Artemidoro

 Nota: Este artigo é sobre o adivinho do século II d.C.. Para o geógrafo do século II/I a.C., veja Artemidoro de Éfeso.
Artemidoro
Biografia
Nascimento
Período de atividade
século III
Atividade

Artemidoro de Daldis, também Artemidoro de Éfeso (em grego clássico: Ἀρτεμίδωρος ὁ Δαλδιανός; romaniz.: Artemídoros ho Daldianós, em latim: Artemidorus Daldianus ou Artemidorus Ephesius) foi um interpretador de sonhos e adivinho profissional grego, que viveu na primeira metade do século II d.C. É conhecido por ter escrito uma obra em grego, composta de cinco livros, intitulada Oneirocritica ou Oneirokritikon (em grego, Interpretação dos Sonhos), único trabalho seu a sobreviver.

Vida e obra

Embora Artemidoro fosse natural da cidade grega de Éfeso, na Ásia Menor Ocidental, ele adotou o nome da cidade natal de sua mãe, Daldis, na Lídia, para se diferenciar dos inúmeros outros intérpretes de sonhos em Éfeso. A pesquisa moderna o distingue, assim, do geógrafo Artemidoro de Éfeso. Sua vida se situa provavelmente no período entre a morte de Domiciano (96 d.C.) e o reinado de Antonino Pio (138 a 161), que, assim como Adriano, é mencionado nominalmente na obra. A suposição frequentemente encontrada de que Artemidoro teria falecido por volta de 180, no final do reinado de Marco Aurélio ou no início do de Cômodo, é, no entanto, mera especulação, já que nenhum dos dois imperadores é mencionado na obra. Devido a certas figuras de pensamento e referências em sua Interpretação dos Sonhos — como, por exemplo, a ideia da pronoia (pressentimento) e as personificações de estrelas, ventos e nuvens —, supõe-se, por vezes, que Artemidoro fosse um estoico.

Segundo suas próprias palavras, Artemidoro realizou várias viagens de formação pela Ásia Menor e pelas grandes ilhas do Mar Egeu; ele visitou a Grécia continental e a Itália. Ele exercia profissionalmente a interpretação de sonhos e a adivinhação, uma atividade comum em sua época. Durante suas viagens, Artemidoro também consultou adivinhos que interpretavam os sonhos das pessoas nos mercados, a fim de aprender mais sobre antigas visões oníricas e suas realizações. Ele teve um filho que, assim como ele, tornou-se intérprete de sonhos. Cultivado e versado na literatura grega clássica, Artemidoro se orgulha, no prefácio do primeiro livro de sua obra sobre a interpretação dos sonhos, de que não há livro sobre o tema que ele não tenha adquirido e estudado. Por um lado, Artemidoro tinha o objetivo de desenvolver a interpretação dos sonhos sob a influência da Escola Empírica com base em um método empírico (observação, tradição, inferência por analogia); por outro lado, ele afirma que o próprio deus Apolo o inspirou, em sonhos, a escrever seu livro sobre sonhos. Além da interpretação dos sonhos, Artemidoro também escreveu um manual sobre a interpretação dos sinais das aves, que, porém, se perdeu por completo.

Obra

Sua Interpretação dos Sonhos é composta por cinco livros. Os três primeiros livros são dedicados a um certo Cassius Maximus (provavelmente Máximo de Tiro). Originalmente, a obra teria sido concebida como uma coletânea de exemplos em dois livros. Os livros 1 a 3 foram publicados primeiro e destinavam-se a um público mais amplo. Os livros 4 e 5, por outro lado, Artemidoro teria escrito exclusivamente para seu filho, que também era intérprete de sonhos: este deveria, segundo a afirmação confiante do texto, guardar essa parte da obra para si mesmo, a fim de se tornar superior a todos os outros intérpretes de sonhos. O quarto livro é, nesse contexto, uma defesa da interpretação dos sonhos contra os críticos e contém, além disso, conselhos práticos para o intérprete de sonhos e discussões sobre problemas teóricos da interpretação dos sonhos. No quinto livro, Artemidoro tenta explicar 95 sonhos concretos e seu significado para a vida real. Sonhos e símbolos oníricos são interpretados como presságios com significado favorável ou desfavorável para o sonhador.

Um exemplo:

Pentear-se [ou seja, no sonho] traz benefício tanto para homens quanto para mulheres; pois o pente simboliza o tempo que supera todas as adversidades. Trançar o cabelo só traz benefício para as mulheres e para aqueles homens que costumam fazê-lo também [ou seja, quando estão acordados]; para todas as outras pessoas, isso indica complicações em suas obrigações financeiras, dívidas elevadas de empréstimos e, por vezes, até prisão.

— Artemidoro, Interpretação dos Sonhos, Livro II, Capítulo 6.

A obra de Artemidoro é considerada hoje um exemplo interessante da superstição antiga. Ao mesmo tempo, é uma tentativa precoce de sistematizar o que nos parece caótico, sem sentido e enigmático nos sonhos e, a partir disso, desenvolver uma técnica de interpretação que se apoia, por assim dizer, em dados empíricos.

Além disso, o Livro dos Sonhos é uma valiosa fonte histórica para compreender o modo de vida da época, a história social e o mundo imaginário do homem antigo no Alto Império. O interesse dos clientes de um intérprete de sonhos grego, como se pode deduzir das interpretações de Artemidoro, não era, de forma alguma, um ganho de autoconhecimento, uma terapia ou uma interpretação existencial, mas exclusivamente o vislumbre do futuro, que na maioria das vezes era determinado por questões materiais: pobreza ou riqueza, doença ou saúde, sucesso ou fracasso na vida profissional, em competições, na vida pública, casamento e filhos, clima e colheita, viagens perigosas ou felizes etc. são os temas em torno dos quais o texto gira.

Recepção

Até bem adiante no século XVIII, o Livro dos Sonhos, que foi traduzido para o latim durante o Humanismo renascentista, era uma obra muito popular e frequentemente citada; no Iluminismo, perdeu popularidade e caiu praticamente no esquecimento. Foi somente Sigmund Freud (1856–1939) quem o redescobriu e o citou em sua obra A Interpretação dos Sonhos (1899/1900).

Para a recepção moderna de Artemidoro, além de Freud, foi particularmente importante o filósofo francês Michel Foucault, que abordou sobretudo os aspectos (sexuais) históricos da obra em sua publicação História da Sexualidade. Em Sexuality and Solitude, Foucault, ao comparar com textos do cristão Agostinho, chamou a atenção para a interpretação dos sonhos sexuais feita por Artemidoro, contrária à de Freud:

Se alguém sonhar, por exemplo, que está dormindo com a própria mãe, isso significa que terá sucesso como autoridade pública – já que a mãe é, evidentemente, o símbolo da cidade ou do país.

Referências

  1. ↑ "Artemidorus Daldianus" em The New Encyclopædia Britannica. Chicago: Encyclopædia Britannica, Inc., 15.ª edição, 1992, Vol. 1, p. 599.
  2. ↑ Artemidoro: O Livro dos Sonhos. Traduzido por Karl Brackertz. dtv, Munique 1979, p. 8.
  3. ↑ A Escola Empírica era uma escola médica grega existente desde meados do século III a.C., que surgiu do ceticismo de Pirro de Élis e pretendia basear a medicina exclusivamente na experiência; cf. Karl Brackertz (trad.): Artemidoro de Daldis: O Livro dos Sonhos. Artemis, Zurique e Munique 1979, p. 356.
  4. ↑ Artemidoro: O Livro dos Sonhos. Traduzido por Karl Brackertz. dtv, Munique 1979, p. 349 e seguintes.
  5. ↑ Artemidoro: O Livro dos Sonhos. Traduzido por Karl Brackertz. dtv, Munique 1979, p. 116.
  6. ↑ Michel Foucault: A preocupação consigo mesmo (= História da Sexualidade. Volume 3). Suhrkamp, Frankfurt am Main 1986 (em francês: Le souci de soi. Gallimard, Paris 1984. Traduzido por Ulrich Raulff e Walter Seitter).
  7. ↑ Foucault, Michel (21 de maio de 1981). «Sexuality and Solitude». London Review of Books (em inglês). 03 (09). ISSN 0260-9592
  8. ↑ Sobre a amizade. Michel Foucault em entrevista. Merve, Berlim 1985, p. 40. (= IMD 121, traduzido do inglês por Walter Seitter)

Edições e traduções

Edição do século XVI
Edição crítica
Traduções e comentários

Bibliografia

Ligações externas