Bixer Alhafi (em árabe: بشر الحافي; romaniz.: Bishr al-Ḥāfī; Merve, 150 A.H. / 767 ou 152 A.H. / 769 – Baguedade, 227 A.H. (841/2)), nome completo Abu Nácer Bixer ibne Alharite ibne Abederramão ibne Ata ibne Hilal Alhafi Almaruazi (em árabe: أبو نصر بشر بن الحارث بن عبد الرحمن بن عطاء بن هلال الحافي المروزي; romaniz.: Abū Naṣr Bishr ibn al-Ḥārith ibn ʿAbd al-Raḥmān ibn ʿAṭāʾ ibn Hilāl al-Ḥāfī al-Marwazī), foi um tradicionalista, asceta e um dos primeiros representantes do sufismo. Proveniente de uma família árabe proeminente de Merve, estudou hádice com estudiosos como Maleque ibne Anas, Hamade ibne Zaíde, Alfudail ibne Iade e Abedalá ibne Almubaraque. As fontes preservam diferentes relatos sobre sua conversão de uma juventude descrita como mundana para uma vida de rigorosa devoção, após a qual se estabeleceu em Baguedade.
Bixer tornou-se uma das figuras ascéticas mais conhecidas de Baguedade. Seus ensinamentos enfatizavam a observância da lei islâmica e da suna, a renúncia aos bens e à fama, a caridade, a confiança em Deus e o combate aos desejos do ego, bem como a necessidade de transformar o conhecimento religioso em conduta e experiência espiritual. Sua preocupação em ocultar as próprias virtudes e evitar qualquer ostentação religiosa apresenta afinidades com concepções posteriormente associadas à malamatia. O epíteto Alhafi, "o descalço", pelo qual se tornou célebre, foi explicado pelas fontes através de diferentes tradições e acabou estreitamente associado à sua imagem ascética.
Embora tenha abandonado posteriormente a transmissão profissional de hádices e chegado a enterrar seus livros, Bixer continuou a ser considerado um tradicionalista confiável. Entre aqueles que transmitiram sob sua autoridade esteve Amade ibne Hambal, com quem manteve estreita relação e cuja posição apoiou durante a controvérsia sobre a criação do Alcorão. Sua combinação de formação tradicionalista e rigor ascético conferiu-lhe posição importante no desenvolvimento inicial do sufismo baguedali, e seus ensinamentos foram preservados sobretudo por meio de máximas e relatos transmitidos pela literatura sufista posterior.
Bixer Alhafi nasceu em Merve em 150 A.H. (767) ou 152 A.H. (769). Seu nome completo era Abu Nácer Bixer ibne Alharite ibne Abederramão ibne Ata ibne Hilal Alhafi Almaruazi, e sua família, de origem árabe, figurava entre as famílias proeminentes de Merve. Segundo algumas tradições, passou a juventude em ambientes pouco compatíveis com a reputação ascética que adquiriria posteriormente: teria participado de um grupo de jovens desordeiros ou salteadores e demonstrado gosto pelo vinho. Outra tradição afirma que ganhava a vida fabricando fusos. Ainda jovem, Bixer dedicou-se ao estudo do hádice. Com exceção de Abedalá ibne Almubaraque, que também era natural de Merve, seus mestres residiam no Iraque ou na Península Arábica, circunstância que o levou a viajar em busca de conhecimento. Estudou com Maleque ibne Anas, Xarique ibne Abedalá, Hamade ibne Zaíde, Ibraim ibne Sade, Alfudail ibne Iade e Abedalá ibne Almubaraque, entre outros. A tradição segundo a qual estudou com Maleque durante uma peregrinação a Meca sugere que sua formação como tradicionalista começou antes de se estabelecer em Baguedade.
As fontes não esclarecem precisamente quando nem de que maneira Bixer abandonou sua vida anterior e se voltou para o ascetismo, preservando diferentes narrativas sobre sua conversão. Segundo uma delas, um homem chamado Isaque Almagazili escreveu-lhe perguntando como poderia obter o sustento caso perdesse a visão e a audição, e a pergunta teria despertado nele uma profunda transformação. Outra tradição, de caráter hagiográfico, relata que Bixer encontrou na rua um pedaço de papel contendo o nome de Deus, lavou-o, perfumou-o e guardou-o reverentemente; em consequência desse ato, ele próprio ou outra pessoa teria recebido em sonho a promessa de que Deus exaltaria o nome de Bixer. Outras versões associam sua conversão a circunstâncias diferentes, e as divergências tornam impossível determinar historicamente o episódio que a desencadeou.
Após sua conversão, Bixer dedicou-se à vida ascética e aproximou-se de figuras associadas ao ascetismo e ao nascente sufismo. Frequentou seu tio Ali ibne Harxame e manteve relações com Alfudail ibne Iade, Sari Açacati, Amade ibne Ácime Alantaqui, Abu Ali Aljuzajani e Abu Saíde Alcarraz. As fontes afirmam que, em determinado momento, deixou de exercer a transmissão profissional de hádices e enterrou seus livros, alegando que os estudos lhe haviam servido apenas como meio de obter prazer mundano e que a atividade comprometia sua piedade. Também teria pedido aos antigos colegas que apagassem ou raspassem os hádices que haviam registrado sob sua autoridade. Meier observa, contudo, que não há indícios de que Bixer tenha abandonado os estudos de hádice imediatamente após a conversão e considera possível que sua retirada da atividade tradicionalista tenha ocorrido apenas mais tarde, em Baguedade. Bixer permaneceu em Baguedade até o fim da vida e tornou-se uma das figuras ascéticas mais conhecidas da cidade. Morreu ali em 227 A.H. (841–842), sendo mencionadas diferentes datas para sua morte. Sua reputação ultrapassou os círculos sufis e foi particularmente associada a Amade ibne Hambal, com quem manteve relações próximas. Durante a controvérsia acerca da criação do Alcorão, Bixer apoiou a posição de Amade, embora procurasse evitar a notoriedade pública que poderia resultar de sua própria participação na controvérsia.
A espiritualidade de Bixer baseava-se na observância da lei islâmica e da suna, combinada com uma concepção rigorosa de ascetismo. Atribuía grande importância à fé e, assim como Amade ibne Hambal e Almamune, entendia a fé como uma afirmação acompanhada pela ação, embora sua formulação fosse diferente da deles. Considerava que as obras faziam parte da fé e exigia, como mínimo indispensável, que o homem não pecasse e contemplasse constantemente a grandeza de Deus. Diante da escolha entre Deus e o mundo, defendia uma opção irrestrita por Deus e desprezava as formas de ambição, egoísmo, ganância e pobreza espiritual que afastavam o homem desse objetivo. Sua prática ascética enfatizava a paciência, a caridade e a renúncia aos bens. As tradições relatam que, ao encontrar alguém sofrendo de frio e não dispor de outro meio para ajudá-lo, Bixer tirou a própria roupa para compartilhar seu sofrimento; em outra ocasião, teria morrido vestindo uma camisa emprestada porque havia dado a sua a um pobre. Aconselhava que se desse dinheiro aos necessitados em vez de realizar uma peregrinação adicional a Meca, não por rejeitar a peregrinação, mas por considerar que uma obra voluntária podia ser substituída por outra forma de caridade. De maneira semelhante, enquanto outros ascetas recomendavam a mendicância durante a peregrinação, Bixer preferia que as esmolas fossem dadas antes da viagem, para que a caridade pudesse permanecer oculta.
A rejeição da fama ocupava lugar central em seus ensinamentos. Bixer afirmava que aquele que desejava que suas boas ações fossem conhecidas pelos outros constituía um exemplo de mentalidade mundana e recomendava que as pessoas ocultassem tanto suas boas ações quanto seus pecados. Condenava o hábito de procurar a companhia de ascetas célebres apenas para poder dizer que os havia conhecido e criticava formas ostensivas de devoção. Essa atitude aproximava alguns aspectos de seu pensamento das concepções posteriormente associadas à malamatia, sobretudo pela preocupação em ocultar as virtudes e combater a pretensão religiosa. As fontes afirmam que chegou a deixar de frequentar as sessões de hádice para não se destacar entre os demais e, segundo uma tradição, comprava tâmaras à noite para evitar que o vendedor soubesse que eram destinadas a ele. Bixer associava esse esforço à luta contínua contra os desejos do ego. Levava uma vida de extrema frugalidade, alimentando-se pouco e evitando satisfazer desejos que considerava desnecessários. Afirmava que um homem só poderia experimentar a doçura do serviço a Deus depois de vencer suas inclinações e recomendava silêncio àqueles que encontravam prazer em falar. Apesar desse rigor, não defendia a repressão absoluta das necessidades naturais: não condenava o desejo sexual e não permaneceu solteiro durante toda a vida. Para ele, a verdadeira piedade pertencia exclusivamente a Deus, e o homem que se colocasse diante de Deus com o coração puro e perfeito deveria preocupar-se apenas com sua própria condição, e não com os pecados ou méritos alheios.
O problema da confiança em Deus (tauacul) aparece de forma destacada nas tradições sobre Bixer. Algumas fontes apresentam-no entre aqueles que levavam a confiança em Deus ao ponto de recusar qualquer forma de sustento assegurado, enquanto outras lhe atribuem uma concepção compatível com o trabalho manual, desde que a atividade fosse realizada em conformidade com a vontade divina. Bixer teria pedido apenas a Sari Açacati que lhe fornecesse uma esteira sobre a qual pudesse alegrar-se caso perdesse todos os bens mundanos. Também considerava legítimo viver do próprio trabalho ou dos rendimentos de parentes, mas procurava evitar a dependência dos governantes. Embora se interessasse intensamente pelos pobres, não atuava como intermediário entre eles e os poderosos, pois não queria manter relações com príncipes nem recorrer aos canais pelos quais estes distribuíam esmolas. Bixer atribuía igualmente grande importância ao conhecimento religioso, mas distinguia entre o mero acúmulo de saber e sua transformação em experiência espiritual. Afirmava que o verdadeiro sábio não era simplesmente aquele que conhecia o bem e o mal, mas aquele que evitava o primeiro e praticava o segundo, formulação que Amade ibne Hambal teria considerado especialmente adequada. Sua reputação nessa matéria levou Amade, apesar de sua própria formação erudita, a consultar Bixer sobre questões relacionadas à realidade das coisas e às verdades superiores. Ao mesmo tempo, Bixer criticava tanto estudiosos cujo conhecimento não produzia disciplina religiosa quanto sufis que valorizavam excessivamente experiências místicas e milagres em detrimento da observância da lei.
Apesar de ter abandonado posteriormente a transmissão profissional, Bixer possuía formação considerável no hádice e continuou a ser lembrado como tradicionalista. Entre aqueles que transmitiram sob sua autoridade estavam Amade ibne Hambal, Abu Caitama Zuair ibne Harbe, Amade Adauraqui e Ibraim Alharbi. Adaracutni considerou-o um transmissor confiável e afirmou que não transmitia hádices inautênticos. Sua decisão de afastar-se dessa atividade não parece, portanto, ter resultado de rejeição do hádice enquanto disciplina, mas de sua preocupação com a fama e com os efeitos espirituais que atribuía ao exercício público da erudição. Em matéria jurídica, Bixer seguia Sufiane Atauri, e sua relação com Amade ibne Hambal ilustra a posição intermediária que ocupava entre os círculos de tradicionalistas e os primeiros ascetas e sufis. Embora tivesse deixado de transmitir regularmente, continuou sendo procurado por sua experiência religiosa e por seus conhecimentos. A tradição posterior preservou numerosas máximas atribuídas a ele, algumas das quais passaram a circular amplamente na literatura sufista. Uma das mais conhecidas foi transmitida por Alfudail ibne Iade: "Os homens que aprendem com ele são reconhecíveis pelas cadeias de transmissão de suas palavras". A combinação entre formação tradicionalista, rigor ascético e preocupação com a sinceridade contribuiu para que Bixer ocupasse posição importante na formação do sufismo baguedadense.
As fontes apresentam diferentes explicações para o epíteto Alhafi, "o descalço", pelo qual Bixer se tornou conhecido. Segundo um relato atribuído a Ibne Calicane, Bixer teria procurado um sapateiro para consertar uma das correias de suas sandálias; diante da reclamação do homem sobre o incômodo que as pessoas lhe causavam, Bixer teria jogado fora as duas sandálias e decidido nunca mais usar calçados. Meier observa, contudo, que essa explicação apresenta dificuldades e pode ter sido elaborada posteriormente para justificar o epíteto. Outras tradições atribuíam significado simbólico ao fato de andar descalço. Uma delas afirmava que Bixer evitava pisar com calçados no "tapete de um rei", isto é, sobre a terra de Deus; outra relacionava o costume à obediência a Deus, evocando a ordem dirigida a Moisés para que retirasse as sandálias diante da presença divina. Há ainda uma explicação hagiográfica segundo a qual uma jovem teria chamado Bixer de "o descalço", denominação que posteriormente se fixou. Independentemente de sua origem histórica, o epíteto tornou-se inseparável de sua imagem ascética e permaneceu como o nome pelo qual foi mais conhecido na tradição sufista.
As fontes atribuem a Bixer uma obra intitulada Kitāb al-Zuhd ou Kitāb al-Taṣawwuf, além de alguns poemas, embora sua produção escrita tenha desempenhado papel muito menor na preservação de seu pensamento que as máximas e relatos transmitidos por seus discípulos e pelos autores sufis posteriores. Sua influência manifestou-se sobretudo através dessas tradições, que contribuíram para ampliar e sistematizar os ensinamentos do sufismo nascente. Algumas de suas máximas permaneceram em circulação durante séculos e foram incorporadas a importantes compilações biográficas e hagiográficas.