Alfabeto tifinague

Alfabeto tifinague
TipoAbjad
Línguasberberes
Período de tempo
desconhecido, mas ainda em uso
Sistemas-pais
Sistemas-filhos
neo-tifinague

O Tifinagh (línguas berberes: ⵜⴼⵏⵗ; Neo-Tifinagh: ⵜⵉⴼⵉⵏⴰⵖ; alfabeto latino berbere: Tifinaɣ; pronúncia berbere: [tifinaɣ]) é um sistema de escrita utilizado para as línguas berberes (Tamazight). Ele deriva do antigo alfabeto líbico-berbere.

O Tifinagh tradicional, por vezes chamado de Tifinagh tuaregue, ainda é utilizado pelo povo tuaregue do deserto do Saara (no sul da Argélia, nordeste do Mali, norte do Níger e norte de Burkina Faso) para escrever as línguas tuaregues. O Neo-Tifinagh, desenvolvido pela Academia Berbere na década de 1970, é um alfabeto que adapta o Tifinagh tuaregue para um uso mais amplo no Norte da África, particularmente para o cabila e outros dialetos berberes.

O Tifinagh é uma das três principais ortografias berberes concorrentes, ao lado dos alfabetos latino e árabe. No entanto, exceto em contextos simbólicos ou culturais, a escrita latina permanece predominante na escrita das línguas berberes no Norte da África.

Etimologia

A palavra tifinagh (singular tafinəq < *ta-finəɣ-t) é considerada por alguns estudiosos como um cognato ou adaptação berbere do plural feminino da palavra latina Punicus 'púnico, fenício', através do prefixo feminino berbere ti- e da raiz √FNƔ < *√PNQ < latim Punicus; assim, tifinagh poderia possivelmente significar 'as letras fenícias' ou 'as letras púnicas'. Outros defendem uma etimologia envolvendo o verbo tuaregue efnegh 'escrever'.

Líbico-berbere

Antes ou durante a existência dos antigos reinos berberes da Numídia (norte da Argélia) e da Mauritânia (norte do Marrocos), entre 202 a.C. e 25 a.C., muitas inscrições foram gravadas utilizando a escrita líbico-berbere, também conhecida como líbio antigo. Essa escrita é encontrada em milhares de inscrições e gravuras em pedra por todo o Marrocos, norte da Argélia, Tunísia, norte da Líbia e Ilhas Canárias.

A evolução exata tanto da escrita líbico-berbere quanto do tifinagh ainda não está clara. Este último sistema de escrita foi amplamente utilizado na antiguidade por falantes da língua numídia — em grande parte não decifrada e também chamada de líbio antigo, por toda a África e nas Ilhas Canárias. A origem da escrita é incerta: alguns estudiosos sugerem que ela está relacionada ao alfabeto fenício, ou que dele descende ou se desenvolveu, enquanto outros defendem uma concepção independente com leves influências fenícias. Sua primeira aparição também é incerta, mas não remonta a período anterior ao primeiro milênio a.C., sendo que os vestígios mais antigos provavelmente datam do século VI a.C. A escrita desapareceu das áreas mais ao norte do Norte da África durante o século VIII, após a conquista árabe do Magrebe, sendo substituída, assim como o latim, pela escrita árabe.

A escrita líbico-berbere era um abjad puro; não possuía vogais. A geminação não era marcada. A escrita geralmente seguia o sentido de baixo para cima, embora também fossem encontrados sentidos da direita para a esquerda e outras orientações. As letras assumiam formas diferentes quando escritas na vertical em comparação com a escrita na horizontal. Essa escrita líbica apresentava duas formas. A forma ocidental, não decifrada, era utilizada ao longo da costa do Mediterrâneo, da Cabilia até o Marrocos e, provavelmente, nas Ilhas Canárias. A forma oriental era utilizada em Constantina, Aurès e na Tunísia. Das 24 letras da forma oriental, 22 foram decifradas graças a inscrições bilíngues púnico-líbicas.

História

A escrita tifinague original apresenta poucas letras, com pouquíssimas vogais e sua escrita é vertical. É usada tão somente pelos tuaregues, o único povo berbere que ainda usa a antiga escrita líbico-berbere, que é derivada de uma escrita mais antiga, o líbico ou líbio-amazigue. Há registros do uso dessa escrita por povos amazigues (berberes) ao longo do Norte da África e talvez nas Canárias desde o século III a.C. até ao século III d.C.

Trata-se de uma língua de origem fenícia. Seu nome, tifinague, vem possivelmente do fenício tafineqq (letras fenícias), outros atribuem seu nome à expressão fenícia tifin negh, "nossa invenção".

Estudiosos e ativistas da identidade berbere modificaram e adaptaram o alfabeto tifinague original para um neo-tifinague, desenvolvido na Academia Berbere nos anos 1960, com vogais, escrita da esquerda para direita. Mais recentemente fontes para PC estão disponíveis.

