Sufiane Atauri

Sufiane Atauri (em árabe: سفيان الثوري; romaniz.: Sufyān al-Thawrī), cujo nome completo era Abu Abedalá Sufiane ibne Saíde ibne Masruque Atauri Alcufi (em árabe: أبو عبد الله سفيان بن سعيد بن مسروق الثوري الكوفي; romaniz.: Abū ʿAbd Allāh Sufyān ibn Saʿīd ibn Masrūq al-Thawrī al-Kūfī; 715–778), foi um tradicionalista, jurista, exegeta e asceta muçulmano do século VIII, considerado uma das principais autoridades religiosas de sua geração. Pertencente ao ramo taurita dos tamimitas, formou-se no ambiente intelectual de Cufa e, por meio de extensas viagens pelos principais centros de estudos do mundo islâmico, reuniu tradições jurídicas, exegéticas e de hádice provenientes de diferentes regiões.

Sufiane alcançou particular destaque no hádice, campo em que foi reconhecido como uma das maiores autoridades de seu tempo e esteve entre os primeiros estudiosos a organizar as tradições segundo assuntos e capítulos jurídicos. Na exegese do Alcorão, tornou-se um importante transmissor da tradição exegética remontada a Abedalá ibne Abas, enquanto na jurisprudência combinou a tradição cufana com o amplo material tradicional que reuniu durante suas viagens. Suas opiniões deram origem à Tauria, escola jurídica que se difundiu por diversas regiões do mundo islâmico e permaneceu ativa durante aproximadamente cinco séculos. Também participou das controvérsias teológicas de sua época, embora as fontes transmitam informações por vezes divergentes acerca de algumas de suas posições.

Conhecido igualmente por seu ascetismo, defendia a independência dos estudiosos diante do poder político e recusou assumir o cargo de cádi oferecido pelo califa abássida Almançor, passando parte de seus últimos anos em deslocamento e ocultação. Sua produção abrangia hádice, jurisprudência, exegese e doutrina, destacando-se o al-Tafsīr, o al-Jāmiʿ al-kabīr e o Kitāb al-Farāʾiḍ. Embora várias de suas obras tenham se perdido e a escola jurídica que fundou tenha posteriormente desaparecido, seus ensinamentos foram amplamente preservados por discípulos e autores posteriores, e sua figura permaneceu influente tanto na tradição do hádice e da jurisprudência quanto na literatura ascética e sufi.

Vida

Sufiane Atauri nasceu em 97 A.H. (715), embora também sejam registrados os anos de 95, 96 e 98 A.H. para seu nascimento. As fontes igualmente divergem quanto ao local, indicando Casvim, o Coração ou uma aldeia dos tauritas, nas proximidades de Gurgã. Sua família, contudo, estabeleceu-se em Cufa quando ele ainda era jovem. Pertencia ao ramo taurita dos tamimitas, de onde provinha sua nisba Atauri, e sua linhagem encontrava a de Maomé em Ilias ibne Modar, seu décimo sexto ancestral. Seu avô, Masruque, combateu ao lado de Ali na Batalha do Camelo, na qual morreu, enquanto seu pai, Saíde, pertencente à geração mais jovem dos tabis, foi um tradicionalista considerado confiável e teve tradições incorporadas às seis principais coleções canônicas de hádice. Sua mãe também transmitia hádices, era conhecida por sua erudição e piedade e tornou-se célebre pelo conselho que deu a Sufiane para incentivá-lo a adquirir conhecimento. Outros membros da família, entre eles seu tio Hâmeza, seus irmãos Omar e Almubaraque e seus sobrinhos Amar e Ceife, também foram tradicionalistas considerados confiáveis pelos autores das seis principais coleções canônicas. Sufiane começou a estudar hádice ainda criança sob orientação do pai. Em Cufa, foi discípulo de Anre ibne Murra e estudou hádice e fiqh com representantes da tradição intelectual cufana derivada de Abedalá ibne Maçude e Ali, entre os quais Hamade ibne Abi Solimão, Abu Isaque Açabii, Alamaxe, Mançor ibne Almutamir, Ibne Xubruma e Abederramão ibne Abi Laila. Aprendeu ainda recitação corânica com Ácime ibne Badala e Hâmeza ibne Habibe. Graças à sua memória excepcional, em pouco tempo memorizou e começou a transmitir grande número de tradições, tornando-se conhecido nos círculos eruditos.

