Ibne Manzur (em árabe: ابن منظور; romaniz.: Ibn Manẓūr), nome completo Abu Alfadle Jamaladim Maomé ibne Mucarrame ibne Ali ibne Amade Alançari Arruaifii (em árabe: أبو الفضل جمال الدين محمد بن مكرم بن علي بن أحمد الأنصاري الرويفعي; romaniz.: Abū al-Faḍl Jamāl al-Dīn Muḥammad ibn Mukarram ibn ʿAlī ibn Aḥmad al-Anṣārī al-Ruwayfiʿī; 1232/1233 – dezembro de 1311), foi um lexicógrafo, escritor, estudioso de hádice e jurista árabe medieval. Associado ao Cairo, onde desenvolveu parte substancial de sua carreira, trabalhou no Divã da Chancelaria e exerceu durante algum tempo a função de cádi em Trípoli. Sua formação abrangeu língua e literatura árabes, composição epistolar, hádice e jurisprudência, e entre seus alunos estiveram Adaabi, Taquiadim Açubequi e Alamadim Albirzali.
Ibne Manzur destacou-se por uma intensa atividade de compilação e condensação de obras anteriores. Produziu abreviações de importantes trabalhos de literatura, história, biografia e outras disciplinas, entre eles o Livro das Canções de Abu Alfaraje Alisfaani, a História de Damasco de Ibne Açaquir, o Kitāb al-Ḥayawān de Aljaiz, o Al-'Iqd al-Farid de Ibne Abede Rabi e obras de Ibne Aljauzi, Ibne Albaitar, Ibne Sade e outros autores. Essa atividade permitiu-lhe reunir, reorganizar e transmitir uma grande quantidade de material produzido por gerações anteriores de estudiosos.
Sua obra mais célebre é o Lisān al-ʿArab, extenso dicionário enciclopédico da língua árabe concluído em 1290 e elaborado principalmente a partir de cinco grandes obras lexicográficas anteriores. Organizado pelas raízes das palavras e abundantemente documentado com passagens do Alcorão, hádices e poesia, o dicionário reúne, além de material propriamente lexical, informações sobre gramática, exegese, jurisprudência, história, literatura, antropônimos e topônimos. Apesar das críticas posteriores a aspectos de sua organização e seleção vocabular, o Lisān al-ʿArab tornou-se a principal obra associada a Ibne Manzur e preservou uma quantidade considerável da tradição lexicográfica árabe anterior.
Abu Alfadle Jamaladim Maomé ibne Mucarrame ibne Ali ibne Amade Alançari Arruaifii, mais conhecido como Ibne Manzur (Ibn Manẓūr), nasceu no século XIII. Há divergência nas fontes modernas acerca da data de seu nascimento: Hulusi Kılıç, na Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi, situa-o em 22 de Moarrão de 630 A.H. (8 de novembro de 1232), no Cairo, enquanto J. W. Fück, na Encyclopaedia of Islam, indica o Ramadã de 630 (junho-julho de 1233). Era chamado Ibne Manzur em referência a Manzur, seu antepassado da sétima geração, e Ibne Mucarrame em referência a seu pai. Também aparece com os nisbas Alançari (al-Anṣārī) e Arruaifii (al-Ruwayfiʿī), em razão da ascendência que lhe era atribuída de Ruaifi ibne Tábite, companheiro que foi enviado por Moáuia I (r. 661–680) como governador de Trípoli. Era ainda conhecido como Alifriqui (al-Ifrīqī), porque alguns de seus antepassados se estabeleceram na Ifríquia, e Almisri (al-Miṣrī), por sua associação com o Egito.
Ibne Manzur recebeu seus primeiros ensinamentos do pai e, influenciado pelo círculo intelectual deste, iniciou ainda jovem sua formação. Estudou língua e literatura árabes, composição epistolar (inshāʾ), hádice e jurisprudência com estudiosos como Iúçufe ibne Almucaiali, Ibne Alafife, Abede Arraime ibne Tufail e o hambalita Ibne Almucair. Depois de completar sua formação, passou a trabalhar no Divã da Chancelaria do Cairo, atividade que, segundo Kılıç, manteve até a morte, além de exercer durante algum tempo a função de cádi em Trípoli. A Encyclopaedia of Islam também o relaciona ao Dīwān al-Inshāʾ, mas apresenta de forma mais cautelosa sua trajetória, observando que provavelmente esteve ligado à administração mameluca e mencionando igualmente seu período como cádi em Trípoli.
Entre seus alunos estiveram seu filho Cutubadim, que também trabalhou como secretário no Divã da Chancelaria, além de Adaabi, Taquiadim Açubequi e Alamadim Albirzali. Ibne Manzur morreu no Cairo em Xabã de 711 A.H. (dezembro de 1311) e foi sepultado no Cemitério de Carafa. Algumas fontes biográficas o descrevem como um xiita moderado, e Kılıç sugere que sua inclinação pelo xiismo pode explicar sua ausência do Ṭabaqāt al-Shāfiʿiyya de Tajadim Açubequi, apesar de Ibne Manzur ter sido um dos professores de seu pai. Os poemas humorísticos e jocosos que lhe são atribuídos pelas fontes também indicam que cultivou a poesia.
