| Akahige | |
|---|---|
| No Brasil | O Barba-Ruiva |
| Em Portugal | Barba-Ruiva |
| Japão 1965 • p&b • 185 min | |
| Género | drama |
| Direção | Akira Kurosawa |
| Roteiro | Masato Ide Akira Kurosawa Ryuzo Kikushima Hideo Oguni |
| Elenco | Toshiro Mifune Yuzo Kayama |
| Idioma | japonês |
Akahige (em japonês: 赤ひげ; Brasil: O Barba-Ruiva; Portugal: Barba-Ruiva) é um filme jidaigeki de drama realizado, coescrito e editado pelo cineasta japonês Akira Kurosawa, lançado em 1965. O roteiro, escrito por Kurosawa, Masato Ide, Ryuzo Kikushima e Hideo Oguni, baseia-se na coletânea de contos Akahige Shinryōtan, de Shugoro Yamamoto.Galbraith IV 2008, p. 219
A ação decorre em Koishikawa, um distrito de Edo (atual Tóquio), nos últimos anos do período Tokugawa, e acompanha a relação entre um médico conhecido como «Barba-Ruiva» e o seu novo aprendiz. Um dos núcleos narrativos, centrado na jovem Otoyo, inspira-se no romance Humilhados e Ofendidos, de Fyodor Dostoevsky.
O filme aborda temas como a desigualdade social, o sofrimento humano e a compaixão, explorando dois dos temas recorrentes na obra de Kurosawa: o humanismo e o existencialismo. Alguns críticos assinalaram igualmente semelhanças temáticas com Ikiru.
Akahige foi o último filme a preto e branco realizado por Kurosawa. Constituiu um grande sucesso de bilheteira no Japão, arrecadando cerca de 400 milhões de ienes, mas é também conhecido por ter marcado o fim da parceria artística entre Kurosawa e Toshiro Mifune, cuja colaboração se estendeu por dezasseis filmes.Ryfle & Godziszewski 2017, p. 218
O filme foi exibido em competição no Festival Internacional de Cinema de Veneza de 1965, onde Toshiro Mifune recebeu a Taça Volpi de Melhor Ator pela sua interpretação. Foi ainda nomeado para o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira.
O jovem médico Noboru Yasumoto, recém-formado numa escola de medicina holandesa em Nagasaki, é ambicioso e arrogante. Aspirando a tornar-se médico pessoal do xogunato, cargo ocupado por um parente próximo, espera construir uma carreira prestigiada no serviço médico oficial. Contudo, em vez da colocação desejada, é enviado para completar a sua formação numa clínica destinada ao atendimento dos mais pobres, sob a supervisão do doutor Kyojō Niide, conhecido como Akahige («Barba-Ruiva»). Apesar da sua aparência austera e temperamento severo, Niide revela-se um médico profundamente compassivo, íntegro e sábio.
Indignado com a nomeação, Yasumoto considera que nada tem a aprender naquela clínica. Convencido de que Niide apenas se interessa pelos apontamentos que trouxe de Nagasaki, recusa-se a colaborar: não atende doentes, recusa vestir o uniforme, despreza as condições modestas da clínica e chega mesmo a entrar num jardim interdito, onde encontra uma misteriosa paciente conhecida como «Louva-a-Deus», tratada exclusivamente por Niide. A sua atitude é ainda influenciada pelo desengano provocado pela infidelidade da antiga noiva, Chigusa, que levou ao fim do noivado e lhe deixou um profundo desencanto em relação aos relacionamentos amorosos.
À medida que Yasumoto procura adaptar-se à nova realidade, o filme acompanha a história de vários pacientes da clínica. Um deles é Rokusuke, um homem à beira da morte cuja profunda angústia apenas é compreendida quando a sua infeliz filha aparece. Outro é Sahachi, um homem respeitado pela sua generosidade, cuja vida é marcada pela morte trágica da esposa. Depois de contrair um segundo casamento, ela provocou involuntariamente a própria morte ao pedir-lhe que a abraçasse com força, enquanto escondia uma faca contra o próprio corpo.
Noutra ocasião, Niide leva Yasumoto consigo para resgatar Otoyo, uma rapariga de doze anos gravemente doente, explorada num bordel. Após enfrentar violentamente os homens que a mantinham cativa, Niide leva-a para a clínica e encarrega Yasumoto de cuidar dela, tornando-a a sua primeira paciente. O contacto com o sofrimento daqueles que o rodeiam começa gradualmente a transformar o jovem médico, tornando-o mais humilde e sensível.
