| Alcides Longhi | |
|---|---|
Alcides Longhi na década de 1940 | |
| Nome completo | Alcides Longhi |
| Nascimento | 10 de junho de 1917 |
| Morte | Caxias do Sul, RS |
| Nacionalidade | brasileiro |
| Cônjuge | Noris Leda Artico |
| Filho(a)(s) | Beatriz Ignez, Elisabeth Ana, Vera Mari, Villi Victorio, Vitor Augusto e Roberto Alcides |
| Ocupação | industrial, comerciante e futebolista |
Alcides Longhi (Caxias do Sul, 10 de junho de 1917 – Caxias do Sul, 18 de agosto de 1994) foi um industrial, comerciante e futebolista brasileiro.
Iniciando a vida como sapateiro de magros recursos, fundou uma fábrica e loja de sapatos que por alguns anos foi muito bem sucedida, sendo elogiada na imprensa e exportando seus produtos para outros locais do estado do Rio Grande do Sul e do Brasil, mas faliu em 1954 e passou a enfrentar dificuldades econômicas. Ao mesmo tempo, sempre envolvido no futebol, foi um ativo colaborador do Esporte Clube Juventude, atuando primeiro como jogador, foi capitão de 1939 a 1947, e a partir de 1941, por mais de 40 anos, participou quase ininterruptamente da diretoria, desempenhando múltiplas funções. Foi presidente do clube em 1949, quando o Juventude sagrou-se campeão invicto do Campeonato Citadino, e coordenador das obras de construção do Estádio Alfredo Jaconi na década de 1970. Foi um dos mais populares "ídolos" do alviverde em sua geração, que coincidiu com os tempos dourados do amadorismo, conquistou vários campeonatos e distinções, incluindo dez títulos de campeão do Citadino, tornou-se figura estimada na cidade e é lembrado como um destacado personagem da história do futebol caxiense. Casado com Noris Leda Artico, teve seis filhos que deram expressivas contribuições à sociedade local.

A família de Alcides Longhi é nativa de Vermiglio, comuna situada no norte do Trentino, Itália, onde são atestados desde meados do século XVI como membros da comunidade de vicini (cidadãos livres com plenos direitos políticos). Os primeiros membros individualizados na documentação são Bartolomeo, Antonio e Domenico, todos residentes no distrito de Fraviano, que em 19 de junho de 1558 são citados na ata da assembleia geral da Regra (o Conselho comunal), participando da governança. Outros membros aparecem logo depois como donos de terras nos distritos de Cortina e Pizzano. O mais remoto ancestral direto de Alcides conhecido com segurança é Giovanni Domenico Longhi, nascido em torno de 1600. A partir de fins do século XVIII alguns ancestrais diretos foram citados como madeireiros e carpinteiros, uma atividade que seria continuada no Brasil. O brasão mostrado ao lado está na família há gerações, mas a memória da data e das circunstâncias de sua adoção foi perdida.

O bisavô de Alcides, o imigrante Ignazio Longhi, antes casado com Anna Maria Poli, chegou ao Brasil em meados de 1876 com sua segunda esposa Candida Pedron e alguns filhos, nos primórdios da imigração italiana no Rio Grande do Sul, estando entre os primeiros colonizadores de Caxias do Sul. Ignazio faleceu poucos anos depois da chegada, legando a chefia da família ao seu primogênito Giovanni Battista, um dos fundadores da Comunidade de São Romédio, onde primeiro formou-se um núcleo comunitário, sendo hoje considerada "o berço de Caxias". Ali também participou da fundação e foi membro da primeira diretoria da Sociedade Igreja de São Romédio, a primeira associação civil da cidade, permanecendo na função até 1894, colaborando na estruturação da comunidade e na construção das duas primeiras capelas de madeira, da escola e do cemitério.

Giovanni Battista rapidamente prosperou como agricultor, madeireiro, carpinteiro, marceneiro, ferreiro, moleiro, produtor de vinho e comerciante, abrindo uma série de negócios. João Tessari, o historiador de São Romédio, o chamou de um "faz-tudo", e anos depois de morto virou lenda, quando seu túmulo foi aberto para uma reforma e seus despojos não foram encontrados. Sua esposa, Catterina Rossi, também gerou folclore, falecendo com fama de santa, e 32 anos depois de seu sepultamento seu corpo foi encontrado incorrupto, o que desencadeou a formação de um pequeno culto popular em seu redor, sendo-lhe atribuídas graças e curas.
Victorio Longhi, filho de Giovanni e Catterina, casou com Lucia Pezzi e foi pai de Alcides, Francisco, Tercila, Flora, Romilda, Oscar, Natalino, Irma e Guilherme. Victorio deixou a zona semi-rural de São Romédio e passou a viver no centro urbano, mas ainda foi conselheiro fiscal da Sociedade e um dos fundadores da terceira e atual capela. Tornou-se grande industrial madeireiro, um dos três sócios de uma empresa que em seu auge teve o vultoso capital de 900 contos de réis e filiais em Porto Alegre e Jaguari,
No entanto, em sua juventude a família Longhi havia empobrecido, e Alcides iniciou sua vida profissional como sapateiro, aprendendo o ofício de João Maineri. Casou-se em 1938 com Noris Leda Artico, filha de Augusto Artico e Ema Panigas, nascida em 10 de novembro de 1918 e falecida em 16 de outubro de 2011, também de família tradicional, mas que tivera sorte semelhante, ganhando riqueza no início do século com uma grande cantina, de produto premiado, e falindo em 1921. Com a esposa teve os filhos Beatriz Ignez, Elisabeth Ana, Vera Mari, Villi Victorio, Vitor Augusto e Roberto Alcides.
Associando-se ao irmão Francisco, abriu uma fábrica de sapatos em torno de 1935, a Longhi & Cia. Ltda., mais conhecida como Fábrica de Calçados Caxias, iniciando uma fase ascendente. Na época era a única empresa do gênero da cidade, produzindo calçados de todos os tipos, mas concentrando-se nos modelos escolares e botas para o Exército, passando a atender o mercado interno e também exportando seu produto para várias cidades do Rio Grande do Sul e outros estados do Brasil.


