Abu Xama

Abu Xama (em árabe: أبو شامة; romaniz.: Abū Shāma), nome pelo qual ficou conhecido Xiabadim Abu Alcácime Abederramão ibne Ismail ibne Ibraim Almaquedici (em árabe: شهاب الدين أبو القاسم عبد الرحمن بن إسماعيل بن إبراهيم المقدسي; romaniz.: Shihāb al-Dīn Abū al-Qāsim ʿAbd al-Raḥmān ibn Ismāʿīl ibn Ibrāhīm al-Maqdisī; Damasco, janeiro de 1203 (823 anos) – 13 de junho de 1267), foi um historiador, jurista xafeíta e estudioso das leituras corânicas sírio. Natural de uma família originária de Jerusalém, recebeu sua formação em Damasco e ampliou seus estudos por meio de viagens a Jerusalém, ao Hejaz e ao Egito. Posteriormente dedicou-se ao ensino em Damasco, onde lecionou em diferentes instituições religiosas e assumiu a direção da Dar Alhadite Alaxerafia.

Abu Xama escreveu sobre história, jurisprudência, leituras corânicas, literatura e outras disciplinas. É conhecido sobretudo pelo Kitāb al-Rawḍatayn fī akhbār al-dawlatayn al-Nūriyya wa'l-Ṣalāḥiyya, história dos governos de Noradine e Saladino, e por sua continuação, o al-Dhayl ʿalā al-Rawḍatayn, que estende a narrativa até sua própria época. Essas obras possuem particular importância pela utilização de documentos e de fontes anteriores que não sobreviveram integralmente, além de constituírem importantes testemunhos sobre os aiúbidas, os conflitos com os Estados cruzados e a história de Damasco no século XIII.

Vida

Abu Xama, cujo nome era Xiabadim Abu Alcácime Abederramão ibne Ismail ibne Ibraim Almaquedici, nasceu em Damasco em 23 de Rabi II de 599 A.H. (janeiro de 1203). Sua família era originária de Jerusalém, circunstância da qual derivava sua nisba Almaquedici. Ficou conhecido pelo epíteto Abu Xama em razão de uma grande pinta que tinha sobre a sobrancelha esquerda. Desde jovem dedicou-se aos estudos religiosos e, ainda criança, memorizou o Alcorão. Estudou as leituras corânicas, hádice, jurisprudência, gramática e outras disciplinas com numerosos estudiosos de Damasco e, posteriormente, ampliou sua formação por meio de viagens. Esteve em Jerusalém durante catorze dias e visitou duas vezes o Hejaz, numa das ocasiões para realizar a peregrinação, além de viajar ao Egito. Abu Xama especializou-se nas leituras do Alcorão e na jurisprudência xafeíta, ao mesmo tempo que adquiriu amplo conhecimento de história, literatura e língua árabe. Após concluir sua formação, dedicou-se ao ensino e à produção intelectual em Damasco. Lecionou em diferentes instituições da cidade e, nos últimos anos de vida, recebeu postos de maior destaque. Em 662 A.H. (1263/4), foi nomeado responsável pela Dar Alhadite Alaxerafia, importante instituição dedicada ao ensino do hádice, e também ensinou nas madraças Arrauaia e Alaxerafia.

Além de sua atividade como jurista e especialista nas leituras corânicas, Abu Xama adquiriu reputação como historiador. Viveu num período marcado pelas últimas décadas do domínio aiúbida e pela ascensão do Sultanato Mameluco do Cairo, e dedicou parte considerável de sua produção ao registro da história de seu próprio tempo e do período imediatamente anterior. Demonstrava particular interesse pela luta contra os Estados cruzados e pelas carreiras de Noradine e Saladino, às quais dedicou sua principal obra histórica. Seu trabalho caracteriza-se pelo emprego de numerosas fontes anteriores, algumas atualmente perdidas, e pela reprodução de documentos e pela indicação dos autores de quem extraía suas informações. Poucos meses antes de morrer, Abu Xama foi atacado em sua casa por dois homens que o espancaram gravemente. Sobreviveu inicialmente às agressões e registrou o episódio em versos, recusando-se, segundo os relatos biográficos, a apresentar uma denúncia às autoridades. Morreu em Damasco em 19 de Ramadã de 665 A.H. (13 de junho de 1267), aos 64 anos. Ao longo da vida produziu numerosas obras sobre história, leituras corânicas, jurisprudência, literatura e outras disciplinas, embora sua reputação posterior tenha se baseado sobretudo em seus escritos históricos.

Obras

São atribuídas a Abu Xama numerosas obras sobre história, leituras corânicas, jurisprudência, literatura e outros campos. Sua produção histórica é encabeçada pelo Kitāb al-Rawḍatayn fī akhbār al-dawlatayn al-Nūriyya wa'l-Ṣalāḥiyya, dedicado aos governos de Noradine e Saladino. A obra apresenta os acontecimentos em ordem cronológica e utiliza numerosas fontes escritas, documentos e relatos anteriores. Abu Xama geralmente identifica os autores dos quais extrai suas informações, circunstância que permite reconhecer a procedência de grande parte do material reunido.

O Rawḍatayn possui particular importância por preservar materiais provenientes de obras que não chegaram integralmente à atualidade. Entre suas principais fontes estavam o al-Barq al-Shāmī, de Imadadim Alcátibe, e uma biografia de Saladino escrita por Ibne Abi Tai, além de outras narrativas contemporâneas ou próximas dos acontecimentos descritos. Abu Xama incorporou ainda documentos aos relatos, fazendo da obra uma importante fonte para a história de Noradine, Saladino, dos aiúbidas e dos conflitos com os cruzados. Abu Xama deu continuidade à narrativa no al-Dhayl ʿalā al-Rawḍatayn, que prolonga a história até sua própria época. Para os primeiros anos dessa continuação, utilizou extensamente o Mirʾāt al-zamān de Sibte ibne Aljauzi. À medida que a narrativa se aproxima do período vivido pelo próprio Abu Xama, aumenta a presença de informações baseadas em sua experiência pessoal, e a parte final assume caráter parcialmente autobiográfico. A obra contém também notícias sobre estudiosos, dignitários e outros contemporâneos do autor.

Entre seus demais escritos históricos encontra-se o Tarājim rijāl al-qarnayn al-sādis wa'l-sābiʿ, dedicado às biografias de personagens dos séculos VI e VII A.H. Compôs também um resumo da monumental História de Damasco de Ibne Açaquir, conhecido como Taʾrīkh Dimashq, no qual condensou a extensa obra de seu predecessor. Além dos trabalhos históricos, escreveu numerosas obras relacionadas ao Alcorão e às suas leituras. Entre elas figuram escritos sobre as sete leituras e um comentário aos poemas de Axatibi, importante autoridade na ciência das leituras corânicas. Sua produção incluía ainda obras de jurisprudência, língua, literatura e poesia, além de escritos sobre acontecimentos de sua própria época. Embora parte desses trabalhos tenha se perdido, o Rawḍatayn e sua continuação asseguraram a posição de Abu Xama entre os principais historiadores de Damasco do século XIII, tanto pelo material documental que preservam quanto pelo acesso do autor a fontes que posteriormente desapareceram.

Referências

  1. ↑ Altıkulaç 1994, p. 233.
  2. 1 2 3 4 5 Ahmad 1986, p. 150.
  3. ↑ Altıkulaç 1994, pp. 233–234.
  4. 1 2 3 4 Altıkulaç 1994, p. 234.
  5. ↑ Altıkulaç 1994, pp. 234–235.

Bibliografia