Bacte (em árabe: البقط; romaniz.: al-baqṭ) foi o nome empregado pelas fontes árabes para designar o conjunto de relações diplomáticas e econômicas mantidas entre o reino cristão da Macúria, na Núbia, e os sucessivos governos muçulmanos do Egito entre o século VII e o final do século XIII. O termo deriva provavelmente do latim pactum, por intermédio do grego helenístico pakton, vocábulo que designava tanto um acordo de obrigações recíprocas quanto os pagamentos associados ao seu cumprimento. O Bacte surgiu após as campanhas muçulmanas contra a Núbia e a tentativa de conquista de Dongola em 652, quando o governador egípcio Abedalá ibne Sade celebrou uma trégua com os macúrios. Seu caráter bilateral e incomum dificultou seu enquadramento pela jurisprudência islâmica posterior: alguns juristas o consideraram uma modalidade de sulh, enquanto outros o interpretaram como uma hudna, ou acordo de não agressão que não obrigava os muçulmanos a defender a Núbia contra terceiros.
Segundo a interpretação tradicional preservada pelas fontes islâmicas tardias, o acordo assegurava a circulação entre os dois territórios, proibia o estabelecimento permanente de seus habitantes no território da outra parte e obrigava os núbios a devolver fugitivos, manter uma mesquita em Dongola e fornecer anualmente 360 escravos, além de entregas destinadas aos funcionários responsáveis pela transação. Em contrapartida, os egípcios enviavam trigo, lentilhas, outros alimentos, tecidos e artigos de vestuário, aos quais se acrescentaram, em diferentes períodos, cavalos, vinho e outros produtos. A composição, a frequência e a magnitude das trocas variaram consideravelmente ao longo dos séculos, e seus termos foram confirmados ou reajustados por governantes como Omar II, Almadi e Almotácime. O Bacte também constituiu um dos instrumentos pelos quais a monarquia macúria administrava suas relações econômicas com o Egito e controlava parte do comércio externo, coexistindo, porém, com a expansão gradual dos mercadores privados muçulmanos, da propriedade estrangeira e do tráfico escravista na região.
A natureza do Bacte e seu funcionamento efetivo são objeto de controvérsia historiográfica. Jay Spaulding argumenta que as versões mais conhecidas derivam sobretudo da literatura jurídica islâmica produzida mais de um século depois dos acontecimentos e da narrativa formulada por Almacrizi no século XV, quando a Macúria cristã já havia desaparecido. Em sua reconstrução, o acordo teria resultado da incapacidade muçulmana de conquistar Dongola e sido compreendido pela corte macúria não como um tributo unilateral, mas como uma modalidade núbia de diplomacia régia baseada na troca recíproca de presentes, sem texto fixo, periodicidade invariável ou obrigação perpétua. As relações foram diversas vezes interrompidas e retomadas, e as fontes preservam muito menos entregas efetivamente documentadas do que pressuporia a teoria de pagamentos anuais. Mesmo após a conquista de Dongola pelo sultão mameluco Baibars (r. 1257–1277) em 1276, reis dependentes continuaram por algum tempo a iniciar operações identificadas como parte do Bacte. A progressiva incorporação política e islamização da Núbia acabaram por retirar ao acordo sua função original, levando o termo ao desuso.


O termo árabe baqṭ é geralmente considerado derivado do latim pactum, por intermédio de sua forma helenizada pakton. No mundo helenístico, o vocábulo designava tanto um acordo que estabelecia obrigações recíprocas quanto os pagamentos relacionados à sua execução. O uso núbio do termo correspondia, em princípio, a esse sentido bilateral, embora as fontes árabes frequentemente descrevessem as prestações macúrias como um tributo. A singularidade do Bacte dificultou sua classificação pelos juristas muçulmanos posteriores. Maleque ibne Anas considerava-o uma modalidade de sulh, isto é, um tratado jurídico de paz, mas a maioria o interpretava como um acordo de não agressão ou uma hudna (trégua), que não obrigava os muçulmanos a defender a Núbia contra terceiros. Por ter sido celebrado em bases bilaterais, o acordo não se enquadrava na categoria habitual dos tratados de sulh reconhecidos pela jurisprudência islâmica posterior. Depois da conquista muçulmana do Egito em 641, Anre ibne Alás iniciou incursões sistemáticas contra os reinos cristãos da Núbia. Segundo a tradição preservada pela TDV, tropas sob o comando de Abedalá ibne Sade penetraram na região em 20 ou 21 A.H. (641–643), encontraram forte resistência e restabeleceram um sistema de pagamentos entre o Egito e a Núbia que já existia anteriormente, sem propriamente criá-lo. Após a morte do califa Omar ibne Alcatabe (r. 634–644), os núbios teriam rompido esse primeiro acordo e passado a atacar o Alto Egito. Spaulding, por sua vez, interpreta essas incursões como operações preparatórias semelhantes às campanhas anuais então conduzidas contra os territórios bizantinos da Ásia Menor, destinadas a enfraquecer as defesas núbias antes de uma conquista definitiva. O próprio perfil político de Anre, que invadira o Egito por iniciativa própria ou mesmo contra as instruções do califa, sugere, segundo Spaulding, que pretendia prolongar a expansão muçulmana pela fronteira meridional.