A empresa conheceu um período de significativa prosperidade, ampliando suas instalações em 1947 com uma seção de varejo junto à fábrica e abrindo uma loja própria em 1948 na praça central da cidade. A imprensa da época apontou sua contribuição para o avanço econômico e industrial de Caxias, como fez O Momento:
Recebeu destaque também em 1950 em dois grandes álbuns ilustrados comemorativos dos 75 anos da colonização italiana no estado, um publicado pela Festa da Uva e outro pela Municipalidade. No primeiro, declara-se que a cidade podia se orgulhar de uma empresa que era a única em seu tipo na região e que se comparava às melhores do estado, e no segundo, de teor semelhante, foi descrita como...
Porém, depois desta boa fase, Longhi faliu em 1954, em uma crise do setor coureiro. Então passou a direcionar sua atenção para outra empresa que havia fundado na mesma época, a Mibral, que produzia rebites, braçadeiras e lonas para freios, mas que até a falência da fábrica de calçados havia permanecido em segundo plano e tinha um porte pequeno. Para aumentar seus rendimentos e sustentar sua grande família, abriu também uma lancheria. No entanto, os negócios não foram muito bem e ele passou por períodos difíceis. Em 1965 a Mibral tornou-se uma sociedade anônima, quando Longhi retirou-se da empresa e se aposentou.

Paralelamente à sua vida empresarial, Longhi sempre manteve forte envolvimento com o futebol, vindo a construir destacada carreira. Iniciou sua participação no Esporte Clube Juventude nos anos 30 como júnior, e em 1935 ingressou no time principal, ocupando a posição de zagueiro. Nesta época, por um breve período colaborou com o Esporte Clube Cruzeiro do Sul como tesoureiro, mas dedicaria depois toda a vida ao Juventude. Francisco Michielin o citou em várias passagens de seu livro Assim na Terra como no Céu, que narra a história do clube. Em uma delas, o autor diz:


Conquistou com seu clube vários títulos: campeão do Citadino em 1935, 1936, 1938, 1939, 1940, 1941, campeão da 4ª Região em 1939, campeão do Torneio Início da Liga Esportiva Caxiense em 1942 e 1947, campeão da 2ª Região em 1938, campeão da 4ª Região em 1939, vice-campeão do Citadino em 1937, 1942, 1945 e 1946, vice-campeão da Zona Centro em 1935 e 1936, e vice-campeão da Região Nordeste em 1940.
Sua atuação individual foi elogiada numerosas vezes na imprensa da época, citando os seus "pés mágicos" e assinalando especialmente a segurança que transmitia em sua posição na retaguarda. Esta qualidade foi destacada em umas quadras humorísticas referentes aos "ìdolos" do clube publicadas no jornal A Época, onde se dizia dele:
Michelin também fez menção a este talento particular: “Lá atrás, Alcides Longhi era uma garantia, uma fortaleza, principalmente quando Décio Nabinger, com a sua ‘bomba’, abandonou o futebol". Foi o capitão do time entre 1939 e 1947 e em 1948 recebeu o título de Jogador Laureado.
Em 1941, ainda jogando, iniciou sua participação nas Diretorias do Juventude, sendo indicado auxiliar do Departamento Infantil e um dos indicados do clube para a função de juiz da Liga Esportiva Caxiense. em 1945 era membro da comissão pró-construção de um novo pavilhão no estádio, então chamado Quinta dos Pinheiros, e em 1946 assumiu a Direção de Esportes e foi também indicado auxiliar do diretor Técnico, continuando na Direção de Esportes no ano seguinte. Em 21 de novembro de 1947 foi eleito para o Conselho Deliberativo e suplente do Conselho Fiscal para o ano de 1948. Em 1949 ocupou a presidência, ano em que realizou benfeitorias na Quinta dos Pinheiros, terminou a construção de "um majestoso pavilhão", e conquistou o título de Clube Mais Simpático, o Torneio Início da Liga Esportiva, e, invicto, o Campeonato Citadino. O jornal A Época assim o descreveu neste ano:

A revista Panorama Esportivo de Porto Alegre deixou outro registro sobre a conquista:
Como ex-presidente, passou à categoria de membro nato do Conselho Deliberativo, presidindo-o em 1951. Ingressou no time dos Veteranos em 1953, em 1954 foi chamado pelo jornal Vida Esportiva de "famoso ás do passado, um dos melhores zagueiros que Caxias conheceu", e permaneceria associado ao Juventude ainda por muitos anos, fazendo parte de outras diretorias como membro da Comissão Técnica (1951 e 1954), assistente do treinador (1954), membro do Conselho Administrativo e membro efetivo do Conselho Deliberativo (1960), e diretor de Futebol, cargo que ocupou muitas vezes (1951, 1960, 1961, 1963, 1966, 1969, 1970 e 1971).
Colaborava para a conquista de outros títulos. O clube foi campeão do Citadino também em 1950, 1951 e 1953; campeão do Interior em 1964, 1965 e 1966, e vice-campeão do Estadual de 1965. Em 1966 Longhi recebeu o título de Melhor Diretor de Futebol, conferido pela Rádio Caxias, e em 1970 recebeu homenagem nas festividades do aniversário do clube.

No início dos anos 70 o Juventude passava por sérias dificuldades financeiras, e para saná-las concebeu-se a fusão com o seu maior rival, o Flamengo. Longhi foi um dos poucos dirigentes que se opôs à ideia, considerando que "nas cidades onde só há um clube o futebol está morrendo", como disse em entrevista para a revista Placar. A fusão de fato ocorreu mas acabou fracassando, e era assessor da Presidência em 1973, quando foi decidido o ressuscitamento do clube depois da fusão infeliz. Em 1974 retornou à direção de Futebol, e em 1975 o Juventude retornou à sua antiga identidade. Neste ano, sendo presidente Willy Sanvitto, inaugurou-se o novo estádio, o Alfredo Jaconi, cujas obras foram dirigidas por Alcides. Em maio pediu dispensa da direção de Futebol, após uma polêmica envolvendo a contratação de um jogador à sua revelia, mas permaneceu ativo no Conselho Deliberativo. No fim do ano o clube conquistou a Copa Governador do Estado do Rio Grande do Sul.
Em 1978 foi chamado de "uma bandeira de trabalho dentro da agremiação". Em 1979 era outra vez diretor de Futebol e foi um dos principais articuladores da campanha de Flávio Ioppi para a Presidência. Após a eleição assumiu como um dos seus assessores, em 1981 era assessor do Departamento de Futebol e assessor do técnico, eleito para efetivo do Conselho Deliberativo em 1980-1981, diretor de Futebol de 1982 a 1984, e membro do Conselho Consultivo em 1985. Depois retirou-se, encerrando sua participação no esporte caxiense. Faleceu em 18 de agosto de 1994.
Alcides Longhi é lembrado hoje principalmente como figura ilustre do Esporte Clube Juventude. Como jogador foi um dos seus ídolos na fase áurea do amadorismo, recebendo os apelidos de A Lenda e Jesus, este pelos "milagres" que fazia com a bola, deixando depois, quando passou para o trabalho nos bastidores, também significativa contribuição. Roni Rigon e Rodrigo Lopes dedicaram-lhe vários artigos na página "Memória" do jornal Pioneiro, assinalando ainda suas atividades filantrópicas. Além de prestigiá-lo em seu livro sobre a história do clube, Francisco Michielin o incluiu na sua galeria dos “100 Personagens” publicada no Pioneiro em 2013, quando foi comemorado o centenário da agremiação, e na mesma oportunidade a Gazeta de Caxias o listou entre as figuras destacadas da sua história.

O reconhecimento da comunidade foi coroado, contudo, com a atribuição de seu nome a uma rua. Foi louvado pela Comissão de Desenvolvimento Urbano e Obras, que analisou o referente Projeto de Lei, como "cidadão empreendedor, que dedicou sua vida ao seu time do coração: Esporte Clube Juventude. [...] A Comissão se manifesta pela aprovação do projeto em tela, aproveitando a oportunidade para unir-se ao vereador autor do projeto nas homenagens ao senhor Alcides Longhi". O Projeto de Lei foi aprovado na Câmara Municipal por unanimidade, com manifestações dos vereadores Francisco Spiandorello e Walmor Vanazzi, que fizeram breves retrospectivas de sua atuação. O primeiro assim disse:
O vereador Vanazzi declarou:
Como industrial, teve sua empresa destacada em sua época em publicações de larga circulação, e em tempos recentes sua trajetória foi recuperada por vários autores. Rigon e Lopes escreveram sobre ela no Pioneiro, foi assinalada como uma das empresas que "marcaram época" na cidade pelas historiadoras Loraine Slomp Giron e Heloísa Bergamaschi em um livro sobre a história das casas comerciais de Caxias, e o prédio novo foi estudado por Ana Elísia da Costa, sendo considerado um bom representante da estética Déco aplicada à indústria.

Alcides Longhi e Noris Leda Artico deram origem a uma descendência que recebeu atribuições de responsabilidade e numerosas distinções de organismos oficiais, bem como louvores na imprensa. Seus filhos são: