| Glândula suprarrenal | |
|---|---|
Esquema anatômico demonstrando a localização das glândulas suprarrenais sobre o polo superior de cada rim. | |
Secção esquemática evidenciando o córtex (dividido em três zonas) e a medula adrenal central. | |
| Detalhes | |
| Sistema | Sistema endócrino |
| Vascularização | Artéria suprarrenal superior, Artéria suprarrenal média, Artéria suprarrenal inferior |
| Drenagem venosa | Veia suprarrenal (veia suprarrenal direita drena na veia cava inferior; veia suprarrenal esquerda drena na veia renal esquerda) |
| Inervação | Fibras pré-ganglionares simpáticas mielinizadas dos nervos esplâncnicos, plexo celíaco e plexo renal |
| Drenagem linfática | Gânglios linfáticos lombares (para-aórticos e paracavais) |
| Precursor | Córtex: mesotélio celômico (mesoderme); Medula: crista neural (ectoderme) |
| Identificadores | |
| Latim | Glandula suprarenalis |
| Gray | pág.1278 |
| MeSH | Adrenal+Glands |
Nos mamíferos, as glândulas suprarrenais (ou adrenais) são duas glândulas endócrinas pares, de coloração amarelada e localização retroperitoneal, situadas no polo ântero-superior de cada rim. Em seres humanos adultos, cada glândula pesa cerca de 4 a 5 gramas e mede aproximadamente 5 centímetros de comprimento por 3 centímetros de largura e 1 centímetro de espessura. Apresentam assimetria morfológica notável: a glândula suprarrenal direita possui formato tipicamente piramidal ou triangular, ao passo que a esquerda exibe conformação semilunar e costuma ser discretamente mais volumosa.
Cada suprarrenal é estrutural e funcionalmente composta por duas entidades biológicas distintas envoltas por uma cápsula fibrosa comum: o córtex adrenal periférico (de origem mesodérmica, responsável por cerca de 80% a 90% do volume da glândula) e a medula adrenal central (de origem neuroectodérmica, derivada da crista neural).
O córtex divide-se em três zonas concêntricas especializadas na síntese de hormônios esteroides (esteroidogênese): a zona glomerulosa produz mineralocorticoides (com destaque para a aldosterona, essencial no equilíbrio hidroeletrolítico e controle da pressão arterial), a zona fasciculada sintetiza glicocorticoides (principalmente o cortisol, regulador central do metabolismo energético e das respostas inflamatórias ao estresse) e a zona reticular secreta androgênios adrenais (como a deidroepiandrosterona ou DHEA). Por sua vez, a medula adrenal opera fisiologicamente como um gânglio simpático especializado, cujas células cromafins descarregam catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) diretamente na corrente sanguínea em situações agudas de alerta, deflagrando a clássica resposta de "luta ou fuga".
As glândulas suprarrenais repousam no espaço perirrenal do abdómen, imediatamente acima e anteromedialmente aos polos superiores dos rins, ao nível da 12.ª vértebra torácica (T12) e 1.ª vértebra lombar (L1). Encontram-se encerradas pela fáscia renal (fáscia de Gerota), inseridas em meio ao coxim adiposo perirrenal. Um septo fascial delgado separa a glândula da superfície renal propriamente dita; em virtude dessa clivagem anatômica, a ptose renal (deslocamento caudal do rim) não acarreta o deslocamento conjunto da suprarrenal, que permanece ancorada à fáscia e ao diafragma.
As relações de contiguidade diferem acentuadamente entre os dois lados:

As glândulas adrenais exibem uma das mais densas vascularizações relativas do corpo humano, perfundidas por um fluxo sanguíneo arterial que atinge cerca de 5 mL/g/min em condições basais. A irrigação provém de três origens arteriais distintas em cada lado: 1. Artéria suprarrenal superior: Composta por múltiplos ramos delgados (em média de 6 a 30) originados da respectiva artéria frênica inferior; 2. Artéria suprarrenal média: Ramo de calibre variável emergente diretamente da face lateral da aorta abdominal, logo acima da origem das artérias renais; 3. Artéria suprarrenal inferior: Um ou mais ramos volumosos originados da artéria renal homolateral antes de sua penetração no hilo renal.
Essas artérias ramificam-se livremente na superfície da cápsula fibrosa, constituindo um plexo arterial subcapsular. A partir desse plexo derivam arteríolas curtas e capilares sinusoides fenestrados que atravessam o córtex de forma centrípeta (entre as colunas celulares), além de raras arteríolas medulares diretas que cruzam o córtex sem se ramificar para alcançar diretamente a medula. Essa arquitetura de fluxo centrípeto garante que a medula adrenal receba sangue portador de concentrações extremamente elevadas de glicocorticoides corticais, fator essencial para a regulação enzimática da síntese de catecolaminas.