Além de sua formação em Cufa, percorreu os principais centros intelectuais do mundo islâmico, visitando Meca, Medina, Baçorá, Damasco, Iêmem, Baguedade, Uacite, Gurgã, Rei, Ascalão e Jerusalém, beneficiando-se das tradições locais de recitação corânica, exegese, hádice e fiqh. Sua primeira grande viagem parece ter sido ao Coração: aos dezoito anos, em 115 A.H. (733), dirigiu-se a Bucara para visitar parentes e receber sua parte da herança de um tio. Provavelmente passou também por Merve, onde tradicionalistas que já haviam ouvido falar de sua reputação no hádice teriam ficado admirados com sua pouca idade. Sua primeira viagem ao Hejaz parece ter ocorrido entre 124 e 126 A.H., tendo depois retornado repetidas vezes à região para realizar a peregrinação e prosseguir seus estudos. Ali estudou com Anre ibne Dinar, Ibne Juraije, Abedalá ibne Dinar, Abu Azinade, Rebia ibne Abi Abederramão, Iáia ibne Saíde Alançari e Jafar Açadique. Em Baçorá, recebeu ensinamentos de Aiube Açaquetiani, Ácime Alaual, Abedalá ibne Aune e Otomão Albati, em Damasco estudou com Alauzai e, em Gurgã e Rei, recebeu hádices dos tradicionalistas locais. Segundo Adaabi, encontrou cerca de 130 tabis e recebeu conhecimento de aproximadamente seiscentas pessoas. Após a morte do pai, ocorrida em 126, 127 ou 128 A.H. (746), Sufiane, então com cerca de trinta anos, começou a ensinar. Durante aproximadamente vinte anos ministrou aulas e transmitiu hádices em Cufa e nos diferentes lugares que visitava, sobretudo Meca e Medina, atraindo numerosos discípulos de todas as regiões do mundo islâmico, da Transoxiana à Ifríquia e ao Alandalus. Ibne Aljauzi atribuiu-lhe mais de vinte mil alunos, número considerado exagerado por Adaabi, que estimou em aproximadamente mil o total plausível de discípulos.

A vida de Sufiane sofreu uma mudança decisiva em consequência de sua relação com o governo abássida. Recusou uma oferta do califa Almançor (r. 754–775) para assumir o cargo de cádi e, depois disso, deixou Cufa definitivamente, passando o restante da vida em constante deslocamento e frequentemente escondido. As tradições divergem quanto à data e às circunstâncias exatas da oferta, mas uma delas a situa em 148 A.H. (765), quando Almançor teria convocado Abu Hanifa, Sufiane e Xarique ibne Abedalá durante a temporada da peregrinação. Além de rejeitar o cargo, Sufiane criticava duramente o tratamento dispensado pelo governo aos álidas. Deixou Meca clandestinamente e viajou por mar ao Iêmem, onde frequentou as aulas de Mamar ibne Raxide e discutiu questões eruditas com ele. Sufiane afirmava ter recebido de Mamar todo o conhecimento de Ibne Xiabe Azuri, que não conseguira encontrar pessoalmente em Medina. Posteriormente retornou a Meca, onde permaneceu escondido nas casas de discípulos como Sufiane ibne Uiaina e Alfudail ibne Iade, continuando a ensinar discretamente. Por volta de 153 A.H. (770), quando o futuro califa Almadi estava em Meca como emir da peregrinação e ordenou sua prisão, Sufiane fugiu para Baçorá. Ali recebeu grande atenção de tradicionalistas como Hamade ibne Zaíde e Hamade ibne Salama e passou os últimos anos escondendo-se nas casas de amigos e discípulos, sobretudo Abederramão ibne Mádi e Iáia ibne Saíde Alcatane. A necessidade de mudar frequentemente de residência impediu-o de manter um círculo público regular de ensino. Segundo uma tradição, casou-se com a mãe de Abu Hudaifa Muça ibne Maçude Anadi, um de seus discípulos baçoranos conhecido pelo epíteto Atauri, e permaneceu na casa deles. Também se relata que, cansado de viver constantemente escondido, foi convencido, sobretudo por Hamade ibne Zaíde, a encontrar-se com Almadi, mas morreu antes que o encontro pudesse ocorrer. Em 158 ou 159 A.H. (775–776), realizou a peregrinação com Abederramão ibne Mádi e permaneceu aproximadamente um ano em Meca. Depois de retornar a Baçorá, morreu em 15 de Xabã de 161 A.H. (18 de maio de 778), embora também haja informações que situem sua morte no início daquele ano.