A produção de Ibne Manzur caracteriza-se sobretudo pela compilação e abreviação de obras anteriores, atividade à qual se dedicou em grande escala. Além de seu célebre dicionário Lisān al-ʿArab, preparou versões condensadas e, em alguns casos, reorganizadas de extensas obras de literatura, história, biografia e outras disciplinas. Entre os trabalhos conservados ou publicados estão Mukhtār al-Aghānī fī al-akhbār wa-l-tahānī, abreviação do Livro das Canções de Abu Alfaraje Alisfaani, reorganizada alfabeticamente segundo os nomes dos poetas; Nithār al-azhār fī al-layl wa-l-nahār, resumo da primeira parte do Faṣl al-khiṭāb bi-madārik al-ḥawāss al-khams li-ūlī al-albāb, de Amade ibne Iúçufe Atifaxi; Surūr al-nafs bi-madārik al-ḥawāss al-khams, condensação da segunda parte da mesma obra; Akhbār Abī Nuwās; Mukhtaṣar Tārīkh Dimashq, abreviação da História de Damasco de Ibne Açaquir; e Mukhtaṣar al-Tadhkira al-Ḥamdūniyya, também conhecido como al-Muntakhab wa-l-mukhtār min al-nawādir wa-l-akhbār. As fontes atribuem-lhe ainda numerosas abreviações de obras de outros autores, entre elas o Kitāb al-Ḥayawān, de Aljaiz; al-Dhakhīra, de Ibne Bassame; a continuação da História de Baguedade de Abede Alcarime Açamani; Zahr al-ādāb wa-thamar al-albāb, de Abu Isaque Alhuceri; Al-'Iqd al-Farid, de Ibne Abede Rabi; Ṣifat al-ṣafwa, de Ibne Aljauzi; al-Jāmiʿ li-mufradāt al-adwiya wa-l-aghdhiya, de Ibne Albaitar; Nishwār al-muḥāḍara wa-akhbār al-mudhākara, de Abu Ali Atanuqui; Yatīmat al-dahr fī shuʿarāʾ ahl al-ʿaṣr, de Atalibi; al-Ṭabaqāt al-kubrā, de Ibne Sade; e Durrat al-ghawwāṣ, de Alhariri.
A principal obra de Ibne Manzur é o Lisān al-ʿArab, um dicionário enciclopédico da língua árabe concluído em 22 de Dulrija de 689 A.H. (26 de dezembro de 1290). Em seu prefácio, Ibne Manzur divide criticamente os dicionários anteriores entre aqueles que reuniam grande quantidade de vocabulário, mas apresentavam uma organização insatisfatória, e aqueles cuja disposição era mais adequada, mas continham um repertório lexical reduzido. Declarou que pretendia superar essas deficiências e preservar a língua árabe, que considerava a língua do Alcorão e da Suna, numa época em que, segundo ele, escrever e falar em árabe eloquente havia passado a ser visto com desdém. Para compor o dicionário, utilizou como cinco fontes fundamentais o Tahdhīb al-lugha, de Alazari; o al-Muḥkam, de Ibne Sida; o al-Ṣiḥāḥ, de Aljauari; o al-Tanbīh wa-l-īḍāḥ ʿammā waqaʿa fī al-Ṣiḥāḥ, de Ibne Barri; e o al-Nihāya, de Majedadim ibne Alatir.
Depois do prefácio, Ibne Manzur acrescentou duas partes preliminares, uma dedicada às letras isoladas que aparecem no início de algumas suras do Alcorão e outra, baseada em material transmitido de Alharali, aos pontos e modos de articulação das letras do alfabeto. No corpo do dicionário, seguiu o sistema associado ao al-Ṣiḥāḥ: as raízes são organizadas primeiramente de acordo com sua última letra, que determina o capítulo, e depois pela primeira, que determina a seção, observando-se também a ordem alfabética das letras intermediárias. As formas derivadas são reunidas sob suas respectivas raízes. Desse modo, as raízes terminadas em hâmeza ocupam o primeiro capítulo e aquelas terminadas em yāʾ, o último. As definições são extensamente apoiadas por exemplos extraídos do Alcorão, de hádices e da poesia. Ibne Manzur não se limita ao significado lexical dos testemunhos, abordando também questões de morfologia, sintaxe, crença, jurisprudência e moral e registrando ocasionalmente diferenças dialetais. O dicionário reúne ainda informações sobre exegese, hádice, jurisprudência, antropônimos e topônimos, acontecimentos históricos e história literária, circunstância que lhe confere caráter enciclopédico. Estima-se tradicionalmente que contenha cerca de 80 000 palavras; uma contagem informatizada identificou 9273 raízes, das quais 6538 trilíteras, 2548 quadrilíteras e 187 quinquilíteras.
O método de Ibne Manzur consistiu em grande medida em reunir e reorganizar o conteúdo de suas fontes, preservando assim uma quantidade considerável de material lexicográfico anterior. O Lisān al-ʿArab foi, contudo, criticado por irregularidades na ordenação interna, como a alternância entre a precedência de substantivos e verbos, pela omissão de algumas palavras ou acepções presentes nas obras utilizadas e por limitar seu repertório literário essencialmente ao material considerado clássico até a época abássida, deixando de incorporar vocabulário da literatura posterior e da língua popular que não fosse considerado árabe eloquente. A obra foi impressa pela primeira vez em Bulaque, sob a revisão de Aḥmad Fāris al-Shidyāq, entre 1881 e 1890, e recebeu posteriormente numerosas edições. Sua circulação impressa estimulou a produção de abreviações, reorganizações alfabéticas, índices, correções e comentários destinados tanto a facilitar sua consulta quanto a corrigir erros textuais e lexicográficos. Entre os estudiosos que se dedicaram à correção ou anotação do dicionário estiveram Aḥmad Taymūr Pasha, ʿAbd al-Salām Muḥammad Hārūn e Fritz Krenkow, enquanto diferentes edições modernas acrescentaram extensos volumes de índices.