| Rio Nilo | |
|---|---|
O Nilo liga as regiões dos Grandes Lagos ao Mediterrâneo. Aqui, perto das quedas de Murchison. | |
| Comprimento | 7.088 km |
| Nascente | Afluente do Rukarara, no Parque Nacional de Nyungwe, Ruanda 2° 19′ 35″ S, 29° 21′ 30″ L |
| Altitude da nascente | 2.539 m |
| Caudal médio | 2.757 m³/s (Assuão) |
| Foz | Mar Mediterrâneo |
| Altitude da foz | 0 m |
| Área da bacia | 2.927.843 km² |
| Delta | Delta do Nilo |
| Afluentes principais | Nilo Branco, Nilo Azul e Atbara |
| Países da bacia hidrográfica | Burundi, República Democrática do Congo, Egito, Eritreia, Etiópia, Quénia, Ruanda, Sudão do Sul, Sudão, Tanzânia e Uganda |
| Cidades | Bahir Dar, Cairo, Cartum, Jinja e Juba |
| Coordenadas | 30° 10′ 21″ N, 31° 08′ 24″ L |
O Nilo é um rio do nordeste de África que corre para norte e desagua no mar Mediterrâneo. Com 7.088 km, é um dos rios mais extensos do mundo, embora transporte muito menos água do que o Amazonas ou o Congo. Há milénios que as suas águas sustentam a agricultura, o transporte e as populações do vale, com lugar na economia e nas culturas africanas.
Os seus dois principais afluentes são o Nilo Branco e o Nilo Azul. O Nilo Branco é mais longo e contém as cabeceiras do sistema, mas o Nilo Azul fornece um volume de água maior. O Nilo Branco sai do lago Vitória e atravessa o Uganda e o Sudão do Sul. O Nilo Azul sai do lago Tana, na Etiópia, e entra no Sudão pelo sudeste. Encontram-se em Cartum, capital sudanesa. O rio segue para norte pelo deserto da Núbia até ao Cairo, capital do Egito, e termina num grande delta junto do Mediterrâneo, nas proximidades de Alexandria.
Num dos modelos de formação do rio, a ligação permanente dos Grandes Lagos ao curso inferior estabeleceu-se há cerca de 15.000 anos, embora a idade das redes de drenagem anteriores seja discutida. A bacia hidrográfica abrange onze países. Grande parte da água vem da chuva na Etiópia, Quénia, Tanzânia e Uganda. Nas regiões a jusante, sobretudo nas zonas desérticas do Egito e do Sudão, retira-se água para irrigação. A bacia também abrange o Sudão do Sul, Burundi, República Democrática do Congo, Eritreia e Ruanda.
O Nilo sustentou a civilização do Antigo Egito, que dependia do rio para a agricultura, a comunicação, o transporte e a administração. As cheias anuais depositavam nas margens um silte rico em nutrientes, permitindo cultivar terras rodeadas pelo deserto. Na Núbia, desenvolveram-se a cultura de Kerma e o Reino de Cuxe. O rio atraiu exploradores europeus, que investigaram a ligação entre o lago Vitória e o Nilo Branco na segunda metade do século XIX. Entre os povos que habitam as suas margens encontram-se os povos nilóticos, criadores de gado seminómadas que deslocam os rebanhos em função das cheias.
As economias do Egito e do Sudão dependem da água do Nilo para irrigar extensas áreas agrícolas. Desde o final do século XX, construíram-se novas barragens na bacia para armazenar água e produzir eletricidade. As barragens alteraram o ciclo anual das cheias e retêm sedimentos que antes chegavam à foz, reduzindo a área do delta. A Grande Barragem de Assuão e a Grande Barragem do Renascimento Etíope, entre outras, estiveram na origem de disputas entre países sobre escassez de água, segurança, segurança alimentar e deslocação de populações.
As formas latina Nilus e grega antiga Νεῖλος, Neilos, poderão ter origem no termo semítico naḥal, que significa "rio".
Hieróglifos egípcios para jtrw, palavra que designava "rio" ou "Nilo":
Na língua egípcia antiga, a palavra jtrw designava o Nilo e um rio em geral. Os egípcios chamavam ao seu país kmt, "terra negra", em referência ao solo escuro e fértil das margens, enriquecido pelas cheias. O nome "Nilo Azul" traduz a designação árabe Al-Baḥr Al-Azraq.
No Egito, usam-se os nomes Al-Nīl, Baḥr Al-Nīl e Nahr Al-Nīl. No Sudão do Sul, um dos nomes árabes é Baḥr el-Jebel, بحر الجبل, literalmente "rio da montanha". No Uganda, os falantes de luganda chamam-lhe Kiyira. Alguns povos núbios do Egito e do Sudão usam o nome nobim Áman Dawū, "grande água".
O nome Nilo também se aplica a afluentes e a trechos do curso principal:
A nascente mais distante do Nilo situa-se num afluente do rio Rukarara, no Parque Nacional de Nyungwe, no Ruanda, a 2° 19′ 35″ S, 29° 21′ 30″ L, a 2.539 m de altitude. O critério usado é o início do curso de água permanente mais longo dentro da bacia do Nilo. Entre essa nascente e a foz no mar Mediterrâneo, o comprimento calculado num estudo de 2009 foi de 7.088 km, seguindo a linha central do rio em imagens de satélite.
Uma medição divulgada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil em 2008 obteve 6.992,06 km para o Amazonas e 6.852,15 km para o Nilo. O trabalho usou imagens MODIS com resolução de 250 m e mosaicos GeoCover com resolução de 25 m, incorporando os resultados de uma expedição às nascentes do Amazonas realizada em 2007. Esses valores e os 7.088 km publicados para o Nilo em 2009 resultam de delimitações e métodos distintos, pelo que não permitem fixar uma classificação única sem atender ao critério de medição.
As nascentes de maior altitude ficam nas encostas dos montes Ruwenzori, no Uganda. As lendárias Montanhas da Lua, mencionadas pelo astrónomo grego Ptolomeu, têm sido relacionadas com esta cordilheira.

A nascente mais meridional fica no Burundi, numa das cabeceiras do rio Ruvyironza, afluente do Cagera. Em 1937, Burkhart Waldecker mandou erguer um monumento nas proximidades de Rutovu, junto do monte Kikizi.
O lago Vitória, partilhado pela Tanzânia, Uganda e Quénia, é por vezes chamado nascente do Nilo, porque dele sai o Nilo Branco em Jinja, no Uganda. A maior parte da água do lago, porém, vem da chuva que cai diretamente sobre a sua superfície, o que também levou à proposta de situar a origem do rio nas nuvens sobre o lago.
A nascente do Nilo Azul situa-se perto da localidade de Gish Abay, a sul do lago Tana.
A bacia hidrográfica do Nilo reúne os terrenos cujas águas chegam ao rio e ocupa 2.927.843 km², cerca de 10% do continente africano. Abrange territórios de onze países: Burundi, República Democrática do Congo, Egito, Eritreia, Etiópia, Quénia, Ruanda, Sudão do Sul, Sudão, Tanzânia e Uganda. Os desertos áridos e arenosos do norte dão lugar a planícies pantanosas na parte central e a montanhas florestadas e chuvosas no sul.

A bacia pode dividir-se em sete regiões. Cinco acompanham o curso mais longo do rio, de montante para jusante: os Grandes Lagos Africanos, o Nilo da Montanha, o Nilo Branco, o Nilo principal e o delta do Nilo. As outras duas correspondem às bacias dos afluentes Nilo Azul e Atbara.
A região dos Grandes Lagos Africanos contém a nascente mais distante e lagos que pertencem ao sistema do Nilo, entre eles o Vitória, o Alberto, o Jorge e o Eduardo. A água da nascente no Parque Nacional de Nyungwe chega ao Rukarara e depois ao Cagera, que desagua no lago Vitória. Embora seja o segundo maior lago de água doce do mundo em área, o Vitória tem uma profundidade média de apenas 40 m. O nome Nilo começa a ser usado na sua saída pelo lado norte, e o trecho até ao lago Alberto chama-se Nilo Vitória.
As quedas de Ripon e as quedas de Owen, que se encontravam na saída do lago Vitória, ficaram submersas com a construção da barragem de Nalubaale. Depois das quedas de Bujagali e da central hidroelétrica de Bujagali, o Nilo Vitória entra no lago Kyoga. Ao sair, recebe o rio Kafu, passa pelas quedas de Murchison e chega ao lago Alberto, entre montanhas. Sai pela margem norte com o nome de Nilo Alberto, num trecho relativamente plano e largo, navegável por barcos a vapor.
O Nilo da Montanha, Bahr al Jabal em árabe, estende-se desde as proximidades de Nimule até ao lago No, inteiramente no Sudão do Sul. Depois de Nimule, o rio atravessa os rápidos de Fula e chega a Juba, capital do país. Passa por Bor e entra no Sude, uma extensa planície pantanosa. O declive é de apenas 1 m por 13.000 m na horizontal, o que abranda a corrente e alarga o rio. A vegetação abundante, com ciperáceas, papiro e jacinto-de-água, uma espécie invasora, obstrui os canais e dificulta a navegação. No limite norte do Sude, o rio atravessa o lago No, onde recebe de oeste o Bahr el Ghazal, cujo nome árabe significa "rio da gazela".
A bacia do Bahr el Ghazal ocupa cerca de 860.000 km² e recebe bastante chuva, mas fornece pouca água ao Nilo em comparação com outros afluentes. A sua bacia contém os lagos Kundi e Keilak. Entre os seus afluentes está o Jur, que passa por Wau, no Sudão do Sul.

A região do Nilo Branco corresponde a cerca de 800 km de rio entre as proximidades de Malacal e Cartum, capital do Sudão, onde recebe o Nilo Azul. Neste trecho, o rio é largo, calmo e pouco profundo, com pântanos nas duas margens e perdas de água por evaporação.
Na confluência, a água do Nilo Branco é mais clara devido à presença de quartzo e feldspato nos sedimentos. O Nilo Azul transporta argilas escuras provenientes das rochas basálticas da Etiópia.
O rio Sobate junta-se ao Nilo Branco perto de Malacal, a jusante da confluência com o Bahr el Ghazal e a montante da confluência com o Nilo Azul. A sua bacia contém os pântanos de Machar e ocupa cerca de 225.000 km². As cheias do Sobate ocorrem entre julho e dezembro.
O Nilo principal estende-se de Cartum ao Cairo, capital do Egito. Fora das cheias, tem uma largura relativamente uniforme, de cerca de 500 m, e uma profundidade máxima próxima de 10 m. Pouco depois de Cartum, atravessa a Reserva de Caça de Sabaloka e rápidos fortes, intransponíveis por embarcações. É a sexta das seis cataratas do Nilo, a que fica mais a montante. Depois de receber o Atbara, o rio descreve uma grande curva em S para oeste. Nesse arco encontram-se as cataratas quinta, quarta, terceira e segunda, que interrompem a navegação, embora alguns trechos entre elas sejam navegáveis. As fortalezas de Semna e Kumma faziam parte da linha de fortificações que Sesóstris III estabeleceu na região da segunda catarata.
Nos troços em que afloram granito e outras rochas resistentes, o leito estreita-se entre blocos e ilhas rochosas, formando os rápidos das cataratas. Entre Cartum e Uádi Halfa, quase todas se encontram sobre o embasamento cristalino. O declive varia ao longo do percurso, com descidas mais fortes entre a quinta e a quarta cataratas e entre a terceira e a segunda.
O rio entra depois no lago Nasser, a albufeira criada pela Grande Barragem de Assuão, que inundou mais de 480 km do seu curso. A antiga barragem de Assuão, mais pequena, fica a jusante, perto da primeira catarata, onde o rio passa entre ilhas de granito. Desde as barragens até ao Cairo, o Nilo percorre cerca de 800 km por um planalto calcário, ladeado por terrenos agrícolas irrigados.

O delta do Nilo é uma planície triangular de cerca de 22.000 km² entre o Cairo e o Mediterrâneo. O rio divide-se em dois grandes braços, o de Roseta e o de Damieta. Heródoto enumerou sete bocas do rio, cinco naturais e duas escavadas. A canalização e outras modificações do delta reduziram o número de braços.
O volume total dos depósitos do delta, contando a parte submersa, é de cerca de 150.000 km³. A acumulação de sedimentos transportados desde montante formou o delta ao longo de milhões de anos. Desde a conclusão da Grande Barragem de Assuão, em 1970, a retenção de sedimentos na albufeira reduziu a chegada de material novo ao delta. A erosão pelas correntes do Mediterrâneo, antes compensada por esses depósitos, passou a reduzir a sua área.

O curso mais longo do Nilo passa pelo Nilo Branco, mas recebe também a água das bacias do Nilo Azul e do Atbara, as duas outras regiões hidrográficas da bacia.
O Nilo Azul nasce nas colinas da Etiópia, num ribeiro chamado Abay, perto de Gish Abay. Em amárico, Gish significa "nascente", e Abay é o nome do curso de água. O Gish Abay desagua no lago Tana, grande e pouco profundo. Na única saída do lago, o rio passa a chamar-se Nilo Azul. Segue primeiro para sul, depois para oeste por uma garganta com cerca de 2 km de profundidade e, por fim, para norte, entrando no Sudão, onde se junta ao Nilo Branco em Cartum.
O Nilo Azul alimenta centrais hidroelétricas, entre elas o empreendimento de Tis Abay, nas quedas do Nilo Azul, a Grande Barragem do Renascimento Etíope, perto da fronteira entre a Etiópia e o Sudão, a barragem de Roseires, junto de Ad-Damazin, e a barragem de Sennar. A sua bacia tem mais de 306.000 km².
O Atbara nasce no norte da Etiópia e junta-se ao Nilo cerca de 320 km a norte de Cartum. A sua bacia ocupa mais de 204.000 km². O caudal aumenta durante e depois das monções na Etiópia, no verão e no outono, mas o rio pode secar no inverno e na primavera. Apesar desse escoamento intermitente, fornece mais de 10% do caudal anual do Nilo. Ao longo do Atbara e dos seus afluentes encontram-se a barragem de Khashm el-Girba, o complexo de barragens do Alto Atbara e Setit e a barragem do Tekezé, no rio Tekezé. Depois de receber o Atbara, o Nilo atravessa as regiões áridas do Sudão e do Egito sem receber outro grande afluente, levando para norte a água das partes mais húmidas da bacia.
Rio Nilo |
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| Esquema sem escala. [S3]: estações dos quadros de balanço hídrico. Topo: montante/sul. Base: jusante/norte. |

Embora o Nilo figure entre os rios mais extensos do mundo, o seu caudal de cerca de 87 km3 por ano é pequeno em comparação com o de outros rios de grande porte. Esse volume equivale a cerca de 1% do caudal do Amazonas, 6% do Congo e 12% do Yangtzé.
Do volume anual recebido pelo curso principal do Nilo, 54% vêm do Nilo Azul, 32% do Nilo Branco, contando as águas dos afluentes Bahr el Ghazal e Sobat, e 14% do Atbara. As terras altas das bacias do Nilo Branco e do Nilo Azul recebem chuvas sazonais, mas o caudal do Nilo Branco na confluência é muito mais regular. Os seus lagos e áreas alagadas atenuam as oscilações causadas pelas estações chuvosas. Na passagem pelos pântanos do Sude, cerca de metade da água do Nilo Branco perde-se por evaporação.
O Nilo Azul tem cheias entre julho e outubro, com as chuvas da monção de verão, e o seu caudal muda bastante ao longo do ano. No verão, o volume que leva à confluência é tão grande que represa as águas do Nilo Branco. Durante as cheias de verão, cerca de 70% da água recebida pelo curso principal vêm do Nilo Azul, 20% do Atbara e 10% do Nilo Branco. No auge da cheia, o lago Nasser recebe cerca de 0,71 km3 por dia, aproximadamente três vezes a média diária anual de 0,23 km3.
Antes da construção das barragens, o caudal do Nilo no Egito era maior no verão e no outono e menor no inverno e na primavera. A Barragem Alta de Assuão criou um reservatório com capacidade para armazenar cerca de dois anos de caudal do rio e tornou mais regular o escoamento a jusante ao longo do ano.
Os sedimentos que o Nilo leva rio abaixo podem ser partículas suspensas na água ou material que rola ou salta pelo leito. O Atbara e o Nilo Azul, que nascem na Etiópia, fornecem 97% dos sedimentos transportados pelo rio. A erosão e o transporte de silte ocorrem na estação chuvosa etíope, quando chove mais no Planalto da Etiópia. No restante do ano, os rios que levam essas águas ao Nilo têm um caudal menor. O solo do delta do Nilo formou-se a partir de rochas da Etiópia. Nos últimos 30 milhões de anos, cerca de 102.000 km3 de rocha foram erodidos nas cabeceiras etíopes do rio, volume da mesma ordem que os 150.000 km3 de sedimentos do delta, contando a sua parte submersa.
Nas barragens de Sennar e Roseires, no Nilo Azul, e de Khashm el Girba, no Atbara, a acumulação de sedimentos reduziu muito a capacidade dos reservatórios desde a sua construção. O material levado pelo rio deposita-se no fundo dos reservatórios e ocupa parte do espaço que armazenaria água.
Os valores anuais de transporte de sedimentos abaixo são anteriores ao enchimento do reservatório da Grande Barragem do Renascimento Etíope, que altera a quantidade de material levada rio abaixo. As percentagens de carga de fundo correspondem à sua parcela no total de sedimentos transportados, somando o material do leito ao material em suspensão.

Ao descer o rio, a água recebida em certos troços aumenta o caudal, enquanto as perdas noutros troços o reduzem. Uma área é fornecedora quando acrescenta água ao sistema e consumidora quando retira água dele. Essa distinção é usada na hidrologia, no estudo dos movimentos da água, e nas negociações sobre a sua divisão.
O Planalto da Etiópia e a região dos Grandes Lagos Africanos, a montante, fornecem água à bacia do Nilo. As áreas consumidoras ficam geralmente a jusante, no Sudão do Sul, no Sudão e no Egito.
No balanço hídrico, a água que entra numa região é contabilizada junto com a que sai e a que fica armazenada. Para determinar se a área fornece ou consome água, são medidos ou estimados os volumes de precipitação, evaporação, transpiração, recarga das águas subterrâneas, enchimento dos lagos e escoamento fluvial líquido. Em termos gerais, o saldo entre precipitação e evapotranspiração é positivo nas áreas fornecedoras e negativo nas consumidoras.
A tabela reúne estimativas de balanço hídrico para a parte de cada país que fica dentro da bacia do Nilo. As médias de precipitação e evapotranspiração correspondem a 2000–2012. O escoamento, R, provém de campos climatológicos que combinam medições de caudal com um modelo de balanço hídrico. As séries históricas de caudal nas estações, Q, abrangem períodos diferentes entre 1869 e 1984.
| Fornecimento | O país fornece água à bacia em volume que supera as incertezas das medições. |
| Consumo | O país consome água da bacia em volume que supera as incertezas das medições. |
| Equilíbrio | O fornecimento e o consumo de água do país equilibram-se dentro das incertezas das medições. |
Os valores por bacia são apresentados em volumes anuais, em geral em km3. Parte dos dados também pode ser expressa como uma lâmina de água equivalente, em milímetros por ano sobre toda a área da bacia.
| País | Fornecimento/consumo Saldo em km3 |
Área na bacia em km2 |
Precipitação em km3 |
Evapotranspiração em km3 |
Escoamento em km3 |
|---|---|---|---|---|---|
| Burundi | Equilíbrio (2) | 13.240 | 14 | 13 | 3 |
| República Democrática do Congo | Equilíbrio (0) | 19.919 | 23 | 23 | 0 |
| Egito | Consumo (−39) | 235.108 | 4 | 44 | 0 |
| Eritreia | Equilíbrio (2) | 24.427 | 14 | 12 | 0 |
| Etiópia | Fornecimento (164) | 363.775 | 459 | 295 | 138 |
| Quénia | Fornecimento (27) | 49.513 | 76 | 49 | 23 |
| Ruanda | Equilíbrio (1) | 20.676 | 21 | 20 | 4 |
| Sudão do Sul | Consumo (−146) | 617.256 | 612 | 757 | 92 |
| Sudão | Consumo (−81) | 1.226.660 | 364 | 445 | 23 |
| Tanzânia | Fornecimento (38) | 120.506 | 160 | 122 | 18 |
| Uganda | Fornecimento (25) | 236.763 | 301 | 276 | 22 |
| Total | 2.927.843 | 2.048 | 2.056 | 324 |

A divisão geográfica, sem seguir as fronteiras nacionais, separa a bacia do Nilo em doze sub-bacias cujos balanços hídricos foram calculados com dados de doze estações de medição. Cada sub-bacia recebe o nome da estação que fica na sua extremidade a jusante. A estação das Cataratas de Murchison, de número 2, fica a jusante da estação da saída do lago Vitória, de número 1. A área entre elas é chamada de sub-bacia das Cataratas de Murchison.
| Estação na extremidade a jusante da sub-bacia |
Fornecimento/consumo Saldo em km3 |
Área da sub-bacia em km2 |
Precipitação em km3 |
Evapotranspiração em km3 |
Escoamento em km3 |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 Saída do lago Vitória | Fornecimento (74) | 264.259 | 353 | 279 | 57 |
| 2 Cataratas de Murchison | Fornecimento (15) | 85.513 | 109 | 94 | 9 |
| 3 Mongalla | Equilíbrio (1) | 131.691 | 159 | 158 | 5 |
| 4 Malacal | Consumo (−159) | 925.160 | 798 | 957 | 150 |
| 5 Cartum | Consumo (−40) | 257.130 | 134 | 174 | 14 |
| 6 Barragem de Roseires | Fornecimento (105) | 188.296 | 246 | 142 | 70 |
| 7 Cartum | Equilíbrio (10) | 118.651 | 81 | 72 | 9 |
| 8 Khashm el Girba | Fornecimento (30) | 100.318 | 95 | 66 | 10 |
| 9 Foz do rio Atbara | Equilíbrio (−3) | 104.051 | 22 | 25 | 1 |
| 10 Dongola | Equilíbrio (−11) | 390.180 | 34 | 45 | 0 |
| 11 Barragem de Assuão | Consumo (−11) | 188.011 | 2 | 13 | 0 |
| 12 El Ekhsase, perto do Cairo | Consumo (−10) | 145.293 | 3 | 12 | 0 |
Há milhares de anos, os egípcios medem o nível do Nilo com nilómetros para preparar a irrigação e proteger-se das cheias. Uma cheia adequada elevava a água em cerca de 6 m acima do nível fora da estação de inundação. Acima disso, a enchente podia destruir comunidades ribeirinhas. Abaixo desse nível, o silte fértil não chegava às terras cultivadas. Os registos históricos dos níveis máximos e mínimos do Nilo remontam a 622 e prolongam-se até 1921. O nilómetro foi transferido para a Ilha de Roda em 715, e o edifício que ali se conserva foi mandado construir em 861 pelo califa abássida al-Mutawakkil. As medições também eram usadas para calcular os impostos sobre as terras agrícolas. A instalação de medidores modernos do nível do rio começou na década de 1860. A partir de 1900, foram instalados instrumentos que também mediam a corrente, permitindo calcular o caudal com mais precisão.
A bacia do Nilo tem mais de 800 espécies de peixes. No próprio rio, há 128 espécies de 27 famílias. A maioria pertence às famílias Cichlidae, dos ciclídeos, Cyprinidae, das carpas, Mormyridae, dos peixes-elefante, e Mochokidae, dos peixes-gato. Os Grandes Lagos Africanos têm espécies de ciclídeos.
Hipopótamos, crocodilos-do-nilo e búfalos-africanos entram nas águas do rio ou vivem nelas, tal como moluscos, caranguejos e camarões. Nas margens vivem elefantes, antílopes e girafas. Os caracóis dos lagos da bacia podem transmitir vermes parasitas do sangue que causam esquistossomose em pessoas e animais de criação.
Entre as aves que vivem no Nilo ou nas proximidades estão garças, guarda-rios, águias-pesqueiras, cegonhas e bicos-de-sapato. O ganso-de-asa-azul é endémico da bacia, enquanto a galinha-d'água e a águia-pesqueira têm distribuição cosmopolita. Espécies de garças, patos, gansos e garças-brancas permanecem na bacia durante o ano inteiro, e outras 14 espécies de patos e gansos chegam apenas para passar o inverno. A grande maioria das gaivotas e andorinhas-do-mar da bacia é migratória. Nos últimos mil anos, a ocupação humana dos seus habitats reduziu as áreas de distribuição de algumas espécies.

Na região dos Grandes Lagos Africanos, crescem nenúfares, papiros e jacintos-de-água. O jacinto-de-água é uma espécie invasora que prejudicou as populações de plantas e animais nativos do lago Kyoga. Nos pântanos do Sude, Vossia, Echinochloa stagnina, tabuas, ambatch e papiros crescem nas áreas de inundação profunda. Nas zonas menos alagadas, crescem Oryza, Echinochloa pyramidalis e Phragmites.
A água do Nilo foi durante muito tempo adequada para beber, mas a sua qualidade piorou em certas áreas no final do século XX. A poluição é mais intensa no lago Tana, perto das grandes cidades e no delta.
Num inventário de indústrias usado no Plano Diretor da Água de 1981, 36 instalações despejavam resíduos diretamente no Nilo e nos seus braços e 41 nos canais de irrigação. A poluição provém também de resíduos agrícolas e domésticos. Os setores abrangidos eram o químico, elétrico, de engenharia, de fertilizantes, alimentar, metalúrgico, mineiro, de óleos e sabões, de pasta de papel e papel, têxtil e da madeira. Mais de 90 drenos agrícolas despejavam águas no sistema do Nilo, alguns deles também com efluentes industriais.
Entre Assuão e o Mediterrâneo, onde a poluição do rio é mais intensa, as atividades humanas, o escoamento das terras agrícolas e os resíduos industriais acrescentam poluentes à água. As concentrações aumentam a jusante à medida que se somam os despejos. No delta, a reduzida renovação da água favorece a acumulação de poluentes, agravada pelo relevo plano e pelo assoreamento do leito.
No final do século XX, o lago Vitória sofreu um aumento da eutrofização, a acumulação de nutrientes que favorece o crescimento de plantas e algas e pode esgotar o oxigénio da água. As atividades humanas, a desflorestação e o uso inadequado dos solos agrícolas causaram esse aumento, que provocou florações de algas e a rápida proliferação do jacinto-de-água, alterando o ecossistema.

Entre 15.000 e 5.000 anos atrás, a bacia do Nilo teve um clima relativamente húmido, que permitiu o início da agricultura em grande escala há cerca de 5.000 anos. A expansão das terras agrícolas aumentou a desflorestação e a erosão dos solos. As condições mais secas que começaram em África há cerca de 4.000 anos agravaram esses problemas e provocaram fome, perturbações sociais e degradação ambiental.
O íbis-sagrado, usado em cerimónias do Antigo Egito nas quais milhões de aves foram sacrificadas, desapareceu do país no final do século XIX, embora seja comum no centro e no sul de África. A atividade humana levou à extinção local de espécies na bacia do Nilo. No Egito, o crescimento da população e a construção da Barragem Alta de Assuão levaram ao desaparecimento ou à quase extinção de plantas e animais.
A perca-do-nilo é nativa de rios e lagos africanos, incluindo o Congo e o Nilo a jusante das Cataratas de Murchison, mas não do lago Vitória, onde foi introduzida clandestinamente na década de 1950 para aumentar as capturas de peixe. A sua proliferação causou o declínio dos ciclídeos haplocromíneos do lago, um conjunto de mais de 500 espécies endémicas. A predação e a competição por alimento levaram à redução das populações e ao possível desaparecimento de 200 ou mais dessas espécies. O cientista Les Kaufman chamou ao episódio a primeira extinção em massa de vertebrados que os cientistas puderam observar. A necessidade de lenha para processar o peixe aumentou também a desflorestação.
Os lagos periféricos do lago Kyoga podem ser usados na conservação de ciclídeos haplocromíneos, pois têm pelo menos 60 espécies desse grupo e ainda não foram invadidos pela perca-do-nilo.
O clima da bacia do Nilo passa de muito seco a norte a mais húmido a sul, com nove regiões distintas na distribuição das chuvas. No Egito e no norte do Sudão, o clima é muito seco, embora a costa mediterrânica egípcia receba alguma chuva no inverno. No centro do Sudão e na Etiópia, as chuvas concentram-se no verão. Perto do lago Vitória, os dois máximos anuais ocorrem por volta de abril e novembro. A maior parte da chuva da bacia vem da monção de verão.
O aumento da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera altera o clima da bacia do Nilo. Projeções baseadas nos cenários de emissões B1 e A2 apontavam para uma subida média de cerca de 2 a 4 °C na bacia em 2090–2099. Simulações com o modelo regional ALADIN-Climate projetam um aumento das secas na metade norte da região que abrange o Norte de África e o Médio Oriente em 2071–2100, com diferenças entre os cenários de emissões e os índices usados. No delta do Nilo, a subida do nível do mar e a redução da chegada de sedimentos causada pelas barragens aumentam o risco de perda de terras. Num modelo publicado em 2009, uma subida de 1 m no nível do mar poderia inundar cerca de um terço da área do delta.

Ao longo de milhões de anos, os movimentos tectónicos e as mudanças ambientais deslocaram, separaram e uniram os rios mais antigos dos quais se formou o Nilo, com percursos muito diferentes dos atuais.
Na hipótese de Claudio Faccenna e colaboradores, a drenagem entre o planalto etíope e o Mediterrâneo manteve um percurso semelhante durante cerca de 30 milhões de anos, apesar de alterações locais dos canais. A convecção do manto sustentou a elevação das terras altas etíopes e o abatimento do norte do Egito, mantendo o declive que leva a água para norte. Outra reconstrução situa a união dos sistemas de drenagem etíope e da África Oriental ao rio que desaguava no Mediterrâneo no Pleistoceno, há cerca de 2,5 milhões de anos.
Num modelo de cinco períodos, a ligação permanente dos Grandes Lagos ao Nilo Branco estabeleceu-se há cerca de 15.000 anos, na etapa final da formação do sistema.

O fóssil Lucy, da espécie Australopithecus afarensis, foi encontrado pouco a leste do limite da bacia do Nilo, perto da qual viveram antepassados da espécie humana. A garganta de Olduvai, onde foram encontrados os primeiros fósseis de Homo habilis, fica pouco a sul da bacia. Dentro dela, o sítio arqueológico de Nyayanga, na margem oriental do lago Vitória, tem ferramentas olduvaienses datadas entre 2,6 e 3,0 milhões de anos.
Perto da cidade egípcia de Qurta, nas margens do Nilo, foram gravados petróglifos nas rochas, com figuras de auroques, aves, hipopotamídeos, gazelas, búbalos e peixes. A datação dos sedimentos que cobriam algumas dessas gravuras deu-lhes uma idade mínima de cerca de 15 mil anos. As comunidades do vale incorporaram ovelhas, cabras e possivelmente bovinos domesticados no Próximo Oriente. Judith Bunbury e os seus coautores também apresentam a hipótese de uma origem africana para a domesticação desses animais.
O leste do Saara, que abrange o Egito e o Sudão, era muito mais húmido durante o período húmido africano, de cerca de 10 mil a 5 mil anos atrás. Nesse intervalo, formaram-se sociedades pastoris, mas a aridez crescente, por volta de 3 900 a.C., obrigou as populações a migrar para o vale do Nilo em busca de sustento. Dessa migração nasceram as culturas núbias do Sudão e a civilização do Egito Antigo.

As águas do Nilo irrigavam as plantações que alimentavam os egípcios, e as secas podiam destruir as colheitas e provocar fome e mortes. Para irrigar os campos, prever as cheias e cobrar impostos, os egípcios desenvolveram conhecimentos matemáticos e formas de administração. A necessidade de compreender o rio e as suas cheias também levou ao desenvolvimento da previsão do tempo e da astronomia.
O Egito sofreu fome em 43 e 42 a.C. Séneca escreveu cerca de um século depois que o Nilo não transbordara nesses dois anos. A erupção do vulcão Okmok, no Alasca, no início de 43 a.C., poderá ter agravado essas condições. Nas simulações climáticas publicadas em 2020, a chuva nas cabeceiras do Nilo Azul diminuiu no inverno, na primavera e sobretudo no outono, mas não no verão.
O calendário egípcio antigo seguia o ciclo de cheias do Nilo, com três estações de quatro meses, cada mês com trinta dias. Akhet, que significa "inundação", era a estação em que o rio transbordava e deixava uma nova camada de solo fértil. Peret, "crescimento", era a estação de cultivo, e Shemu, "colheita", era a estação seca em que se colhia. Na língua egípcia, as direções tomavam como referência uma pessoa voltada para a nascente do rio. Uma mesma palavra podia significar acima e sul, outra significava esquerda e leste, e uma terceira, direita e oeste. A chuva às vezes era chamada de "Nilo no céu".
O Egito Antigo dividia-se entre o Baixo Egito, no delta do Nilo, e o Alto Egito, no vale do rio, aproximadamente entre Gizé e a primeira catarata. As mudanças constantes dos cursos de água no Baixo Egito obrigavam a transferir rotas de transporte, povoações e divisões administrativas, dando a essa região características diferentes das do Alto Egito. Cada uma tinha uma planta do Nilo como emblema, o papiro para o Baixo Egito e uma ciperácea para o Alto Egito.
Entre Lixte e Gizé, o antigo braço Ahramat corria a oeste do leito atual, junto de 31 pirâmides construídas entre o Império Antigo e o Segundo Período Intermédio. O seu traçado estendia-se por cerca de 64 km e ficou soterrado sob campos agrícolas e areia. Muitas dessas pirâmides têm caminhos de acesso que terminam em templos junto do antigo braço. Esses templos poderão ter funcionado como portos, permitindo o transporte de materiais e trabalhadores por água até aos locais de construção.
A fronteira sul do Egito Antigo ficava, de maneira informal, na primeira catarata do rio, perto da ilha Elefantina, porque as corredeiras dificultavam o transporte para além desse ponto. Os egípcios conheciam o curso do Nilo até à sexta catarata, na região de Cartum, mas desconheciam o seu percurso e a sua nascente mais acima. Por volta de 2 600 a.C., construíram a mais antiga barragem de grande porte de que se tem conhecimento, chamada Sadd el-Kafara, na tentativa de controlar as inundações.

Na Núbia, desenvolveram-se culturas nas margens do Nilo, no território sudanês, a partir do fim do período húmido africano. Essas culturas núbias desenvolveram-se em paralelo à civilização egípcia, a norte. As relações de comércio e guerra com o Egito já existiam no início do período dinástico, por volta de 3 100 a.C., e continuaram durante o Antigo Império do Egito, iniciado por volta de 2 650 a.C. Uma das primeiras civilizações núbias foi a cultura de Querma, que existiu de cerca de 2 600 a.C. a 1 500 a.C. Os seus habitantes viviam inicialmente do pastoreio, sobretudo de bovinos, mas passaram gradualmente a dedicar-se à agricultura com a secagem do Saara no fim do período húmido africano. Por volta de 780 a.C., o Império de Cuxe surgiu nas margens do Nilo e do seu afluente Atbara. Os faraós negros conquistaram grande parte do Egito. O reino de Cuxe teve como centros de governo Napata e, mais tarde, Meroé, cidades nas margens do Nilo. Após o surgimento do cristianismo, formaram-se nas margens do Nilo reinos cristãos núbios, entre eles Nobácia, Macúria e Alódia.
No território da Eritreia e do norte da Etiópia, o Reino de Axum existiu do século I a 960 d.C. O reino usava principalmente o mar Vermelho para o transporte, mas também abrangia o Atbara e o Nilo Azul. O Sultanato de Funje governou, de 1504 a 1821, uma área aproximadamente correspondente ao Sudão. O Império Etíope, que durou de 1270 a 1974, ocupava terras da Etiópia e da Eritreia.
Os povos nilóticos tiveram origem perto do Nilo, no território do Sudão do Sul, e migraram para o sul e o leste, chegando ao Uganda e à Quénia. Entre esses povos estão os dincas e os nueres, os dois maiores grupos étnicos sul-sudaneses, que são criadores de gado seminómadas. No pastoreio nómada, deslocam os seus rebanhos conforme a estação e as cheias do Nilo.

O Império Romano, que governou o Egito por séculos, importava grandes quantidades de cereais cultivados com as águas das cheias do Nilo, que sustentaram a sua expansão. No início do século II, o imperador Trajano mandou abrir um canal entre o Nilo e o mar Vermelho. Entre 945 e 977 d.C., o caudal do Nilo foi inferior à média. As perdas de colheitas agravaram a instabilidade política que antecedeu a conquista do Egito pelo Califado Fatímida, em 969. Os fatímidas, nos séculos X e XI, o Sultanato Mameluco, do século XIII ao XVI, e o Egito otomano, do século XVI ao XIX, construíram e mantiveram canais. Esses canais eram usados na agricultura, no comércio e para fins militares. Apesar de dominarem a construção de canais, as civilizações egípcias só conseguiram construir barragens e reservatórios no Nilo no século XIX, quando o algodão irrigado com as suas águas passou a ser uma das principais culturas comerciais do Egito. A construção dessas primeiras barragens começou no governo de Maomé Ali, de 1805 a 1848. Eram pequenas obras no delta do Nilo e perto do Cairo, que prolongavam a estação de cultivo. Maomé Ali também construiu canais, entre eles o de Mahmudiya, iniciado em 1818. Ismail Paxá, vice-rei do Egito de 1863 a 1879, construiu o canal de Ibrahimiya, concluído em 1873, que corre paralelo ao Nilo e é usado na irrigação.

Desde a Antiguidade grega, europeus procuravam saber onde ficava a nascente do Nilo e de onde vinham as suas cheias. O historiador grego Heródoto visitou o Egito em 457 a.C. e subiu o Nilo até Assuão. Ele não compreendia por que as cheias começavam no verão, quando não chovia no Egito. Desde Eratóstenes, geógrafos da Europa, da África e da Arábia propunham que o rio nascesse num conjunto de lagos na África central. Mapas antigos da África mostravam o Nilo a nascer em grandes lagos no interior do continente, mas, até ao século XVII, todos se baseavam em conjecturas, sem conhecimento científico seguro.
Em 25 e 24 a.C., Estrabão percorreu o Nilo com Élio Galo, então prefeito do Egito, até Siene, a atual Assuão. No livro XVII da sua Geografia, retomou o percurso do rio traçado por Eratóstenes, com as suas voltas e os afluentes que passavam pela região de Meroé. Durante o reinado de Nero, dois centuriões foram enviados à procura da nascente do Nilo. Séneca, que ouviu o relato dos soldados, contou que tinham chegado a pântanos onde a vegetação impedia a passagem a pé e só deixava navegar pequenos barcos para uma pessoa. Esses pântanos podem ter sido o Sudd.
Marino de Tiro recolheu o relato do mercador Diógenes, que dizia ter chegado aos lagos de onde sairia o Nilo depois de uma viagem de 25 dias pela costa oriental africana, desviado da sua rota por ventos do norte. No século II, Ptolomeu aproveitou as informações de Marino na sua Geografia, na qual os lagos de origem do Nilo recebiam água das Montanhas da Lua.
Ao percorrer o Alto Egito em 1326, Ibne Batuta observou os canais que levavam a água das cheias aos campos e as povoações que se sucediam nas margens do Nilo.
Com o interesse português pela Etiópia, o missionário jesuíta Pero Pais visitou Gish Abay, a nascente do Nilo Azul, no início do século XVII e escreveu a História da Etiópia, sobre os anos que passou no país. Os seus escritos não dão uma data exata para a visita a Gish Abay. Exploradores europeus que chegaram à Etiópia nos séculos XVII e XVIII, entre eles Jerónimo Lobo e James Bruce, divulgaram os escritos de Pero e estimaram que ele tivesse visitado a nascente entre 1613 e 1618.
Entre 1839 e 1842, o oficial da marinha egípcia Muhammad Selim, conhecido como Selim Bimbachi, comandou a frota de três expedições enviadas por Maomé Ali à procura das nascentes do Nilo Branco. A primeira partiu de Cartum. Nas outras duas, a direção científica coube ao engenheiro Joseph Pons d'Arnaud. As viagens não alcançaram as nascentes, mas trouxeram medições e observações do curso superior do rio.
O lago Vitória só foi confirmado como uma das principais origens das águas do Nilo Branco 260 anos depois de Gish Abay ter sido reconhecida como a nascente do Nilo Azul, pois foi mais difícil localizar a nascente do Nilo Branco. Em junho de 1857, Richard Francis Burton e John Hanning Speke partiram numa expedição que chegou ao lago Tanganica em fevereiro de 1858. No regresso, John Speke separou-se de Richard Burton e foi o primeiro europeu a ver o lago Vitória, que julgou ser a nascente do Nilo. Em 1860, a Royal Geographical Society financiou outra expedição, na qual John Speke viajou com James Augustus Grant. A 28 de julho de 1862, John Speke chegou à saída do Nilo pelo norte do lago Vitória, nas quedas de Ripon. James Grant estava doente e não o acompanhou nesse trecho. Como John Speke não seguiu o rio desde o lago até ao Sudão, houve quem duvidasse da sua conclusão.
No início do século XX, Richard Kandt propôs que a nascente mais distante do Nilo Branco fosse um afluente do rio Kagera na floresta de Nyungwe. O Kagera desemboca no lago Vitória. Em 1969, investigadores da Universidade de Waseda apontaram um afluente específico do Kagera como a nascente. Em 2006, um grupo de aventureiros reencontrou o local de 1969 e fixou uma grande placa numa árvore próxima. Uma análise de imagens de satélite publicada em 2009 situou a nascente numa fonte a alguns quilómetros do ponto escolhido em 1969 e 2006.
Ao atravessar fronteiras internacionais, o Nilo é um rio transfronteiriço cujas águas são objeto de tensões políticas.
Após o início do domínio colonial britânico no Egito, em 1882, os britânicos iniciaram obras hidráulicas para aumentar a produção de algodão e abastecer a população egípcia, que crescia rapidamente. A primeira grande barragem construída no Nilo foi a Barragem Baixa de Assuão, concluída em 1902 e elevada em 1912 e 1933. Sob o regime colonial também foram construídas a barragem de Sennar, no Nilo Azul, no Sudão, entre 1914 e 1925, e a barragem de Jebel Aulia, perto de Cartum, concluída em 1937. As barragens do século XX foram construídas principalmente para irrigação, com a geração de energia hidroelétrica como objetivo secundário.
O Egito e o Reino Unido firmaram em 1929 um acordo sobre as águas do Nilo no Egito e no Sudão Anglo-Egípcio que destinava aos dois territórios, respetivamente, 48 mil milhões e 4 mil milhões de metros cúbicos de água do Nilo por ano. O acordo facilitava a medição do caudal por técnicos egípcios no Sudão e exigia o consentimento do Egito para obras no Sudão e nos territórios sob administração britânica que pudessem reduzir ou alterar a chegada de água ao país. As obras promovidas pelo Egito deviam ser previamente acordadas com as autoridades locais para proteger os interesses desses territórios.

O Sudão tornou-se independente em 1956, ano em que as forças britânicas e francesas concluíram a retirada do Egito. Em 1959, os dois países atualizaram o acordo de partilha de água de 1929, passando a destinar 55,5 mil milhões de metros cúbicos ao Egito e 18,5 mil milhões ao Sudão. Os países a montante ficaram de fora do acordo de 1959, entre eles a Etiópia, de onde vêm mais de dois terços da água do Nilo.
Ao abrigo do acordo de 1959, que permitia a construção de barragens pelo Egito e pelo Sudão, o Egito construiu a Grande Barragem de Assuão, concluída em 1970. O Sudão construiu a barragem de Khashm el-Girba, em 1964, a barragem de Roseires, em 1966, a barragem de Merowe, em 2009, e o complexo de barragens do Alto Atbara e Setit, em 2017.
Em 1960, o Egito começou a construir a Grande Barragem de Assuão, cujo reservatório armazena aproximadamente o equivalente a dois anos de caudal do Nilo. A barragem transformou o trecho a jusante, entre a obra e o mar, num grande canal de irrigação. Com ela, aumentaram a disponibilidade de água para irrigação e o fornecimento de eletricidade para a indústria egípcia. Também houve uma deterioração da qualidade da água, perda de fertilidade do solo pela interrupção dos depósitos de sedimentos das cheias, aumento da salinidade do solo, esquistossomose, perda de habitats da flora e da fauna nativas e deslocação de núbios. A construção da barragem teve apoio financeiro e técnico da União Soviética.
O reservatório da Grande Barragem de Assuão inundou uma grande área do vale do Nilo e teria submerso monumentos antigos. Uma campanha internacional conseguiu salvar parte deles, entre os quais os templos de Abu Simbel. A barragem também obrigou à transferência de muitos núbios que viviam no vale inundado. Eles foram retirados das terras dos seus antepassados, e muitos tiveram de mudar-se para cidades do Egito e do Sudão.
No século XX, o Egito e o Sudão, ao norte, tinham mais poder político do que os restantes países da bacia do Nilo, ao sul. Depois de os dois países terem firmado o acordo de 1959, países a montante, entre eles Quénia, Tanzânia, Uganda e Etiópia, contestaram os seus termos e afirmaram que não estavam obrigados a cumpri-los, pois não tinham participado no acordo. Esses países argumentavam que as barragens egípcias e sudanesas protegiam os dois países de secas, fome e inundações, mas que países a montante, como a Etiópia, ainda sofriam com a seca e a fome. A Grande Barragem de Assuão, por exemplo, gerava cerca de 10 mil milhões de quilowatts-hora por ano e permitia aos agricultores egípcios obter três colheitas anuais, em vez da única colheita anterior à obra. Dirigentes egípcios afirmaram repetidas vezes que estavam dispostos a usar força militar para proteger os seus direitos previstos no acordo de 1959.
No fim do século XX, países africanos tentaram definir políticas de partilha da água por meio da Comissão Undugu, ativa de 1983 a 1993, e do TECCONILE, ativo de 1993 a 1998, mas não chegaram a acordos duradouros. Em 1999, nove dos dez países da bacia, Burundi, República Democrática do Congo, Egito, Etiópia, Quénia, Ruanda, Sudão, Tanzânia e Uganda, criaram a Iniciativa da Bacia do Nilo para promover o diálogo pacífico sobre as questões da bacia.

No início do século XXI, os países a montante ganharam poder ao começar a construir barragens sem o consentimento do Egito ou do Sudão. A Etiópia construiu a barragem de Tekezé sem pedir permissão aos dois países. A central entrou em funcionamento em 2009. Em 2010, Uganda, Etiópia, Ruanda, Tanzânia e Quénia assinaram o Acordo-Quadro de Cooperação, para estabelecer princípios de utilização equitativa e razoável das águas da bacia. O Quénia aderiu porque planeava bombear água do lago Vitória para irrigação. O Egito e o Sudão opuseram-se ao acordo de 2010. Em 2011, o Sudão do Sul tornou-se independente do Sudão, passando a ser o 11.º país da bacia do Nilo. Nas disputas posteriores sobre a água, aliou-se aos países a montante, em vez de se aliar ao Sudão.
Em 2011, a Etiópia anunciou planos de construir uma grande barragem no Nilo Azul, perto da fronteira sudanesa. A obra recebeu depois o nome de Grande Barragem do Renascimento Etíope, ou GERD, na sigla em inglês. Para o governo etíope, a barragem era essencial ao futuro do país, pois a eletricidade gerada permitiria melhorar as condições de vida da população. O Egito temia que a obra prejudicasse a irrigação e causasse escassez, já que usava quase toda a água do rio que entrava no seu território. O Sudão preocupava-se com a segurança da barragem e o abastecimento de água. Após o anúncio da obra, o presidente egípcio Mohamed Morsi deu a entender que ataques militares à Etiópia eram uma opção, e o Sudão e o Egito fizeram exercícios militares conjuntos.
A Etiópia, o Sudão e o Egito negociaram enquanto a barragem era construída e o reservatório era enchido. Em 2015, os três países assinaram uma "Declaração de Princípios" com entendimentos gerais sobre o uso da água e os procedimentos de enchimento do reservatório. Em 2019, os Estados Unidos acolheram conversas entre os países envolvidos. Em 2020, a União Africana começou a mediar as negociações. Nesse ano, a pedido do Egito, o Conselho de Segurança das Nações Unidas reuniu-se para discutir a barragem, enquanto os três países prosseguiam as negociações sob mediação da União Africana. Em 2021 e 2022, os Emirados Árabes Unidos acolheram conversas. A barragem foi concluída e inaugurada em setembro de 2025. Nesse ano, o reservatório estava cheio e a maioria dos geradores produzia eletricidade.

Nas zonas desérticas do norte da bacia do Nilo, sobretudo no Egito e no Sudão, as plantações dependem principalmente da irrigação. Países do sul, como o Uganda e a Etiópia, recebem mais chuva, e as culturas usam a água retida no solo. A produtividade é maior no norte, onde há uso intensivo de fertilizantes e pesticidas, além de barragens, canais e outras obras de irrigação financiadas por políticas governamentais e recursos internacionais. A água do solo consumida anualmente pelas culturas no sul chega a 229 km³, mais do dobro do volume de água que escoa anualmente pelo Nilo, cerca de 100 km³. As maiores distâncias até aos mercados prejudicam a produção agrícola no sul. No norte, quase todas as propriedades se concentram numa faixa estreita nas margens dos rios, com mais opções de transporte.
Na bacia inteira, o consumo de água na irrigação foi estimado em 72,5 ± 2,6 km³ por ano para o período de 2013 a 2022, numa área irrigada de cerca de 7,1 milhões de hectares. O Egito e o Sudão concentravam 92% dessa área e 97% do consumo. Os cálculos combinaram dados de cobertura do solo e de evapotranspiração obtidos por deteção remota.
Com poucas chuvas e pouca água subterrânea, o Egito depende do Nilo para satisfazer quase todas as suas necessidades de água. Entre as principais culturas estão algodão, trigo, milho, arroz, sorgo e fava. Em geral, há duas épocas de cultivo, a de verão, com algodão, e a de inverno, com cereais e hortícolas. Desde a década de 1950, o país ampliou o uso de técnicas de agricultura industrial, com aplicação intensiva de fertilizantes e pesticidas para aumentar a produtividade. Cerca de 94% do território egípcio é desértico. As terras aráveis ocupavam cerca de 3,3% da superfície terrestre do país em 2024. As terras cultivadas concentram-se no vale e no delta do Nilo, com áreas menores em oásis e no Sinai.
Na irrigação tradicional por bacias, diques dividiam a planície aluvial em parcelas que recebiam a água da cheia por comportas. A água permanecia retida durante 40 a 60 dias e era depois devolvida ao rio ou encaminhada para uma bacia mais a jusante. As sementes eram lançadas no solo húmido após o escoamento, e as culturas cresciam com a água armazenada no terreno até à colheita.
No século XIX, as barragens de derivação construídas nos braços de Roseta e Damieta elevaram o nível do Nilo para que a água entrasse por gravidade nos canais de irrigação. Em Assuão, a antiga barragem guardava parte da cheia para a estação de menor caudal, regularizando o escoamento dentro do ano. A Grande Barragem passou a permitir o armazenamento de água de um ano para os seguintes.
No Sudão, as principais culturas são amendoim, algodão, sésamo, cana-de-açúcar e sorgo. Também se plantam milheto, trigo, milho e cevada. As culturas recebem água do Nilo Azul e do Nilo Branco, com o auxílio de barragens como as de Sennar e Khashm el-Girba. Grande parte das terras irrigadas pertence ao Projeto Gezira, iniciado na década de 1920.

Desde a pré-história, os povos das margens do Nilo e dos lagos da sua bacia pescam nessas águas para se alimentarem. Em 2000, as capturas nas águas interiores de toda a África somavam cerca de 2,2 milhões de toneladas de peixe. Nos principais lagos, reservatórios e zonas húmidas da bacia do Nilo, as capturas anuais somavam cerca de 1,4 milhões de toneladas, com base em estimativas de anos diferentes entre 1987 e 2007. Só o lago Vitória, o maior da África, fornecia cerca de 1 milhão de toneladas por ano em 2005–2007. A quantidade de peixe capturada nos lagos da bacia supera em muito a dos rios. Os locais estudados apresentavam sinais de pesca excessiva, possivelmente com exceção do Sude.
Na década de 1950, a perca-do-nilo e a tilápia-do-nilo foram introduzidas no lago Vitória para compensar a queda nas capturas de peixes autóctones. As capturas aumentaram, mas diminuiu o número de espécies autóctones do lago. A perca-do-nilo e a sardinha-do-lago-Vitória passaram a constituir a grande maioria das capturas. Parte da produção, sobretudo a de perca-do-nilo, é destinada principalmente à exportação para a Europa, com menor consumo local. Em algumas partes da bacia também se criam peixes.

Dezenas de centrais hidroelétricas usam a água do Nilo e dos seus afluentes, com capacidade conjunta superior a 10 gigawatts de potência elétrica. Antes de 2000, havia poucas barragens no rio. A partir desse ano, os governos aceleraram a sua construção. A tabela reúne centrais com potência instalada superior a 100 MW.
| Central hidroelétrica |
Local de referência |
Ano de conclusão |
Potência instalada em MW, em 2025 |
Curso de água |
|---|---|---|---|---|
| Barragem Baixa de Assuão | Assuão, Egito | 1902, 1912, 1933, 1985 | 550 | Nilo |
| Grande Barragem de Assuão | Assuão, Egito | 1970 | 2.100 | Nilo |
| Merowe | Merowe, Sudão | 2009 | 1.250 | Nilo |
| Alto Atbara e Setit | Showak, Sudão | 2017 | 320 | Atbara e Tekezé |
| Roseires | Er Roseires, Sudão | 1966, 2013 | 280 | Nilo Azul |
| Tana Beles | Lago Tana, Etiópia | 2010 | 460 | Beles, Nilo Azul |
| Tekezé | Rio Tekezé, Etiópia | 2009 | 300 | Tekezé, Atbara |
| Grande Barragem do Renascimento Etíope | Bameza, Etiópia | 2025 | 5.150 | Nilo Azul |
| Fincha | Fincha'a, Etiópia | 1973 | 134 | Nilo Azul, lago Chomen |
| Karuma | Cataratas de Karuma, Uganda | 2024 | 600 | Nilo Vitória |
| Isimba | Distrito de Kamuli, Uganda | 2019 | 183 | Nilo Vitória |
| Bujagali | Cataratas de Bujagali, Uganda | 2012 | 250 | Nilo Vitória |
| Kiira | Kimaka, Uganda | 2003 | 200 | Nilo Vitória |
| Nalubaale | Jinja, Uganda | 1954 | 180 | Nilo Vitória |

O Nilo tem menor declive no norte que na região montanhosa do sul, e os países do norte, Egito, Sudão e Sudão do Sul, dispõem de mais trechos navegáveis. No Egito, o rio não tem grandes obstáculos entre o delta e a primeira catarata, em Assuão, e esse trecho é muito usado para o transporte. Antes mesmo dos navios a vapor, as embarcações podiam descer o rio com a corrente e subir à vela com os ventos que sopravam com frequência do norte. Na maior parte do seu curso, o Nilo Azul não é navegável. Os etíopes e os colonizadores italianos usavam uma via terrestre, a Strada Imperiale, para o transporte entre o norte e o sul da Etiópia. Em 1903, exploradores ainda tentavam, sem sucesso, descobrir se era possível usar o Nilo Azul para o transporte entre a Etiópia e o Sudão.
No Antigo Egito, o rio era a principal via de transporte, e construíam-se embarcações para o trabalho e para cerimónias. Os barcos egípcios tinham resistência suficiente para transportar grandes obeliscos e blocos de pedra usados em pirâmides e templos. O rio também é usado para o transporte moderno, sobretudo no Egito, que tem quatro vias navegáveis adequadas a embarcações de grandes dimensões, duas no delta, uma entre o delta e a Grande Barragem de Assuão e outra no lago Nasser. O transporte fluvial correspondia a cerca de 0,8% do transporte de mercadorias do país, em dados divulgados em 2023, e a grande maioria das mercadorias seguia por estradas ou caminhos de ferro. No exercício de 2024/2025, a capacidade de transporte fluvial de mercadorias era de 7,2 milhões de toneladas por ano. Entre as mercadorias transportadas pelo rio estão cimento, calcário, carvão, derivados de petróleo e fosfatos.
A montante do lago Nasser, o Nilo e os seus afluentes têm quedas de água, cataratas, corredeiras e barragens que dificultam a navegação por longas distâncias. No Nilo Branco, no Sudão do Sul, o Sude, uma extensa zona húmida pantanosa, também dificulta a passagem. Os planos para abrir o canal de Jonglei através do pântano começaram no início do século XX, para aumentar a água disponível ao cultivo de algodão no Egito. As obras chegaram a começar em 1978, mas foram interrompidas pouco depois.

Há milénios, visitantes de outras partes do mundo percorrem o Nilo, sobretudo o seu trecho egípcio, e escrevem sobre as suas viagens. O complexo de pirâmides de Gizé, a cerca de 9 km do curso do rio no Cairo, recebe visitantes desde o tempo dos gregos e está entre os destinos mais visitados junto ao Nilo.
Nas celebrações da abertura do canal de Suez, em 1869, um grande grupo de turistas percorreu de barco o trecho entre o Cairo e Assuã e visitou Luxor, Dendera, Sacará, Edfu e Filas. A Thomas Cook & Son, uma das primeiras agências de viagens do mundo, começou a oferecer excursões pelo Nilo em 1869, ano da abertura do canal de Suez, e iniciou cruzeiros regulares em navios a vapor em 1875. A Grande Barragem de Assuão, concluída em 1970, tornou-se uma atração turística, assim como os templos próximos que foram transferidos para evitar que ficassem submersos. A barragem também permitiu que os cruzeiros navegassem com segurança entre Assuã e o delta durante todo o ano.
Na bacia do Nilo ficam parques e reservas naturais como o Parque Nacional Murchison Falls, no Uganda, e a Área Protegida de Salouga e Ghazal, no Egito. As cataratas de Bujagali eram um dos locais mais procurados para a prática de Rafting na África, mas ficaram submersas com a construção da central hidroelétrica de Bujagali.
Na arte do Antigo Egito, o rio era retratado com frequência em cenas de reis a pescar ou a caçar hipopótamos com arpões. As pinturas de paisagem que retratam o Nilo diretamente ou por alegorias são chamadas paisagens nilóticas. As suas cenas fluviais têm plantas e animais, muitos deles nativos do Egito. São comuns os papiros, as palmeiras, os peixes e as aves aquáticas. Felinos, macacos e crocodilos são menos frequentes.
Nas paisagens nilóticas, criadas também por artistas da Grécia Antiga e da Roma Antiga, os romanos do período imperial davam mais destaque a animais ferozes, geralmente crocodilos e hipopótamos. A Personificação do Rio Nilo, escultura colossal de mármore feita em Roma por volta do século II d.C. e guardada nos Museus do Vaticano, dá ao rio a forma de um homem reclinado que segura feixes de trigo. Ao seu lado estão uma esfinge, uma alusão ao Egito, e dezasseis crianças, que correspondem aos dezasseis côvados da altura ideal da cheia anual. Na base há crocodilos, pigmeus e hipopótamos.
Obras que reúnem quatro rios do mundo retratam o Nilo pela África, o Danúbio pela Europa, o Rio Ganges pela Ásia e o Rio da Prata pelas Américas. Entre elas estão a pintura Os Quatro Rios do Paraíso, de Peter Paul Rubens, de 1615, e a Fonte dos Quatro Rios, projetada por Gian Lorenzo Bernini em Roma e concluída em 1651. Na fonte de Bernini, o Nilo tem a forma de um homem com a cabeça coberta por um pano, uma alusão ao desconhecimento da nascente do rio.
O Hino ao Nilo celebrava as cheias do rio e os benefícios que traziam à civilização egípcia. Ismail Paxá encomendou a Giuseppe Verdi uma ópera para o Teatro de Ópera do Quediva, no Cairo, inaugurado em 1869 nas celebrações da abertura do canal de Suez. Aida estreou no teatro em 24 de dezembro de 1871. O terceiro ato passa-se nas margens do Nilo. Desde o início da construção da Grande Barragem do Renascimento Etíope, músicos etíopes compõem canções em louvor ao Nilo e à barragem.
Em António e Cleópatra, de William Shakespeare, Marco António explica como as cheias do Nilo orientam o cultivo: "É assim que fazem, senhor. Medem a cheia do Nilo por certas escalas na pirâmide. Pelo nível alto, baixo ou médio, sabem se virá escassez ou abundância. Quanto mais o Nilo sobe, mais promete. Quando as águas recuam, o semeador espalha os seus grãos sobre o lodo e a lama, e logo chega a colheita."
Agatha Christie escreveu o romance policial Morte no Nilo, publicado em 1937, sobre um assassinato num navio a vapor no rio. O livro teve grande popularidade e deu origem a adaptações. Em À deriva no Nilo, romance de 1966 do escritor egípcio e laureado com o Nobel de Literatura Naguib Mahfouz, um funcionário público vive numa casa flutuante no Nilo. Para Terje Tvedt, o rio é uma metáfora de uma vida que o indivíduo não consegue controlar. O romance acompanha um grupo de pessoas que se afastou da sociedade. Jogos eletrónicos como Civilization VI também retratam o Nilo.

Na cosmologia egípcia, a vida seguia um ciclo sem fim, como a passagem diária do Sol e as cheias anuais do Nilo. Essa maneira de entender a existência vinha da observação da natureza que rodeava os egípcios. O deus solar Rá atravessava o céu todos os dias de leste a oeste. O nascer do Sol, a sua passagem pelo céu e o poente correspondiam ao nascimento, à vida e à morte. Muitos túmulos eram construídos na margem ocidental do Nilo para ficar mais perto do Sol poente.
Na religião egípcia antiga, nenhum deus personificava sozinho o Nilo da mesma forma que Rá personificava o Sol. Hapi, deus das cheias anuais, e Quenúbis, deus da primeira catarata, eram responsáveis pela inundação que fertilizava as terras agrícolas do país. Na crença egípcia, as águas da cheia subiam do mundo subterrâneo na ilha Elefantina, junto à primeira catarata.
O culto a Ísis, uma das principais deusas egípcias, era muito ligado ao Nilo e difundiu-se do Egito para a Europa no século II a.C. O mosaico do Nilo de Palestrina, conservado em Palestrina, é um exemplo da difusão desse culto. Datado do século I a.C., retrata uma paisagem nilótica em pormenor. Mede 5,85 por 4,31 metros.
Na mitologia grega, Nilo é o deus do rio, um dos milhares de deuses fluviais filhos dos titãs Oceano e Tétis, que eram irmãos e cônjuges. Nilo era pai da náiade Mênfis, fundadora mítica da cidade de Mênfis.

Entre as dezenas de menções ao Nilo na Bíblia está uma passagem do Livro do Êxodo em que Moisés, ainda bebé, é colocado num cesto no rio. Há interpretações que equiparam ao Nilo o Giom, um dos quatro rios do Paraíso no Livro do Génesis. O Evangelho de Mateus conta como José e Maria fugiram para o Egito para escapar de Herodes. Na tradição dos coptas egípcios, a família viveu por alguns anos perto do Nilo.
O exegeta al-Qurtubi interpretou como uma referência ao Nilo as águas em que a mãe de Moisés coloca o bebé, na passagem 20:39 do Alcorão. Um hadith reunido no Sahih Muslim inclui o Nilo entre quatro rios do Paraíso.