Telecatch foi um programa de televisão brasileiro dedicado à luta livre profissional, que combinavam encenação teatral, combate e circo, inspirados pelos programas de professional wrestling dos Estados Unidos e pela lucha libre mexicana. O programa passou por diferentes emissoras e recebeu diferentes títulos, alguns dos quais mantiveram o termo "Telecatch". Na TV Excelsior, foi exibido como Telecatch Vulcan, entre 1965 e 1966. Em 1967, passou para a TV Globo como Telecatch Montilla, permanecendo no ar até 1969. Na década de 1970, foi exibido pela TV Record sob o título Os Reis do Ringue, e Os Gigantes do Ringue da década de 80 até a década de 90.
Devido a popularidade dos programas na épico, "Telecatch" virou um termo genérico para a luta livre profissional no Brasil. O nome é uma palavra-valise formada por "televisão" e "catch", este último oriundo do catch wrestling, modalidade que deu origem à luta livre profissional, para diferenciar de outras formas de luta livre, como a luta livre esportiva e a luta livre olímpica. A palavra "Telecatch" também passou a se chamar a tradição brasileira de luta livre profissional, marcada pela forte influência do circo e do teatro popular. Essa tradição desenvolveu ainda um vocabulário próprio: os vilões eram chamados de "bases" e os heróis de "volantes", enquanto as lutas previamente combinadas eram conhecidas como "marmeladas".
Atualmente, a tradição do telecatch é mantida no Brasil por companhias como a Brazilian Wrestling Federation (BWF), fundada em 2002, que produz o programa BWF Telecatch.
A luta livre profissional chegou no Brasil na primeira metade do século XX, inicialmente associada a apresentações itinerantes, espetáculos circenses e eventos de catch-as-catch-can (também chamado no Brasil de "luta livre americana", ou simplesmente "luta livre") realizados em espaços destinados a exibições esportivas e de entretenimento. Já na década de 1930, jornais brasileiros anunciavam "matches de catch" como lutas de "luta-livre americana". Embora na época houvesse também lutas reais (incluindo o chamado vale-tudo), com o tempo os "espetáculos de catch" se tornaram combates previamente combinados (worked no linguajar da luta livre profissional americana), nos quais os resultados eram definidos de antemão e a luta incorporava elementos de encenação e entretenimento, prática que no Brasil ficou popularmente conhecida como luta "marmelada", embora no início ainda houvessem lutas de catch "no duro" (legítimas). O último se desenvolveria na Luta livre esportiva moderna.
Na década de 50, a televisão brasileira passou a transmitir lutas desde os primeiros anos de sua implantação. Em 1950, a TV Tupi de São Paulo já exibia combates organizados por Carlos e Hélio Gracie, fundadores e promotores do jiu-jitsu Gracie, e em 1951 a prática chegou à TV Tupi do Rio de Janeiro. Na década de 1950, programas como Heróis do Ringue, exibido pela TV Continental a partir de 1959, apresentavam confrontos reais entre praticantes de jiu-jitsu e representantes de outras modalidades, chamados de "vale-tudo". Em 1962, Heróis do Ringue deixou de ser exibido após um dos combates terminar com a fratura do braço do lutador José Geraldo, atingido por uma chave aplicada por João Alberto Barreto (futuro árbitro do primeiro evento do UFC em 1993). O episódio, transmitido pela televisão, contribuiu para a crescente oposição à violência das transmissões de vale-tudo e para a posterior proibição desse tipo de programa no estado da Guanabara. Com o encerramento de Heróis do Ringue, abriu-se espaço na televisão para um formato menos dependente da violência de combates reais. Em 1965, a TV Excelsior estreou o Telecatch Vulcan, programa de lutas encenadas que posteriormente se tornaria um dos maiores sucessos do gênero no Brasil.
Com a extinção do Palácio de Alumínio (uma cúpula de alumínio dedicada à exibição de combates corpo a corpo), um dos protagonistas da rede de lojas Imperatriz das Sedas (cuja sede era vizinha ao palácio montado no terreno do extinto tesouro nacional - doado aos comerciários) e um dos sócios da empresa, Sr Rafick, resolveu promover um programa de luta livre promocional na televisão. Durante a década de 1960, alcançou o auge do sucesso, criando vários heróis, como Ted Boy Marino, Aquiles, Fantomas, etc.
A tradição brasileira de luta livre profissional também desenvolveu um vocabulário próprio. Os lutadores eram tradicionalmente divididos entre "bases", os vilões, e "volantes", os heróis — funções correspondentes, de modo aproximado, aos heels e faces do professional wrestling em língua inglesa. As denominações "base" e "volante" provém da ginástica acrobática e nas tradições circenses: a base é o integrante responsável pela sustentação, enquanto o volante é aquele que realiza movimentos aéreos e é sustentado ou lançado, do mesmo modo que na acrobacia, o volante é elevado, lançado e conduzido pela base, na luta livre o face/volante protagoniza a ação e conduz o confronto com o heel/base. As lutas previamente combinadas eram conhecidas como "marmeladas", em oposição às lutas "no duro", nas quais o confronto era realizado de forma efetiva. O vocabulário técnico também incorporou denominações próprias para golpes: "drap" era usado para designar o dropkick, golpe lutador aplica um chute aéreo utilizando os dois pés ao mesmo tempo, "pilão" ao piledriver, a "roda-gigante" ao suplex vertical, enquanto a "tesoura" correspondia ao flying headscissors, golpe em que o lutador saltava e envolvia a cabeça do adversário com as pernas, utilizando o movimento para derrubá-lo.
O Telecatch chegou a ser criticado por Hélio Gracie, um dos fundadores do jiu-jitsu brasileiro, que demonstrou preocupação com os “falsos combates” que caracterizavam o espetáculo. Gracie, pioneiro do vale-tudo e inspiração para o MMA (artes marciais mistas), sempre defendeu a prática de lutas reais e efetivas, considerando que o Telecatch deturpava a imagem das artes marciais legítimas. Curiosamente, ele apareceu ao lado de Ted Boy Marino em um episódio dos Trapalhões. Por outro lado, seu irmão Oswaldo Gracie teria participado de lutas coreografadas de luta livre profissional como lutador mascarado, para ocultar sua identidade, durante um período de dificuldades financeiras na década de 1920.
Inicialmente chamado Telecatch Vulcan devido a uma ligação com a casa da borracha dos Cassini (esportes náuticos) e Imperatriz das Sedas (dos sócios César Murane e Rafick), a TV Excelsior televisou dos anos de 1965 a 1966. Devido a outro patrocinador, o Rum Montilla, posteriormente passou a ser denominado Telecatch Montilla na TV Globo de 1967 a 1969 e finalmente como Os Reis do Ringue (TV Record) na década de 1970. Por razões econômicas, a rede de lojas Imperatriz das Sedas, principal patrocinadora da produção em sua fase inicial, e empresas associadas deixaram de financiar o programa, levando ao encerramento daquela produção. Isso, porém, não significou o fim do telecatch no Brasil, que continuou em diferentes emissoras e sob diferentes nomes ao longo das décadas de 1970 e 1980.
A partir de 1973, o lutador e empresário Michel Serdan passou a desenvolver o Gigantes do Ringue, que passou pela Rede Record e posteriormente em outras transmissoras como a TV Gazeta, se tornando uma das principais atrações de luta livre da televisão brasileira. Na TV Record, o programa alcançou grande popularidade em sua primeira grande fase televisiva, exibida aproximadamente entre 1980 e 1990. Em certos momentos, o programa teria chegado ao segundo lugar na medição de audiência do Ibope, competindo com as sempre populares telenovelas da Globo e desafiando a hegemonia da principal rede de televisão do país. No início da década de 1990, a atração começou a perder popularidade, tornando-se criativamente estagnada; sua trajetória na Record chegou ao fim em meio a mudanças na propriedade e na linha editorial da emissora, após sua aquisição pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Os vilões extravagantes e os personagens associados a uma iconografia demoníaca ou satânica entravam em conflito com a orientação religiosa dos novos proprietários da rede. No mesmo período, outras atrações de telecatch também foram exibidas na televisão brasileira, como Astros do Ringue, na Rede Bandeirantes, e Campeões do Ringue, na Rede Record, geralmente compartilhando o mesmo elenco. Diferentemente de países como os Estados Unidos, o Japão e o México, onde se consolidaram grandes promoções especializadas de luta livre profissional, como a World Wrestling Federation (WWF), a New Japan Pro-Wrestling (NJPW) e o Consejo Mundial de Lucha Libre (CMLL), o cenário brasileiro era caracterizado pela atuação de empresários, grupos de lutadores e produções televisivas, sem uma promoção nacional com dimensão e continuidade equivalentes às dessas organizações. Em 2000, o programa retornou à televisão como Gigantes do Ringue - Nova Geração, exibido pela TV Gazeta. A nova fase provocou divergências entre Michel Serdan e integrantes da velha guarda da luta livre, que criticavam a utilização de lutadores sem formação tradicional e a influência do estilo "pirotécnico" norte-americano da WWF. Os Gigantes do Ringue continuou sua trajetória televisiva posteriormente com uma produção muito menor, passando por diferentes emissoras e chegando a ter sua última exibição na televisão em 2006, na TV Bandeirantes.
Na década de 90, a World Wrestling Federation (WWF, atual WWE) foi transmitido na Rede Manchete pela programa Supercatch, versão brasileira do WWF Superstars, posteriormente incluindo partes do WWF Raw e WWF Action Zone. Chegou a marcar bons índices aos sábados (entre 10 e 12 pontos), alcançando o 2º lugar no Ibope e expôs o público brasileiro ao modelo norte-americano de professional wrestling. Retornou a televisão aberta em 2008 com transmissão no SBT. A programação alcançou boa repercussão e conquistou fãs, mas acabou sendo retirada do ar ainda naquele ano após o Ministério da Justiça reclassificar o conteúdo como inadequado para menores de 12 anos, o que inviabilizou sua exibição no horário pretendido pelo SBT.
O telecatch perdeu espaço na televisão aberta brasileira ao longo da década de 1990. Segundo o lutador Bob Júnior, um dos fatores para a perda de interesse do público foi a repetição das narrativas e das lutas. Nesse mesmo período, o vale-tudo começou a ganhar maior visibilidade, e, no final da década de 1990 e início dos anos 2000, as artes marciais mistas (MMA) passaram por um processo de expansão rápida, sobretudo no Brasil, impulsionado pelo crescimento do Ultimate Fighting Championship (UFC).
Atualmente, embora a luta livre profissional no Brasil não tenha recuperado a expressividade alcançada nas décadas de 1960 e 1970, ainda existem companhias dedicadas à modalidade. Entre elas está a Brazilian Wrestling Federation (BWF), fundada em 2002 em São Paulo pelo ex-lutador e treinador Bob Júnior, que produz o programa BWF Telecatch, em produção desde 2009. Na televisão aberta, o programa é exibido pela Band sob o título BWF Telecatch na Band, além de ser disponibilizado pela internet. Outras empresas no Brasil incluem a Evolution Wrestling Force (EWF) em Porto Alegre e a Federação Internacional de Luta Livre (FILL) no Rio de Janeiro.