Anre perdeu o governo em 647, mas seu sucessor, Abedalá ibne Sade, que já participara das incursões contra a Núbia, deu continuidade à campanha iniciada por seu antecessor. Em 652, avançou para o sul à frente de um grande exército que incluía cavalaria pesada e manganelas. As forças muçulmanas cercaram Dongola, capital da Macúria, e suas máquinas de guerra destruíram uma grande igreja da cidade. Seguiu-se um combate de grandes proporções, com numerosas baixas. Segundo a tradição preservada pela TDV, a resistência núbia, particularmente a habilidade de seus arqueiros, impediu uma conquista definitiva e obrigou as partes a celebrar um novo acordo em ramadã de 31 A.H. (abril–maio de 652). O relato mais antigo preservado sobre a campanha foi compilado entre um e dois séculos depois por Ibne Abede Aláqueme. Segundo sua narrativa, Abedalá celebrou uma trégua com os núbios porque não conseguira derrotá-los. Spaulding interpreta essa passagem como evidência de uma grande vitória defensiva da Macúria. Também cita o historiador xiita Amade Alcufi, do século X, segundo o qual os muçulmanos jamais haviam sofrido na Núbia uma perda comparável àquela. Para Spaulding, o resultado militar explicaria tanto a sobrevivência da Macúria cristã quanto a dificuldade encontrada posteriormente pelos autores islâmicos para enquadrar o Bacte nas categorias habituais da conquista. Com o passar dos séculos, surgiram versões destinadas a diminuir ou inverter o significado da derrota. Alguns autores transferiram o confronto para o governo de Anre, sugeriram que os próprios núbios haviam iniciado os ataques, reduziram a batalha a uma incursão de pouca importância ou afirmaram que a pobreza da região teria levado os muçulmanos a desistir voluntariamente de conquistá-la. No século XV, Almacrizi apresentou uma narrativa detalhada na qual o rei núbio, derrotado e humilhado, teria saído de Dongola para pedir a paz a Abedalá, que lhe concedera termos moderados. Foi sobretudo essa versão tardia que passou a fundamentar a interpretação tradicional do Bacte.
Nenhuma fonte contemporânea a 652 descreve o estabelecimento do Bacte. Quando o acordo começou a aparecer na literatura escrita, durante os primeiros tempos do Califado Abássida, já possuía mais de um século de existência. As primeiras reconstruções surgiram no contexto da formação do direito islâmico, quando estudiosos buscavam avaliar os precedentes atribuídos a Maomé, aos seus companheiros e às primeiras gerações de muçulmanos. Seu objetivo não era propriamente reconstruir a diplomacia entre o Egito e a Macúria, mas determinar a legitimidade jurídica da participação de figuras proeminentes do início do islão em uma instituição que parecia não se enquadrar nas categorias habituais da expansão muçulmana. Uma vez formulada, essa interpretação adquiriu parte da autoridade conferida à própria tradição jurídica e foi sucessivamente repetida e ampliada pelos autores posteriores. A quase totalidade das fontes preservadas foi produzida por autores muçulmanos ou por cristãos orientais externos à Núbia, inexistindo praticamente relatos escritos pelos próprios macúrios. Permaneceram, assim, desconhecidos para a tradição islâmica os significados que a corte da Macúria atribuía ao Bacte. Algumas fontes independentes — como a carta de um governador do Egito a um rei macúrio e registros cronísticos de entregas efetivamente realizadas — escapam parcialmente dessa tradição jurídica acumulativa, mas, segundo Spaulding, são insuficientes para reconstruir diretamente a perspectiva núbia sobre o acordo.