Variantes

FenícioSomLíbico-berbere oriental
Aleph ʾ
Beth b Yab
Gimel g Yag
Daleth d Yad
He h Yah
Waw w Yaw
Zayin z Yaz
Heth ḥ Yaḥ
  
FenícioSomLíbico-berbere oriental
Teth ṭ Yaṭ
Yodh y Yay
Kaph k Yak
Lamedh l Yal
Mem m Yam
Nun n Yan
Samekh s Yas
Ayin ɛ
  
FenícioSomLíbico-berbere oriental
Pe p,f Yaf
Sade ṣ Yaṣ
Qoph q Yaq
Res r Yar
Sin š Yac
Taw t Yat
ẓ Yat
j Yaj

Tifinague tradicional (tuaregue)

Tradicionalmente, essa escrita não marca as vogais, exceto aquelas do final de palavras. Recentemente houve propostas para a marcação das vogais, como ocorre em certas áreas com o uso de diacríticos árabes aplicados às letras tifinagues.

A forma dos caracteres varia bastante ao longo da extensa área geográfica de uso do tifinague. Também variam as formas (sentidos) da escrita, sendo a mais comum a da direita para a esquerda, havendo, porém, o sentido vertical, de baixo para cima, em antigas inscrições "líbias". Por vezes a escrita tifinague é usada para escrever outras línguas da região, tais como o tagdal, do grupo songai.

Neo-tifinague

Placa bilíngue de "Stop" em Nador, escrita em arábe e neo-tifinague

Nos anos 1960, um grupo de jovens berberistas da Cabília criaram a Academia Berbere e desenvolveram uma nova versão da escrita, o "neo-tifinag", que é escrito da esquerda para direita, marca as vogais e apresenta mais letras. Foram publicados textos, artigos e revistas nessa escrita que se popularizou entre os cabilas, como no "Movimento Cultural Berbere", no "JS Kabylie", no "Rali pela Cultura e Democracia", sendo adotada nas áreas onde o berbere é falado.

Houve ainda outras propostas de modificações no tifinague: do Instituto nacional de línguas e civilizações orientais (INALCO, França), da Associação Afus Deg Wfus (França), da revista Tifinagh (Marrocos), por um produto de software da Arabia Ware Benelux (Países Baixos) e do Instituto real da cultura amazigue (IRCAM, Marrocos).

Pessoas que usavam essa escrita eram presas por esse motivo nos anos 1980 e 90. Até pouco tempo não havia nem livros nem websites disponíveis na escrita neo-tifinague. Mesmo ativistas utilizavam o alfabeto latino e mais raramente o árabe, ficando o tifinague apenas para uso simbólico, com os livros e websites em latino ou arábico simplesmente apresentando logotipos ou títulos nessa escrita. Porém, no Marrocos em 2003, o rei adotou essa escrita como uma das oficiais, visando tomar uma posição neutra na disputa entre os defensores da escrita árabe e da escrita latina. Com isso, livros passaram a ser publicados em tifinague, sendo esse alfabeto ensinado em algumas escolas. Marrocos é único país que tem esse alfabeto como oficial.

Codificação da escrita neo-tifinague

O neo-tifinague é codificado pelo Unicode de U+2D30 até U+2D7F, desde a versão 4.1.0. São definidos 55 caracteres, que são de fato os mais utilizados. No ISO 15924 o código para o neo-tifinague é Tfng.

Tabela da representação em "glyphs" Unicode
(da esquerda para direita)
Código +0+1+2+3 +4+5+6+7 +8+9+A+B +C+D+E+F
U+2D30
U+2D40
U+2D50
U+2D60            
U+2D70                    