Quando o próprio Yasumoto adoece, Niide pede a Otoyo que cuide dele, convencido de que esse gesto fará igualmente parte da recuperação emocional da jovem. Pouco depois, Masae, irmã mais nova de Chigusa, visita-o para lhe transmitir que a sua mãe está doente. Durante essa visita, Yasumoto fica a saber que Chigusa teve um filho do seu novo companheiro. Mais tarde, Masae confecciona um quimono para Otoyo, enquanto a mãe de Yasumoto lhe sugere que se case com ela.
Com o passar do tempo, Yasumoto toma consciência da dimensão da crueldade, da pobreza e do sofrimento que afetam a população, mas também do poder da medicina e da compaixão para aliviar esse sofrimento. Arrepende-se progressivamente da sua vaidade e do egoísmo que marcaram o início da sua carreira.
Entretanto, um rapaz chamado Chōbu é apanhado a roubar alimentos da clínica. Otoyo acolhe-o com bondade e torna-se sua amiga, transmitindo-lhe a compaixão que recebera de Niide e de Yasumoto. Quando a proprietária do bordel tenta levar Otoyo de volta, os médicos e restantes funcionários da clínica impedem-na e expulsam-na. Mais tarde, quando Chōbu e a sua família, desesperados pela miséria em que vivem, tentam suicidar-se ingerindo veneno, a equipa médica consegue salvá-los.
Por fim, Yasumoto recebe a tão desejada proposta para se tornar médico pessoal do xogunato. Embora aceite casar-se com Masae, anuncia durante a cerimónia que recusará o cargo para permanecer na clínica ao lado de Niide, dedicando a sua vida ao tratamento dos mais desfavorecidos. Surpreendido pela decisão e inicialmente contrário à escolha do discípulo, Niide acaba por aceitá-la.
O elenco foi adaptado da base de dados da The Criterion Collection.
Depois de concluir High and Low (1963), Akira Kurosawa deparou-se por acaso com a coletânea de contos Akahige Shinryōtan, publicada por Shugoro Yamamoto em 1959. Embora, num primeiro momento, tenha considerado que a obra daria origem a um bom argumento para o realizador Hiromichi Horikawa, o seu interesse foi crescendo à medida que desenvolvia a adaptação, convencendo-o de que deveria realizá-la ele próprio.
O roteiro foi concluído no início de julho de 1963 e escrito em colaboração com Masato Ide, Hideo Oguni e Ryuzo Kikushima. Kurosawa salientou que o argumento se afastava significativamente da obra original, destacando, em particular, a criação da personagem da jovem Otoyo, inexistente na coletânea de Yamamoto. Segundo o realizador, esta personagem foi concebida para expressar ideias semelhantes às que Fyodor Dostoevsky desenvolveu através da personagem Nelly no romance Humilhados e Ofendidos.
As filmagens principais começaram em 21 de dezembro de 1963Galbraith IV 2002, p. 379 e prolongaram-se por quase dois anos, terminando no final de 1965.Tsuzuki 2010, p. 337 Durante esse período, Kurosawa adoeceu por duas vezes, enquanto Toshiro Mifune e Yūzō Kayama adoeceram uma vez cada.
Akahige seria a última colaboração entre Kurosawa e Mifune. Os calendários de produção cada vez mais longos do realizador obrigavam o ator a recusar numerosos convites para participar em filmes e programas de televisão, levando ao afastamento profissional entre ambos.Conrad 2022, p. 175
Kurosawa tentou conferir ao filme o maior grau possível de realismo e rigor histórico. Para esse efeito, foi construída uma cidade completa, com ruas principais, becos e ruelas, algumas das quais nunca chegaram a ser filmadas. Segundo o historiador de cinema Donald Richie, os materiais utilizados eram efetivamente da época que pretendiam representar: as telhas provinham de edifícios com mais de um século e a madeira foi retirada das casas rurais mais antigas que foi possível encontrar. Os figurinos e os adereços foram sujeitos a um processo de envelhecimento durante vários meses antes das filmagens, enquanto a roupa de cama, reproduzida segundo modelos do período Tokugawa, foi utilizada durante cerca de seis meses para adquirir um aspeto autêntico. A madeira empregue no portão principal tinha mais de cem anos e, concluídas as filmagens, foi reutilizada à entrada do cinema onde decorreu a estreia de Akahige.
Segundo Richie, Kurosawa tinha desperdiçado «completamente o cenário de um milhão de ienes», uma vez que a rua principal aparece apenas cerca de um minuto, embora a sua destruição tenha sido aproveitada na sequência do terramoto. As cenas passadas nas pontes e nos arrozais cuidadosamente construídos são também relativamente breves. Ainda assim, durante os dois anos de produção do filme, empresas de turismo chegaram a organizar visitas guiadas ao cenário.
De acordo com o comentário áudio de Stephen Prince incluído na edição em DVD de 2002 da The Criterion Collection, o utiliza o formato de imagem 2,35:1 e foi o primeiro de Kurosawa a utilizar uma banda sonora estereofónica magnética de quatro pistas.
A Toho previa estrear Akahige durante o período das celebrações do Ano Novo japonês, mas o lançamento foi adiado, levando o produtor Tomoyuki Tanaka a avançar, entretanto, com a produção de Ghidrah, o Monstro Tricéfalo.
O filme estreou no Japão a 3 de abril de 1965, numa exibição especial de lançamento (roadshow), sendo distribuído em circuito nacional a partir de 24 de abril do mesmo ano. Arrecadou cerca de 400 milhões de ienes na bilheteira japonesa, dos quais 361,59 milhões de ienes corresponderam às receitas de distribuição, tornando-se um dos filmes japoneses de maior sucesso comercial de 1965.
Nos Estados Unidos, foi lançado pela Toho International em janeiro de 1966, com legendas em inglês, tendo sido novamente distribuído nos cinemas pela Frank Lee International em dezembro de 1968. Em 1978, estreou em França, onde vendeu 200 402 bilhetes durante a sua exibição comercial. Em 2015, uma cópia restaurada foi exibida no Festival Internacional de Cinema de Veneza de 2015.
Em 1992, o filme foi editado nos Estados Unidos em LaserDisc pela The Criterion Collection e em VHS pela Media Home Entertainment. A Criterion Collection lançou-o em DVD em 16 de julho de 2002, enquanto a Toho editou o filme em DVD no Japão em 21 de novembro do mesmo ano, relançando-o em 18 de fevereiro de 2015. Em 2003, o BFI lançou uma edição em DVD, com legendas em inglês e um livreto de acompanhamento. Em 2014, a Madman Entertainment distribuiu o filme em DVD na Austrália e na Nova Zelândia.
No agregador de críticas Rotten Tomatoes, o filme tem um índice de aprovação de 75%, com base em 16 críticas, e uma classificação média de 7.5/10 em 10. No sítio japonês Eiga.com, obtém uma classificação de 4,2 em 5, com base em 41 avaliações, das quais 56% lhe atribuem a pontuação máxima. No Metacritic, tem uma pontuação de 90 em 100, baseada em 10 críticas, correspondendo à classificação de «aclamação universal».
À data da estreia, Akahige foi amplamente elogiado pela crítica japonesa, sendo considerado por muitos um dos melhores filmes de Akira Kurosawa. A obra recebeu ainda o prémio de Melhor Filme atribuído pela revista japonesa Kinema Junpo.Kinema Junpo 2012, p. 588 Obteve, contudo, resultados modestos nas bilheteiras internacionais.
Numa crítica publicada em 26 de dezembro de 1969, Roger Ebert atribuiu ao filme a classificação máxima de quatro estrelas e escreveu que "Barba-Ruiva possui a complexidade e a profundidade de um bom romance do século XIX, sendo um prazer, numa época de filmes estilisticamente fragmentados, ver um realizador dedicar o tempo necessário ao desenvolvimento pleno das suas personagens".
Michael Sragow, da revista The New Yorker, escreveu que, embora o filme seja frequentemente desvalorizado como um melodrama, é «na realidade uma obra-prima», destacando a relação entre o experiente médico conhecido por «Barba-Ruiva», interpretado por Toshiro Mifune, e o jovem médico vivido por Yūzō Kayama, que aprende com ele os valores humanos da medicina.
| Prémio | Ano | Categoria | Recetor(es) | Resultado | Ref. |
|---|---|---|---|---|---|
| Festival Internacional de Cinema de Veneza | 1965 | Leão de Ouro | Indicado | ||
| Taça Volpi de Melhor Ator | Toshiro Mifune | Venceu | |||
| Prémio San Giorgio | Venceu | ||||
| Prémio do Secretariado Internacional Católico do Cinema | Venceu | ||||
| Globos de Ouro | 1965 | Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira | Indicado | ||
| Festival Internacional de Cinema de Moscovo | 1965 | Prémio da União dos Cineastas Soviéticos | Venceu | ||
| Blue Ribbon Awards | 1965 | Melhor Filme | Venceu | ||
| Melhor Ator | Toshiro Mifune | Venceu | |||
| Melhor Atriz Secundária | Terumi Niki | Venceu | |||
| Fotogramas de Plata | 1967 | Melhor Ator Estrangeiro | Toshiro Mifune | Venceu | |
| Mainichi Film Awards | 1980 | Prémio de Cinema do Japão | Venceu | ||
| Prémio de Melhor Ator | Toshiro Mifune | Venceu | |||
| Kinema Junpo Awards | 1980 | Prémio de Melhor Realizador Japonês | Akira Kurosawa | Venceu |