A versão mais antiga dos termos do Bacte aparece também em Ibne Abede Aláqueme, que preservou duas tradições contraditórias, ambas atribuídas a um informante chamado Iázide. Na primeira, Iázide afirmava ter lido um documento existente nos arquivos egípcios, mas já destruído quando o historiador escreveu sua obra. Segundo esse suposto texto, redigido no governo de Anre ibne Alás e assinado pelos núbios, estes se comprometiam a não se estabelecer em território islâmico, a devolver escravos e outros fugitivos e a pagar anualmente 360 escravos. Em contrapartida, os muçulmanos limitavam-se a tolerar a existência da Macúria, sem assumir obrigações equivalentes. Spaulding observa que essa tradição apresenta problemas internos. Ela atribui o Bacte ao governo de Anre, embora a própria tradição histórica associe a grande invasão da Núbia e o acordo subsequente ao governo de Abedalá ibne Sade. Além disso, considera pouco plausível que os muçulmanos, depois de não conseguirem vencer em Dongola, tivessem imposto aos núbios um documento composto exclusivamente de concessões unilaterais. Essa tradição, contudo, tornou-se a precursora direta da versão muito mais elaborada apresentada posteriormente por Almacrizi. Na segunda tradição, Iázide afirmava ter recebido suas informações do pai, um núbio capturado e escravizado pelos árabes durante a campanha de 652. Segundo esse relato, nenhum documento foi redigido ou assinado. As partes teriam celebrado apenas uma hudnat amān, uma trégua de segurança ou cessar-fogo, comprometendo-se a não invadir reciprocamente seus territórios. Os núbios entregariam aos muçulmanos certo número de cativos, enquanto estes forneceriam à Macúria uma quantidade determinada de trigo e lentilhas. Para Spaulding, essa versão é compatível com o resultado da campanha. Os macúrios devolveriam, em intervalos negociados, prisioneiros árabes capturados durante a guerra, recebendo em troca uma compensação em alimentos. Nada nessa formulação determinaria que o acordo devesse permanecer em vigor depois de concluídas as trocas relacionadas ao conflito, tampouco estabeleceria uma obrigação permanente de submissão. O autor propõe, assim, que ambas as tradições possam ser historicamente "corretas", desde que entendidas como testemunhos de concepções distintas: a segunda refletiria a compreensão original das autoridades macúrias, enquanto a primeira representaria a interpretação desenvolvida pelos juristas islâmicos do início do período abássida.

Segundo Jay Spaulding, o Bacte deve ser compreendido no contexto das práticas diplomáticas dos antigos Estados agrários do Nordeste da África. Seus soberanos mantinham relações mediante o intercâmbio de cartas, mensageiros, visitas de dignitários, casamentos diplomáticos e, sobretudo, trocas periódicas de presentes, que expressavam materialmente a natureza das relações entre os monarcas. Presentes valiosos esperavam contraprestações equivalentes, ao passo que ofertas consideradas ofensivas podiam ser interpretadas como declarações de guerra. Também era admissível indicar os bens preferidos para a troca, embora exigências excessivas corressem o risco de ser entendidas como pretensões tributárias e levassem ao rompimento das relações. Nessa perspectiva, Spaulding interpreta o Bacte como uma manifestação da diplomacia régia macúria, e não como uma instituição criada pelos conquistadores muçulmanos. Como exemplo dessa tradição, observa que, em 573, antes da expansão islâmica, representantes da Macúria enviaram ao imperador bizantino Justino II (r. 565–578) presentes compostos por marfim e animais exóticos para estabelecer relações amistosas. O Bacte concedia aos habitantes de ambos os territórios o direito de atravessar livremente as fronteiras, mas proibia que se estabelecessem permanentemente no território da outra parte. Os núbios comprometiam-se a devolver colonos, escravos fugitivos e tributários não muçulmanos que buscassem refúgio em seu reino, bem como a contribuir para a construção e a manutenção de uma mesquita em Dongola. A obrigação mais conhecida consistia na entrega anual de 360 escravos aos muçulmanos. Originalmente, ao menos parte deles deveria provir dos prisioneiros capturados pelos núbios em guerra. Desenvolveu-se ainda o costume de entregar outros quarenta escravos aos funcionários árabes encarregados da transação. Os indivíduos fornecidos deveriam ser homens e mulheres fisicamente aptos, sem crianças ou idosos e considerados de valor médio. Em contrapartida, os muçulmanos forneciam trigo, outros cereais, tecidos e artigos de vestuário aos núbios, além de outros produtos em determinados períodos. Fontes posteriores mencionam também cavalos e, ocasionalmente, vinho, embora o fornecimento deste último fosse censurado por alguns autores muçulmanos. Segundo Becker, a resistência oferecida pelos arqueiros núbios e as dificuldades impostas pelas condições locais levaram os árabes a abandonar a tentativa de conquista permanente da Macúria e a negociar o Bacte, que passou a regular as relações entre o Egito muçulmano e o reino núbio.



Os núbios não dependiam necessariamente de documentos escritos para conduzir seus negócios públicos e, segundo a reconstrução proposta por Jay Spaulding, o Bacte não possuía para eles um texto fixo. Seu funcionamento baseava-se em costumes diplomáticos de reciprocidade considerados evidentes pela corte macúria. Do ponto de vista núbio, o acordo celebrado após a campanha de 652 representaria o reconhecimento do novo governo islâmico do Egito como uma autoridade estrangeira legítima, com a qual seria possível restabelecer relações normais. A corte macúria iniciava as trocas mediante o envio de presentes e esperava que o governante egípcio respondesse com bens equivalentes. Essas operações eram interrompidas durante guerras, mudanças de regime ou crises diplomáticas e retomadas quando a nova autoridade egípcia demonstrava interesse em restabelecer os vínculos. As relações foram suspensas em diversos períodos de hostilidade anteriores à conquista de 1276, entre eles 723–742, 761–769, 854–868, 910–915, 935–969, 1066 e 1171–1175. Em 758, o primeiro governador abássida do Egito queixou-se de que os núbios não realizavam entregas havia vários anos. Nova interrupção acompanhou a ascensão do Califado Fatímida, embora o novo governo posteriormente procurasse restabelecer boas relações. Com a instalação do Império Aiúbida, uma iniciativa núbia destinada a reativar as trocas foi rejeitada, e um novo período de instabilidade prolongou-se entre a tomada do poder pelos Mamelucos, em 1260, e o envio de uma entrega macúria em 1269. A interrupção podia ocorrer também quando uma das partes deixava de cumprir o princípio da reciprocidade. Uma fonte preserva a resposta de um rei macúrio que justificava a suspensão das entregas núbias afirmando que os egípcios haviam primeiro interrompido as suas. Para Spaulding, esse testemunho demonstra que os soberanos da Macúria não se consideravam devedores de um tributo incondicional, mas participantes de uma relação bilateral que podia ser rompida caso a contraprestação deixasse de ser efetuada.
Mesmo depois da conquista de Dongola em 1276 e da imposição de termos convencionais de submissão, os reis dependentes instalados sob tutela egípcia continuaram a iniciar entregas identificadas pelas fontes como parte do Bacte, embora o novo tratado tributário não os obrigasse a fazê-lo. Algumas dessas iniciativas receberam contraprestações egípcias. Spaulding interpreta essa continuidade como sobrevivência da prerrogativa diplomática régia macúria e também como evidência de que, após séculos de prática, a dimensão econômica das trocas adquirira funcionamento próprio. Um raro vestígio material dessas contraprestações foi encontrado em Gebel Ada. Em uma sepultura datada aproximadamente do final do século XIII, arqueólogos descobriram um fragmento de tecido de algodão marcado em árabe como pertencente ao Bacte. Spaulding considera esse objeto a única evidência física então conhecida dos bens enviados pelo Egito em resposta às entregas núbias. O comércio exterior da Macúria era controlado pela monarquia. A troca de presentes diplomáticos permitia ao rei importar artigos raros com os quais sustentava seu estilo de vida ou recompensava seus subordinados, embora o volume dessas operações fosse secundário em comparação com a economia do reino como um todo. Sob esse aspecto, o Bacte constituía uma das modalidades do comércio externo administrado pela corte macúria. Os bens enviados do Egito incluíam trigo, lentilhas, azeite, vegetais exóticos, vinagre, vinho, cavalos e variados produtos têxteis, entre eles tecidos especiais, roupas luxuosas e tapetes. Os núbios ofereciam marfim, peles de leopardo, tâmaras, ébano destinado à fabricação de móveis, lanças, esmeril, alúmen, animais vivos — como macacos, leões, leopardos, elefantes e girafas —, além de gado, camelos e escravos. A composição dessas entregas não permaneceu necessariamente constante e é conhecida por meio de fontes produzidas em diferentes períodos. As primeiras fontes islâmicas reconheciam que as trocas eram recíprocas, embora essa característica começasse a ser obscurecida, a partir do século X, pela tradição que descrevia o Bacte como um tributo unilateral. Cada parte nomeava um funcionário responsável por supervisionar a transferência dos bens, realizada em momento e local previamente definidos na região fronteiriça.