Tabela de comparação entre "glyph" e sua transliteração

Legenda de cores
CorSignificado
 Tifinague básico (IRCAM)
 Tifinague estendido (IRCAM)
 Outras letras tifinagues
 Letras modernas tuaregues
 Posição não usada
Letras simples (e letra modificadora)
CódigoGlyphUnicodeTransliteraçãoNome
latinaárabe
U+2D30ⴰaاya
U+2D31ⴱbبyab
U+2D32ⴲbٻyab fricativa
U+2D33ⴳgگyag
U+2D34ⴴgڲyag fricativa
U+2D35ⴵdjجyadj da Academia Bérbere
U+2D36ⴶdjجyadj
U+2D37ⴷdدyad
U+2D38ⴸdدyad fricativa
U+2D39ⴹḍضyaḍ
U+2D3Aⴺḍضyaḍ fricativa
U+2D3Bⴻeهyey
U+2D3Cⴼfفyaf
U+2D3Dⴽkکyak
U+2D3EⴾkکTuareg yak
U+2D3Fⴿkکyak fricativa
U+2D40ⵀh
b
ھ
ب
yah
= yab Tuareg
U+2D41ⵁhھyah da Academia Bérbere
U+2D42ⵂhھyah Tuareg
U+2D43ⵃḥحyaḥ
U+2D44ⵄˤ (ε)عyaε
U+2D45ⵅkh (x)خyax
U+2D46ⵆkh (x)خyax Tuareg
U+2D47ⵇqقyaq
U+2D48ⵈqقyaq Tuareg
U+2D49ⵉiيyi
U+2D4Aⵊjجyaj
U+2D4BⵋjجAhaggar yaj
U+2D4CⵌjجTuareg yaj
CódigoGlyphUnicodeTransliteraçãoNome
latinaárabe
U+2D4Dⵍlلyal
U+2D4Eⵎmمyam
U+2D4Fⵏnنyan
U+2D50ⵐnyنيyagn Tuareg
U+2D51ⵑngڭyang Tuareg
U+2D52ⵒpپyap
U+2D53ⵓu
w
و
ۉ
yu
= yaw Tuareg
U+2D54ⵔrرyar
U+2D55ⵕṛڕyaṛ
U+2D56ⵖgh (γ)غyaγ
U+2D57ⵗgh (γ)غyaγ Tuareg
U+2D58ⵘgh (γ)
j
غ
ج
Aïr yaγ
= yaj Adrar
U+2D59ⵙsسyas
U+2D5Aⵚṣصyaṣ
U+2D5Bⵛsh (š)شyaš
U+2D5Cⵜtتyat
U+2D5Dⵝtتyat fricativo
U+2D5Eⵞch (tš)تشyatš
U+2D5Fⵟṭطyaṭ
U+2D60ⵠvۋyav
U+2D61ⵡwۉyaw
U+2D62ⵢyيyay
U+2D63ⵣzزyaz
U+2D64ⵤzزTawellemet
yaz Arpão
U+2D65ⵥẓﻈyaẓ
U+2D6Fⵯ+wۥ+Marca de lábio-velarização
Tamatart
2D61
Letras dígrafas (ligaturas são possíveis)
CódigoGlyphUnicodeTransliteraçãoNome
latinaárabe
U+2D5C U+2D59ⵜⵙtsتسyats
U+2D37 U+2D63ⴷⵣdzدزyadz
CódigoGlyphUnicodeTransliteraçãoNome
latinaárabe
U+2D5C U+2D5Bⵜⵛch (tš)تشyatš
U+2D37 U+2D4Aⴷⵊdjدجyadj

Amostra de texto

(Artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos)

Transliteração:

Imdanen, akken ma llan ttlalen d ilelliyen msawan di lḥweṛma d yizerfan-ghur sen tamsakwit d lâquel u yessefk ad-tili tegmatt gar asen.

Em português:

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São providos de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros num espírito de fraternidade.

Referências

  1. 1 2 «Como se diz "tifinagh" em português? Como se traduz tifinagh?». dicionário e gramática. Consultado em 29 de setembro de 2015
  2. ↑ Camps, G.; Claudot-Hawad, H.; Chaker, S.; Abrous, D. (1996). «Écriture». Encyclopédie berbère (em francês) (17): 2564–2585. ISSN 1015-7344. doi:10.4000/encyclopedieberbere.2125
  3. 1 2 Campbell, George L. (2012). The Routledge handbook of scripts and alphabets. Christopher Moseley 2nd ed. Milton Park, Abingdon, Oxon: Routledge. pp. 58–59. ISBN 978-0-203-86548-4
  4. ↑ Soulaimani, Dris (2 de janeiro de 2016). «Writing and rewriting Amazigh/Berber identity: Orthographies and language ideologies». Writing Systems Research. 8 (1): 2–5. ISSN 1758-6801. doi:10.1080/17586801.2015.1023176
  5. 1 2 «L'ECRITURE LIBYCO-BERBERE: Etat des lieux et perspectives» (em francês). Centre de Recherche Berbere. Consultado em 12 de agosto de 2026
  6. ↑ M.C.A. MacDonald (2005). Elizabeth A. Slater, C.B. Mee and Piotr Bienkowski, ed. Writing and Ancient Near East Society: Essays in Honor of Alan Millard. [S.l.]: T.& T.Clark Ltd. p. 60. ISBN 9780567026910
  7. 1 2 Suleiman, Yasir (1996). Language and Identity in the Middle East and North Africa. [S.l.]: Psychology Press. p. 173. ISBN 978-0-7007-0410-1
  8. ↑ «Quelle est l'origine de cet alphabet ?» (em francês). www.MondeBerbere.com. Consultado em 29 de dezembro de 2010. Arquivado do original em 3 de março de 2016
  9. ↑ «La date de l'apparition de Tifinagh» (em francês). www.MondeBerbere.com. Consultado em 29 de dezembro de 2010. Arquivado do original em 5 de março de 2016
  10. ↑ «Rapport sur le calvaire de l'écriture en Tifinagh au Maroc». Consultado em 29 de dezembro de 2010

Bibliografia

Ligações externas

O Commons possui uma categoria com imagens e outros ficheiros sobre o Alfabeto tifinague