As fontes apresentam relatos contraditórios sobre sua posição política. Embora reconhecesse como legítimos os movimentos de Maomé Anáfece Azaquia e de seu irmão Ibraim ibne Abedalá contra Almançor, não os apoiou abertamente, por considerar que uma revolta poderia provocar maior sedição e derramamento de sangue. Evitava o contato com governantes, recusava seus presentes e desaprovava a aproximação dos estudiosos ao poder, chegando a censurar Alauzai por sua proximidade com os governantes. Raddatz atribuiu-lhe uma orientação política-religiosa favorável aos omíadas, relacionando-a à sua posterior oposição aos abássidas e, em parte, à difusão da Tauria no Alandalus, enquanto a TDV considera essa interpretação insuficientemente sustentada e enfatiza o caráter contraditório das tradições acerca de sua posição diante dos omíadas. Nos primeiros anos de estudo, quando sua família dispunha de poucos recursos, Sufiane recebia auxílio financeiro da família e trabalhava mediante pagamento nas caravanas durante suas viagens. Depois de adquirir autoridade intelectual e influência social, passou a dedicar-se ao comércio, sobretudo para conservar sua independência diante dos governantes. Embora fosse conhecido pelo ascetismo, defendia a posse de recursos suficientes para preservar sua honra e independência diante do poder político e não se tornar um encargo para outras pessoas.

Atividade intelectual

Hádice

Sufiane foi uma das principais autoridades do hádice no século VIII. Suas viagens permitiram-lhe reunir as tradições de Cufa às de Meca, Medina, Baçorá e Damasco, desempenhando assim papel importante na transmissão do hádice e da suna às gerações posteriores. Seus al-Jāmiʿ al-kabīr e al-Jāmiʿ al-ṣaghīr, assim como trabalhos semelhantes compilados por Ibne Juraije, Mamar ibne Raxide e Maleque ibne Anas, foram considerados fontes fundamentais desse processo de transmissão. Ali ibne Almadini considerava-o uma das principais fontes dos isnads cufanos, enquanto Abederramão ibne Mádi o colocou, ao lado de Alauzai, Maleque ibne Anas e Hamade ibne Zaíde, entre os quatro grandes imames do hádice de sua época. Otomão ibne Saíde Adarimi afirmou que não poderia ser considerado hāfiẓ do hádice quem desconhecesse as tradições transmitidas por Maleque, Hamade, Sufiane, Xuba ibne Alhajaje e Sufiane ibne Uiaina. Segundo Adaabi, se apenas as tradições transmitidas por Sufiane fossem registradas com seus isnads e acompanhadas da indicação de sua autenticidade, formariam um musnad de cerca de dez volumes. De fato, tradicionalistas como Anaçai, Atabarani e Abu Bixer Adulabi compilaram musnads reunindo seus hádices. Outra característica de Sufiane foi estar entre os primeiros tradicionalistas a classificar os hádices segundo capítulos de fiqh; enquanto algumas tradições afirmam que nesse aspecto se beneficiou de Abu Hanifa, outras indicam que tomou como modelo a classificação de seu mestre Ibne Juraije. Sua reputação nesse campo levou à atribuição do título de amīr al-muʾminīn fī al-ḥadīth ("comandante dos crentes no hádice").

Alguns de seus próprios mestres e contemporâneos, entre eles Alauzai, Mamar ibne Raxide, Abedalá ibne Aune e Maleque ibne Anas, transmitiram tradições por sua autoridade. Entre os discípulos que desempenharam papel particularmente importante na preservação de seus hádices estiveram Abederramão ibne Mádi, Iáia ibne Saíde Alcatane, Uaqui ibne Aljarrá Ubaide Alá ibne Abederramão Alasjai, Abedalá ibne Almubaraque, Abu Nuaime Alfadle ibne Ducaine, Maomé ibne Iúçufe Alfiriabi, Muafa ibne Inrane, Xuba ibne Alhajaje e Sufiane ibne Uiaina. Parte de uma compilação das tradições transmitidas de Sufiane por Maomé ibne Iúçufe Alfiriabi foi publicada por ʿĀmir Ḥasan Ṣabrī, juntamente com a primeira parte de uma obra na qual Sari ibne Iáia reuniu tradições recebidas de cinco discípulos de Sufiane. O al-Musannaf de seu discípulo Abede Arrazaque ibne Hamame constitui a mais importante fonte existente para as tradições transmitidas por Sufiane.