A frequência das operações não pode ser determinada. A teoria jurídica islâmica posterior sustentava que as prestações núbias deveriam ocorrer anualmente, mas os registros de entregas efetivamente documentadas são muito menos numerosos. Durante os 202 anos do governo fatímida no Egito, período relativamente bem documentado, conhecem-se apenas seis trocas relacionadas ao Bacte. Não é possível estabelecer se outras ocorreram sem registro, mas Spaulding considera metodologicamente inadequado presumir entregas anuais apenas porque textos normativos afirmavam que elas deveriam ocorrer. Outras fontes indicam que, com o passar do tempo, os núbios encontraram dificuldades para cumprir regularmente a entrega estipulada, provavelmente em razão da escassez de prisioneiros de guerra. Em algumas ocasiões, recorreram a habitantes do próprio reino para completar as remessas, enquanto animais como elefantes, girafas e leopardos passaram a integrar as entregas, possivelmente como compensação por prestações incompletas. O acordo foi sucessivamente confirmado e ajustado por governantes muçulmanos, entre eles o califa omíada Omar II (r. 717–720) e os califas abássidas Almadi (r. 775–785) e Almotácime (r. 833–842). Sob Almotácime, verificou-se que o valor das prestações núbias era inferior ao dos produtos enviados pelo Egito; ainda assim, o califa adotou uma política conciliadora, permitindo que as entregas passassem a ser realizadas apenas a cada três anos, embora tenha recusado o pedido de retirada da guarnição muçulmana instalada em Alcácer, onde os pagamentos eram efetuados. Segundo Thierry Bianquis, a jurisprudência islâmica acabou interpretando o Bacte predominantemente como um tratado comercial, e não político, entendimento que acompanhou suas sucessivas renovações até o final do período fatímida. Embora o Bacte previsse apenas uma obrigação específica de fornecimento de escravos, o tráfico escravista entre a Núbia e o mundo islâmico ultrapassou amplamente o número fixado pelo acordo. Os núbios realizavam incursções contra populações situadas mais ao sul e utilizavam parte dos cativos tanto internamente quanto no cumprimento das entregas, contribuindo para integrar o vale do Nilo às redes escravistas que alcançavam o Egito, a Arábia e a Mesopotâmia. O Bacte permaneceu em vigor, ainda que sujeito a interrupções e modificações, durante mais de seis séculos. Em 674 A.H. (1276), o sultão mameluco Baibars (r. 1257–1277) conquistou Dongola e desarticulou o poder central da Macúria. Parte da Núbia passou diretamente ao domínio muçulmano, enquanto pequenos governantes locais conservaram graus variáveis de autonomia. A subsequente islamização da região retirou do acordo sua função original, levando o termo e as obrigações associadas a ele ao desuso.
