Abulatar ou Abubácaro em grego: Ἀβουλαθάρ, Ἀβουβάχαρος; romaniz.: Aboulathár, Aboubácharos), nascido Abu Alauar Anre ibne Sufiane ibne Abede Xemece Açulami (em árabe: أبو الأعور عمرو بن سُفيان بن عبد شمس السلمي; romaniz.: ʾAbū al-ʾAʿwar ʿAmr ibn Sufyān ibn ʿAbd Shams al-Sulamī), foi um comandante militar e almirante árabe da tribo dos soleimitas, ativo entre 629 e 669. Serviu nos exércitos dos califas ortodoxos Abu Becre (r. 632–634), Omar (r. 634–644) e Otomão (r. 644–656). Durante a Primeira Guerra Civil Islâmica, recusou-se a reconhecer o califado de Ali (r. 656–661) e passou a servir Moáuia I, permanecendo ao seu lado após a fundação do Califado Omíada. Foi um dos últimos membros de destaque dos soleimitas a converter-se ao islã, tendo combatido contra Maomé na Batalha de Hunaine antes de aderir à nova religião. Após sua conversão, participou da conquista muçulmana da Síria e combateu na Batalha do Jarmuque. Mais tarde, comandou expedições navais contra o Império Bizantino no Mediterrâneo oriental, destacando-se na segunda invasão de Chipre e na Batalha dos Mastros, travada em 654, uma das mais importantes vitórias navais dos muçulmanos sobre os bizantinos. As fontes também lhe atribuem a destruição dos restos do Colosso de Rodes, embora esse episódio seja considerado incerto pela historiografia moderna. Durante a Primeira Guerra Civil Islâmica e nos anos seguintes, desempenhou diversas funções a serviço de Moáuia. Além de comandar tropas na Batalha de Sifim e participar das negociações de arbitragem com Ali, auxiliou Anre ibne Alas na consolidação do domínio omíada sobre o Egito, supervisionou o recenseamento fiscal de Junde de Filastine e governou Junde de Alurdune, cargo que ocupava desde o reinado de Otomão.
O nome próprio de Abulatar era Anre. Seu pai era Sufiane ibne Abede Xemece, chefe do proeminente clã dacuanita da tribo dos soleimitas, um povo árabe nômade que dominava a região da Harra, no centro-norte do Hejaz (atual oeste da Arábia Saudita), e mantinha estreitas ligações com Medina e Meca. Sua mãe e sua avó materna pertenciam ambas à tribo dos coraixitas de Meca. Seu pai comandou os soleimita quando estes combateram ao lado dos coraixitas contra Maomé e os primeiros muçulmanos na Batalha da Trincheira em 627. Embora a maior parte dos soleimitas tenha se convertido ao islã em 629, Abulatar, aliado do líder coraixita Abu Sufiane, constituiu uma exceção e combateu os muçulmanos na Batalha de Hunaine naquele mesmo ano. Posteriormente, converteu-se ao islã, embora sua condição de companheiro de Maomé seja objeto de controvérsia entre os estudiosos muçulmanos. O tradicionalista Albucari sequer o incluiu em sua relação de companheiros do profeta.
É provável que Abulatar tenha integrado o exército enviado pelo califa Abu Becre (r. 632–634) à conquista da Síria bizantina, sob o comando de Iázide ibne Abi Sufiane. Durante a Batalha do Jarmuque, comandou um destacamento das forças de Iázide, que infligiram uma derrota decisiva aos bizantinos e asseguraram a incorporação de grande parte da Síria ao Califado Ortodoxo. Sua ligação com Iázide e com Abu Sufiane contribuiu para consolidar sua duradoura lealdade ao clã omíada ao longo de toda a sua carreira. Sob as ordens de Moáuia ibne Abi Sufiane, irmão de Iázide e governador da Síria, Abulatar e Uabe ibne Omeir comandaram uma incursão contra a cidade bizantina de Amório em 644, considerada o início tanto das campanhas estratégicas quanto das expedições de saque muçulmanas no interior da Anatólia bizantina.