Ao contrário do afluxo arterial profuso e disperso, a drenagem venosa de cada glândula é efetuada predominantemente por um único vaso calibroso central, a veia suprarrenal, cuja terminação exibe assimetria cirurgicamente crítica:
Os vasos linfáticos adrenais originam-se em dois plexos (um subcapsular e outro medular) e acompanham os trajetos venosos para drenar nos linfonodos lombares para-aórticos e paracavais adjacentes à origem das artérias renais.
A inervação é profusa e deriva primariamente dos nervos esplâncnicos maior, menor e imo, através dos plexos celíaco, renal e suprarrenal. Notavelmente, a imensa maioria dessas fibras corresponde a axônios pré-ganglionares simpáticos mielinizados (colinérgicos). Tais fibras penetram na glândula sem fazer sinapse nos gânglios paravertebrais e terminam diretamente em contato com as células cromafins da medula adrenal, que funcionam embriológica e funcionalmente como neurônios pós-ganglionares modificados. O córtex, por sua vez, é desprovido de inervação sináptica motora direta; sua regulação é quase exclusivamente hormonal humoral.
Microscopicamente, a suprarrenal é envolvida por uma cápsula conjuntiva densa que emite septos delgados para o interior da glândula transportando vasos sanguíneos e nervos. Abaixo da cápsula identificam-se claramente o córtex e a medula.
Representa cerca de 80% a 90% do parênquima glandular. Suas células possuem as características ultraestruturais típicas de células secretoras de esteroides: mitocôndrias abundantes com cristas tubulovesiculares, extenso retículo endoplasmático liso (REL) e inclusões citoplasmáticas lipídicas (gotículas de colesterol). Subdivide-se funcional e morfologicamente em três zonas concêntricas sem limites rígidos:
| Zona histológica | Proporção cortical | Organização celular e características | Principal classe hormonal | Hormônio representativo | Fator estimulador primário |
|---|---|---|---|---|---|
| Zona glomerulosa | ~15% | Células colunares ou piramidais pequenas reunidas em cordões encurvados e ninhos arqueados rodeados por capilares; gotas lipídicas esparsas. | Mineralocorticoides | Aldosterona | Angiotensina II, K⁺ extracelular |
| Zona fasciculada | ~75% | Células poliédricas volumosas (espongiócitos) arranjadas em cordões longitudinais retilíneos paralelos, perpendiculares à cápsula; citoplasma vacuolizado rico em lipídios. | Glicocorticoides | Cortisol (humanos) Corticosterona (roedores) | ACTH (corticotropina) |
| Zona reticular | ~10% | Células menores, basofílicas, organizadas em cordões anastomosados formando rede tridimensional; contêm grânulos de lipofuscina e poucas gotas lipídicas. | Androgênios adrenais | Deidroepiandrosterona (DHEA) e Androstenediona | ACTH |
Ocupa o núcleo central da glândula. É formada por cordões e aglomerados de células cromafins (ou feocromócitos) imersos em um estroma reticular sustentado por ampla rede capilar sinusoidal e veias medulares de músculo liso espessado. O termo "cromafim" decorre da propriedade histológica clássica dessas células: quando expostas a soluções contendo sais de cromo (dicromato de potássio), seus grânulos citoplasmáticos de catecolaminas oxidam-se e precipitam sob a forma de um pigmento castanho-escuro insolúvel.
Ultraestruturalmente, as células cromafins contêm densos grânulos secretórios de centro eletrodenso envolvidos por membrana (grânulos cromafins), onde as catecolaminas permanecem estocadas em complexo com proteínas solúveis chamadas cromograninas, íons cálcio e ATP. Distinguem-se dois subtipos celulares: as células secretoras de adrenalina (cerca de 80% do total em humanos, com grânulos menores e matriz homogênea) e as secretoras de noradrenalina (cerca de 20%, com grânulos maiores e centro intensamente denso). Entre as células cromafins observam-se ainda neurônios ganglionares simpáticos isolados ou em pequenos grupos.
O desenvolvimento embrionário da glândula suprarrenal é um processo singular que conjuga dois tecidos de origens blastodérmicas completamente independentes:
Durante a vida intrauterina, a suprarrenal fetal atinge dimensões desproporcionais: por volta do 4.º mês de gestação, a glândula é maior do que o próprio rim contíguo e, em proporção ao peso corporal, é de dez a vinte vezes maior do que a suprarrenal do indivíduo adulto. A imensa massa do córtex fetal opera como elemento-chave da chamada "unidade feto-placentária", sintetizando vultosas quantias de sulfato de desidroepiandrosterona (DHEA-S), precursor que a placenta converte no estrogênio materno estriol.
