos tabletes de Nuzi é a sua correlação com os relatos patriarcais do livro do Génesis, na Bíblia. Embora os tabletes sejam alguns séculos posteriores ao período tradicionalmente atribuído aos patriarcas, eles descrevem costumes jurídicos e sociais que explicam passagens bíblicas anteriormente consideradas obscuras ou anacrónicas. Por exemplo, os textos detalham a prática de casais sem filhos adotarem um servo como herdeiro para garantir o cuidado na velhice, o que reflete a menção de Abraão ao seu servo Eliézer como sucessor. Outras analogias notáveis incluem contratos de casamento que obrigavam uma esposa estéril a fornecer uma concubina ao marido para gerar descendência — como no caso de Sara e Hagar — e a importância jurídica dos deuses domésticos (terafins), que explicam a ansiedade de Labão quando Raquel roubou as suas estatuetas. Estas semelhanças sugerem que as narrativas bíblicas estão profundamente enraizadas num ambiente cultural autêntico e comum a toda a Mesopotâmia e ao Crescente Fértil no segundo milénio a.C.

Para além das conexões bíblicas, os arquivos de Nuzi são fundamentais para o estudo da língua e da demografia hurrita, uma vez que contêm uma riqueza de nomes próprios e termos técnicos que permitem reconstruir a fonologia e a morfologia desta civilização. Os documentos revelam uma sociedade estruturada em torno de obrigações de serviço real conhecidas como ilku, um sistema de impostos e serviços sobre a terra que definia a hierarquia económica da cidade. Entre as descobertas jurídicas mais peculiares estão os «tabletes de irmandade», contratos em que um homem adotava a sua esposa como irmã para lhe conferir um estatuto legal superior e maior proteção social, o que pode lançar luz sobre as passagens em que Abraão e Isaque apresentam as suas esposas como irmãs. Atualmente, o espólio de Nuzi está distribuído por grandes instituições internacionais, incluindo o Museu Arqueológico do Iraque em Bagdade, o Museu Semítico de Harvard e o Instituto Oriental de Chicago, continuando a ser uma fonte inesgotável para historiadores e assiriólogos interessados na evolução das civilizações mesopotâmicas.

Referências

  1. ↑ Starr, Richard F. S. (Richard Francis Strong) (1 de janeiro de 1937). «Nuzi: report on the excavations at Yorgan Tepa near Kirkuk, Iraq, conducted by Harvard University in conjunction with the American Schools of Oriental Research and the University Museum of Philadelphia, 1927-1931. v.2: plates and plans». Archive of Mesopotamian Archaeological Reports (AMAR)
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  9. ↑ «LEIS E COSTUMES DA CULTURA DE NUZI E SUAS POSSÍVEIS RELAÇÕES COM OS SUBSTRATOS NARRATIVOS TRADICIONAIS DOS PATRIARCAS E MATRIARCAS BÍBLICOS» (PDF)