Maomé ibne Amade Alazari (em árabe: محمد بن أحمد الأزهري; romaniz.: Muḥammad ibn Aḥmad al-Azharī), de nome completo Abu Almançor Maomé ibne Amade ibne Azar Alazari Alharaui (em árabe: أبو منصور محمد بن أحمد بن أزهر الأزهري الهروي; romaniz.: Abū Manṣūr Muḥammad ibn Aḥmad ibn Azhar al-Azharī al-Harawī; Herate, 895 (1131 anos) – Herate, outubro de 980), foi um lexicógrafo, filólogo, tradicionalista e jurista xafeíta árabe. Formado em Herate e Baguedade, estudou com importantes representantes das ciências linguísticas e religiosas de seu tempo e dedicou-se especialmente à língua árabe, mas sua atividade intelectual também abrangeu exegese corânica, hádice, jurisprudência, poesia e história.
Em 924, quando regressava da peregrinação a Meca, foi capturado durante um ataque dos cármatas à caravana na qual viajava e permaneceu por cerca de dois anos entre beduínos do Barém. A experiência teve particular importância para sua atividade lexicográfica: Alazari considerava a língua desses grupos especialmente pura e recolheu entre eles vocabulário raro que posteriormente incorporou a seus trabalhos. Sua preocupação com a preservação do que considerava o árabe genuíno também se manifestou na avaliação crítica da tradição lexicográfica precedente, distinguindo autoridades que reputava confiáveis e censurando outros estudiosos por erros que, a seu ver, haviam contribuído para corromper a língua.
Sua principal obra sobrevivente é o Tahdhib al-Lugha, um dos grandes trabalhos da lexicografia árabe medieval, no qual empregou o sistema de organização fonética desenvolvido por Alcalil ibne Amade Alfaraídi no Kitab al-Ain e incorporou parte do material linguístico recolhido diretamente entre os beduínos. Alazari produziu ainda trabalhos sobre vocabulário jurídico xafeíta, leituras e exegese do Alcorão, hádice, jurisprudência e literatura, entre os quais o al-Ẓāhir fī gharīb alfāẓ al-Shāfiʿī e o Kitāb Maʿānī al-qirāʾāt. Sua produção combina, assim, a coleta e sistematização do léxico árabe com uma postura crítica diante da transmissão linguística anterior.
Abu Almançor Maomé ibne Amade ibne Azar Alazari Alharaui nasceu em Herate, no atual Afeganistão, em 282 A.H. (895). Por sua cidade natal, era também conhecido pela nisba Alharaui. De origem árabe, realizou seus estudos em Herate e Baguedade. Em sua cidade natal, estudou com o tradicionalista Ibne Currame e com Maomé ibne Abi Jafar Almondiri, enquanto em Baguedade frequentou estudiosos da língua e da lexicografia, entre eles Nifetauai e Azajaje. Posteriormente, dedicou-se também ao estudo da jurisprudência xafeíta. Blachère menciona particularmente Almundiri, discípulo de Talabe, entre seus mestres e registra que Alazari foi ainda jovem ao Iraque, onde entrou em contato com numerosos gramáticos em Baguedade. Além dos estudos linguísticos e jurídicos, Alazari interessou-se por exegese corânica, hádice, poesia, história e outras disciplinas, às quais também dedicou obras. As fontes lhe atribuem uma elevada cadeia de transmissão no campo do hádice. Entre os estudiosos que receberam ensinamentos seus estiveram Saíbe Algaribaim, Abu Uçama Junada ibne Maomé e Abu Iacube Alcarabe.
Um acontecimento ocorrido em 312 A.H. (924) teve importância particular para seus estudos lexicográficos. Quando regressava da peregrinação a Meca, a caravana na qual viajava foi atacada pelos cármatas, e Alazari caiu prisioneiro. Blachère situa o ataque em Alhabir e afirma que ele conseguiu escapar ao massacre dos demais integrantes da caravana, mas permaneceu por cerca de dois anos prisioneiro entre beduínos do Barém. Durante o cativeiro, impressionou-se com a pureza da língua falada pelos nômades e recolheu deles material linguístico. A experiência estimulou seu interesse pela língua dos beduínos e permitiu-lhe reunir palavras raras que posteriormente incorporou ao Tahdhib al-Lugha. Depois de libertado, retornou a Herate, onde passou o restante da vida dedicado ao estudo. Morreu na cidade em rabi II de 370 A.H. (outubro de 980).
Alazari destacou-se sobretudo como estudioso da língua árabe e lexicógrafo. Ao avaliar a tradição linguística anterior, distinguiu os estudiosos que considerava confiáveis daqueles cuja autoridade rejeitava e distribuiu os primeiros em cinco classes. Foi particularmente crítico de autores como Laite ibne Almuzafar, Cutrube, Ibne Duraide e Amade ibne Maomé Albusti, aos quais censurava por, em sua opinião, terem corrompido a língua árabe. Seus próprios trabalhos, contudo, também foram objeto de críticas posteriores, inclusive de autoridades lexicográficas como Ibne Manzur. Seu interesse pela lexicografia esteve estreitamente relacionado à preservação do vocabulário considerado genuinamente árabe. A permanência entre os beduínos durante seu cativeiro proporcionou-lhe acesso direto a formas linguísticas que julgava preservadas em estado particularmente puro, e o material então recolhido foi utilizado em sua principal obra lexicográfica. Sua produção, entretanto, não se restringiu à lexicografia geral: abrangeu vocabulário jurídico, leituras e exegese do Alcorão, hádice, jurisprudência, poesia e história. No campo jurídico, estudou os fundamentos e os ramos da jurisprudência xafeíta e dedicou especial atenção ao vocabulário empregado nas obras de Axafii. Considerava-o superior aos demais imames das escolas jurídicas quanto ao domínio da língua e reuniu e explicou palavras raras e incomuns encontradas em seus escritos. Essa combinação de estudos linguísticos e jurídicos resultou, entre outras obras, no al-Zahir fi gharib alfaz al-Shafi'i, concebido como um léxico do vocabulário raro encontrado no Mukhtasar al-Muzani, compilação de textos de Axafii preparada por seu discípulo Ismail ibne Iáia Almuzani.
Alazari produziu obras em diversos campos, mas sua reputação repousa sobretudo no Tahdhib al-Lugha, um dos grandes trabalhos da lexicografia árabe medieval. Além dele, são conhecidas ou atribuídas ao autor obras sobre vocabulário jurídico, leituras corânicas, exegese, hádice, jurisprudência e literatura.
O Tahdhib al-Lugha foi composto por Alazari nos últimos anos de sua vida e constitui sua principal obra sobrevivente. Em sua organização, adotou o método desenvolvido por Alcalil ibne Amade Alfaraídi no Kitab al-Ain, baseado não na ordem alfabética convencional, mas na disposição das letras segundo seus pontos de articulação. Blachère observa igualmente que o princípio essencial da obra continua a tradição do Kitab al-Ain: as raízes são dispostas segundo uma ordem fonética, começando pelas letras guturais e terminando pelas labiais. Uma das características da obra é a incorporação do material linguístico que Alazari recolheu diretamente durante os dois anos em que permaneceu entre os beduínos após sua captura pelos cármatas. Blachère registra ainda que, em seu tempo, Ibne Calicane conhecia o dicionário em dez volumes e assinala a importância dos materiais que Alazari recebera de seu mestre Almundiri. O Tahdhib al-Lugha foi preservado em numerosos manuscritos. Uma edição moderna em quinze volumes foi preparada por um grupo de estudiosos que incluía ʿAbd al-Salām Muḥammad Hārūn, Muḥammad ʿAlī al-Najjār, Muḥammad ʿAbd al-Munʿim Khafājī e Muḥammad Abū al-Faḍl Ibrāhīm e publicada no Cairo entre 1964 e 1967, com nova impressão em 1979.
Entre as demais obras conservadas de Alazari está o al-Ẓāhir fī gharīb alfāẓ al-Shāfiʿī, dedicado à explicação de vocábulos raros e incomuns presentes no Mukhtaṣar al-Muzanī e concebido, assim, como um léxico de terminologia jurídica xafeíta. A obra foi editada por Muḥammad Jabr al-Alfī e publicada no Cuaite em 1399 A.H. (1979). Outra obra conhecida é o Kitāb Maʿānī al-qirāʾāt, na qual questões relativas às leituras corânicas são examinadas sucessivamente segundo as suras; foi publicada em três volumes. Também se conserva notícia do Kitāb Tafsīr asmāʾ Allāh al-ḥusnā, dedicado aos nomes divinos. As fontes atribuem-lhe ainda al-Taqrīb fī al-tafsīr, Kitāb ʿIlal al-qirāʾāt, Nāsikh al-Qurʾān wa-mansūkhuh, Kitāb al-Rūḥ wa-mā jāʾa fīhi min al-Qurʾān wa-l-sunna, Maʿānī shawāhid gharīb al-ḥadīth e Gharīb al-fiqh, embora se tenha sugerido que esta última obra possa corresponder a outro de seus trabalhos lexicográficos jurídicos. São mencionados também Kitāb al-Ḥayḍ, Kitāb Tafsīr iṣlāḥ al-manṭiq, Kitāb al-Adawāt e Kitāb Maʿrifat al-ṣubḥ, cujo conteúdo não é conhecido. Parte de sua produção tinha caráter explicitamente crítico ou literário. O Kitāb al-Radd ʿalā al-Layth tratava dos erros que Alazari atribuía a Laite ibne Almuzafar na transmissão ou complementação do Kitab al-Ain. Também lhe são atribuídos o Tafsīr al-Sabʿ al-ṭiwāl, comentário às Sete Muallaqat, um comentário à poesia de Abu Tamame e o Akhbār Yazīd ibn Muʿāwiya, dedicado a Iázide ibne Moáuia.