Logo após o nascimento, com a secção do cordão umbilical e a perda dos estímulos tróficos placentários, o córtex fetal sofre apoptose e involução hemorrágica maciça. Como resultado, a glândula suprarrenal perde cerca de um terço a metade de sua massa nas primeiras duas a três semanas neonatais, não recuperando seu peso original de nascença até os 2 a 3 anos de idade. As camadas adultas estruturam-se gradativamente: a zona glomerulosa e fasciculada estão organizadas no lactente, enquanto a zona reticular consolida-se funcionalmente apenas por volta dos 5 a 8 anos de vida, evento endócrino denominado adrenarca, que deflagra o surgimento dos primeiros pelos pubianos e axilares (pubarca) e a alteração do odor corporal na infância tardia.

Todos os hormônios secretados pelo córtex suprarrenal são esteroides derivados do colesterol. As células corticais obtêm cerca de 80% do colesterol necessário por endocitose de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) plasmáticas circulantes, sintetizando o restante internamente a partir do acetil-CoA.
A etapa limitante e regulatória da síntese ocorre na membrana mitocondrial interna: o colesterol livre é translocado do citoplasma através do espaço intermembranar pela ação da proteína reguladora aguda da esteroidogênese (proteína StAR). Na matriz mitocondrial, a enzima clivadora da cadeia lateral do colesterol (CYP11A1 ou P450scc) converte o colesterol em pregnenolona, precursora comum de todas as três linhagens de esteroides:
1. Via mineralocorticoide (Zona glomerulosa): A zona glomerulosa não expressa a enzima 17α-hidroxilase (CYP17A1), mas é a única zona do organismo a expressar a enzima aldosterona sintase (CYP11B2). A pregnenolona é convertida sequencialmente em progesterona $\rightarrow$ 11-desoxicorticosterona (DOC) $\rightarrow$ corticosterona $\rightarrow$ aldosterona. A aldosterona atua nos túbulos coletores distais do néfron renal, estimulando a reabsorção ativa de sódio (acompanhada de água) e a excreção urinária de potássio e prótons ($H^+$), desempenhando papel central na manutenção do volume extracelular e da osmolaridade plasmática.
2. Via glicocorticoide (Zona fasciculada): As células fasciculadas expressam a 17α-hidroxilase (CYP17A1) e a 11β-hidroxilase (CYP11B1), convertendo a pregnenolona em 17α-hidroxipregnenolona $\rightarrow$ 17α-hidroxiprogesterona $\rightarrow$ 11-desoxicortisol $\rightarrow$ cortisol. O cortisol exerce múltiplos efeitos sistêmicos:
3. Via androgênica (Zona reticular): A atividade liasse 17,20 da CYP17A1 converte precursores em androgênios adrenais fracos: deidroepiandrosterona (DHEA), sua forma sulfatada (DHEA-S) e androstenediona. Na circulação periférica, esses compostos são convertidos em androgênios e estrogênios biologicamente ativos mais potentes (como testosterona e estradiol), constituindo a fonte primordial de androgênios em mulheres adultas.
A medula sintetiza as catecolaminas hidrossolúveis através de uma cascata enzimática citoplasmática e vesicular que parte do aminoácido essencial L-tirosina: $$\text{L-Tirosina} \xrightarrow{\text{Tirosina hidroxilase}} \text{L-DOPA} \xrightarrow{\text{DOPA descarboxilase}} \text{Dopamina} \xrightarrow{\text{Dopamina }\beta\text{-hidroxilase}} \text{Noradrenalina} \xrightarrow{\text{PNMT}} \text{Adrenalina}$$
A etapa terminal que converte noradrenalina em adrenalina é catalisada pela enzima feniletanolamina N-metiltransferase (PNMT). A expressão e a atividade da PNMT são diretamente induzidas por concentrações elevadíssimas de cortisol, o qual atinge o tecido medular através do sistema vascular sinusoidal porta-cortical adrenomedular. Em humanos normais, a medula libera aproximadamente 80% de adrenalina e 20% de noradrenalina em resposta à despolarização pré-ganglionar simpática e liberação de acetilcolina.
As catecolaminas ligam-se a receptores adrenérgicos ($\alpha_1, \alpha_2, \beta_1, \beta_2, \beta_3$) amplamente distribuídos nos tecidos, deflagrando aumento da frequência cardíaca (efeito inotrópico e cronotrópico positivo), vasoconstrição cutânea e renal, vasodilatação coronariana e muscular esquelética, broncodilatação, dilatação pupilar (midríase) e rápida elevação glicêmica via glicogenólise hepática.
Os distúrbios das glândulas suprarrenais dividem-se classicamente em estados de hipofunção, hiperfunção endócrina ou afecções neoplásicas:
Condição caracterizada pela produção deficiente de hormônios corticais: