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| Cypsnagra hirundinacea | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Foto feita em: Parque Nacional das Emas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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Cypsnagra hirundinacea, conhecida no Brasil como bandoleta, é uma espécie de ave passeriforme da família Thraupidae e a única espécie do gênero Cypsnagra. Sua distribuição geográfica concentra-se nas savanas do centro da América do Sul, principalmente no Brasil, com ocorrência também na Bolívia, no Paraguai e no Suriname. É fortemente associada a ambientes abertos, sobretudo ao Cerrado, embora uma análise biogeográfica recente não sustente sua classificação como endêmica desse bioma.
A espécie foi descrita por René Primevère Lesson em 1831, originalmente como Tanagra hirundinacea. Na mesma obra, Lesson propôs o nome Cypsnagra.
O nome genérico combina o grego kupselos, "andorinha", com Tanagra, enquanto o epíteto específico hirundinacea deriva do latim hirundinaceus, "semelhante a uma andorinha".
Estudos de filogenética molecular alteraram substancialmente a classificação dos traupídeos. Uma análise publicada em 2013 recuperou Cypsnagra dentro de um grupo fortemente sustentado que reúne gêneros antes distribuídos entre diferentes conjuntos de traupídeos e emberizídeos. Uma filogenia mais ampla publicada em 2014 confirmou essas relações e colocou o gênero na subfamília Poospizinae. A classificação em nível de gênero publicada em 2016 manteve Cypsnagra como gênero próprio dentro de Thraupidae.
São reconhecidas duas subespécies:
A bandoleta mede cerca de 16 cm de comprimento e pesa aproximadamente 25 - 34 g. A plumagem adulta é fortemente contrastante. A cabeça e as partes superiores são predominantemente escuras, enquanto o uropígio é branco e conspícuo. A garganta apresenta coloração ruiva ou alaranjada, as partes inferiores são mais claras e as asas e a cauda possuem marcas brancas, particularmente evidentes durante o voo.
Machos e fêmeas são semelhantes externamente, sem dimorfismo sexual evidente na coloração da plumagem. Os jovens são mais pardacentos e não apresentam a mancha ruiva da garganta tão definida quanto nos adultos.
A espécie ocupa sobretudo savanas e outras formações abertas, incluindo campo-cerrado, campos e áreas com árvores e arbustos esparsos. No Cerrado paulista, ocorre em remanescentes de vegetação campestre e savânica, incluindo a Estação Ecológica de Itirapina.
A associação com o Cerrado é forte, mas não exclusiva. Um levantamento realizado em uma formação de savana costeira no Rio Grande do Norte registrou C. hirundinacea muito além da área central contínua do bioma e a tratou como uma espécie principalmente associada ao Cerrado, e não como um endemismo estrito.
Uma reavaliação biogeográfica publicada em 2025 quantificou essa diferença. A espécie foi registrada em 176 células geográficas de 0,25° × 0,25°; 133 delas estavam dentro do Cerrado e 43 fora dele, ou seja, aproximadamente 76% das ocorrências analisadas estavam no bioma. Alguns registros ficavam até cerca de 1 200 km além de seus limites. Com esses critérios, tanto a espécie quanto suas duas subespécies foram classificadas como não endêmicas do Cerrado.
A bandoleta é uma espécie social e pode integrar bandos mistos de alimentação. Um estudo de campo realizado de março a setembro de 1996 mostrou que C. hirundinacea desempenhava um papel central na organização desses bandos.
Durante as observações, os bandos permaneceram com um indivíduo em vigilância durante, em média, 42 ± 17% do tempo. A bandoleta respondeu por 41 ± 17% desse período, enquanto Neothraupis fasciata respondeu por apenas 1,2%. C. hirundinacea também emitiu todos os chamados de alarme registrados no estudo, e 54% dos encontros com aves de rapina provocaram chamados de alarme. Em todos os bandos acompanhados naquele estudo, a bandoleta funcionou como espécie nuclear, isto é, a espécie em torno da qual a atividade do grupo se organizava. Os autores interpretaram os resultados como evidência de uma função relacionada à redução do risco de predação.
Um estudo posterior comparou diferentes espécies capazes de assumir essa função em bandos de campo-cerrado e concluiu que o grau de vigilância, mais do que a sociabilidade ou a frequência de chamados de contato, estava associado à liderança do grupo. C. hirundinacea esteve entre as espécies analisadas.
A alimentação é predominantemente baseada em artrópodes, especialmente insetos. O forrageamento ocorre principalmente sobre folhas e ramos de árvores e arbustos, embora a espécie também possa buscar alimento em outros estratos da vegetação. Estudos de seu comportamento alimentar mostram variação sazonal na maneira como explora os recursos disponíveis. Por consumir grande proporção de insetos e outros artrópodes, seu hábito alimentar pode ser caracterizado como predominantemente insetívoro.
A biologia reprodutiva da espécie foi estudada diretamente no Cerrado do Brasil Central entre 2002 e 2007. A estação reprodutiva observada estendeu-se de meados de agosto a meados de dezembro. Os ninhos eram abertos e em forma de taça, localizados principalmente em árvores do gênero Kielmeyera, a uma altura média de 3,7 ± 0,3 m.
A nidada continha de um a três ovos. A incubação dos ovos durou, em média, 16,0 ± 0,3 dias e foi realizada exclusivamente pela fêmea, começando após a postura do primeiro ovo. As fêmeas permaneceram no ninho durante cerca de 64% do período observado.
Após a eclosão, os filhotes eram alimentados pelo macho, pela fêmea e, quando presentes, por indivíduos auxiliares, caracterizando reprodução cooperativa. A frequência média de alimentação dos filhotes foi de 5,2 ± 0,4 visitas por hora, sem grande diferença entre machos e fêmeas. O período entre a eclosão e a saída dos filhotes do ninho teve duração média de 12,1 ± 0,5 dias.
Em comparação com muitas espécies de traupídeos de regiões temperadas, a bandoleta apresentou ninhadas menores, menor tempo proporcional de permanência da fêmea sobre os ovos e um período de incubação relativamente longo. Os autores destacaram que diferenças desse tipo entre aves tropicais podem estar relacionadas à disponibilidade de alimento e à intensidade da predação.
O estado de conservação da espécie varia conforme a escala geográfica considerada. Uma revisão da avifauna paulista publicada em 2025 registrou C. h. hirundinacea como residente no estado de São Paulo e apresentou a sequência LC/LC/EN para as avaliações global, federal e estadual, respectivamente. Assim, a espécie é considerada globalmente e nacionalmente pouco preocupante, enquanto a população paulista é classificada como em perigo.
A situação regional já havia sido destacada em uma avaliação publicada em 2009, que propôs para a espécie a categoria EN B1ab(iii,iv) em São Paulo. O trabalho a considerou rara no estado e restrita a uma parcela pequena dos remanescentes do Cerrado paulista, apontando a destruição de cerrados naturais como principal ameaça e registrando alta sensibilidade a alterações antrópicas.
A Estação Ecológica de Itirapina mantém uma das populações documentadas da espécie no estado. Um inventário publicado em 2008, baseado em observações realizadas entre 1998 e 2007 e em revisão da literatura, destacou a unidade como um dos últimos remanescentes significativos de campos naturais e cerrados paulistas e como área importante para a conservação de aves associadas a essas formações. Entre as medidas propostas especificamente para a bandoleta estão a proteção de cerrados naturais e a recuperação de áreas degradadas de campo-cerrado.