O sistema régio macúrio coexistiu com a pressão crescente exercida pelo comércio privado muçulmano. Enquanto a diplomacia macúria baseava suas relações exteriores em trocas oficiais administradas pela monarquia, comerciantes oriundos do mundo islâmico buscavam ampliar sua atuação direta na Núbia. Spaulding contrasta essa política com a dos bejas, cujos chefes haviam permitido a entrada de mercadores provenientes das terras islâmicas. Como a região beja possuía poucos bens exportáveis, esses comerciantes passaram a sequestrar crianças para vendê-las como escravas, desencadeando um prolongado período de conflitos. A corte macúria, embora mantivesse as trocas oficiais promovidas por meio do Bacte, resistiu à abertura do reino ao comércio privado estrangeiro. Essa política aparece refletida em uma carta de 758, na qual o governador abássida do Egito reclamava que os mercadores núbios circulavam livremente em território egípcio, enquanto comerciantes muçulmanos não recebiam tratamento equivalente na Macúria. No início do século IX, tentativas de muçulmanos estabelecidos em Assuã de adquirir propriedades no lado núbio da fronteira provocaram uma crise diplomática. O rei macúrio acabou cedendo parcialmente, permitindo que o distrito mais setentrional da Núbia se tornasse uma zona de estatuto especial, na qual foram admitidos conceitos mediterrânicos de propriedade privada e intercâmbio comercial. Ainda assim, estrangeiros que ultrapassassem esse limite em direção ao interior do reino continuavam sujeitos à pena de morte.
Ao final do século X, alguns comerciantes já obtinham autorização para penetrar no interior da Núbia, enquanto a capital do Reino de Alódia, Soba, possuía um bairro destinado a mercadores estrangeiros. Paralelamente, habitantes da zona de estatuto especial do norte passaram a desenvolver atividades comerciais privadas no Egito. A monarquia procurou manter algum controle sobre esses súditos mediante um agente régio autorizado a viajar e residir no califado para recolher impostos dos núbios estabelecidos fora do reino. A instituição, registrada apenas no século IX, provavelmente teve existência efêmera. No século XII, surgiu outro importante entreposto comercial nas proximidades da confluência do Nilo com o Astabora, aproximadamente a meio caminho entre Dongola e Soba. Conhecido como Bulaque, o local reunia mercadores núbios, etíopes e, em períodos de paz, egípcios. No século XIV, o governante de Alabuabe, região anteriormente subordinada à Alódia e ligada ao entreposto, apoiou as campanhas egípcias contra a Macúria. Segundo Spaulding, o avanço gradual do comércio privado mediterrânico enfraqueceu o monopólio régio sobre as relações exteriores e desafiou desde cedo o sistema de trocas representado pelo Bacte. Após a queda da Macúria, autores como Ibne Caldune chegaram a atribuir retrospectivamente ao acordo original uma cláusula que garantiria a livre circulação de mercadores entre os dois países. Para Spaulding, essa formulação não reflete os termos estabelecidos em 652, mas sim a projeção, sobre o passado, de uma realidade posterior, na qual as instituições do comércio privado haviam superado o antigo sistema de intercâmbio controlado pela monarquia macúria.
A entrega de escravos tornou-se o elemento mais conhecido da interpretação tradicional do Bacte. Autores islâmicos de orientação jurídica afirmaram que os núbios deveriam fornecer anualmente 360 ou 400 pessoas, e alguns estudos quantitativos modernos trataram esses números normativos como registros de entregas efetivamente realizadas. Spaulding rejeita essa utilização, argumentando que as fontes são demasiadamente fragmentárias para sustentar uma série estatística contínua. Os reis da Macúria não se opunham, em princípio, à escravidão e incluíam cativos em algumas trocas, mas o reino normalmente não possuía capacidade para fornecer centenas de pessoas todos os anos. Em 836, durante uma missão diplomática a Baguedade, o jovem rei Jorge I explicou ao califa que a Macúria não conseguia produzir a quantidade exigida. O governante muçulmano aceitou reduzir em dois terços a prestação então reivindicada, embora nem mesmo essa quantidade menor tenha sido necessariamente fornecida pelas gerações subsequentes. Em muitos anos, nenhuma remessa foi enviada, enquanto, em outros, produtos diferentes dos escravos ganharam destaque. Para toda a história da Macúria independente, apenas um registro menciona a quantidade exata de pessoas enviadas em uma operação do Bacte: dois escravos, um homem e uma mulher. Quantidades muito maiores aparecem apenas depois da conquista egípcia de 1276, durante as guerras civis que devastaram a Núbia e facilitaram a captura de habitantes. Reis dependentes do Egito enviaram duzentos escravos em 1292 e mil em 1313. Spaulding observa que a média aritmética entre as três quantidades conhecidas — dois, duzentos e mil — aproxima-se casualmente de quatrocentos, mas considera esse conjunto insuficiente para fundamentar estimativas sobre quase um milênio de história. Os grandes envios do período posterior a 1276 ocorreram em circunstâncias inteiramente diferentes das que prevaleceram durante a Macúria independente e, por isso, não podem ser projetados retrospectivamente sobre os séculos anteriores.