Abulatar comandou a segunda expedição árabe contra Chipre, provavelmente realizada no verão de 650. Os invasores cercaram Lápito, mas abandonaram o assédio depois que seus habitantes concordaram em pagar uma elevada indenização. Ao que tudo indica, porém, os muçulmanos não evacuaram completamente a ilha. Segundo as fontes árabes, Abulatar construiu uma fortaleza e nela estabeleceu uma guarnição de 12 mil homens, que permaneceu em Chipre até o tratado de paz firmado em 680, após o fracasso do Primeiro cerco árabe de Constantinopla. É provável que ele próprio tenha permanecido durante algum tempo no comando dessa guarnição, pois o imperador bizantino do século X Constantino VII registra que um árabe chamado "Abubácaro", geralmente identificado com Abulatar, construiu na ilha o túmulo de sua filha, falecida durante sua permanência em Chipre, monumento que ainda existia na época do imperador.
Segundo Miguel, o Sírio, pouco depois, em 653 ou 654, Abulatar comandou uma expedição contra Cós, capturada e saqueada após a traição do bispo local. Em seguida, saqueou Creta e Rodes. A conquista desta última representou um duro golpe para o Império Bizantino, pois a ilha constituía um dos principais centros comerciais do Mediterrâneo oriental. Durante a ocupação de Rodes, as fontes afirmam que suas tropas destruíram os restos do Colosso de Rodes, a célebre estátua do deus grego Hélio, embora esse episódio seja considerado duvidoso por parte da historiografia moderna. Em 654, Abulatar comandou a frota árabe na Batalha dos Mastros, na qual a marinha bizantina do imperador Constante II foi decisivamente derrotada. Segundo fontes armênias e bizantinas, a frota prosseguiu rumo a Constantinopla com o objetivo de cercar a cidade, mas uma tempestade destruiu as embarcações que transportavam as máquinas de cerco. Esse revés, entretanto, não é mencionado pelas crônicas árabes.
O califa Otomão (r. 644–656), membro do clã omíada, nomeou Abulatar governador de Junde de Alurdune, distrito militar cuja capital era Tiberíades. Durante a Primeira Guerra Civil Islâmica, desencadeada após o assassinato de Otomão, Abulatar figurou entre os principais comandantes de Moáuia ibne Abi Sufiane na guerra contra o califa Ali (r. 656–661). Em 657, comandou um contingente dos soleimitas na Batalha de Sifim. Após o confronto, foi um dos representantes de Moáuia nas negociações de arbitragem com Ali e redigiu a versão preliminar do acordo para a conferência destinada a decidir a sucessão do califado, realizada em Adru, cidade situada nas montanhas de Axarate. Em 658 ou 659, Moáuia confirmou Abulatar no governo de Junde Alurdune. Posteriormente, auxiliou Anre ibne Alas a consolidar a autoridade de Moáuia sobre o Egito. Após a ascensão de Moáuia ao califado, em 661, e a fundação do Califado Omíada, o novo soberano pretendia substituir Anre, considerado excessivamente independente, por Abulatar no governo do Egito. O plano, contudo, nunca foi executado, e Abulatar permaneceu à frente de Junde Alurdune. Segundo Miguel, o Sírio, em 669 Abulatar supervisionou o recenseamento dos felás de Junde de Filastine, medida associada por Lammens à reorganização administrativa da província. De acordo com Gil, esse recenseamento serviu de base para a implantação do sistema tributário aplicado às aldeias cristãs da Palestina.
Em razão dos serviços prestados a Moáuia, os historiadores muçulmanos medievais passaram a considerar Abulatar um dos mais destacados tenentes do califa e membro de sua biṭāna, o círculo mais íntimo de conselheiros e colaboradores. Seu nome desaparece das fontes antes do fim do reinado de Moáuia, em 680, sendo desconhecidas as circunstâncias de sua morte. Seu filho Sufiane tornou-se comandante das tribos árabes estabelecidas na Jordânia. Um sobrinho ou bisneto, Ubaida ibne Abederramão, exerceu sucessivamente os governos provinciais do Azerbaijão, de Junde de Alurdune e da Ifríquia durante os reinados dos califas omíadas Omar II (r. 717–720), Hixame (r. 724–743) e Alualide II (r. 743–744), respectivamente.