Sufiane foi também uma das primeiras autoridades a emitir avaliações críticas sobre os transmissores e procurava solucionar divergências entre diferentes versões das tradições, sendo considerado uma autoridade no conhecimento dos narradores. Atribuía grande importância ao isnad, que qualificava como a "arma do crente", e esteve entre os primeiros estudiosos a dedicar atenção ao vocabulário incomum encontrado nos hádices. Embora valorizasse a escrita, considerava que apenas pessoas dotadas de memória forte e inteligência deveriam transmitir tradições e preferia o método de transmissão por audição direta. No Iêmem, contudo, recorreu ao ditado (imlāʾ) diante da insistência de seus estudantes. Admitia também a transmissão segundo o sentido, em vez da reprodução necessariamente literal. Foi criticado por transmitir por autoridade de alguns narradores fracos e pela prática do tadlis, mas Adaabi considerou insignificante a primeira dessas críticas diante de seu profundo conhecimento dos transmissores, enquanto Ibne Hajar de Ascalão afirmou que seu tadlis se restringia a narradores confiáveis. Apesar da posição central que o hádice ocupava em sua atividade, Sufiane deixou afirmações aparentemente contraditórias acerca dessa ciência. Em algumas ocasiões considerou seu estudo uma das melhores formas de aproximação de Deus e superior às devoções voluntárias; em outras, advertiu os discípulos contra a possibilidade de transformar a transmissão de hádices em finalidade por si mesma. Essas advertências relacionavam-se sobretudo à fama e aos benefícios materiais que a atividade podia proporcionar, preocupação coerente com sua orientação ascética.

Exegese e recitação corânica

Na exegese do Alcorão, Sufiane foi um dos representantes mais importantes da geração dos seguidores dos tabis e recebeu por intermédio sobretudo de Ibne Juraije, Alamaxe e Abedalá ibne Abi Naji a tradição exegética de Meca fundada por Abedalá ibne Abas, na qual Mujaíde ibne Jabre ocupava posição particularmente importante. Teve papel importante na transmissão das interpretações de exegetas tabis como Mujaíde ibne Jabre, Atá ibne Abi Rabá, Catada ibne Diama e Ibne Xiabe Azuri, bem como no desenvolvimento da exegese tradicional no século VIII. Não considerava apropriado interpretar (taʾwīl) os versículos ambíguos (mutashābihāt) e concentrava-se principalmente na explicação de palavras e expressões de compreensão difícil. Na recitação corânica, esteve entre os primeiros transmissores das leituras de Ácime ibne Badala e Hâmeza ibne Habibe e também transmitiu a leitura não canônica de Alamaxe.

Jurisprudência e Tauria

Sufiane adquiriu grande autoridade como jurista e emitiu fátuas fundamentadas no hádice e na suna. Sua formação partiu da tradição jurídica de Cufa associada a Abedalá ibne Maçude. Embora tivesse estudado com Abu Isaque Açabii, Alamaxe e Hamade ibne Abi Solimão, aproximou-se particularmente das orientações de Ibne Xubruma e Ibne Abi Laila. Combinou a formação jurídica cufana com o amplo material tradicional que recolheu em Meca, Medina, Baçorá e Síria. Segundo Ali ibne Almadini, a jurisprudência de Abedalá ibne Maçude foi transmitida por intermédio de Ibraim Anacai até chegar a Sufiane, enquanto Ibne Taimia relata que Amade ibne Hambal e seus seguidores o consideravam o principal representante do hádice e do fiqh iraquianos. Autores hanafitas e maliquitas posteriores, por outro lado, embora reconhecessem sua posição excepcional no hádice, tendiam a considerar Abu Hanifa e Maleque ibne Anas superiores a ele no fiqh. Sufiane era mais cauteloso na emissão de fátuas que Abu Hanifa, mostrava maior apego às opiniões dos juristas anteriores e evitava interpretações que ultrapassassem o sentido aparente das tradições, características que o aproximavam dos tradicionalistas. Ao mesmo tempo, não considerava necessário agir segundo todo hádice que transmitia, selecionava entre tradições divergentes e recorria ao rai, atitude pela qual foi criticado por Axafii. Seu al-Jāmiʿ al-kabīr foi descrito nas fontes como uma obra de fiqh, masāʾil e raʾy, e numerosas opiniões jurídicas atribuídas a Sufiane mostram proximidade com a tradição cufana representada por Abu Hanifa. Suas opiniões abrangiam diferentes campos da jurisprudência e foram preservadas sobretudo no al-Musannaf de Abede Arrazaque ibne Hamame, no Kitāb al-Siyar de Abu Isaque Alfazari e em obras sobre divergências entre juristas compostas por autores como Maomé ibne Nácer Almaruazi, Atabari, Atauai e Ibne Abede Albarre.

As opiniões jurídicas de Sufiane deram origem à Tauria, escola que recebeu seu nome e permaneceu entre as escolas reconhecidas de jurisprudência islâmica durante aproximadamente cinco séculos, sendo seus seguidores conhecidos pelas nisbas Atauri e Assufiani. Seus discípulos difundiram seus ensinamentos em diferentes regiões: Iáia ibne Saíde Alcatane em Baçorá, Iáia ibne Abi Zaida em Cufa, Ubaide Alá ibne Abederramão Alaxjai em Baguedade, Muafa ibne Inrane e Abu Isaque Alfazari na Síria e outros discípulos em Gurgã e Ispaã. Entre os ascetas que seguiram sua escola jurídica estiveram Bixer Alhafi, Hamdune Alcáçar, Maomé ibne Issa Aljuludi, Abu Isaque Albaluti e Abu Hafes Aduni. A escola sobreviveu até o século XI em Baguedade e na Síria e até o final do século XIII em Dinavar, Casvim, Gurgã, Ispaã e no Coração, sendo especialmente influente em Dinavar. O último jurista conhecido a emitir fátuas segundo a Tauria na Mesquita de Almançor, em Baguedade, foi Abu Becre Abede Algafar ibne Abederramão Adinauari, morto em 404 A.H. (1014). Segundo Adaabi, no século XIV apenas quatro das escolas jurídicas anteriormente existentes continuavam a possuir seguidores. A difusão da Tauria alcançou também o extremo ocidental do mundo islâmico. Raddatz assinala que as tradições jurídicas de Sufiane foram levadas à Ifríquia e ao Alandalus por discípulos ligados à Síria, entre eles Maomé ibne Iúçufe Alfiriabi e Abu Isaque Alfazari, e que a escola esteve representada no norte da África e no Alandalus antes de ser absorvida pelo maliquismo. A escola acabou desaparecendo como tradição jurídica independente.

Teologia

As informações sobre a posição de Sufiane diante das controvérsias teológicas de seu tempo são por vezes contraditórias. Há relatos de que manteve contato com Anre ibne Ubaide, uma das principais figuras dos mutazilitas de Baçorá, apesar da oposição de Aiube Açaquetiani, e de que, a pedido de Xuaibe ibne Harbe, uma pessoa próxima a ele, ditou suas opiniões sobre questões doutrinárias fundamentais. Outras tradições afirmam que considerava as discussões de calâm uma inovação e procurava afastar-se delas. Sufiane sustentava que a fé era constituída de palavra, ação e intenção, considerando portanto as ações parte da fé e afirmando que esta aumentava ou diminuía de acordo com elas. Defendia que os atributos de Deus deveriam ser aceitos sem taʾwīl, considerava descrente quem acreditasse que o Alcorão era criado e afirmava ser necessário crer que tanto o bem quanto o mal provinham de Deus. Sustentava ainda que não se deveria rebelar contra o governante, mesmo quando pecador ou injusto, e que, consequentemente, a oração de sexta-feira e o jiade não deveriam ser abandonados.

Sabe-se que não considerava Ali superior a Abu Becre e Omar, chegando a criticar os rafiditas que defendiam essa posição, embora as tradições divirjam quanto à sua preferência entre Ali e Otomão. Alguns autores antigos classificaram-no como zaidita ou xiita, enquanto Ibne Taimia e Adaabi afirmam que inicialmente considerava Ali superior, mas abandonou essa posição depois de encontrar Aiube Açaquetiani em Baçorá. Apesar de fontes xiitas preservarem tradições que transmitiu de Jafar Açadique, a TDV considera que sua proximidade aos álidas não permite classificá-lo como xiita. Sufiane também se opunha aos murjitas, havendo relatos de que rompia relações com pessoas inclinadas à Murjia e não participava de suas orações fúnebres. Adotava a prática da ressalva na declaração de fé, e seus discípulos eram por isso chamados de shukkāk ("duvidosos") pelos murjitas cufanos. A divergência nessa questão parece ter contribuído significativamente para as relações tensas entre Sufiane e o círculo de Abu Hanifa. Raddatz caracteriza seu pensamento religioso como independente e racional, formado em contato com correntes distintas, e interpreta sua posição como uma tentativa de evitar os extremos que atribuía aos carijitas, cadaritas e xiitas. Sua leitura aproxima ainda certos aspectos do pensamento de Sufiane do racionalismo mutazilita em formação, embora reconheça que ele não adotou doutrinas centrais posteriormente associadas ao mutazilismo, particularmente a concepção do Alcorão como criado.

Ascetismo

Sufiane tornou-se uma das figuras mais conhecidas do ascetismo islâmico primitivo ainda durante sua vida. Alcalabadi incluiu-o entre as principais autoridades que, depois da geração dos companheiros de Maomé, transmitiram conhecimentos e estados espirituais posteriormente associados ao sufismo. Manteve contato com figuras associadas às primeiras correntes ascéticas e sufis, entre elas Jafar Açadique, Abu Haxime Alcufi, Ibraim ibne Adame, Rebia Aladauia, Abu Isaque Alfazari, Fudail ibne Iade, Sufiane ibne Uiaina, Xaibane Arrai, Iúçufe ibne Asbate, Abedalá ibne Almubaraque, Hatime Alaçame, Abedalá Almadi e Anre ibne Caice Almulai. A tradição atribui a Jafar Açadique influência sobre sua concepção do mundo e a Abu Haxime Alcufi ensinamentos acerca das formas sutis de ostentação religiosa. Rabia Aladauia e Ibraim ibne Adame, por outro lado, teriam censurado o tempo excessivo que dedicava à transmissão de hádices em detrimento do ascetismo.

Sua concepção ascética pode ser resumida em três relações fundamentais: sinceridade e devoção na relação entre o homem e Deus, desapego na relação com o mundo e boa intenção nas relações sociais. Atribuía importância central às ações e ao culto, mas sobretudo à sinceridade da intenção, afirmando que a palavra deveria ser acompanhada pela ação, a ação pela intenção e a intenção pela conformidade com a suna. Considerava mais virtuosa a pessoa que conhecesse a si própria, preservasse os limites da religião, mantivesse sua condição espiritual, evitasse as proibições e cumprisse as obrigações dentro do conhecimento que possuía. Entre os conceitos que enfatizava estavam a piedade, a escrupulosidade religiosa, a confiança em Deus, a satisfação com o decreto divino, a certeza, o ascetismo, a resistência aos desejos do ego e a pureza do coração. Definia a piedade como evitar aquilo que suscitasse dúvida, a escrupulosidade como abandonar o que fosse duvidoso, a satisfação como não desejar condição diferente daquela determinada por Deus, a confiança em Deus como abandonar a expectativa em relação às pessoas e a certeza como não acusar Deus diante das adversidades. Atar incluiu-o entre cinco grandes mujtahids e destacou particularmente sua escrupulosidade e piedade.

Embora usasse roupas de lã remendadas, Sufiane insistia que o ascetismo não consistia simplesmente em vestir-se pobremente ou alimentar-se de pão seco. Definia o zuhd como ausência de apego ao mundo, aos cargos e ao prestígio e como rejeição da cobiça. Sua concepção não implicava isolamento da sociedade: passou grande parte da vida em círculos de estudo e recomendava aos discípulos que buscassem conhecimento, participassem das orações coletivas, realizassem a peregrinação, tomassem parte no jiade e resistissem aos desejos pessoais. Considerava entre as melhores pessoas o estudioso asceta, o jurista sufi, o rico humilde e o pobre agradecido, e aconselhava aqueles que seguiam o caminho ascético a equilibrar as necessidades corporais deste mundo com as necessidades espirituais da vida futura, levando uma vida moderada, evitando excessos na alimentação, bebida e vestuário, afastando-se dos governantes opressores e escolhendo como companheiros pessoas piedosas e confiáveis.

Obras

A produção atribuída a Sufiane pertence à primeira geração de obras sistemáticas das ciências islâmicas, embora parte considerável tenha se perdido ou sobreviva apenas fragmentariamente. Seu al-Tafsīr é uma das primeiras obras sistemáticas de exegese tradicional do século VIII e tornou-se uma das fontes utilizadas por Atabari. O único manuscrito conhecido, preservado na Biblioteca Raza de Rampur, foi publicado por Imtiyāz ʿAlī ʿArshī como Tafsīru Sufyān al-Thawrī em Rampur em 1965, tendo uma edição revista sido publicada em Beirute em 1983. A cópia é incompleta, iniciando-se com a sura Albacara e terminando com Atur; não contém as suras Maomé e ad-Dukhan e, embora siga em princípio a ordem do códice otomânico, omite alguns versículos e apresenta outros fora de ordem. Reflete uma exegese predominantemente baseada em breves tradições destinadas a esclarecer palavras ou expressões difíceis. O al-Jāmiʿ al-kabīr, denominado por Ibne Cair al-Jāmiʿ al-kabīr fī al-fiqh wa-l-ikhtilāf, reunia principalmente opiniões jurídicas dos companheiros de Maomé, tabis e gerações posteriores, provavelmente acrescidas das próprias escolhas e interpretações de Sufiane. Comparada frequentemente ao Muwatta de Maleque ibne Anas, a obra é considerada um dos primeiros exemplos dos gêneros sunan e musannaf. Difundiu-se rapidamente no Iraque, Coração e Síria e chegou à Ifríquia e ao Alandalus, onde durante certo período desfrutou de prestígio comparável ao do Muwatta. Não se conhece atualmente qualquer exemplar completo, mas ʿĀmir Ḥasan Ṣabrī reuniu e publicou fragmentos preservados em fontes posteriores. O al-Jāmiʿ al-ṣaghīr, mencionado separadamente pelas fontes, teria reunido material jurídico ou tradicional, embora os testemunhos divirjam sobre seu conteúdo.

O Kitāb al-Farāʾiḍ, dedicado ao direito sucessório, está entre as primeiras obras compostas sobre o assunto e constitui um dos mais antigos exemplos preservados dessa literatura. Baseia-se principalmente na tradição jurídica cufana derivada de Ibraim Anacai e contém apenas sete hádices propriamente ditos. O único manuscrito conhecido da Biblioteca Zairia, transmitido pelo discípulo de Sufiane Abu Nuaime Alfadle ibne Ducaine, foi editado e estudado por Hans-Peter Raddatz; grande parte do conteúdo da obra foi também preservada por Albaiaqui, e outra edição foi preparada por ʿAbd al-ʿAzīz ibn ʿAbd Allāh al-Halīl. É-lhe atribuído ainda o Kitāb al-Iʿtiqād, que preserva respostas dadas a Xuaibe ibne Harbe sobre questões doutrinárias e cujo conteúdo foi transmitido por Alalacai e Adaabi, além de uma compilação de suas transmissões de Ibne Juraije, conhecida como Kitāb Sufyān ʿan Ibn Jurayj. O Kitāb Ādāb Sufyān al-Thawrī foi transmitido por Maomé ibne Iúçufe Alfiriabi, enquanto uma pequena obra intitulada Mā asnadahu Sufyān al-Thawrī, preservada na Biblioteca Zairia, é atribuída nas fontes a Alfiriabi ou a Abedalá ibne Maomé ibne Saíde ibne Abi Mariame. Cartas e testamentos de caráter ascético dirigidos a discípulos e amigos sobreviveram por intermédio das obras biográficas. Suas concepções ascéticas foram também reunidas pelo jurista andalusino Anai no Kitāb Zuhd Sufyān al-Thawrī, enquanto o Kitāb al-Zuhd de Muafa ibne Inrane constitui uma das fontes mais antigas para seus ensinamentos ascéticos. Há ainda tratados de atribuição incerta, entre eles uma obra de alquimia intitulada Risāla-i Kīmiyāʾiyya, preservada em um manuscrito da Universidade de Teerã, cuja atribuição a Sufiane é considerada duvidosa, e o Jawāb Hārūn al-Rashīd ilā Sufyān al-Thawrī wa-ijābat Sufyān lahu, uma suposta correspondência com Harune Arraxide cuja autenticidade é igualmente incerta.

Referências

Bibliografia