Além das entregas controladas pela corte, escravos eram adquiridos por comerciantes privados, inicialmente sobretudo entre os bejas e, mais tarde, também dentro da própria Macúria. No início do século XIII, a zona setentrional de estatuto especial havia se tornado um mercado de escravos frequentado por mercadores estrangeiros. Não existem, entretanto, dados quantitativos sobre esse comércio, o que impede qualquer avaliação segura do número total de pessoas exportadas da Núbia medieval. Spaulding também questiona a afirmação de que a maioria dos escravos africanos exportados para o Oriente islâmico fosse composta por mulheres. Para ele, essa hipótese é difícil de conciliar com as fontes do Egito medieval, nas quais aparecem numerosos corpos militares formados por homens negros, ao passo que mulheres africanas não ocupam posição igualmente destacada. A única entrega macúria independente cuja composição é conhecida continha exatamente um homem e uma mulher. A compreensão do Bacte foi condicionada pela natureza das fontes preservadas. Segundo Spaulding, a historiografia islâmica inicial procurava justificar juridicamente as ações dos primeiros governantes muçulmanos e encontrou dificuldades para admitir que uma monarquia cristã africana tivesse derrotado um exército do califado. A partir do século IX, autores passaram a reinterpretar as entregas periódicas promovidas pelos reis macúrios como um tributo anual, unilateral e obrigatório, subordinando a Macúria ao poder islâmico. A versão mais completa dessa tradição foi formulada por Almacrizi no século XV, depois da destruição do reino cristão e do desaparecimento da cultura cortesã que poderia contradizê-la. Estudos modernos concederam primazia a esse relato tardio, partindo do pressuposto de que a versão mais extensa e sistemática deveria ser também a mais autorizada. As tradições divergentes passaram a ser tratadas como estágios incompletos do desenvolvimento de um único texto original, em vez de possíveis testemunhos de interpretações concorrentes ou de transformações históricas.
A narrativa tradicional resultante sustentava que Abedalá derrotara os núbios, que o rei macúrio pedira a paz e que um tratado escrito preservado nos arquivos do Egito passara a regular as relações entre os dois países durante cerca de seis séculos. Seus termos incluiriam a livre circulação, a proibição de residência permanente, a devolução de fugitivos, a manutenção de uma mesquita em Dongola e o pagamento anual de 360 escravos. A Macúria teria adquirido um estatuto intermediário, não pertencendo plenamente à Dar al-Islam nem à Dar Alharbe, e funcionaria como uma espécie de reino cliente do império islâmico. Spaulding propõe, em contraste, que as divergências entre os textos não sejam automaticamente tratadas como erros. Muçulmanos e núbios podem ter compreendido o acordo de maneiras diferentes desde o início, e as variações posteriores podem refletir transformações efetivas das relações entre os dois Estados. Assim, até mesmo a versão tardia de Almacrizi deve ser considerada um testemunho válido das concepções existentes no século XV, mas não um relato direto e privilegiado dos acontecimentos de 652. Na interpretação de Spaulding, a vitória macúria em Dongola permitiu que o reino conduzisse suas relações com o Egito segundo uma tradição núbia de reciprocidade régia. O Bacte não teria sido originalmente registrado em um documento fixo nem possuiria conteúdo invariável; cada troca seria iniciada pela monarquia macúria, negociada conforme as circunstâncias e dependente de contraprestação egípcia. Sua composição, magnitude e periodicidade teriam variado amplamente ao longo dos séculos. O sistema permaneceu sob crescente pressão das instituições comerciais privadas do mundo mediterrânico. A abertura gradual da Núbia a mercadores, à propriedade privada e aos mercados de escravos enfraqueceu o monopólio régio sobre as relações exteriores. Mesmo após a queda de Dongola, os últimos reis dependentes continuaram a iniciar operações do Bacte, mas a estrutura política e econômica que sustentara a instituição encontrava-se em dissolução. Para Spaulding, esse processo exemplifica um conflito mais amplo entre os antigos Estados agrários do Nordeste da África e a economia comercial das regiões mediterrânicas e do mar Vermelho.